TATA AMARAL
por MARCELO LYRA

A
presença feminina no cinema hoje é muito forte, cresceu
muito nos últimos anos, ela é muito mais presente na Retomada,
que nos anos anteriores, nos cem anos anteriores. Acho que se a gente
fizer um levantamento, eu chutaria que tem umas cinqüenta que surgiram
no cenário, na direção de filmes. beirando a sessenta
mulheres. Eu credito isso a uma certa democratização do
acesso ao cinema. Hoje você tem que tomar a iniciativa, ou ganhar
o Edital, ou tomar a iniciativa de sair para captar recursos. E na hora
de sair para captar recursos, as pessoas mais ou menos se nivelam. Então
democratiza muito mais o acesso, embora sempre haja os privilegiados,
as pessoas que têm mais contatos nas empresas. Mas na média,
na grande média, eu acho que dá uma nivelada, e as mulheres
cresceram então muito nesse período. Isso são números
mais ou menos certos, eu já tinha pensado um pouco sobre isso.
Dentre
tantas mulheres eu podia conversar aqui com você sobre umas dez.
Como eu preciso escolher uma, eu separaria a Tata Amaral, que eu acho,
talvez, desse período, a diretora mais importante que apareceu.
O que mais me chama a atenção é que ela entra nesse
cenário de diretores com um olhar feminino mesmo. Ela pega, por
exemplo, o “Um Céu de Estrelas”, que é um livro do Bonassi,
em que o protagonista é um homem. É a história de
um casal, em que a mulher está saindo, mas é do ponto de
vista do homem. A Tata entra nesse livro, faz o roteiro com o Bonassi,
mas ela muda o enfoque, e aí o ponto de vista passa a ser o da
mulher. Ela faz um filme muito feminino, ela aborda o ponto de vista dessa
opressão que a mulher sofre, dessa situação de você
diante do mais forte que quer impor sua vontade pela força, não
mais pelo diálogo.
Eu
estou falando só dessa parte sensível do filme, eu não
vou entrar no mérito da direção de atores, que é
um trabalho muito interessante. Ficando só nesse aspecto, que é
onde a mulher então se diferenciaria do homem na direção,
que é você colocar um olhar feminino, você colocar
problemas das mulheres na direção de um filme. Isso é
muito forte no “Um Céu de Estrelas”.
Isso
também entra forte no “Através da Janela”, que é
o segundo filme dela. Aí sim, a mulher já na terceira idade,
que é a Laura Cardoso fazendo a mãe do personagem, que me
esqueci o nome agora, mas que é feito pelo Fransérgio. Ele
é um ator que eu acho que não fez carreira, e que talvez
seja até o grande problema do filme. Mas enfim, a Laura Cardoso
dá um show, e é a visão dessa mãe que vai
perdendo o controle do filho mimado, uma mulher que criou o filho sozinho
e vê o filho envolvido com problemas, que ela não quer ver.
Também é um olhar muito feminino, muito interessante, muito
peculiar da Tata.
Agora
ela vem com o “Antônia”, que também é um olhar pra
periferia, é um olhar de um grupo de mulheres que quer tentar vencer
no rap, num universo normalmente dominado pelos homens, mas que elas se
impõem pelo talento. Ao mesmo tempo em que o rap está ali
como um pano de fundo, na verdade, ele também está ali para
contar histórias e situações femininas na periferia,
é um filme muito relacionado com o “Um Céu de Estrelas”.
As situações são de quatro mulheres, situações
muito bem colocadas, situações-limite muito comuns do universo
feminino. A mulher que tem um marido novamente a impedindo de fazer a
carreira, a outra que quer vencer, uma que está atrás do
marido. Quer dizer, tem vários problemas colocados do universo
feminino.
A Tata vem com uma carreira muito coerente nesse sentido, para mim seria
o grande destaque, a minha mulher preferida do cinema, se for para escolher
uma.
Marcelo
Lyra é crítico de cinema. Editor do site Cinequanon,
é crítico da Isto É Gente e da Revista Bis, e também
ministra cursos na área.
Autor do livro "Cinema
como Razão de Viver", biografia do cineasta
Carlos Reichenbach, experiência que o influenciou a escrever roteiros
-
tem dois roteiros de ficção escritos; e a se lançar
à direção -.
o documentário "Dia de Feira", em fase de finalização.
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