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Foto:
com Eduardo Moscovis em cena de "Bendito Fruto" (2005). “No
mundo, quem não acha que está aqui para aprender está numa viagem errada”,
essa foi uma das declarações de Zezeh Barbosa em conversa exclusiva com o
Mulheres, reafirmando sua disposição para aprender sempre e sempre, seja em
seus trabalhos no teatro, na televisão ou no cinema. Uma das mais gratas revelação
da comédia, com passagens hilárias por programas como “Vídeo Show” e
“Zorra Total” ou no sucesso atual como a preconceituosa La Toya em “A Lua
me Disse”, de Miguel Falabella e Maria Carmen Barbosa, Zezeh Barbosa é também
uma atriz dramática de mão cheia. E é o cinema que anda explorando esse seu
lado, em filmes como “Paixão Perdida”, de Walter Hugo Khouri,
“Cronicamente Inviável”, de Sérgio Bianchi, e “O Diabo a 4”, de Alice
Andrade. É
o lado dramático da atriz que está em cena também no maravilhoso “Bendito
Fruto”, primeiro longa de ficção de Sérgio Goldenberg, premiado no Festival
de Brasília. No filme, Zezeh Barbosa é Maria, companheira de um cabeleireiro
vivido pelo grande Otávio Augusto, que tem dificuldade de assumi-la por ser
negra. Zezeh Barbosa está impecável nesse grande filme que focaliza o
cotidiano de personagens comuns com respeito, sensibilidade e humanidade.
“Bendito Fruto” está em cartaz em cidades do país, um programa imperdível
e desde já um dos melhores filmes do ano. Zezeh Barbosa conversou com o Mulheres por telefone de sua casa e repassa a sua trajetória. Fala de comédia e de drama, fala de teatro, de televisão e de cinema, fala sobre os cineastas que a dirigiram, Khouri, Bianchi, Sérgio e Alice. Fala também sobre Miguel Falabella, seu grande amigo e parceiro, sobre questão racial e preconceito, sobre seu momento como atriz e seu profundo amor pela vida: “Eu sou uma pessoa, uma pisciana, que já acha que a vida é uma dádiva. O meu carro-chefe é que a vida é muito boa, e agora eu estou achando que eu ganhei um bônus”. Mulheres:
Raramente, a gente vê o cinema brasileiro retratando a classe média baixa, o
povão, com tanta naturalidade como em “Bendito Fruto”. O filme retrata o
cotidiano dos personagens de uma forma respeitosa e humanizada. Fale um pouco
sobre essa maravilha que é o “Bendito Fruto”. Zezeh
Barbosa: Obrigado por essa maravilha. Eu gostei muitíssimo mesmo de fazer,
eu acho que teve um trabalho muito caprichado, muito cuidadoso, muito detalhado.
O Enrique Diaz foi quem fez a preparação dos atores junto com o Sérgio
(Goldenberg), e a preocupação primeira era não deixar caricato, era
humanizar, deixar eles muito sensíveis, porque são gente comum. Eu acho que a
grandeza do filme é essa mesmo, é colocar atores que não são padrão de
beleza. A gente não está na idade da moda, que é entre 20 e 30 anos, todos nós
temos uma idade média. Eu acho que é esse o grande trunfo, é muito sensível,
trata da vida e do amor de gente mais velha, que não é o padrão, e que é a
maioria das pessoas, que é o comum, que é o povo.
Eu adorei fazer, adorei. Mulheres:
Normalmente, quando se vai retratar esse universo, do povo, é sempre ou a violência
que pontua, ou a questão da juventude e ali no filme tem todas essas questões,
tem a violência em relação à questão da personagem da Camila Pitanga, tem o
cotidiano da cidade, mas ainda assim tem esse olhar do personagem, da pessoa
comum, e que transita nesse contexto. E o bacana do filme é isso, ele fala
disso tudo da nossa realidade, mas de uma forma humanizada. Zezeh
Barbosa: O filme não é de muitas bandeiras, mesmo o preconceito racial,
que fica claro, quando o Edgar não assume a Maria, porque ela é empregada,
porque ela é negra, porque a mãe
dela já era empregada da mãe dele. Ou quando o meu filho volta para casa com
um namorado. Eu acho que o ideal deveria ser assim mesmo, você ver com o coração,
um jeito de humanizar as relações, de mostrar que não tem esse peso
todo horroroso que algumas pessoas dão. Eu acho maravilhoso dizer quem eu sou,
não é horrível ser negro, não é horrível ser gay, e o filme vai
deslizando de uma situação extrema para outra. Quando
a Maria descobre que seu filho é gay, que namora com um ator super
conhecido, é tudo dentro dessa grandiosidade, que deveria ser natural para as
pessoas que essas coisas acontecem. É bacana essa abordagem porque eu acho que
o filme acaba sendo moderno, porque o ideal para a gente alcançar seria esse. Mulheres:
Na relação entre a Maria e o filho ficou muito bem resolvido a cena em que ela
diz que seu filho namorava homem, mas que quem não namora. Ou seja, a
personagem fala de uma forma que não é feliz, mas que também não é triste,
que é isso, que a vida é isso. Eu acho que isso dá uma grandiosidade para a
personagem. Zezeh
Barbosa: Que bom você achar assim, porque cada um é o que é, eu
não acho que tenha alguma maldade em você ser negro, você ser gay, você
ser pobre, pelo contrário,. Muitas vezes, as pessoas
sentem o desespero de não entender o porque certas coisas acontecem com
elas, porque as coisas são desse ou daquele jeito, então, se para a pessoa já
tem essas dificuldades, você vai atrapalhar mais ainda o caminho delas? É
completamente natural ser negro, ser gay, cada um é o que é, e eu acho que é
assim que o filme trata, é assim que tem que se tratar dessas coisas, não é?
Você não pode crucificar ninguém, porque você julga o que ela faz como
errado ou porque não é politicamente correto, entendeu? O filme trata com essa
delicadeza, eu adoro. Mulheres:
Como aconteceu o convite para você fazer esse filme? Zezeh
Barbosa: O filme já está pronto há três anos. Eu estava apresentando o Vídeo
Show, e uma amiga minha de São Paulo, e que agora mora no Rio, me disse que um
diretor queria que eu fizesse esse papel, que ele já tinha pensado em algumas
pessoas, mas me queria. Eu sou de São Paulo, mas o Sérgio não me conhecia.
Primeiro a gente conversou muito, ele me pediu para ler uma cena e depois a
gente começou a fazer o filme. Mulheres:
Como foi para você, pela primeira vez fazendo uma protagonista e ganhando já
de cara um prêmio importante, o de Melhor Atriz no Festival de Brasília? Zezeh
Barbosa: Foi maravilhoso. Eu sou uma pessoa, uma pisciana, que já acha que
a vida é uma dádiva. O meu carro-chefe é que a vida é muito boa, e agora eu
estou achando que eu ganhei um bônus. Deus tem sido muito muito muito generoso.
É bacana você ver que se esforça tanto, tenta tanto, quer tanto, e quando isso é reconhecido é maravilhoso. Eu já sou muito
feliz com o que eu faço, e eu
nunca tinha ganhado um prêmio desses de cinema, eu faço mais teatro e tv. Então
eu ganhei dois prêmios, de Melhor Atriz e de Melhor Momento do Festival. Eu me
desmanchei em lágrimas, tem sido muito bom, já era bom, agora está ótimo. Mulheres:
Nos seus trabalhos no cinema vem sendo colocado em cena um outro lado seu de
atriz que é o lado mais dramático. Porque na televisão você tem ido mais
para a comédia. Zezeh
Barbosa: Eu adoro, de verdade, de coração, eu estaria mentido se eu
falasse “ah mas eu preciso...”. Para o ator é importantíssimo você testar
essa sua versatilidade, mas a mim não incomoda fazer comédia, porque eu adoro.
O cinema tem me dado essa oportunidade, que é maravilhoso, de poder mostrar um
outro lado. È verdade, tudo o que eu tenho feito no cinema tem esse lado mais
dramático. Que é bacana, né? O ator tem que mostrar, tem que aprender a fazer
tudo porque a vida é assim, cada momento você é uma pessoa. Mulheres:
Seu primeiro longa foi com o Walter Hugo Khouri, o “Paixão Perdida” (1998),
não é? Zezeh
Barbosa: Eu participei muito tempo atrás, muito menina, de um filme chamado
“Vera” (1987), do Sérgio Toledo, com a Ana Beatriz Nogueira. Era uma
participação. O primeiro filme que eu participei mais mesmo foi o “Paixão
Perdida”. O Khouri era
maravilhoso, ele trabalha o ator detalhadamente, dia-a-dia, ele anda com você,
descomplicando as cenas, e te falando, eu acho que é assim. E conversava com a
gente, o que é muito importante, o diretor que tem esse cuidado, que sabe que a
importância para a cena é a importância do ator. Walter tinha esse cuidado
todo, foi muito bom trabalhar com ele. Mulheres:
O Khouri sempre foi um cineasta de closes, e ele extrai de você closes
impressionantes, com uma carga dramática muito forte. As lembranças dessas
filmagens foram boas? Zezeh
Barbosa: Sim, é muito bacana você poder comprovar o resultado, que nem
sempre é lá ou cá, mas o bom disso tudo é você aprender a trabalhar com
essas pessoas, O Khouri era um ótimo diretor, e você lá percebendo a técnica
de cada um, porque você como ator vai aprendendo, e o Khouri tinha muito a
ensinar, e era muito generoso. Mulheres:
Como você fez essa participação no “Vera”, como foi pisar em um set de
cinema pela primeira vez? Zezeh
Barbosa: Eu era muito novinha, estava fazendo a escola de arte dramática,
eu fiz a EAD, e aí eu e um bando de amigas minhas fomos participar. Tudo era
maravilhoso, a gente não tinha noção direito do que era câmera. A gente
gravou na FEBEM, de São Paulo, passava os dias inteiros lá. E é tudo bacana,
porque você vai construindo essa personagem e que era muito triste. O set de
filmagem, por ser na própria FEBEM, era muito carregado, e aí era bacana também
porque o ator trabalha com a sensação, com as emoções e é ótimo você
presenciar, sentir o que o lugar te passa. Foi uma descoberta fazer cinema,
cinema é a grande arte, eu adoro. Mulheres:
Você foi para o elenco do “Vera” como? Zezeh
Barbosa: Eles tinham essa coisa de ir às escolas, para convidar, porque era
muita gente. A gente era o quorum, na verdade, eu fazia parte das meninas da
figuração. Tinha uma falinha ou outra, mas era mesmo figuração. Aí falaram
na escola, e uns dias depois a gente foi lá, era no Lasar Segal, em São Paulo,
conversei com alguém e fiz, participei do filme. Mulheres:
Depois você faz o “Cronicamente Inviável” (2000), do Sérgio Bianchi, e
tem aquela cena impressionante em que sua personagem é assassinada. Sérgio
Bianchi é outro cineasta bem particular. Zezeh
Barbosa: É outro estilo. Ele agora fez o “Quanto vale ou é por
quilo?”, que eu estou louca para ver. Por causa da novela eu ainda não vi,
mas eu acho ele genial. Eu não estou aqui julgando o que ele põe nos filmes
dele, mas a preocupação com o social que ele tem eu acho
muito bacana, porque essa é uma das funções da arte. Ele agora está
falando sobre as Ongs, sobre esse universo em que alguém sempre leva vantagem e
um monte leva desvantagem. É bacana ele ter essa preocupação que alguém tem
que ter, então eu respeito, ele é um desses para quem eu tiro o chapéu.
Admiro esse trabalho dele, essa preocupação com a busca, de mostrar, não
questionando o que ele coloca nos filmes. Mulheres:
O Bianchi é um cineasta muito autoral. Zezeh
Barbosa: Muito, odiado por alguns, amado por vários. Eu gosto, acho ele
muito inteligente. Mulheres:
O outro filme seu é “O Diabo a 4” (2005), que ainda não foi lançado
comercialmente, mas eu já assisti. Como foi fazer esse filme com a Alice de
Andrade? Zezeh
Barbosa: Eu adorei, tenho uma
cena com o Ney (Latorraca), que eu conheço e gosto muito, mas com quem ainda não
tinha feito nada. Eu estava fazendo o Vídeo Show também, porque eu fiquei
fazendo durante dois anos, e ela me convidou para participar. Ela precisava de
alguém para fazer a mãe do Jonhathan Haagensen, aquele ator do “Cidade de
Deus”, um grande ator que ganhou o prêmio de coadjuvante. E foi maravilhoso,
tem também o Marcelo Faria no
elenco. Eu acho que essa moçada que está vindo aí, tem que se preparar porque
tem muita gente boa, muita. O filme
tem uma história linda, eu acho que é uma Copacabana, um Rio de Janeiro visto
sob uma ótica muito particular e verdadeira. Eu gosto muito, eu nunca tinha
trabalhado com ela. Na verdade, o cinema está me apresentando agora a essas
pessoas, e eu espero ainda conhecer muitos outros diretores, pois tem um monte
de gente que eu adoraria trabalhar. Trabalhar
com a Alice foi ótimo, porque você sempre aprende, todo muito tem os seus
talentos, você presta atenção e rouba uma coisa
e outra. A Alice é muito atenciosa, muito preocupada com a cena, que é
típico dos bons diretores, preocuparem com os personagens. Eu adorei fazer também,
até queria fazer um pouco mais. Mulheres:
E os curtas na sua carreira? Zezeh
Barbosa: Eu fiz alguns há tempos atrás. O último que eu fiz foi o
“Xadrez das Cores”, do Marcos Schiavon, que é o último trabalho no cinema
da Mirian Pires e que também
aborda o preconceito racial. Eu negra e ela branca, e a gente brinca com as peças
do xadrez. O filme até foi para Miami e ganhou o prêmio do Júri popular. O
Marcos está muito feliz, ele é muito legal também, a história é muito bem
feita, bem escrita, bem dirigida. Eu acho que eu estou em um momento bacana
porque a vida está me aproximando do cinema, que eu sempre quis fazer. Eu quero
fazer muito mais, e mais e mais e mais, e estou aqui esperando convites (risos). Mulheres: Outro dia eu falei longamente com a atriz Ruth de Souza sobre questão racial e ela falou muito bem de você, disse, em entrevista ao Mulheres, que você a recebeu muitíssimo bem. Zezeh
Barbosa: Linda. Ela sempre foi muito respeitada pela gente, para todos os
atores, e, principalmente, para nós atores negros. Ela é referência, Milton
Gonçalves, Lea Garcia, grandes atores que é para você se espelhar e ter
orgulho. Mulheres:
Lea Garcia também já foi entrevistada pelo Mulheres. Zezeh
Barbosa: Que bom, é um orgulho me juntar a elas. Mulheres:
Antes do cinema e da televisão, você já tinha uma carreira importante no
teatro. Zezeh
Barbosa: Eu faço teatro desde criança. O meu irmão tinha um grupo desses
amadores mesmo, de colégio. Eu entrei muito novinha mesmo, com oito anos, e não
parei mais, o bichinho de ser atriz
me pegou e nunca mais deixei, fui fazendo. Eu sou de São Paulo, Osasco, Grande
São Paulo. Todos os cursos que a Prefeitura tinha para criança e para
adolescente, e depois jovem, eu fazia, Aí fiz a escola de teatro Macunaíma e
entrei na EAD. Nunca mais parei, já faço teatro há quase trinta anos. Mulheres:
E foi no teatro, parece-me que na peça “O Mambembe”, que deu-se o seu
encontro com o Miguel Falabella. Zezeh
Barbosa: Sim, mas antes eu já tinha trabalhado na TV Cultura e no SBT. Mulheres:
A primeira novela sua é “Brasileiras e Brasileiros” (1990), não é? Zezeh
Barbosa: Novela sim, porque antes eu participava muito das coisas da TV
Cultura. Eu adorava, fazia aqueles telecursos, fazia o “Mundo da Lua”. Eles
convidavam muito a gente, da EAD, para fazer esses programas lá. Aí fiz
“Brasileiras e Brasileiros” do Avancini, lá no SBT. No teatro, fiz um espetáculo
pelo qual ganhei alguns prêmios, graças a Deus, que foi “O Mambembe”, do
Gabriel Villela, lá no Sesc Paulista. Um dia o Miguel foi assistir com outro
amigo dele, me viu, gostou do trabalho e foi falar comigo no camarim. Eu fiquei
toda assim, um pouco tímida,ele conversou, foi simpaticíssimo e aí depois de
quatro dias ele ligou para a minha casa. Eu estranhei dele ter meu telefone, mas
ele disse que tinha pegado na Central da Globo e queria saber se eu gostaria de
fazer a novela dele (“Salsa e Merengue”, 1996). Eu adorei, claro
(risos). Daí fiz e a gente ficou muito amigo. O
Miguel é uma pessoa muito fácil de gostar, ele é adorável, um grande amigo,
é um grande diretor, encenador. O Miguel é muito caprichoso nas coisas que ele faz, ele usa
muito o coração, é por isso que dá certo. Eu acho que a La Toya é
completamente popular, mas de um jeito particular dele escreve, dele e da Maria
Carmen Barbosa, que é genial também, de pegar tudo que é comum e simples e
tentar brincar com essa coisa. Todo mundo entende, todo mundo percebe o que está
acontecendo. Ele pega situações comuns mesmo, algumas nem tanto, mas o
dia-a-dia, o popular mesmo. É uma dádiva para mim, eu adoro. Mulheres:
E como está sendo fazer a La Toya, em “A Lua Me Disse” (2005)? Zezeh
Barbosa: Está todo mundo felicíssimo, a gente adora fazer, a companhia está
muito boa porque todo mundo é muito bem-humorado, chega todo mundo feliz. Os
diretores são ótimos, graças a Deus está indo tudo super-bem. Mulheres:
E a experiência do Vídeo Show? Esse programa te popularizou muito, não foi? Zezeh
Barbosa: Foi maravilhoso. Eu sou rato de teatro, adoro, eu tenho essa coisa
paulista de ir muito, ver muito, ler muito. Então, para mim, no Vídeo Show eu
fazia teatro na televisão. Foi uma chance que eu tive também de mostrar o que
eu podia, brincar em cima de coisas, brincar muito muito com a improvisação,
com a criatividade, é um bibelô na minha vida. Eu adoro tudo o que eu faço,
eu adoro a novela. E mesmo de trabalhar com o Miguel naquele momento, era um
presente, eu adorava fazer. Mulheres:
E fez também o “Hilda Furacão (1998)”. Zezeh
Barbosa: Que adorei também (risos). Eu
só participava e era um orgulho porque era linda, a Ana Paula (Arósio), o Wolf
(Maya) dirigia brilhantemente. Eu adorei, acho que cada experiência foi uma
experiência e eu tive a sorte de fazer um pouquinho de cinema, um pouquinho de
televisão, bastante teatro, então a gente vai mesclando,
fazendo um pouco de cada coisa. É um privilégio, eu acho. Mulheres:
No teatro, além do “Mambembe”, você tem outros sucessos, como “Sereias
da Zona Sul” e “Os Homens Preferem as Loiras”. Zezeh
Barbosa: Sim, tem o “Você vai ver o que você vai ver”, com o qual eu
viajei pela Europa. Eu fiz muitos espetáculos, o importante para o ator é ele
poder se expressar. Eu fiz monólogos, fiz espetáculos com dez atores, com
trinta, trabalhei muito com o Gabriel Villela,
o Miguel também já me dirigiu. Isso é bacana porque são vários
estilos, vários diretores. E é isso que a vida te dá, isso é que é bacana
de ser ator, essa maleabilidade de você ir passando de uma arte a outra e
trabalhar com essa gama, com esse leque de bons diretores e aprendendo um pouco
com cada um. No mundo, quem não acha que está aqui para aprender está numa
viagem errada. Mulheres:
Voltando ao “Bendito Fruto”, que beleza que é essa revelação do Sérgio
na direção, não é? Zezeh
Barbosa: O que eu gosto, porque a gente que é ator
tem uma auto-crítica braba, é
dessa coisa da simplicidade, porque é muito difícil você conseguir o simples.
Os personagens não tem pretensão, é todo mundo muito comum, é gente muito
simples, que é daquele jeito e acabou. A Maria é o que ela é, porque um monte
de gente é assim, né? Você é
simplesmente o que você é. E u acho uma proeza o conjunto, todo mundo ter
alcançado isso, eu acho que é um grande trunfo no filme, essa simplicidade, de
ver a vida, a simplicidade de ser dos personagens, eu adoro. Mulheres:
Você já tem algum convite para o cinema? Zezeh
Barbosa: Ai, não, mas estou esperando vários (risos). Eu preciso do
cinema, porque é uma droga, são pastilhas que a gente toma. Uma peça, um
espetáculo, um filme, uma novela, são pastilhas de alegrias que a gente vai
dando para a alma e vai ficando
cada vez mais feliz. Mulheres:
Tem alguma mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e área, que você
quer homenagear aqui no Mulheres? Zezeh
Barbosa: São tantas maravilhosas. Temos várias, tem Fernanda Montenegro,
que tem revolucionado esse cinema brasileiro. Temos Marieta Severo, que vai
muito bem, obrigadíssimo. Tem essa menina, a Falabella, Débora, que é ótima.
Somos tantas, graças a Deus, e andamos tão bem. Temos Ruth de Souza, temos Zezé
Motta, maravilhosa. Mulheres:
É claro que você já falou indiretamente, mas é uma questão que sempre temos
que abordar. Como você está vendo o espaço para o negro na televisão, no
cinema e no teatro? Zezeh
Barbosa: No teatro você faz quem você quiser, no teatro eu tive a
liberdade de fazer a Julieta, eu fiz quem eu quis, porque o teatro te dá total
liberdade. Não se pode otimizar tanto porque eu não acho que seja uma grande
melhora, mas tem aí uma pequena melhora. Eu protagonizo um filme, eu faço
novelas de televisão, graças a Deus a minha personagem faz muito sucesso. Eu não
achei que o meu filho quando crescesse fosse já ver essa melhora e eu já
consigo ver. È claro que tem que ficar enfiando goela abaixo de um monte de
gente Leis que nos protege, que obriga a mim e a minha raça ter direito na
faculdade, por exemplo. É muito triste que tenha que ser uma lei, mas se é o
único jeito, eu já sinto pelo menos a preocupação de aceitar a gente como
parte da população, que nós ajudamos a fazer esse país e que todo mundo
esquece que a gente existe. O oriental então nem se comenta, né? Mulheres:
E eles estão aí nas ruas. Zezeh
Barbosa: Imagine se não tivesse pastelaria, se não tivesse tinturaria. È
horrível, mas antigamente só servíamos para carregar bandejas e abrir portas.
Agora, graças a Deus, percebe-se que talento não tem cor. E aí já começam a
dar personagens. Claro, que é uma briga do negro, a La Toya mesmo, que é a
minha personagem na novela, completamente louca, que não assume a própria cor,
é uma vítima. Eu acho que é difícil se você como negro não ter seus
grandes heróis, não consegue estudar, não tem dinheiro para comer. Não é
você que passa na mídia, entendeu? Não é a sua boca, o seu cabelo, os seus
traços, aí é claro que o seu amor próprio vira um lixo, vai lá em baixo, é
claro que você vai se sentir o cocô do cavalo do bandido, que é o caso da La
Toya. O
negro tem aprendido mesmo que é bom ser negro, que é importante ter orgulho,
que a gente tem grandes exemplos, a gente já tem ótimos atores. Agora, você
precisa de bons médicos, dentistas, até isso, nas escolas, com os professores,
você precisa fazer sua raça ser representada. E a gente, graças a Deus,,já
começa a ver isso, pelo esforço do próprio negro. Porque eu andei achando um
tempo aí que era uma moda, é Ong pra proteger pretinho, porque pretinho é
isso, porque negro é aquilo, e que era uma moda. Mas agora eu já vejo que não,
que as preocupações são de verdade, de integração, de tratar bem, o que
para mim já é um ganho muito grande. Eu achei que o Brasil ia levar mais
quinhentos anos para aprender a respeitar que o negro também faz parte
da população, que o oriental está aqui, que todo mundo ajuda a construir esse
país. Então eu acho que melhorou sim, um pouquinho, é devagar, mas a gente já
está no caminho. Mulheres:
O grande público tem acesso aos artistas, em grande parte, pela televisão. E o
grande público já te conhece pelas novelas, pelo vídeo show, pelo Zorra
Total, enfim pela comédia e que você faz maravilhosamente. Mas eu queria que
esse grande público conhecesse
também esse seu lado dramático na televisão. Zezeh
Barbosa: Eu ia adorar, tomara que daqui a pouco eu receba um convite para
que possa mostrar esse outro lado. A La Toya já tem um lado má, porque ela é
uma vilã, cômica, mas é uma vilã. Quando eu li pela primeira vez me
assustou, mas eu já gostei, porque é bacana também você não fazer sempre a
boa, não é porque você é um negro que tem que ser sempre o bonzinho. Eu
adoraria, porque a carreira da gente é feita de desafios, quando te dão chance
de fazer é maravilhoso. Mulheres:
Prazer imenso, muito obrigado pela entrevista. Zezeh Barbosa: O prazer foi meu querido, qualquer coisa pode ligar. Mulheres: Muito obrigado.
Entrevista
realizada em junho de 2005.
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