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TAINÁ
MULLER

Foto:
cena de "Cão sem Dono" (2007) ,
de Beto Brant e Renato Ciasca
A
gaúcha Tainá Muller estréia no cinema em grande estilo
como protagonista do belo “Cão sem Dono”, dirigido por Beto Brant
e Renato Ciasca. Namorada do escritor Daniel Galera, autor do livro adaptado
para o filme, Tainá se candidatou como assistente de direção,
mas acabou por conquistar o papel principal: “Acabou que teve o ápice
deles não acharem a atriz, eu já estava começando
a me sentir incompetente de não achar essa atriz para eles também.
(...) Então foi no meio disso tudo que eles olharam para mim e
eu olhei para eles e a gente falou: vamos lá então? (risos)".
Não deve ser mesmo uma tarefa fácil estrear como protagonista
de um filme de Beto Brant, um dos mais vigorosos diretores do cinema brasileiro
atual, aqui co-dirigindo com seu parceiro de longa data, Renato Ciasca.
Tainá considera: “Me assustou um pouco, mas, ao mesmo tempo, ser
com o Beto Brant foi a questão fundamental para eu não ter
dúvidas de entrar para esse projeto”. Em Cão Sem Dono”,
Tainá Muller divide a cena com o também gaúcho Júlio
Andrade (o filme foi todo rodado em Porto Alegre). Os dois estão
ótimos – Tainá recebeu os prêmios de Melhor Atriz
no Cine PE e no Festival de Cuiabá.
Tainá Muller esteve na CINEOP – 2ª Mostra de Cinema de Ouro
Preto, ao lado de Júlio Andrade e Renato Ciasca, para divulgar
“Cão Sem Dono”. Em entrevista ao Mulheres, conta como passou de
assistente de direção para protagonista do filme, sua relação
com o livro, o processo de filmagem, os trabalhos no jornalismo e a carreira
de modelo. E avisa: “Eu tenho vontade de fazer tudo. Eu acho que eu escolhi
a profissão e não o veículo. Eu acho que o ator tem
que estar aberto para fazer tudo, claro, desde que o papel, a história,
a direção, tenham a ver com o que você quer. Eu não
vou fazer nada que me agrida como pessoa e como verdade artística”.
Mulheres: “Cão Sem Dono” é seu primeiro
trabalho de atriz. Com ele, você já vem de cara como protagonista
em um filme de Beto Brant e Renato Ciasca. Brant é considerado
por parte da crítica como um dos mais vigorosos cineastas do cinema
brasileiro atual. Te assustou um pouco encarar este trabalho?
Tainá Muller: Me assustou um pouco, mas, ao mesmo
tempo, ser com o Beto Brant foi a questão fundamental para eu não
ter dúvidas de entrar para esse projeto. Acho que foi uma via dupla,
ao mesmo tempo, o desafio era proporcional ao tamanho do meu dever de
fazer, do meu dever pessoal de encarar esse projeto.
Mulheres: E a parceria com o Renato? Provavelmente você
já devia conhecer o Beto dos outros filmes dele. Como foi ser dirigida
em seu primeiro filme por dois diretores?
Tainá Muller: Para mim foi natural porque eu conheci
os dois juntos, a gente criou uma amizade em São Paulo, a gente
se encontrava quase sempre na mesma situação. Então
a conversa sobre o filme sempre foi em conjunto, daí, para mim,
a extensão para o set foi natural. Como eles tinham uma sintonia
muito grande isso facilitou. É claro que quando há dois
diretores, pode acontecer deles divergirem e ator ficar meio perdido,
mas não foi o que aconteceu com eles. Eu encarei esse trabalho
como um desafio e eu ia me culpar pelo resto da vida se eu não
tivesse topado, porque eu sou uma pessoa assim, isso faz parte da minha
personalidade. Primeiro eu topo e depois eu penso a respeito. Eu sou daquela
filosofia barata, a de que prefiro me arrepender do que faço do
que o que não fiz.
Eu achei assim, que o máximo que poderia acontecer era eu não
atender as expectativas, mas vexame eu tinha certeza que eles não
iam me deixar passar. Eles são muito competentes e se eles viram
alguma coisa em mim, se acreditaram em mim, é porque em alguma
coisa eu poderia corresponder. Mas é claro que eu também
não me permiti expectativas, nem positivas e nem negativas, na
hora em que eu estava fazendo. Depois sim, depois a gente fica viajando
como vai repercutir, como as pessoas vão encarar seu trabalho.
Mas na hora, o meu desafio foi trabalhar a não expectativa, e sim
a entrega, de estar ali o máximo e fazer o melhor possível
naquele momento. Aceitando o fato de que era o meu primeiro trabalho e
que talvez daqui a dez anos eu o interprete como pueril, como cru. Hoje
mesmo. Um ano depois de já ter estudado teatro, já ter feito
peças, eu já vejo o meu trabalho assim, talvez eu fizesse
diferente algumas coisas. Mas cinema é assim, registrou, ficou,
e eu acho bonito isso, ter registrado aquele momento da minha vida. Eu
me joguei em um abismo onde eu não sabia onde ia parar, mas essa
que é a delícia de fazer arte, de fazer cinema, você
nunca sabe onde vai parar.
Mulheres: A sua relação com o escritor
Daniel Galera (autor do livro adaptado para o filme, “Até o dia
em que o cão morreu”, e namorado da atriz), te ajudou na composição
da personagem ou confundiu?
Tainá Muller: A construção do personagem
no filme foi a seguinte. Eu fui uma das primeiras pessoas a ler o livro,
e eu gostei do livro na primeira vez que li, me emocionou muito. Me perguntam
se eu me identifico com a Marcela. Eu acho que eu me identifico. Eu gosto
muito do Daniel escritor, e eu acho que eu me identifico com todos os
personagens dele. Eu gostei muito da história quando eu li. Se
ajudou ou não na construção, eu acho que não
teve muito a ver. A minha relação com o livro era de leitora,
então eu acho que se uma atriz tivesse lido e gostado tanto como
eu, seria a mesma coisa. Tiveram muitas mulheres que viram o filme e leram
o livro e se identificaram também, tanto com a Marcela como com
o Ciro.
Eu me identifico muito com o Ciro, porque eu gosto de escrever, eu gosto
de me isolar de vez em quando, então eu não sei se interferiu
o fato de eu ter essa proximidade com o livro. Mas é claro que
durante o processo do filme, o Daniel quis se abster, não troquei
muito com ele, ele deu liberdade para a gente criar como a gente bem entendesse.
Eu procurei separar as coisas, porque o livro é uma coisa e o cinema
é outra, é uma segunda obra, uma releitura.
Mulheres: Vocês são casados?
Tainá Muller: somos namorados.
Mulheres: Há muito tempo?
Tainá Muller: Desde 2001.
Mulheres: Recuperando um pouco sua trajetória.
Você é jornalista, já tinha experiências por
trás das câmeras, tanto que você foi, em um primeiro
momento, trabalhar no filme como assistente de direção.
Como foi esse processo?
Tainá Muller: Foi quase um processo orgânico,
eu acho, coisas que a gente não consegue identificar onde começou,
onde terminou. Esses processos são orgânicos, vai indo para
um caminho natural, em que eu não sei dizer “foi aqui que eu vi
que ia ser assistente direção, e depois me tornar a atriz”.
Isso não existiu, foi uma coisa da vida me levando. As pessoas
me perguntam se fui eu que busquei a Marcela, ou a Marcela que me buscou.
Eu respondo, pergunta para o cosmos (risos), porque foi realmente uma
coisa orgânica, eu não sei identificar qual foi o momento
de transição.
Eu sei que teve um dia, depois deles terem manifestado um certo interesse
em me ter como atriz, e eu também ter manifestado o interesse de
atuar naquele filme, naquela história, com essas pessoas. Ao mesmo
tempo, a vida me colocou em outra situação que foi um convite
para a oficina de atores (Rede Globo), que era a oportunidade de estudar
gratuitamente no Rio de Janeiro. Dizem que a oficina é boa, acabei
nunca freqüentando, mas dizem que é uma coisa intensiva, que
ia me levar, me aproximar do meu foco, já escolhido anterior, antes
de ser assistente de direção eu já tinha escolhido
ser atriz.
Acabou que teve o ápice deles não acharem a atriz, eu já
estava começando a me sentir incompetente de não achar essa
atriz para eles também. Eu chegava e perguntava o que eles queriam,
que tipo de mulher é essa, tem que ser gaúcha, tem de ser
ou parecer modelo, tem que ser atriz, não pode o estereótipo
de modelo, ser uma mulher que vai além da imagem padrão
de modelo. Então foi no meio disso tudo que eles olharam para mim
e eu olhei para eles e a gente falou: vamos lá então? (risos).
Mulheres: Assistente de direção e atriz
foram escolhas. E a modelo?
Tainá Muller: A modelo foi por acaso. Eu trabalhava
há três anos na MTV de Porto Alegre e coordenava o pequeno
núcleo de jornalismo que tinha lá. Eu fazia matérias
para São Paulo, produtos de publicidade, eu dirigia os programetes.
Só que eu estava em uma fase de não querer fazer isso mais,
mas precisava ganhar dinheiro, já morava sozinha, precisava me
sustentar, diga-se de passagem, isso depois de três anos do livro
já ter sido lançado, o livro foi lançado em 2001
e isso aconteceu em 2004, quando virei modelo.
Nem pensava em ser, nunca cogitava, juro. Achava que não tinha
mais idade, não tinha mais cabeça, não tinha aparência,
não tinha altura (risos). Eu era leiga, eu imaginava que modelo
era a Gisele Bundchen, 1,80, 50 quilos, 15 anos. Mas aí um amigo
meu que trabalhava na publicidade me chamou a atenção, ele
falou que eu poderia ganhar um dinheiro a mais com isso, que de repente,
nessa transição, em que eu não sabia muito para onde
ir, eu poderia fazer uma graninha. Não levei muita fé, ri
da cara dele quando ele me falou isso. Mas ele insistiu, disse que dizia
aquilo porque realmente achava que eu poderia ser modelo, que era para
eu ir à Ford (agência), que não custava.
Aquilo me pegou, eu pensei “será?”, eu sou sempre de tentar, o
impulso de tentar faz parte da minha personalidade, não me importo
de quebrar a cara. Eu me importo quando eu não vou por medo. Então
fui lá, não tinha book nem nada, só umas fotos de
divulgação da MTV, porque eu apresentava o programete local.
Eles viram as fotos e ficaram de me dar uma resposta, não me aceitaram
de cara. Para mim, se não rolasse, tudo bem, eu também já
escrevia para revista naquela época, para jornal, estava bem perdida.
E aí o que aconteceu foi também uma seqüência
de coisas que não são tão comuns de acontecer. Na
segunda semana me chamaram para entrar na agência e já na
terceira semana, eu ainda nem tinha nem book, me chamaram para fazer uma
polaróide de biquíni. Eu não sabia para onde era,
só me disseram para trazer um biquíni para fazer uma polaróide
na agência. Eu fiz e só depois é que a booker me disse
que era para um trabalho que ela não queria me dizer para que eu
não criasse expectativas. Eu insisti para ela me contar e ela disse
então que era um trabalho para a Tailândia, mas que não
era para eu criar expectativa porque eu não era muito o perfil,
não tinha a idade, mas a que eles iam tentar. Eu fiquei um pouco
assustada, disse tudo bem, e daí, uma semana depois, eu recebi
a resposta, fiquei seis meses na Ásia, morando lá, trabalhando
como modelo, depois fiquei três meses na Europa, uma coisa louca,
2004.
Mulheres: Hoje a prioridade é a jornalista, a
modelo ou a atriz?
Tainá Muller: atriz total. Gosto de jornalismo,
gosto de escrever, gosto de me expressar, tenho um blog, onde faço
isso, e ali eu me expresso de uma forma caótica, que é o
que eu gosto. Eu acho que o jornalismo me enquadrava muito na forma de
escrever. Eu até faço de vez em quando uma coisa ou outra
pra revista. Modelo, por enquanto, é ainda o meu ganha-pão,
me permite pagar meu curso de teatro, fazer peça do Mário
Bortolotto sem ganhar nada (risos), experimentar, porque o artista tem
que experimentar. Mas o que eu quero agora para a minha vida e o filme
veio confirmar é ser atriz.
Mulheres: Qual é a peça do Bortolotto?
Tainá Muller: “Ovelhas que voam se perdem no céu”.
Mulheres: Ela ainda está em cartaz?
Tainá Muller: Ela já saiu de cartaz, nós
apresentamos na mostra Cemitério de Automóveis, em São
Paulo.
Mulheres: Onde você está fazendo o curso
de atriz?
Tainá Muller: Eu estou fazendo a oficina de atores
do Tapa, grupo tradicional de São Paulo, do Eduardo Tolentino.
Eu estou fazendo desde o ano passado e gostando bastante.
Mulheres: Você tem vontade de fazer televisão,
já tem projetos?
Tainá Muller: Eu tenho vontade de fazer tudo.
Eu acho que eu escolhi a profissão e não o veículo.
Eu acho que o ator tem que estar aberto para fazer tudo, claro, desde
que o papel, a história, a direção, tenham a ver
com o que você quer. Eu não vou fazer nada que me agrida
como pessoa e como verdade artística. Mas quero fazer tudo que
me interesse, videoarte, performance. Estou aí para tudo.
Mulheres: Além desse trabalho de divulgação
de “Cão Sem Dono”, você já está envolvida com
mais algum trabalho em cinema, longa ou curta?
Tainá Muller: Eu tenho alguns projetos, um no
teatro, e um que ainda não posso contar e que estou criando com
uma amiga minha. Mas agora, o meu foco está na divulgação
do filme, em breve eu vou poder me dedicar a tentar alguma coisa no cinema.
Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que
você assistiu?
Tainá Muller: Foi o “Rio 40, graus” (risos) -
(clássico de Nelson Pereira dos Santos exibido na noite anterior
na Cineop).
Mulheres: Sempre convido minhas entrevistadas para uma
homenagem a uma mulher do cinema de qualquer época e área.
Tem alguma que você quer destacar, que você gosta do trabalho?
Tainá Muller: Eu gosto de uma atual que acho que
vale a pena homenagear, porque está fresco em minha cabeça,
acabei de ver o filme “Ellie Parker” (2001 – Scott Coffey), que é
a Naomi Watts. Eu vou me reter a ela porque não sei se me identifico,
ela era modelo na Austrália, fez uns dez filmes, achava que não
ia dar certo, foi para Nova York, falavam do sotaque dela, ela estava
a ponto de desistir. Eu li em uma entrevista, em que a Nicole Kidman,
que era amiga dela da época da Austrália, dizia que tinha
que acontecer uma coisa para que todas as outras acontecessem. Daí
ela fez o filme do David Lynch (2001 – Cidade dos Sonhos”) e depois o
“Ellie Parker”, em que eu a acho incrível. O Julinho (Júlio
Andrade) fala isso, que é uma expressão do teatro gaúcho,
“garra nojenta”.
Mulheres: E no Brasil, tem alguma?
Tainá Muller: No Brasil tem várias. Para
homenagear, falar de Fernanda Montenegro é “hours concours” (risos),
é uma coisa impressionante. Então vou falar da filha dela,
que é a Fernanda Torres. Eu adoro, eu gosto muito de comediante,
a pessoa que consegue fazer bem comédia, com inteligência.
Para mim, como atriz, ela está lá em cima, porque o drama
também é difícil, mas a comédia, fazer comédia
bem é muito difícil e ela consegue.
Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.
Tainá
Muller: Obrigada.
Entrevista
realizada em junho de 2007 na
CINEOP - 2a Mostra de Cinema de Ouro Preto
O Mulheres viajou a convite da Cineop.
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