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DILMA
LÓES

Foto:
cena de "A Volta do Filho Pródigo"(1978) , de Ipojuca
Pontes
A carioca Dilma Lóes é o
ponto de ligação de uma família que há três
gerações está nas telas do cinema e na telinha da
televisão - sua mãe é a atriz Lídia Mattos,
e sua filha é a também atriz Vanessa Lóes. Atriz,
roteirista, produtora e diretora, Dilma Lóes participou ativamente
do cinema brasileiro dos anos 70. Por seu trabalho em "A Volta do
Filho Pródigo", em 1978, de Ipojuca Pontes, recebeu o prêmio
de Melhor Atriz de Cinema pela APCA - Associação Paulista
de Críticos de Artes, e brilhou em comédias da época
como o delicioso "Essa Gostosa Brincadeira a Dois", em que fez
inesquecível parceria com Carlo Mossy, em filme de Victor di Mello.
Aliás, di Mello - com quem foi casada, e Alberto Salvá foram
dois dos mais importantes cineastas com os quais Dilma trabalhou.
Em
entrevista realizada por meio de inúmeros e-mails, Dilma Lóes
refaz sua trajetória desde os primeiros passos na carreira, relembra
as primeiras produções, os trabalhos na televisão
e no teatro, os filmes que mais gostou, as pornochanchadas, "Algumas
pornochanchadas eu gostava muito (e de pornô não tinham nada).
Outras achava de mau gosto. Todas
tinham uma mesma característica que era mostrar só o ponto
de vista masculino, já que na época só os homens
faziam os roteiros, só os homens dirigiam os filmes e só
os homens produziam. Então na tela era visto só uma parte
da realidade".Fala sobre sua
passagem de atriz para outras áreas do cinema, como o roteiro:
"Eu
gostava de criar as cenas de comédia.Tentava forçar uma
barra para ser feito um roteiro com mais conteúdo".
Dilma
Lóes fala também sobre os filmes que dirigiu, sua mudança
para os Estados Unidos, sua volta para o Brasil e os novos projetos. Faz
homenagem à mãe Lidia Mattos, e à saudosa atriz Cléa
Simões. Entre os prêmios que recebeu, além do APCA,
estão os por "Só
o amor não basta´ - Melhor Filme em 16mm - Festival de Brasília
- 1978; `Nossas Vidas´ - Melhor Vídeo - II Festival de Vídeo
de Fortaleza - 1989; `Quando o Crioulo Dança?´ - Melhor Direção
- Jornada de Cinema da Bahia - 1989.
Mulheres:
Qual é a sua formação de atriz? Começou pelo
teatro, TV ou cinema?
Dilma Lóes: Formação prática.
Só fiz um curso de teatro depois de uns 13 anos de profissão.
Comecei fazendo figuração em tv no programa do Agildo Ribeiro
e Paulo Silvino, chamado “ TV Ó canal zero”
Mulheres: Como foi a convivência com a família
de artistas (pai e mãe)? Isso te influenciou na escolha da carreira
artística?
Dilma Lóes: A convivência foi muito saborosa,
mas também dolorosa. Saborosa porque quase todos os finais de semana
a casa ficava cheia de amigos que iam pra lá cantar e fazer música.
Meu pai era letrista, minha mãe fazia música e era uma grande
alegria aquela cantaria nos finais de semana. O lado doloroso era a falta
de tempo deles para participarem mais do dia-a-dia dos filhos.
Naquela época, existia um grande preconceito contra artista. Era
discriminada na escola por professores só porque era filha de artista,
que era considerado meio marginal, persona non grata. Tudo foi fluindo
naturalmente para que eu seguisse os mesmos passos dos meus pais, já
que cresci numa atmosfera de expressão artística, era naquele
ambiente que me sentia confortável.
Mulheres: Você estreou no cinema fazendo duas produções
estrangeiras. Como se deu isso?
Dilma Lóes: Estava fazendo figuração
num filme espanhol chamado “ Sumuru, o Beijo da Morte”, e Roberto Baker,
o produtor do filme, me chamou para fazer um teste para ser protagonista
do episódio brasileiro de um seriado francês chamado “Les
Globbe Troter”. Como o diretor do filme não tinha encontrado uma
atriz profissional com o tipo físico que ele queria, abriram teste
para amadoras, fiz o teste e ganhei o papel.
O segundo filme foi uma produção da Universal Pictures dirigida
por paul Stanley, com Vic Morrow e Edmond O’Brain. Eles estavam fazendo
teste com atrizes entre 25 e 28 anos que falassem inglês fluente.
Eu não falava inglês e tinha 18 anos. Fui lá com uma
maquiagem pesada, peruca preta comprida, cílios postiços,
aparentando uns 25 anos. Pedi o texto à produção,
decorei com uma tia que era professora de inglês, fiz o teste e
fui aprovada. Quando o diretor veio conversar comigo em inglês,
ficou surpreso que eu não falava a língua porque achou a
minha pronúncia ótima.
Mulheres: E no cinema brasileiro, como foi a sua estréia?
Dilma Lóes: A estréia no cinema brasileiro
foi com o filme “ Parafernália, o dia da caça”, de Francis
Palmeira, um diretor sensível, gostei de fazer o filme.
Mulheres: Dá para você relembrar os quatro
primeiros filmes brasileiros que trabalhou, e os respectivos diretores
– Francis Palmeira, Mozael Silveira, Alberto Salvá, Geraldo Miranda
e Pio Zamuner?
Dilma Lóes: “Parafernália, o dia da caça”
foi um filme de produção independente, com pouco dinheiro.
A garra e o idealismo do Francis contagiou todo o elenco. O segundo filme,
“ Meu nome é lampião” (Mozael Silveira) foi uma produção
do Roberto Farias com certo recurso e estrutura. O terceiro foi “ Vida
e glória de um canalha”, de Alberto Salvá, com pouco recurso
financeiro, mas muita criatividade, que é a marca registrada do
Salvá. O quarto filme foi uma produção do Mazaropi,
oficialmente dirigido pelo Pio Zamuner, mas era o Mazaropi que no final
fazia tudo do jeito que ele queria, não respeitava ninguém,
nem equipe, nem atores. Mas ele pagava três vezes mais do que os
outros produtores e por isso as pessoas aceitavam trabalhar com ele.
Mulheres: E com o cineasta Alberto Salvá, com
quem fez três filmes?
Dilma Lóes: Sempre gostei muito de trabalhar com
o Salvá. Ele é um ótimo diretor. É sensível,
aberto à idéias, deixa o ator criar. Ele é uma pessoa
muito generosa e especial.
Mulheres: Gostaria que você comentasse sobre o
filme "Revólveres Não Cospem Flores"?
Dilma Lóes: "Revólveres não
Cospem Flores" foi um filme que adorei fazer. Adoro o Salvá.
Ele é um diretor muito sensível, talentosíssimo,
simples e instintivo, e usa a sensibilidade em benefício do filme
e do trabalho do ator. É o diretor que mais gostei de trabalhar,
que mais me senti à vontade, que mais me deixou livre para encarnar
os personagens.
O personagem do "Revólveres não Cospem Flores"
foi crescendo , tomando conta de mim, e ele foi deixando acontecer e interferindo
o mínimo para não quebrar aquela energia forte que estava
acontecendo. É o que considero um trabalho de arte, é como
uma dança, em que quem leva é a música, a gente só
tem que seguir. Se começar a entrar o racional, pensando que passo
que vou fazer depois daquele, vai estragar tudo, porque vai virar uma
fórmula, linha de montagem, todos dançando igual, sem alma.
O "Revólveres" foi o resultado de um trabalho de expressão
livre das almas, com momentos mágicos.
Mulheres: Como se deu o seu encontro com o cineasta Victor
Di Mello, com quem veio a se casar?
Dilma Lóes: Nos conhecemos na Fiorentina, um restaurante
no Leme, onde a classe artística frequentava nos anos 60 e 70.
Mulheres: Você e o Victor construíram uma
parceria de sucesso no cinema. Dá para você
falar um pouco mais sobre isso?
Dilma Lóes: Eu e Victor Di Mello fomos parceiros
em alguns filmes. O que nós dois tínhamos em comum era o
desejo de fazer comédia. Humor pra nós dois era fundamental.
A nossa grande diferença é que ele, talvez por pressão
dos produtores que visavam sempre o lucro, ou talvez por ele mesmo, por
ser homem e achar que era importante ter mulher nua nos filmes, tinha
sempre essa preocupação de criar cenas de sexo com mulheres
nuas.
Eu gostava de criar as cenas de comédia.Tentava forçar uma
barra para ser feito um roteiro com mais conteúdo. O Victor me
ajudava, tentava convencer os produtores, mas o foco maior era no que
eles consideravam que dava dinheiro, que eram mulheres nuas. Então,
dentro dos limites permitidos, fazíamos comédia e eu tentava
introduzir algum conteúdo nas histórias.
Mulheres: Como se deu a passagem da atriz para as outras
áreas? Foi influência do Victor di Mello, ou você já
pensava nesses caminhos? Veio dessas experiências anteriores em
época de colégio quando escrevia as peças e atuava?
Dilma Lóes: Na verdade nunca me senti uma profissional
de alguma coisa. Sempre me expressei artisticamente de várias formas,
desde criança. Já trabalhei em dezenas de profissões
e gostei de todas justamente porque não me sentia uma profissional
só daquilo. Gosto de sentir minha alma livre para fazer o que tiver
desejo de fazer. Gosto de experimentar, de aprender, conhecer o novo,
testar coisas novas, etc.
Considero meu melhor talento as minhas idéias, que podem ser expressas
através de um roteiro,um conto, como também no projeto de
uma casa, num novo passo de dança ou num projeto de melhoria social.
Então, por ser desse jeito, não fico em nenhuma situação
( ou profissão) que sinta que esteja adormecendo meu potencial
humano. Quando tinha 9 anos, escrevi e dirigi minha primeira peça
de teatro na escola. Era um musical. Adoro música e dança,
é uma das formas de expressão de que mais gosto.
Mulheres: E o teatro profissional?
Dilma Lóes: Trabalhei em três peças.
Duas comédias ( adoro comédia) e uma infantil. A primeira
foi em 1969, “Frank Sinatra, 4816”, com o Paulo Gracindo e Henriette Morineau,
pela qual recebi o prêmio Diário de Notícias de atriz
revelação de teatro de 1969. A outra peça foi “Vejo
um Vulto na Janela, me Acudam que sou Donzela”, da Leilah Assunção,
em 1981. A terceira peça foi o musica infantil “ Se a Banana Prender,
o Mamão Solta”, de minha autoria e direção.
Mulheres: Como foi atuar em novelas?
Dilma Lóes: A primeira foi em 1968 na TV Tupi,
“ O doce mundo de Guida” (direção de Cardoso Filho). A segunda
foi “Pigmaleão 70”, dirigida por Regis Cardoso. Era uma comédia,
adorei fazer. Depois foi “ O Bem amado”, dirigida por Regis Cardoso, também
comédia, mas meu papel era sério. Atuei também em
“Tempo de Viver”, direção de Marlos Andreucci, com Reginaldo
Farias e Paulo César Peréio. Foi em 1972.
Além das novelas, trabalhei dois anos em “Os Trapalhões”,
em que tive a grande felicidade de conhecer o Dedé Santana, pessoa
extraordinária. Gostei de trabalhar nas comédias. Novela
não combina muito com o meu temperamento.
Mulheres: Quais são os filmes que mais gostou
de participar, seja como atriz ou em outras áreas?
Dilma Lóes: “River of Mistery” de Paul Stanley,
“Revólveres não Cospem Flores”, do Alberto Salvá,
“ Quando as Mulhers Paqueram” de Victor Di Mello , “ Essa Gostosa Brincadeira
a Dois” de Victor Di Mello e “Quando o Crioulo Dança?”, dirigido
por mim.
Mulheres: Como foi trabalhar na produção
do único filme dirigido por Jô Soares, “O Pai do Povo”?
Dilma Lóes: Foi ótimo. Uma equipe harmônica,
ótimos profissionais.
Mulheres: Gostaria que você comentasse sobre “Essa
Gostosa Brincadeira a Dois” e a parceria com o Carlo Mossy nesse filme?
Dilma Lóes: “Essa Gostosa Brincadeira a Dois”
foi uma delícia fazer. Mossy já tinha sido parceiro em outro
filme. É um grande ator e grande amigo também. Foi muito
bom trabalhar com ele.
Mulheres: O que você pensa sobre as pornochanchadas,
as comédias eróticas da década de 1970, tão
atacadas pela crítica na época?
Dilma Lóes: Algumas pornochanchadas eu gostava
muito (e de pornô não tinham nada). Outras achava de mau
gosto. Todas tinham uma mesma característica que era mostrar só
o ponto de vista masculino, já que na época só os
homens faziam os roteiros, só os homens dirigiam os filmes e só
os homens produziam. Então na tela era visto só uma parte
da realidade. O que a mulher sentia não era retradado naqueles
filmes. Por isso gostei de participar do roteiro de “Quando as Mulheres
Paqueram”, porque foi a introdução da visão feminina.
Foi minha primeira participação em roteiro de longa metragem.
Alguns bons críticos não falavam mal, faziam uma boa análise
do filme elogiando os pontos bons e criticando os ruins. Quando um crítico
falava mal, mas o filme dava um bom retorno financeiro, os diretores não
ficavam chateados. E os filmes costumavam ter um ótimo retorno.
Mulheres:
O prêmio APCA foi por qual trabalho? Como foi receber esse prêmio
tão importante?
Dilma
Lóes: Fiquei muito feliz com o prêmio, não
esperava. Foi por “A Volta do Filho Pródigo" (1978 - Ipojuca
Pontes)..
Mulheres: Nos anos 1980, você passa para a direção.
Como foram esses trabalhos?.
Dilma Lóes: O primeiro filme que dirigi foi um
curta-metragem em 1972 chamado “ Morrendo a Cada Instante”, sobre a destruição
do meio ambiente no Brasil. Eu tinha feito uma pesquisa e, já naquela
época, 1000 árvores por dia eram arrancadas na Amazônia.
O documentário terminava com uma cena de ficção em
que pessoas andavam nas ruas usando máscaras contra poluição.
O filme participou do festival JB de curta- metragem e, na época,
como quase ninguém sabia sobre a destruição do meio
ambiente no Brasil, a crítica falou mal do filme, chamando o filme
de paranóico.
Mulheres: Dá para você falar mais sobre
os filmes que produziu e/ou roteirizou e/ou dirigiu, especialmente "O
Crioulo Dança?", além dos que já falou?
Dilma Lóes: Gosto muito de ver as pessoas felizes,
por isso gosto de fazer comédia. Se vejo uma situação
errada procuro ajudar a melhorar. Sempre fui assim. Arte pra mim é
expressão pura da alma. Uma energia que sai da gente e atinge a
alma de outras pessoas. Então quando vejo uma coisa errada e não
tenho como mudar, vem logo uma idéia de um filme, um conto, um
projeto social ou alguma ação que possa contribuir para
melhorar aquela determinada situação.
Todos os documentários que produzi e dirigi foram resultados do
desejo de mostrar uma situação que precisa ser mudada, etc.
Foi assim com o "Morrendo a Cada Instante" em 1972, sobre a
destruição da natureza. " Só Amor não
Basta", em 1978, é sobre as mães de baixa renda que
saíam de casa deixando seus filhos em péssimas condições
para irem trabalhar. O documentário/ ficção "
Nossas Vidas", em 1985, é um painel sobre a mulher brasileira
da época. É um filme irreverente, com situações
engraçadas, mas tratando de um assunto sério.
O documentário/ficção "Quando o Crioulo Dança",
em 1988. Sempre me incomodou muito o racismo no Brasil, especialmente
porque era velado, aí é muito difícil para uma pessoa
negra dizer que era vítima de racismo, porque era chamada de louca,
já que "no Brasil não existia racismo". Então
aproveitei um concurso de roteiros promovido pela Ford Fundation sobre
o racismo no Brasil para criar um roteiro onde pudesse falar tudo que
pensava sobre o assunto e reproduzir cenas de racismo que as pessoas negras
viviam no seu dia-a-dia, e, que de alguma maneira, pudesse tocar o coração
das pessoas brancas.
O roteiro foi um dos vencedores e então a Fundação
Ford produziu o vídeo. Quando o documentário ficou pronto,
exibi em diversas organizações da comunidade negra e as
pessoas choravam emocionadas por verem suas vidas bem retratadas no vídeo.
Inscrevi o documentário em dois festivais, mas não foi classificado
nem para a pré-seleção. Achei meio estranho o fato
de que todos os negros que assistiam saíam tão emocionados
e o filme não se classificar nem na pré-seleção.
Em uma das exibições, convidei o Grande Otelo e, no final,
ele me falou seriamente: Não perde seu tempo tentando entrar nos
festivais daqui. Ninguém vai aceitar o seu documentário,
porque todo mundo nega que existe racismo no Brasil. Manda o seu trabalho
lá pra fora, que ele vai ser muito bem recebido. Ele é forte
e sincero. Depois, se ganhar alguma coisa lá, todas as portas vão
se abrir aqui.
Aí, já meio descrente de qualquer coisa e deprimida porque
não conseguia exibir o documentário, juntei minhas últimas
forças, pensando nas palavras do Grande Otelo e enviei o documentário
para o festival de Nova York, onde ganhou medalha de Bronze, competindo
com mais de 3.000 documentários. Depois disso, claro, o filme começou
a ser exibido e aceito nos festivais.
Dez anos depois, o Ministério da Educação comprou
3.000 cópias e incluiu o documentário no treinamento dos
professores da rede pública, em um trabalho contra a discriminação
racial dentro das salas de aula.
O roteiro do filme de ficção de um minuto "A Regra
da Noite", em 1992, foi fruto da minha necessidade de fazer comédia.
O roteiro acabou premiado no Festival de Vítória.
Mulheres: Por que você se mudou para os Estados
Unidos? Como foi a experiência lá?
Dilma Lóes: Porque perdi o interesse em viver
no Brasil. Muita violência, minha casa tinha sido invadida, meu
filho, na época com 9 anos, ficou apavorado, não queria
mais dormir sozinho, não queria mais morar no apartamento, aí
achei que era a hora de sair e mostrar pra ele que Brasil era um pedacinho
bem pequeno do planeta, que existiam muitos outros lugares onde a vida
era diferente daqui. A experiência foi maravilhosa em todos os sentidos,
pra mim e para o meu filho.
Lá é um exemplo concreto de uma sociedade democrática,
em que todos podem prosperar porque o dinheiro circula em toda sociedade,
não fica retido nos bolsos de poucas pessoas como acontece aqui.
Qualquer trabalho é bem remunerado, qualquer pessoa pode prosperar.
O sistema funciona muito bem. Na primeira semana que estava lá,
meu filho ficava brincando nas rua porque tinha acabado de chegar e ainda
estava vendo escola pra ele. De repente, um policial bate na minha porta
perguntando porque ele não estava na escola e eu expliquei que
tinha recém-chegado do Brasil, e ele me disse que toda criança
tinha que ficar na escola, senão os pais vão presos. Me
deu uma semana para colocar meu filho na escola. O ônibus da escola
pegava o meu filho na porta e trazia de volta.
Outro mundo, outras possibilidades. Respeito, educação e
segurança passaram a fazer parte dos meus dias. E quanto mais distante,
mais claro ficava pra mim que a estrutura social do Brasil mudou muito
pouco desde a invasão dos portugueses em 1500. Tudo girava em torno
dos interesses da corte portuguesa que só tirava as riquezas daqui
sem dar nada. Sempre roubando, escravizando. A renda continua retida nos
bolsos de poucos, não circula, muito poucos podem prosperar.
Nos Estados Unidos me realizei trabalhando em diversas coisas. Tive uma
empresa de exportação por 8 anos, me formei em hipnose e
regressão de vidas passadas, me espiritualizei, tratei de pessoas,
escrevi contos para um jornal brasileiro e trabalhei na HBO fazendo trailers
para o Brasil.
Mulheres: Como foi voltar ao Brasil, depois de tantos
anos?
Dilma Lóes: No primeiro ano foi muito difícil.
É uma total desadaptação. Você já não
é a mesma pessoa, já não vê o mundo da mesma
maneira que antes, não gosta das coisas que antes gostava e gosta
de outras que são estranhas aos seus amigos. Alguns amigos já
não tem mais nada em comum com você e você com eles,
seus valores mudaram, mas você volta para o mundo de antigamente
e isso é muito estranho. Demora um tempo pra construir uma nova
vida com seus novos amigos, que você nem sabe ainda quem são
e onde estão. Reacostumar com a má distribuição
de renda que só permite poucos prosperarem na vida... difícil.
No segundo ano, foi menos pior.
Agora, o lado muito bom foi estar novamente perto da família, da
Vanessa, da minha mãe, que são pessoas muito importantes
pra mim, e também dos amigos que são para sempre, aqueles
poucos que sobrevivem a todas as mudanças. A Cléa Simões,
uma grande atriz a quem era muito apegada e que foi minha madrinha de
casamento, uma mulher extraordinária e uma heroína por ter
conseguido se firmar como atriz, num Brasil tradicionalmente racista,
e que por décadas negou esse racismo, mas confinou os atores negros
aos papéis de subalternos. À Cléa Simões,
aqui fica aqui minha homenagem e muita, muita saudade.
Mulheres: Você faz parte de uma família
de artistas há três gerações. Como foi atuar
ao lado da sua filha, Vanessa Lóes, em “O Amigo Dunor”?
Dilma Lóes: A Vanessa é uma artista nata,
especialmente para artes plásticas e pintura. Desde pequena se
destacava na escola com seus desenhos e a habilidade para as artes. Ela
fez o filme quando tinha 8 anos. Fez muito bem, está muito natural
no filme. Como fiquei fora 10 anos, não acompanhei a carreira da
Vanessa. O que eu vi, gostei. Assisti alguns tapes dos trabalhos dela
que ela levava quando ia me visitar em Miami.
Mulheres: Você está envolvida atualmente
em algum projeto? Cinema, televisão, teatro? Não anda com
saudades das telas?
Dilma Lóes: Tenho três projetos que penso
em fazer um dia, mas não por agora. Dois longas-metragens e um
documentário média-metragem. Os longas são ficção.
Um é um argumento que tenho há quase 30 anos chamado "
João virou doutor", ambientado no Rio dos anos 60, e o outro
é o filme da peça infantil que fizemos " Se a banana
prender, o mamão solta", um musical lindo e engraçado.
Esses dois daria para alguém dirigir. "O João virou
doutor" só consigo imaginar o Bruno Barreto dirigindo. O infantil,
não pensei em ninguém.
O documentário de media-metragem tem o título " O Brasil
que poucos conhecem" É um trabalho de pesquisa, que, na verdade,
já estou fazendo há alguns anos, mas preciso ainda ir à
Portugal, na Torre do Tombo, onde estão todas as informações
das primeiras pessoas expulsas para o Brasil pela inquisição.
A maioria eram judeus que foram forçados a se converterem ao catolicismo,
se separarem de seus familiares e vieram viver no Brasil. Aqui, alguns
ainda tentaram cultivar sua cultura, mas eram perseguidos pela inquisição,
acusados de serem "judiazantes". Muitos espalharam-se pelo nordeste
e pararam de praticar sua religião, mas a cultura enraizada no
jeito de ser foi transmitida através de muitas gerações.
Então muitos de nós e muito da cultura brasileira é
de origem judaica, mas a maioria não sabe.
Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que
assistiu?
Dilma Lóes: O último filme foi “O Dia em
Que Meus Pais Saíram de Férias” (2006, Cao Hamburger). Gostei
muitíssimo.
Mulheres: Sempre convido minhas entrevistadas para homenagear
uma mulher de qualquer época e área do cinema brasileiro.
Quem você quer homenagear?
Dilma Lóes: A homenagem vai para a minha mãe
Lidia Mattos, de quem sou grande fã como atriz e como pessoa especial
que é, de generosidade rara, amiga de todas as horas, irreverente,
filósofa e balofuda (apelido mais recente). À ela, obrigada
por ter vindo ao mundo e ser exatamente como é.
Dilma Lóes: Um fato curioso que talvez posa ajudar
outras pessoas que passem por situações parecidas.
Em 1985, descobri que ser atriz realmente não era o que gostava
de fazer, e que gostaria muito de trabalhar como diretora porque teria
muito mais possibilidades para criar. E usar minha sensibilidade. Quanto
mais refletia sobre o assunto, mais me empolgada com a certeza de que
era aquilo mesmo que queria fazer. Empolgada , fui pedir ao Paulo Ubiratan,
a quem conhecia bem e que na época era o diretor geral de novelas
da Globo, que por favor me conseguisse trabalho dentro da área
de direção, que estava disposta a começar do zero,
a ser assistente do assistente, fazer o que fosse preciso dentro da área
de direção porque era o que realmente queria fazer. Então
ele me ouviu e em seguida me disse bem taxativo: “Dilma, presta atenção
no que eu vou te dizer: nunca! Eu disse nunca, nem você, nem nenhuma
mulher vai dirigir aqui na Globo. Direção é coisa
pra homem. Tem quer ser grosso, tem que gritar, falar palavrão…
Nem você nem nenhuma mulher jamais vai dirigir aqui dentro“.
Naquele momento, o mundo desabou pra mim. Eu disse: “pra mim direção
é sensibilidade , não tem nada a ver com gritar ou falar
palavrão, mas você é o dono da bola, não posso
fazer nada“. Fui pra casa e pela primeira vez na vida entrei em depressão
profunda. Era horrível pensar que nunca ia poder fazer o que gostava
só porque tinha uma vagina. Durante um mês, praticamente
só dormia, não queria sair da cama, não tinha energia
pra fazer nada e me perguntava porque tinha nascido mulher. “Nunca” era
uma palavra muito forte, como um muro impossível de se ultrapassar.
Certa vez, depois de uns 30 dias de total inércia, acordei de madrugada,
senti uma força imensa, sentei na cama e pensei: “Porque eu estou
deixando a opinião de uma pessoa interferir negativamente na minha
vida? Vou fazer um documentário mostrando como é ser mulher
no Brasil. Vou começar do início, da primeira mulher que
surgiu no mundo”. Aí fiz o vídeo “ Nossas Vidas”, que foi
um sucesso, ganhou prêmios no Brasil e me levou pra Alemanha, onde
acabei recebendo uma verba para desenvolver o roteiro do filme infantil
”Se a banana prender, o mamão solta”. “Nossas vidas” foi o início
de um novo e maravilhoso ciclo na minha vida e carreira. Passei a agradecer
ao Paulo Ubiratan pelo incidente, pois sem ele esse novo ciclo não
teria acontecido.
Desde então, quando alguma coisa não acontece da forma que
espero, acato porque sei que tudo tem uma razão de ser e a gente
só entende o porque um tempo depois, nunca na hora em que a situação
ruim acontece.
Mulheres:
Muito obrigado pela entrevista
Dilma Lóes: O prazer foi meu. Parabéns
pelo site. É um banco de dados muito importante para os pesquisadores
do cinema brasileiro
Entrevista realizada
em junho de 2007
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