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Foto: Mulheres do Cinema Brasileiro O diretor Marcos Bernstein, de “O
Outro Lado da Rua” disse que fica impressionado com o desperdício do talento
de Fernanda Montenegro e Raul Cortez, protagonistas do seu belo filme, pelo
cinema, lamentando o quão pouco eles são solicitados para o veículo. E esse
parece ser o caso da grande atriz Walderez de Barros, ainda com o agravante de
que ela faz ainda muito menos cinema que os dois. São quarenta anos que Walderez
de Barros brilha nas artes cênicas, sobretudo no teatro, onde começou
profissionalmente na companhia do mito Cacilda Becker e depois se tornou a musa
do genial dramaturgo Plínio Marcos, com quem foi casada durante mais de duas décadas.
A atriz, que fez televisão desde o início da carreira, mas que só explodiu
nacionalmente como a Judite de “O Rei do Gado”, ainda procura seu lugar no
cinema, “até hoje eu não me encontrei com o cinema, ou eles não se
encontraram comigo”. É sobre o início de sua
carreira, o deslumbramento com Cacilda Becker e a passagem pela sua companhia,
os trabalhos na televisão e seu flerte e mágoa com o cinema, que Walderez de
Barros, que comemora seus quarenta anos com a montagem “Fausto Zero”, de
Goethe, dirigida por Gabriel Villela, conversa com o Mulheres. A atriz esteve em
Belo Horizonte, onde participou do projeto “Ciclo de Acontecimentos Dramáticos”,
da produtora cultural Soraya Handdam. Mulheres: É uma honra
para o Mulheres encontra-la nesse momento em que você comemora 40 anos de uma
carreira brilhante nas artes cênicas brasileiras. Walderez de Barros: Olha,
o prazer é meu estar aqui conversando com você. 40 anos é só tempo, né? Só
significa que estou ficando mais velha. Não tem nenhum mérito, o que eu sempre
digo é que eu sobrevivi. Acho que nas artes em geral no Brasil, quando você
consegue permanecer durante algum tempo, fazendo aquilo que você quer fazer,
aquilo que você gosta de fazer, o mérito é esse, você ter sobrevivido.
Porque eu acho que as condições não são boas de um modo geral, então quando
você consegue ficar durante algum tempo fazendo arte no Brasil, eu acho que o mérito
é só esse. Mulheres: Quando você saiu
de Ribeirão Preto para São Paulo, capital, foi para estudar filosofia. Como o
teatro entrou em sua vida? Walderez de Barros: Na
verdade, entrou pela via política. Porque eu entrei na Faculdade de Filosofia,
da Maria Antônia, na USP, em 1960. E era um período de grande agitação política.
A Faculdade ainda era na rua Maria Antônia, então de um lado você tinha a
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, e do outro lado o Mackenzie,
tradicionalmente uma faculdade da USP de esquerda e o Mackenzie de direita. Então
aquele quarteirão da rua Maria Antônia era palco de grandes manifestações
políticas, e o período que o país atravessava também. Eu fiquei na Faculdade
até o começo de 63, então foi exatamente um período de grande agitação. E
eu comecei a fazer política universitária. Eu entrei para o CPC, Centro
Popular de Cultura, núcleo da Faculdade, o Fauzi Arap era quem dirigia e a
gente começou a fazer espetáculos com intenção política, fazer política
através da arte. Fazer espetáculos, levar à fábricas, sindicatos,
estudantes, enfim, o objetivo era claramente político. E aí eu comecei a
entrar em contato com o pessoal do teatro, Teatro Oficia, Teatro Arena, naquela
época conheci o Plínio (Marcos), enfim, quando vi estava fazendo teatro. Mulheres: Esse primeiro
espetáculo com o Fauzi, qual era? Walderez de Barros: O que
a gente fez lá no CPC, e que até participou de um festival de teatro do
Pascoal Carlos Magno, que ele sempre fazia, com o teatro amador do Brasil
inteiro, teatro universitário, principalmente, chamava “O Balanço”. Era
uma criação coletiva, que tinha direção do Fauzi Arap e que era com pessoas
ali da Faculdade. Mulheres: Depois você
vai para a companhia da Cacilda Becker, é isso? Walderez
de Barros: Profissionalmente eu estreei na companhia da Cacilda. Mulheres: A Cacilda, pelos
depoimentos seus, ela é ainda a sua maior referência de atriz? Walderez de Barros: É,
acho que ainda continua sendo. Eu digo assim, que um dos maiores impactos que eu
tive no teatro foi a primeira vez que eu vi a Cacilda em cena. A peça era “Em
Moeda Corrente no País”, do Abílio Pereira de Almeida, e eu sempre costumo
dizer assim: a Cacilda fazia tudo errado, ela tinha uma voz, um timbre rachado,
ela era magra, não podia ser chamada de uma mulher bonita pelos padrões da época,
pelo menos, mas ela tinha um magnetismo em cena que era impossível você tirar
o olho dela. Eu me lembro perfeitamente que eu vi essa peça no teatro dela, o
Teatro Cacilda Becker, que era ali na Brigadeiro Luiz Antônio, lá em São
Paulo. E eu saí do teatro assim nas nuvens, sabe, gritando nas ruas, eu nunca
tinha visto nada, eu nunca tinha pensado que o teatro podia ter a força que a
Cacilda me mostrou, que ele podia ter. O impacto da presença dela em cena
realmente foi muito forte para mim. Depois a gente se tornou, quer dizer, ela
era muito amiga do Plínio, principalmente, então eu tive uma convivência com
ela. A reverência que eu tinha com o talento dela, a mulher que ela era, porque
ela era uma mulher extraordinária, além de uma grande atriz, uma grande
mulher. Então, ela é realmente até hoje, eu acho, a grande referência para
mim do teatro. Mulheres: E o espetáculo na
companhia, foi? Walderez de Barros:
“Onde Canta o Sabiá”. Ela não estava em cena, quer dizer, era a companhia
dela, o Walmor (Chagas) estava em cena, mas ela não fazia parte do espetáculo,
eu nunca trabalhei com ela. Mulheres: Você chega
às novelas em 1968, na "Beto Rockfeller". Walderez de Barros: Eu já
tinha feito algumas participações nas novelas da Tupi, inclusive, “O
Direito de Nascer”. Na época, fazia algumas participações, estava começando.
A primeira novela que eu fiz inteira foi “Beto
Rockfeller”. Mulheres: Que é um momento
de renovação da teledramaturgia. Walderez
de Barros: Exatamente. Mulheres: No cinema você
chega em 1970, no “Juliana do Amor Perdido”, do Sérgio Ricardo, do mítico
Sérgio Ricardo. Como foi esse encontro com o cinema, você vindo do teatro, e já
com trabalhos na televisão? Walderez de Barros: Olha,
você sabe, o que eu acho é que até hoje eu não me encontrei com o cinema, ou
eles não se encontraram comigo. É, na verdade, eu fiz pouco cinema, adoro
cinema, e eu fiz muito pouco. Acho que, em todas as áreas, o que eu acho lamentável,
é que há uma espécie de gueto, você tem gueto do teatro, você tem
gueto da televisão, e o gueto do cinema. E o do cinema, particularmente, é
muito forte, é muito restrito. O pessoal do cinema, por exemplo,
raramente vai ao teatro. Eu posso contar nos dedos os diretores de cinema que
foram ver alguma peça que eu fiz no teatro. O que acho lamentável porque, tudo
bem, cinema é imagem, mas não é só essa interpretação. Então, se você
observar bem, eles pegam atrizes, até jovens, que eles vêem na televisão, em
novela, ou até em comercial. Mas raramente eles pesquisam as atrizes, até
jovens, não estou falando de mim só, mas as jovens atrizes de teatro. O que é
uma coisa que a televisão, espertamente, já está fazendo. Você deve saber
que o pessoal da Globo tem olheiros pelo Brasil inteiro e que vão ver peças de
pessoas jovens, que estão começando, e que descobrem jovens talentos e levam
para a televisão. E só depois que eles passam pela televisão é que o cinema
vai atrás das pessoas. E como eu sou uma atriz que,
basicamente, a maior parte do tempo eu fiz teatro, então o pessoal do cinema
parece que não me descobriu, entendeu? Eu fiz muito pouco cinema, e sempre
assim por um viés de alguém que me conhecia através de outra coisa, sabe como
é, nunca foi pela observação do meu trabalho no teatro, o que eu lamento,
profundamente. Mulheres: É, porque depois dessa sua experiência como o Sérgio Ricardo, você voltou ao cinema já na década de 90. Walderez
de Barros: Exatamente. Mulheres: Com o
“Opressão” (1993, Mirella Martinelli). Walderez de Barros:
Exatamente, do Bonassi. Não, não, da Martinelli (Mirella) Mulheres: Essa experiência
com esse formato, de curta, foi interessante? Walderez de Barros: Foi
muito interessante. Porque aí, nessa época, lembro que comecei a conhecer
algumas pessoas ligadas ao cinema. E comecei a reclamar, exatamente disso, dessa
falta de cuidado da parte dos diretores, até de curtas mesmo, porque eu acho
que é um caminho. E aí começaram a me convidar. A Mirela me convidou, porque
uma pessoa conhecia, e depois o Bonass (Fernando)i, “O Amor Materno”. O Bonassi sim, é
uma pessoa muito ligada ao teatro, atenta ao teatro, e ele me conhecia através
do teatro, aí ele me convidou para fazer o curta dele. Mulheres: Você faz o
filme do Cecílio (Netto), “Três Zuretas” (1998). Walderez de Barros: É, o
Cecílio Mulheres: Depois você faz o
“Outras Estórias” (1999), do Pedro Bial, um belo filme. Walderez
de Barros: Muito, gostei demais desse filme. Mulheres: Essas filmagens,
elas te trazem boas lembranças? Walderez de Barros: Muito,
muito. Eu gosto do processo de cinema porque você consegue aprofundar um pouco
mais que na televisão. Não tanto quanto no teatro, do ponto de vista da
interpretação, mas eu acho que o cinema tem uma experiência muito rica. A
linguagem do cinema me fascina, pelo menos no cinema você consegue ter uma visão
já anterior da personagem, do começo ao fim, então dá para você trabalhar
um pouco mais. Porque na televisão você sabe que o processo é bem diferente.
E me encanta o processo do cinema. Essa coisa que muita gente reclama, tem
tomadas de algumas cenas picotadas e, às vezes, você começa um filme de trás
pra adiante, você faz a última cena e depois você faz a primeira. Mas isso
tudo eu acho que é instigante, eu acho que faz com que você fique mais
atento, inclusive, a amarração final do filme. Se bem que é assim, eu acho que
cinema é, não sou eu que acha, todo mundo acha, é o óbvio, cinema é uma
arte de direção. Os atores, eles se prestam, e podem contribuir,
evidentemente, com a direção, mas tudo é resolvido na edição. Mulheres: A Fernanda
Montenegro, em entrevista ao Mulheres, disse que no cinema se terceiriza o
talento, porque acaba sendo depois uma opção do diretor e do montador. Walderez
de Barros: Exatamente. Mulheres: Mas nos anos 2000
você já vem se aproximando mais, você faz o “Tônica Dominante” (2000,
Lina Chamie), e depois
o “Copacabana” (2001). A Carla Camurati reuniu em “Copacabana” algumas das
atrizes mais queridas: Miriam Pires, Ilka Soares, você... Walderez
de Barros: Laura. Mulheres: Laura Cardoso (Renata Fronzi, Ida Gomes e Rogéria são as outras) . Como foi essa confraria? Walderez de Barros: Olha,
eu adoro o filme. Acho um filme comovente, a visão da Carla sobre o bairro
Copacabana, mas especialmente sobre a velhice, a terceiríssima idade, quase. É
um olhar com muita ternura, sabe, eu gosto demais desse filme. E, na verdade, é
assim. A Carla, eu tinha trabalhado com ela antes na “Rainha da Beleza”, que
foi a primeira direção em teatro que ela fez. E tinha uma brincadeira, porque
eu fazia uma velha, bem mais velha do que eu, do que a minha idade. E quando ela
tinha me convidado eu conversei com ela e falei que era meio perigoso a gente
usar peruca de velha, para envelhecer, porque o resultado, às vezes, não é
legal. E a gente tentou, na peça, várias alternativas com o meu cabelo, porque
eu realmente parecia em cena muito mais jovem. Então tinha uma necessidade de
um envelhecimento. E a última opção acabou sendo uma peruquinha de velha
mesmo, que a gente usava ao contrário, ficava um cabelo meio maluco. Eu
eu sempre reclamava com ela, eu falava, "na primeira conversa você falou que eu
não usaria peruca e eu estou usando peruca". E aí ela falou assim, "você vai
usar essa peruca num filme", e eu disse: "jamais!" (risos).Quando a gente
estava
fazendo “A Rainha da Beleza”, ela já estava trabalhando no roteiro do
“Copacabana”. Aí quando ela me convidou, e a gente foi conversar, ela
falou, "sua peruquinha já está separada". E eu, "não acredito que eu vou ter que
usar". Mas ficou um pouco uma gozação, eu e a Laura fazemos duas irmãs, e é
óbvio, ainda mais em cinema, é óbvio que a gente ta usando uma peruca, não dá
para você disfarçar. Então a gente brinca com isso no filme, porque as duas
usam perucas iguais, fica meio que uma gozação. É, então, mas na verdade a
Carla me convidou porque ela já tinha trabalhado comigo em teatro, a gente se
tornou muito amiga, eu adorei trabalhar com ela no teatro, a direção dela foi
primorosa, como foi em “Copacabana” também. Mas então, o que eu estou te
dizendo é isso, é que de repente, cinema, se você não tem a amiga do amigo,
lárálárá, parece que não chega, porque o gueto é fechado mesmo, eles não
vêem a mim. E sem contar, vocês aqui em Minas sentem mais na pele ainda, mas
eu vou me referir só a São Paulo e Rio, por exemplo. Parecem que são países
diferentes. Então, como eu sou uma atriz que mora em São Paulo, trabalho muito
em São Paulo, eu viajo às vezes, então o pessoal do Rio, de outros lugares,
me ignoram, entendeu? Então eu falo, gente, um país tão grande como o Brasil
e não há um intercâmbio, sabe, é muito difícil. Eu estou terminando agora uma
temporada em São Paulo, do “Fausto Zero”, do Goethe, e a gente tinha a
promessa de um patrocínio, que acabou não saindo. Então, pelo menos por
enquanto, a gente não pode viajar. Você faz uma temporada e fica louca para
viajar, mostrar esse trabalho, o Brasil é imenso, tem público. E por que a
gente não consegue? Porque não há uma política cultural que possibilite
isso. Se você tem um grande sucesso nas mãos você pode sair e arriscar. Mas
quando você está fazendo uma peça que busca uma ruptura de uma linguagem cênica,
uma pesquisa de uma linguagem cênica, que você sabe que é um espetáculo mais
difícil, é muito difícil, você faz uma temporada e acaba. Mas eu comecei a dizer isso,
exatamente, por causa dessa falta de interesse, sabe, ver o que está
acontecendo no Brasil inteiro, não só nesse eixo, supostamente, o eixo mais
importante cultural que é o eixo São Paulo-Rio. Então, você tem aqui em
Minas coisas maravilhosas acontecendo, óperas maravilhosas sendo montadas, que
não estão sendo levadas para São Paulo nem para o Rio. Eu não consigo
entender porque. E não entendo porque o pessoal de cinema não se volta para a
descoberta desses talentos, que são muitos. E de repente você fica, você pode
observar, todos esses filmes que estão sendo feitos, eles apostam no nome da
televisão. O que eu acho justo, não tenho nada contra. Mas você tem que junto
com isso botar os novos talentos que não são conhecidos, né?, ou os velhos
talentos que estão por aí também. Mas é isso. Mulheres: Além desse
sonho da turnê do “Fausto Zero”, quais são os outros projetos? Walderez de Barros: Não,
por enquanto, como eu imaginava que estaria no segundo semestre viajando com a
peça, e eu não sei se isso vai acontecer, então, na verdade, eu recusei uns
convites, uns três convites de novela, que não dava para conciliar. Então
agora eu não sei, eu não sei o que eu vou fazer. Mulheres:
Muito obrigado pela entrevista. Walderez de Barros: Obrigado a você.
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