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Sala Dina Sfat
A
Sala Dina Sfat é dedicada às entrevistas. Aqui, o espaço
está aberto para que as próprias mulheres do cinema brasileiro
contem suas histórias e o visitante possa conhecer um pouco mais
sobre cada uma delas. A
cada atualização, a homenagem anterior vai para o arquivo
e pode ser acessada tanto pelo índice como pelo arquivo geral -
os links estão ao pé desta página.
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ANALU
PRESTES

Foto:
com Lima Duarte em cena de "Guerra Conjugal"
(1975)
de Joaquim Pedro de Andrade
Analu
Prestes é atriz com importante trajetória tanto em São
Paulo como no Rio de Janeiro. Em solo paulista fez parceria com o saudoso
Luiz Antonio Martinez Corrêa, integrou o grupo "Pão
e Circo", e atuou no Oficina de José Celso Martinez Corrêa
e Renato Borghi: "E aí eu conheci o Luiz Antônio (Martinez
Corrêa), que me convidou para trabalhar com ele. Eu ajudei a escrever
o espetáculo “Cipriano & Chan-ta-lan”, em 1971, e depois fiz
vários trabalhos com ele. Eu já atuava no teatro na época
de escola, mas a minha estréia profissional foi com o Luis Antônio
no grupo “Pão e Circo”. Quando nós montamos o espetáculo
“O Casamento do Pequeno Burguês”, em 1972, ele era apresentado no
porão do Oficina. Na época, o Zé Celso (Martinez
Corrêa) estava fazendo o “Graças Señor”. Como a peça
dele foi interditada pela censura, nós acabamos subindo".
Convidada
pelo cineasta Luiz Rosemberg Filho para protagonizar seu anárquico
e adorável filme "A$ssuntina das Amérikas", Analu
Prestes muda-se de mala e cuia para o Rio de Janeiro: "Eu conheci
o Rô em Paris. E aí ele me convidou para fazer cinema com
ele no Rio de Janeiro quando voltasse. Ele me disse que o Rio de Janeiro
era a minha cara, que tinha que ser a minha cidade". As lembranças
do trabalho são as melhores possíveis: "O Rô
me mandou um DVD há uns três ou quatro anos. Gente, como
eu estava soltinha! (risos). Tantos anos se passaram e aí você
vê um trabalho quando estava começando, você vê
um brilho. O Rô é uma pessoa bárbara, uma cabeça
incrível. Eu continuo gostando do filme, é um filme corajoso,
como são as coisas que o Rô faz".
Analu
Prestes tem outro encontro memorável nas telas com o cineasta Joaquim
Pedro de Andrade, em "Guerra Conjugal", e depois atua novamente
com o diretor em "O Homem do Pau Brasil": "O Joaquim era
muito divertido, e também era muito doido. Depois eu fiz com ele
também “O Homem do Pau Brasil” (1982), adorei fazer aquela boneca
vestida de bandeira do Brasil, é uma maravilha".
Analu
Prestes conversou com o Mulheres pelo telefone de sua casa. Na entrevista,
ela fala da carreira no teatro e no cinema, dos filmes e dos diretores
com os quais trabalhou, do choque inicial com a televisão, de uma
geração marcada por ideais e de outra volta ao culto da
celebridade.
Mulheres:
Como teve início sua trajetória artística?
Analu Prestes: Eu me formei na FAAP, em Artes Plásticas.
Lá eu tive muitos estímulos de multiplicidade, sai com os
canais ativados. E aí eu conheci o Luiz Antônio (Martinez
Corrêa), que me convidou para trabalhar com ele. Eu ajudei a escrever
o espetáculo “Cipriano & Chan-ta-lan”, em 1971, e depois fiz
vários trabalhos com ele. Eu já atuava no teatro na época
de escola, mas a minha estréia profissional foi com o Luis Antônio
no grupo “Pão e Circo”. Quando nós montamos o espetáculo
“O Casamento do Pequeno Burguês”, em 1972, ele era apresentado no
porão do Oficina. Na época, o Zé Celso (Martinez
Corrêa) estava fazendo o “Graças Señor”. Como a peça
dele foi interditada pela censura, nós acabamos subindo. Em “O
Casamento do Pequeno Burguês” eu atuava como atriz, eu fazia a noiva.
O espetáculo foi para fora do país, nós o exibimos
em um festival em Nancy, fez carreira internacional.
Mulheres: Foi nessa época que você conheceu
o cineasta Luiz Rosemberg Filho?
Analu Prestes: Eu conheci o Rô em Paris. E aí
ele me convidou para fazer cinema com ele no Rio de Janeiro quando voltasse.
Ele me disse que o Rio de Janeiro era a minha cara, que tinha que ser
a minha cidade. E eu, “cinema, Rio? que chique”.
Mulheres: Você já tinha uma experiência
no cinema com um curta, o “Júlia Pastrana”, do Naum Alves de Souza.
Analu Prestes: Sim, mas era o registro do espetáculo.
Esse trabalho nasceu na casa do Naum, era teatro filmado, a gente fez
uma coisa pequena. Daí o Rô me convidou para fazer o “A$$untina
das Amérikas” (1975). Eu tinha 22 anos, não conhecia ninguém
no Rio e conhecia muito pouco o Rô. Mas ele me disse que era para
eu ficar na casa dele. Na época, ele tinha acabado de comprar a
casa, ela estava em obras. Quando eu cheguei, o povo já estava
filmando, era num ateliê.
Mulheres: E como foi fazer o “A$$untina”?
Analu Prestes: O Rô era muito louco né?
Tinha um projeto louco na cabeça e me pegou no auge, afinal eu
vinha da FAAP, do Oficina. Eu peguei o fim do Oficina, daquela formação
Zé e Renato (Borghi). Fiz “As Três Irmãs”, com direção
do Zé Celso, e ganhei o prêmio APCA de revelação.
O “A$$untina” foi um mergulho muito gostoso de fazer. E foi ótimo
trabalhar com o Nelson Dantas.
Mulheres: Você gosta do filme? Reviu o trabalho?
Analu Prestes: O Rô me mandou um DVD há
uns três ou quatro anos. Gente, como eu estava soltinha! (risos).
Tantos anos se passaram e aí você vê um trabalho quando
estava começando, você vê um brilho. O Rô é
uma pessoa bárbara, uma cabeça incrível. Eu continuo
gostando do filme, é um filme corajoso, como são as coisas
que o Rô faz.
Mulheres: E aí você faz outro grande filme
que é o “Guerra Conjugal” (1975), do Joaquim Pedro de Andrade,
em que tem uma cena deliciosa com o Lima Duarte.
Analu Prestes: Eu adorei. Adorei trabalhar como o Joaquim,
adorei trabalhar com o Lima, que eu não conhecia. Tinha também
no elenco o Carlos Gregório, que é amigo meu. Uma vez eu
estava sentada com a Cidinha Milan e a gente ficou conversando e rindo,
e eu falando para ela “já cheguei no Rio fazendo filme, já
estou trabalhando também com o Joaquim do Cinema Novo, enfim...”
(risos). O Joaquim era muito divertido, e também era muito doido.
Depois eu fiz com ele também “O Homem do Pau Brasil” (1982), adorei
fazer aquela boneca vestida de bandeira do Brasil, é uma maravilha.
Nessa época eu arranjei uma produção e eu e o Luis
remontamos “O Casamento do Pequeno Burguês”. Logo depois fizemos
o “Titus Andrônicos”, no Rio de Janeiro.
Mulheres: E como surgiu a TV?
Analu Prestes: O Daniel Filho me viu fazendo o “Titus
Andrônico” e me convidou para fazer novela, “O Casarão” (1976
– Lauro César Muniz).
Mulheres: Você, que vinha de trabalhos de vanguarda,
de repente estava na Globo fazendo novela. Como foi esse processo?
Analu Prestes: Foi um choque. Porque na época
surgiam muitos convites, mas eu recusava. Eu não quis fazer aquelas
merdas de pornochanchadas, não fazia comercial de forma nenhuma.
É claro que tinha meu pai que me ajudava a viver, mas eu não
aceitava esses trabalhos. E aí a TV era outro mundo, eram outros
conceitos, outros valores daqueles que eu acreditava. Foi muito difícil
entrar no esquema.
Mulheres: Você fez poucas novelas, fez poucos trabalhos
na Globo.
Analu Prestes: É porque na época eu dei
uma entrevista falando mal daquilo tudo, dizendo que não gostava
dos trabalhos na TV, e aí não me chamaram mais.
Mulheres: Você tem uma passagem pela TV Manchete
e depois volta a fazer alguns trabalhos na Globo.
Analu Prestes: Na Manchete eu fiz “Olho por Olho”. O
Ary Coslov era o diretor e me convidou. Eu já tinha feito com ele
no teatro o “Pedra, a Tragédia” (Mauro Rasi, Miguel Falabella e
Vicente Pereira), um besteirol que eu gostei muito de fazer, com a Thelma
(Reston) e a Stela (Freitas). O Ary é um doce de pessoa. O meu
personagem na novela era muito boa, era uma delegada que bebia, era divertido,
mas aí a polícia reclamou da personagem e ela virou um nada.
Na Globo eu fiz algumas participações, fiz “Armação
Limitada”, fiz um “Você Decide” com o Rodrigo Santiago que gostei
muito.
Mulheres: Voltando ao cinema, você atua em “Com
Licença eu Vou à Luta” (1986 – Lui Farias).
Analu Prestes: Sim, e que foi o comecinho da Fernanda
(Torres). Eu conheci a Fernanda na casa da Marieta. A Marieta é
muito minha amiga e na época a Fernanda ia muito lá nos
almoços, nos aniversários, na época ela vivia doida
para emagrecer. A Fernanda é um show.
Mulheres: Você fez um filme que eu gosto muito
que é o “Baixo Gávea” (1986). Como foi conviver com o Haroldo
Marinho Barbosa?
Analu Prestes: Pena que cortaram algumas das minhas cenas.
Não deu para conviver muito com ele não, foram só
dois dias de trabalho, foi muito rápido.
Mulheres: E aí você faz um filme que eu
adoro que é o “Romance da Empregada”.
Analu Prestes: O filme é um barato, foi muito
legal, foi uma delícia filmar. Foi muito gostoso conviver com aquela
turma, conviver com o Bruno (Barreto). Toda vez que revejo eu acho muito
bom de ver.
Mulheres: Você pensa em voltar para a TV, para
o cinema?
Analu Prestes: Eu estou batalhando para voltar. Porque
aos 41 anos eu fiz uma opção radical, eu recusei convites,
me fechei, fiquei afastada e mergulhei nas artes plásticas.
Mulheres: Qual o porquê dessa decisão?
Analu Prestes: Depois da morte do Luiz Antonio e da temporada
de “No Coração do Brasil”, do Miguel Falabella, eu estava
muito desgostosa com tudo. Achava complicado conviver com aqueles valores
da época, não estava bem com isso, e resolvi dar uma afastada,
queria ficar quieta. As artes plásticas vinham comigo desde a adolescência,
e aí comecei a fazer exposições alternativas. A Marieta
tinha um casarão para alugar e eu fui para lá, fazia exposições
performáticas, fazia esquetes. É claro que não saía
nada na imprensa. Até que eu fiz uma exposição em
uma galeria profissional.
Mulheres: Como são esses trabalhos?
Analu Prestes: Eu trabalho com recortes de madeira, recortes
em papel, arte japonesa, sombra, com o efêmero do papel.
Mulheres: E o teatro?
Analu Prestes: Eu voltei na remontagem do “No Natal a
gente vem de Buscar”, do Naum e percebi a fera que estava guardada. Foi
bom fazer essa peça em idades diferentes. Ante eu tinha feito “Os
Justos”, com o Moacyr Góes, mas que não foi um trabalho
legal.
Mulheres: No cinema você fez participação
também em “Irma Vap – O Retorno” (2006), da Carla Camurati.
Analu Prestes: Ali foi uma brincadeira, o Nanini é
muito meu amigo, são amigos fazendo participações.
Eu agora estou querendo voltar para a TV. A TV é um veículo
importantíssimo porque gente que está lá no cafundó
está vendo você. É um veículo de grande projeção,
ainda que fique mostrando um mundo encantado, uma caixinha de sonhos.
Ela poderia ser mais profunda e mais interessante. Porque se você
não aparece as pessoas se esquecem de você. É um cansaço.
E a vida está difícil. Daí você não
é chamada para fazer cinema se você não está
na mídia, eu acho uma chatice.
Mulheres: Deve ser muito difícil para você
que veio de um meio mais politizado.
Analu Prestes: Eu vim de uma geração que
se posicionava diante das coisas. Tinha uma galera que entrou no esquema
e tinha uma que acreditava em outros caminhos. A gente era muito idealista,
eu acreditava naquilo e acredito até hoje.
Mulheres: Hoje é a época das celebridades?
Analu Prestes: Eu vejo que a TV imprimiu uma coisa muito
forte nessa nova geração de atores e atrizes. Isso é
uma bobagem. Ninguém vira ator, para ser ator tem que estudar.
Eu falo muito sobre isso na hora de dar aula. A profissão é
difícil, tem que estudar, tem que estar antenado, ter tesão,
a gente é que faz a nossa história.
Mulheres: Você dá aulas de teatro?
Analu Prestes: Eu estou na formação da
primeira turma da Casa de Dramaturgia Carioca, são 20 alunos, a
Camila Amado dirige, eu cuido do cenário e do figurino, dou oficina.
Tem também a Guida Viana, o Pedro Brício.
Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que
você assistiu?
Analu Prestes: Último filme, último filme...
Acho que foi “Tropa de Elite”(2007) ou “O Céu de Suely” (2006 –
karim Ainouz). Teve também “O Cheiro do Ralo” (2006 – Heitor Dhalia).
Quando eu estava morando em Santa Tereza eu ia ao cinema direto, eu e
a mãe de minha amiga, de 80 anos. Mas agora tem dois meses que
estou morando aqui no Jardim Botânico e aí não tenho
ido.
Mulheres: Você tem gostado dessa nova geração
no cinema?
Analu Prestes: Tem coisas que eu gosto. Gosto do Lírio
(Ferreira), gosto dos documentários do Coutinho (Eduardo). Gostei
do “Céu de Suely”, gostei muito do “Cheiro do Ralo”.
Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para
fazerem uma homenagem a uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época
e de qualquer área.
Analu Prestes: Marieta (Severo). A Marieta tem feito
coisas tão bacanas no cinema. Eu a conheci muito jovem, ela era
louca para fazer cinema, mas ninguém a chamava. E agora ela tem
feito coisas tão bacanas. E tem também Dina Sfat.
Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.
Analu Prestes: Obrigada.
Entrevista
realizada em julho de 2008.
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