Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 3
Um mapeamento das mulheres que fizeram
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Elenco sublime em
"Chega de Saudade”


Foto: Tônia Carrero em cena de "Chega de Saudade" (2007)


Em 2001, Laís Bodanzky colocou em cena um dos mais vigorosos filmes do Cinema da Retomada: “Bicho de Sete Cabeças”. Além de conquistar vários prêmios e agradar público e crítica, o filme sedimentou a carreira do ator Rodrigo Santoro.

“Chega de Saudade”, novo filme da cineasta em cartaz, confirma o talento de Laís e seu lugar de destaque na cena cinematográfica nacional.

Como se sabe, o filme se passa em um salão de dança, com toda a ação concentrada em apenas um dia. “Chega de Saudade” tem uma estrutura complexa, pois apesar dos inúmeros personagens, em nenhum momento há uma fragmentação excessiva ou esvaziamento desses personagens. Todos eles são críveis.

Há muito não se via um elenco como o de “Chega de Saudade”. Todos, absolutamente todos, estão ótimos. O roteiro de Luis Bolognesi e a direção de Laís Bodanzky colocaram em cena personagens de pelo menos quatro gerações. E, para cada um deles, atores em estado de graça.

Para ficarmos no elenco feminino, foco deste site, vejam o elenco: Tônia Carrero, Cássia Kiss, Betty Faria, Maria Flor, Mirian Mehler, Conceição Senna, Clarisse Abujamra, Marly Marley e Selma Egrei, além da presença magnetizante da cantora Elza Soares e a aparição relâmpago de Marlene Silva.

Todas as atrizes estão comoventes. E vai aqui um breve recorte sobre quatro gerações.

Tônia Carrero, de volta ao cinema depois de longo tempo, faz de sua Alice uma personagem inesquecível. A atriz disse que se inspirou no universo do dramaturgo Tenessee Williams, sobretudo em “Doce Pássaro da Juventude”, para compor Alice. Curioso que, ao assistir ao filme e perceber sua interpretação interiorizada, me veio à lembrança a atuação de Dina Sfat em sua última peça, “Irresistível Aventura”, em que ela fazia “A Moça da Lavanda”, de Tenessee. Ainda que as personagens não tenham nada a ver uma com a outra, vi na interpretação de Tônia a mesma complexidade emocional interiorizada de Dina. “Chega de Saudade” é belíssimo retorno de Tônia Carrero às telas.

Betty Faria sempre foi sinônimo de cinema brasileiro. E isso desde os anos 1960. A atriz está naquele que, para mim, é um dos grandes filmes da década de 1980¨”Romance de Empregada” (1987), de Bruno Barreto. E sua atuação nesse filme como Fausta é uma das maiores da história do cinema brasileiro. Ainda que estrela na televisão, Betty Faria é atriz essencialmente cinematográfica. Depois de brilhar em filmes de Carlos Diegues e Carlos Recheinbach, a atriz arrebata em “Chega de Saudade”, com uma dilacerante entrega à personagem Elza. É mais um gol de placa em sua carreira.

Cássia Kiss é um espanto. É impressionante com essa atriz está cada vez melhor, iluminando a cena idenpendente do tamanho de sua personagem. Desde a primeira vez que a vi na novela “Livre para Voar”, de Walter Negrão, em 1984, sua interpretação da personagem Verona me impactou. Daí pra frente, sua carreira ascendente na televisão, em momentos ótimos como a Lulu em “Roque Santeiro” (1985), Maria Marruá em “Pantanal” (1990) e Ilka Tibiriçá em “Fera Ferida” (1993), teve também ascendência equivalente no cinema. Como se esquecer da atriz como Tereza em cenas belíssimas de “Ele, o Boto” (1987), de Walter Lima Jr? E ainda em pequeno, mas marcante, papel em “A Grande Arte” (1991), de Walter Salles? Cássia Kiss iluminou “Meu Nome Não É Johnny” (2007), de Mauro Lima, em pequena aparição, e chega ao sublime em “Chega de Saudade”.

A jovem Maria Flor sustenta a personagem Bel com garra e luminosidade. A transformação de sua personagem durante o filme encontra na atriz suporte adequado para a credibilidade dessas mudanças ou, pelo menos, para a sugestão delas. Maria Flor também vem crescendo a cada aparição nas telas. Quando a vi em “Diabo a Quatro” (2004), de Alice de Andrade, ainda não conhecia seu trabalho, mas constatei, de imediato, que estava ali uma atriz que mostrava a que veio. As atuações em “Quase Dois Irmãos” (2004), de Lucia Murat, e em “Proibido Proibir” (2007), de Jorge Durán, só fizeram confirmar a promessa.

Como já foi dito, tem todas as outras. E que beleza ver, de volta às telas, as grandes Mirian Mehler, Clarisse Abujamra, Marly Marley, Selma Egrei e Conceição Senna – essa última depois da estréia como diretora em “Diamante” (2006), e mesmo Marlene Silva, ainda que em pequena aparição.

A mulher é o foco do site, mas é impossível não registrar o trabalho dos atores em “Chega de Saudade”: Leonardo Villar, Stepan Nercessian, Paulo Vilhena, Marcos Cesana, Luiz Serra, Raul Bordale, Domingos de Santis, Beno Bider, o grande Jorge Loredo, e o cantor Marku Ribas como crooner do salão, ao lado de Elza Soares.

Palmas também para o conjunto de figurantes e para a preparação de elenco de Sérgio Penna.

“Chega de Saudade” recebeu prêmios importantes no Festival de Brasília – Melhor Direção e Melhor Roteiro, e foi também escolhido como Melhor Filme pelo público.

“Chega de Saudade” (2007), de Laís Bondanzky


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