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ANALU PRESTES
por LUIZ ROSEMBERG FILHO

Foto:
Analu Prestes no cartaz do filme "A$suntina das Amérikas"
(1976)
de Luiz Rosemberg Filho
O ator é em essência um ser metafísico pois lida em
profundidade com uma multiplicidade fantástica de identidades criativas.
Tanto pode ser Abelardo 1º como “Antígona”. Tanto pode ser
“Hamlet” como “Édipo” ou “Coriolano”. Tanto Lady Macbeth como “A$suntina
Das Amérikas” ou “Medeia”... Sua liberdade é o seu processo
sem um fim absoluto pois no próximo ano poderá vir a ser
“Calígula” ou... Pouco importa as suas tantas vontades e certezas.
Analu Prestes com quem fiz “A$suntina Das
Amériks”, a priori é um sol na vida das personagens por
onde vai passando. Nunca a vi pervertida na TV, vendendo planos de saúde
ou papel higiênico.
Foi e segue sendo uma grande atriz repleta de sonhos e habilidades do
Teatro e Cinema, as Artes Plásticas. Ter trabalhado com ela foi
uma vitória de vida contra a ditadura. Vivíamos tempos feios
na degeneração do humano. Bênção a Luiz
Antonio Martinez Correa que me apresentou a ela no delicado “CASAMENTO
DO PEQUENO-BURGUÊS” do Brecht, que vi em Paris por onde estavam
passando. Analu já era um acontecimento na santificação
política da desordem, que de certo modo purificava nossos tantos
e tantos obstáculos. Ela foi sempre iluminada e positiva com grande
desprezo pela ordem estabelecida.
Analu é um capítulo vivo da vocação e da razão
anarquista. Engajada na ousadia do confronto, ridicularizou sempre a falsa
ordem da moral hípica-religiosa. Ainda hoje vejo-a além
do bem e do mal como uma Snta oswaldiana, tendo feito da sua “A$suntina”
uma experiência rica, visível a olho nú. Um desafio
visceral de exposição, ainda que exuberante, lúcida
há cada movimento do seu primeiro personagem no nosso cinema. Ou
seja, se deixando levar como atitude dionisíaca, dando força
e graça a sua representação do “A$suntina”, e afastando-se
do fácil, do comum, da mesmice televisiva de sempre.
Falar do meu privilégio de tê-la tão jovem e visionária
foi para o filme que fizemos juntos, um ato anti-concessão ao cinema-patronal
desejado pela ditadura que precisava desviar a atenção do
público dos graves problemas do país. Mas já ali
nascia as origens do cinema-televisivo que se faz hoje em nome do mercado.
O cinema do: ME ENGANA QUE EU GOSTO! Analu e “A$suntina” seguem sendo
mais vivos que todos estes fanfarrões idiotizados pela “fama” que
continuam fazendo televisão ou publicidade com o Cinema. Ou seja,
Analu e “A$suntina” não são um gozo menor do capital, e
sim um gozo moralmente ou imoralmente (felizmente) político. Um
gozo chamado Brasil.
É interessante lembrar que Analu vem de dois grupos fundamentais
do Teatro brasileiro: o “Pão & Circo” e do Teatro Oficina.
Não fez o Antunes Filho que eu até gosto e defendo, e foi
para a Globo. Foi se reconhecer como essência no olho nu do furacão
em outra cidade, com outros amigos, atrás da sua consciência
no cinema comigo e com o saudoso Joaquim Pedro de Andrade. Claro que poderíamos
ter feito um outro filme idiota como tantos outros que a ditadura defendia
e gostava. Mas com Nelson Dantas, Ivan Pontes, Echio Reis, Renaud Leenhardt
e Analu Prestes era impossível cultuarmos o idiotismo político
da época.
Passaram-se quase meio século e aí estamos numa eterna repetição
de passados. A tortura de hoje são os Impostos, a Política,
a eterna Ocupação. E o espetáculo bárbaro
dos meios de comunicação. Claro que a BUROCRACIA essêncializando
as mais sutis certezas (ordem, mercado, trabalho, dinheiro, prostituição,
religião, exploração...) e as nossas muitas dúvidas.
Não brigamos anos e anos com a ditadura, para aos 50, 60 anos vivermos
o regime do oportunismo e da burrice como sustentação do
sistema que se satisfaz no seu desprezo retumbante contra o saber. Ora,
como pode virar notícia que o Presidente da República viajou
para a China, vendo uma cópia pirata do frágil passatempo
de “Os Dois Filhos de Francisco”? Pelo visto no poder só o horror
se perpetua e exerce duradoura afinidades. E quando foi diferente? Fico
com a luz e a ousadia de Analu Prestes. Mais que uma Atriz, uma força
deste país.
Texto
escrito para o Mulheres em junho/2008
Luiz Rosemberg Filho
é sinônimo de "Cinema de Invenção".
Um dos mais interessantes, politizados, criativos, e inconformados
cineastas brasileiros,
é também roterista e produtor.
Como diretor, assinou filmes libertários como
"Jardim das Espumas"
(1971) e "A$suntina das Amérkas" (1976) - esse.
último parece ter sido feito ontem, visto seu frescor e originalidade.
Dirigiu também o importante "Crônica de um Industrial"
(1978).
Sua filmografia é formada ainda pelos longas
"Balada de Página Três" (1968), "América
do Sexo" (1969) -
segmento "Colagem", "Imagens do Silêncio" (1973),
"O Santo e a Vedete" (1982); os curtas "Imagens e Imagens"
(2000),
"Ficção Científica" (2000) e "Bárbarie"
(2000); e os vídeos
"Biblioteca Nacional" (1997), "As Sereias" (2000),
"As Máscaras" (2000) e "Documentário"
(2001).
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