Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 5
Um mapeamento das mulheres que fizeram
e fazem a história do Cinema Nacional

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Sala Dina Sfat

A Sala Dina Sfat é dedicada às entrevistas. Aqui, o espaço está aberto para que as próprias mulheres do cinema brasileiro contem suas histórias e o visitante possa conhecer um pouco mais sobre cada uma delas. A cada atualização, a homenagem anterior vai para o arquivo e pode ser acessada tanto pelo índice como pelo arquivo geral - os links estão ao pé desta página.

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NOVANI NOVAKOSKI

Foto: acervo da atriz

O cinema brasileiro dos anos 70 revelou uma galeria imensa e amada de musas, sobretudo a produção da Boca do Lixo, em São Paulo, local e momento efervescentes da produção cinematográfica brasileira. Para São Paulo vieram atrizes de diversos cantos do país, que inscreveram seus nomes na história do nosso cinema e no imaginário popular. Como a paranaense Novani Novakoski: "Meu sonho sempre foi ser igual as moças das revistas e TV. Então, por volta de 73/74, depois de um casamento arranjado que fracassou, peguei somente uma malinha, e, como se diz, sem lenço nem documento  fui para  São Paulo".

Novani Novakoski começou a carreira artística na TVS fazendo pontas em novelas e como telemoça do Sílvio Santos - "ele gostou das minhas covinhas" - foi modelo, cantou em banda, mas foi no cinema que encontrou seu verdadeiro lugar. Perguntada como chegou ao cinema, se foi por convite ou teste, responde divertida: "Foi convite do AP Galante, seguido do Tony Vieira,  e outros. No cinema, aqui no Brasil, nunca tive que passar por teste,  nem mesmo pelo teste do sofá, hehehe". A partir daí foi dirigida por cineastas como Oswaldo Oliveira, Ody Fraga, Juan Bajon, José Miziara, o mítico Tony Vieira e o mestre Walter Hugo Khouri.

Novani Novakoski fala com orgulho do cinema da Boca do Lixo e lamenta os tempos atuais: "Foi um orgulho e ainda é até hoje. Para mim foi um grande aprendizado também. É pena que isso acabou, pois vejo que hoje em dia não basta só ter talento,  tem de ter também o QI= Quem Indica". E deseja voltar à carreira artística: "Quero também lembrar aos diretores, produtores e emissoras de TV que os talentos antigos, assim como eu, também precisam continuar trabalhando. Portanto precisamos de mais chances e oportunidades no meio artístico nos dias de hoje".

A atriz conversou com o mulheres nessa entrevista por email. Falou do começo da carreira, sobre todos os filmes, dos bastidores, do motivo de ter abandonado a carreira, do trabalho atual e da vontade de voltar às telas. Nós todos, claro, torcemos para que isso aconteça.


Mulheres: Você nasceu em Ponta Grossa, Paraná. Como e quando foi parar em São Paulo?

Novani Novakoski:  Meu sonho sempre foi ser igual as moças das revistas e TV. Então, por volta de 73/74, depois de um casamento arranjado que fracassou, peguei somente uma malinha, e, como se diz, sem lenço nem documento  fui para  São Paulo, onde de inicio fiquei com uma prima e mais tarde morei em diversas pensões. Era até  divertido, pois eu saia pela cidade sem conhecer nada e demorei para conseguir um emprego.

Quando estava trabalhando como secretária,  uma pessoa me achou bonita e me levou pra fazer um teste no Silvio Santos. Daí surgiu a novela “O Espantalho”, em que fiz umas aparições e mais tarde fui contratada pelo Silvio - ele gostou das minhas covinhas -   para ser Telemoça, hoje ajudante de palco.  Depois disso muitos outros trabalhos foram surgindo no cinema,TV, passarela etc.

Mulheres: Você começou sua carreira artística na TVS como atriz e Telemoça. Gostaria que você falasse sobre essa época e sobre esses trabalhos. Dá para você comentar sobre as outras novelas além de “O Espantalho” (1977 – Ivani Ribeiro)?

Novani Novakoski: Foi uma experiência muito boa para minha carreira artística e um aprendizado valioso para meu crescimento  humano. Além de “O Espantalho”,  eu participei somente da novela da Tupi, “ Tchan, A Grande Sacada” (1976/77 – Marcos Rey),  junto com o saudoso Raul Cortez e Eva Vilma.

Mulheres:  E a carreira de modelo? Participou também de uma banda? Qual o nome e o gênero?

Novani Novakoski:  Sim, fiz diversos trabalhos de modelo, fotos e  comercias de TV, recepção em feiras e coquetéis de lançamentos, desfiles de passarela etc. Cantei numa banda de rock chamada “Calibre 38” como vocalista, mas devidos a muitas viagens tive que desistir dela. Fui também matéria e pôster da Playboy em Janeiro de 1980. Fui a primeira modelo do JR Duran numa revista masculina!

Mulheres: Como você chegou ao cinema? Foi convite ou foi teste? E convite de quem?

Novani Novakoski:  Foi convite do AP Galante, seguido do Tony Vieira,  e outros. No cinema, aqui no Brasil, nunca tive que passar por teste,  nem mesmo pelo teste do sofá, hehehe.

Mulheres: Os filmes são lançados, mas muitas vezes uns são produzidos antes dos outros. Qual a ordem dos seus filmes?

Novani Novakoski:  Não me lembro a ordem dos filmes uma vez que eu fazia um filme atrás do outro.

Mulheres: Você se recorda da primeira vez que pisou em um set de cinema? Qual foi a sensação?

Novani Novakoski:  Como eu já trabalhava na TV  com o Silvio e tínhamos gravações toda semana, para mim foi normal.

Mulheres: Gostaria que você comentasse sobre seus filmes, personagens, e diretores:

-  “Pensionato de Vigaristas” (1977), de Oswaldo  Oliveira.

Novani Novakoski: Este filme era uma idéia da série de TV  “As Panteras”. Eu fazia a detetive que investigava uma gangue de trombadinhas colegiais  do Rio de Janeiro. Foi muito bom fazer este filme, pois uni o útil ao agradável.

- “Reformatório das Depravadas” (1978), de Ody Fraga.

Novani Novakoski:  Este filme é sobre jovens delinquentes  que são mandadas para reformatório linha dura onde são torturadas . Foi neste filme que um certo produtor e distribuidor  me viu e se apaixonou .

- “Os Violentadores” (1978), de Tony Vieira.

Novani Novakoski:  Estilo bang bang, este filme foi filmado no interior de Sampa, onde lembrava o velho oeste. Eu fazia uma garota de saloon. Fato curioso me aconteceu durante este filme. Um dia indo para a filmagem, eu e o ator  Toninho vimos um disco voador e nós dois paramos o carro e ficamos observando. Um olhou para o outro e disse: Nem vamos comentar isso com ninguém porque vão nos chamar de loucos !! Esta é a única vez que estou comentando sobre isso. Agora só não me chamem de louca, ok?

– “O Estripador de Mulheres” (1978), de Juan Bajon.

Novani Novakoski:  Meu personagem era a empregada da pensão onde o estripador, o excelente ator Ewerton de Castro, hospedou-se. Em uma de nossas cenas, ele tentando me matar, dei um soco no queixo dele que inchou na hora,mas ele, como profissional que é, somente deu risadas . Sinto saudades dele.

– “O Atleta Sexual” (1978), de Antonio Ciambra.

Novani Novakoski:  Alguns filmes que fiz nem cheguei a ver, pois viajava demais para o exterior a trabalho e nem dava tempo.  Me lembro que neste filme trabalhei com o Paulo Figueiredo, eu e as outras meninas andávamos de moto e de biquíni  dourado –hehehe.

– “Na Violência do Sexo” (1978), de Antonio Banacin Thomé.

Novani Novakoski:  Neste, eu faço o papel principal junto com o Edgar Franco, Ewerton de Castro e outros. A história é que no dia de meu casamento bandidos entram em nossa mansão e me violentam, deixando-me traumatizada, e meu esposo sai à caça deles para se vingar. Ele me faz  sentir  falta do Cassiano Esteves (produtor, cenógrafo e montador), um grande amigo.

– “Com Mulher É Bem Melhor” (1978), de Nilton Nascimento.

Novani Novakoski: Foi todo filmado no Guarujá e eu aproveitei pra tomar sol e pegar um bronzeadinho.

– “O Prisioneiro do Sexo” (1979), de Walter Hugo Khouri.

Novani Novakoski:  Eu tive um papel pequeno neste filme, mas aceitei fazer pelo amor e admiração ao trabalho do Walter, que além do mais, me tratava com muito carinho e respeito.

– “Embalos Alucinantes” (1979), de José Miziara.

Novani Novakoski:  Meu papel neste  filme era para ser grande e de destaque, mas devido ao comportamento inadequado  comigo de um certo ator  no set de filmagem eu preferi não dar continuidade ao papel. Sei que falar sobre é antiprofissional, mas esta é a verdade.

– “Uma Cama Para Sete Noivas” (1979), de Raffaele Rossi  e Jose Vedovato.

Novani Novakoski: Tive a honra de contracenar com o grande ator e ser humano, Tony Tornado. Nos divertimos muuuiito, principalmente nas cenas gravadas na Imigrantes .Ele me ajudou muito passando os diálogos, pois eu ainda estava começando neste meio. Gostaria muito de poder revê-lo.  

– “Belinda dos Orixás na Praia dos Desejos” (1979), de Antonio Bonacin Thomé.

Novani Novakoski: Fiz uma participção especial neste filme e dele eu me lembro que uma atriz usou meu corpo como se fosse dela nas suas cenas -hahaha. Só soube disso mais tarde  vendo o filme.

Mulheres: Faltou você falar sobre os diretores dos filmes, como foi o trabalho e o relacionamento com eles?

Novani Novakoski:  Eu me dava bem com todos os diretores, produtores e elenco. O campo de filmagem era regado de muito profissionalismo, mas também surgia farras saudáveis. Sempre depois das filmagens a gente se reunia para jantar e conversar, era muito legal. Sinto muitas saudades daquela época e das pessoas, ficaria  muito feliz se os encontrasse hoje.

Mulheres: Você foi dirigida por grandes cineastas da Boca do Lixo, como Oswaldo  Oliveira, Ody Fraga, Juan Bajon e José Miziara. Como foi participar da produção da Boca, esse momento tão importante para o cinema brasileiro?

Novani Novakoski: Foi um orgulho e ainda é até hoje. Para mim foi um grande aprendizado também. É pena que isso acabou, pois vejo que hoje em dia não basta só ter talento,  tem de ter também o QI= Quem Indica .

Mulheres: Além de ser uma musa, você atuou ao lado de outras grandes musas, como Aldine Muller, Suely Aoki, Nicole Puzzi,  Márcia Fraga, Misaki Tanaka, Neide Ribeiro, Patrícia Scalvi, Claudette Joubert, Sandra Bréa e Marlene França. Como era o convívio com essa galeria de deusas do cinema brasileiro?

Novani Novakoski:  Era muito legal e divertido. Aprendi bastante com todas elas, principalmente com as mais experientes. Éramos muito amigas e entre nós não havia concorrência, pois cada uma sabia de  seu talento.

Mulheres: Você atuou em filmes que tinham duas veteranas importantes do cinema brasileiro que são Lola Brah e Ivete Bonfá. Gostaria que você comentasse sobre elas, já que pouco se fala sobre elas.

Novani Novakoski: É um orgulho para mim ter tido a oportunidade de trabalhar com estas duas divas do meu  tempo. 

Mulheres:  Muita gente confunde a produção da Boca do Lixo dizendo que tudo era pornochanchada, mas isso é uma avaliação equivocada.  Você atuou em cinema popular, como “Embalos Alucinantes”, do José Miziara; pornochanchada como “Uma Cama para Sete Noivas”, de Raffaele Rossi e José Vedovato; e ainda foi dirigida pelo mítico Tony Vieira e pelo autoral Walter Hugo Khouri. Ou seja, sua carreira comprova a versatilidade do cinema da Boca. Você concorda?

Novani Novakoski: É verdade, as pessoas que não acompanharam aquela época confundem tudo. Quando falo dos meus filmes, elas acham que eu era atriz pornô, principalmente pelos nomes apelativos dos mesmos.Mas posso garantir que de pornô não havia nada! As cenas eram make believe, ou seja fingidas e simuladas, mas nada de sexo explicito ou coisa assim. Eu, pessoalmente, jamais faria algo que fosse denegrir minha imagem e caráter, pois como você sabe sou do interior do Paraná e fui criada por pais rígidos.

Mulheres: Por que você abandonou a carreira cinematográfica? Foi por questões amorosas mesmo?

Novani Novakoski: Sim, meu ex marido, o qual conheci no meio artístico, era produtor e distribuidor, e por isso tínhamos que  viajar muito para os Estados Unidos e Europa. E mais tarde fui estudar em Denver,CO, por um tempo,  o que me afastou da minha carreira num todo e isso também acabou esfriando nossa relação.  

Mulheres: É possível falar o nome dele?

Novani Novakoski: Arnaldo Zonari Filho, proprietário da  Fama Filmes.

Mulheres:  Você viveu muitos anos fora do Brasil. Dá para você comentar um pouco sobre essa experiência?

Novani Novakoski: Essa experiência mudou muito minha vida, meu modo de ver as coisas, e com isso amadureci muito. Quando cheguei lá, eu ainda   trabalhei como modelo e manequim,  e fiz  algumas  pontas como atriz em Hollywood . Na época, tinha sido convidada para um teste do remake do filme “Psicose”,  e como a cena da faca era de perfil na banheira, perdi um papel devido ao quilinhos que já estavam aparecendo  depois de  três cirurgias de ovário, o que causou problemas hormonais e por isso me desgostei de tudo. Fui trabalhar como gerente de banco e em 1996 voltei para o Brasil.

Mulheres: Dá para você citar alguns títulos dos filmes em que fez ponta por lá?

Novani Novakoski: Nos Estados Unidos, Los Angeles,  onde morei, eu poderia ter ficado famosa fazendo cinema, mas eu era muito preguiçosa para correr atrás disso. Mesmo assim eu participei de alguns  filmes do Sylvester Stallone,  Arnold Schwarzenegger e outros. Lá  a gente ganha, e muito bem, por dia para ser “extras” em filmes e em TV.  Não sei os nomes deles, pois nunca me interessei em saber, eu ia, gravava, ganhava meu dia e ia embora. Boba, né? 

Mulheres:  Como está sua carreira agora?

Novani Novakoski: Como artista minha carreira esta parada por completo! Hoje vivo em Ponta Grossa –PR, onde tenho uma escola de idiomas  com o nome “Enny’s English Conversation”. Vivo sozinha, pois não tenho marido nem filhos, e ainda sonho com uma possível volta ao meio artístico. Tanto é que até já fiz como a Leila Lopes fez antes de morrer, escrevi, passei emails, implorei para as emissoras de TV e meio artístico em geral me darem uma segunda chance. Mas vejo que as pessoas hoje se preocupam mais com apelos sexuais de carinhas novas e bumbums avantajados à mostra em horário nobre  e se esquecem rápido dos talentos antigos .   

Mulheres: Você ainda tem contato com alguém do meio artístico, algum ator, atriz, cineasta?

Novani Novakoski: Devido a minha mudança para os  Estados Unidos e os12 anos que residi lá, perdi contato com todos. Mas agora, recentemente, iniciei  contato por msn com a Nicole Puzzi. Ela me convidou para fazer uma peça com ela, vamos torcer para que isso aconteça.

Mulheres: Você gosta do cinema brasileiro atual?

Novani Novaksoki: Sim, principalmente das comédias. Mas  confesso que não costumo assisti-los com freqüência .

Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que assistiu?

Novani Novakoski: Tropa de Elite (2007 – José Padilha),  e Olga (2004 – Jayme Monjardim).  

Mulheres:  Sempre convido minhas entrevistadas para homenagearem uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área. Quem você homenageia aqui na sua entrevista?

Novani Novakoski: Eu tenho o prazer de homenagear a minha ex-amiga da época de modelo, a grande atriz Lilia Cabral .Gosto dela não somente como atriz, mas também como ser humano. Na minha opinião entre outras ótimas atrizes brasileiras:  She is the Best!

Mulheres: Mais alguma coisa que não perguntei e que você queira acrescentar?

Novani Novakoski: Foi um prazer conceder-lhe esta entrevista e gostaria de aproveitar esta oportunidade para dizer que todos nós devemos prestigiar nosso cinema indo ao cinema e não comprando filmes piratas. Quero também lembrar aos diretores, produtores e emissoras de TV que os talentos antigos, assim como eu, também precisam continuar trabalhando. Portanto precisamos de mais chances e oportunidades no meio artístico nos dias de hoje.

Esqueci de dizer que em Los Angeles, Ca., eu fiz cursos de teatro no “Tepper Gallegos” e na Faculdade Santa Monica,Ca. E também fiz um ano de  curso de dicção para perder  o sotaque brasileiro para trabalhar em filmes americanos. Hoje recebo elogios de alunos pela minha pronúncia.

Obrigada, abraços.

Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.





Entrevista realizada em dezembro de 2009.

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