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Foto:
acervo de Simone Zuccolotto Para todos nós, pesquisadores e
amantes do cinema brasileiro, o Canal Brasil é um templo sagrado pelo qual
passa todo o Cinema Nacional: os grandes sucessos e os filmes malditos; o cinema
autoral e o cinema de entretenimento; os clássicos e os da última safra, os
grandes atores e atrizes; os comediantes; os cineastas; as produções. Ao lado
de todo esse Olimpo, o Canal Brasil segue também mapeando, através do olhar
jornalístico, tudo o que se vem fazendo no set brasileiro. É o Cinejornal,
programa que vai ao ar aos sábados, com reprises durante a semana. O Cinejornal é fundamental para que
possamos acompanhar o processo do Cinema Brasileiro. E o sinônimo desse
bem-sucedido jornal é a bela Simone Zuccolotto, jornalista já um tanto íntima
de todos nós que a acompanhamos durante esses últimos três anos no Canal.
Simone Zuccolotto apresenta também uma das faixas mais interessantes do Canal,
e também uma das de maior ibope, que é a Sessão Interativa. Simone Zuccolotto
está à frente ainda de várias matérias e entrevistas veiculadas na sessão
Claquete, além de assinar alguns projetos mais que interessantes como a série
“Glauberianas”. No momento, prepara uma série de quatro programas sobre o
cinema dos anos 70 e 80 - comédias eróticas, pornochanchadas e sexo explícito
- chamada “Foi Bom Para Você?”. Simone Zuccolotto esteve cobrindo a 9a
Mostra de Cinema de Tiradentes, e concedeu essa entrevista exclusiva para o
Mulheres. Durante um ótimo papo, refez sua trajetória desde os tempos da
Faculdade de Jornalismo, passando pelos vários canais pelos quais passou, todos
eles da melhor qualidade: Telecine, TVE, Multishow e o atual Canal Brasil.
Espectadora assídua do cinema brasileiro e jornalista atuante e presente nos
mais diferentes sets de filmagem e festivais, Simone Zuccolotto faz questão de
acompanhar tudo, ”de 94 para cá eu vi quase tudo do cinema brasileiro, no
cinema. O atual, o contemporâneo. E o para trás, enquanto eu ia ao cinema
assistir uma obra contemporânea, eu assistia em casa um filme antigo, o que
determina muito o trabalho que eu faço no momento”. Mulheres: O Cinejornal e a Revista do Cinema Brasileiro são,
cada um com o seu formato, canais que possibilitam a todos nós, gentes da área
e amantes do cinema brasileiro, acompanhar a produção audiovisual no Brasil.
Como é estar à frente do Cinejornal e com esse trabalho tão bacana e tão
fundamental para compreensão desse processo? Simone Zuccolotto: Eu acho importantíssimo, porque
embora seja um programa que seja exibido em uma tv a cabo, e isso significa que
o telespectador fique mais restrito, eu acho que é fundamental porque não
existe nenhum outro programa que se dedique dessa forma ao cinema brasileiro. E
o cinema brasileiro atualmente, e mesmo nas piores fases, é muito importante não
só pelo cinema em si, mas para mostrar todo um contexto político, social e
econômico do Brasil. Eu acho que ele é esclarecedor de todos esses pontos. E
ao estar fazendo um jornalismo sobre cinema, você acaba se sentindo parte dessa
indústria chamada cinema brasileiro. Mulheres: Quanto tempo tem o Cinejornal? Simone Zuccolotto: Eu estou há três anos, mas o
Cinejornal já existe desde o surgimento do Canal Brasil, perto de 10 anos. Mulheres: É uma equipe grande? Simone Zuccolotto: A gente tem uma equipe de produção
responsável também pelo Cinejornal e por outros programas do Canal, como a
Sessão Interativa, que eu faço também. O Cinejornal em si é formado por mim,
que apresento, faço reportagens e edito algumas matérias; por uma editora
responsável, que é a Érika Rodrigues; uma repórter, que é a Bernadete, que
também faz reportagens além de mim; mais um redator e um produtor. É uma
equipe bastante pequena, mas muito boa, e que além de assistir muito filme,
estudar e conhecer o cinema brasileiro, gosta muito de cinema. O pré-requisito
de todo mundo é esse, são pessoas que gostam de cinema, antes de serem
jornalistas que trabalham com cinema.. Mulheres: Com essa pauta do Cinejornal, isso te faz cobrir
todos os festivais e as produções também, não é? Imagino que seja uma
maluquice a sua vida. Simone Zuccolotto: É, esse ano principalmente, pois
o Canal fechou uma parceria com a Petrobrás, então é uma loucura. O Brasil
tem mais de 100 festivais, a gente não cobre absolutamente todos, mas a maior
parte, então é uma delícia. A gente está aqui em Tiradentes, então você
tem nove dias de festival, daí a pouco volta para o Rio, e aí tem um monte de
estréias, um monte de filmes sendo rodados, making off. Daqui a pouco eles vão
começar a mexer na política do audiovisual, que foi muito discutida no ano
passado. Então é muito bom porque não tem rotina nenhuma, porque cada dia você
está em um lugar, cobrindo um filme diferente e com pessoas muito
interessantes. As pessoas que giram em torno do cinema são pessoas muito
interessantes. Mulheres: O que acaba também desaguando em outros formatos.
Na grade de programação tem as claquetes, para as quais você também faz matérias,
não é? Simone Zuccolotto: É, a claquete é o seguinte: o
programa vai ao ar no sábado e reprisa no domingo, na segunda e na terça.
Depois dessas reprises, a gente desmembra o programa, a maioria das matérias
vira claquetes. Além disso, como o Cinejornal é semanal e só tem meia-hora,
tem muita coisa que não cabe ali dentro, o espaço é pequeno, então a gente
faz matérias e solta como pílulas na programação. Então tem muitas que são
inéditas, que não foram exibidas no Cinejornal. E assim supre o Canal,
esquenta o Canal, fica um canal quente, um canal em movimento, Porque por mais
que você esteja vendo, por exemplo, os Tesouros Brasileiros, de 1940, 1950, aí
de repente acaba o filme e antes de começar um outro de 1980, você tem uma
material atual, de um filme que está sendo rodado ou de um festival, enfim de
qualquer assunto atual, factual do cinema brasileiro. Mulheres: Você apresenta uma outra atração que eu,
particularmente, adoro, que é a Sessão Interativa. Porque é uma forma de você
brincar com o elenco, com a cartela de filmes, e a gente, como espectador, acaba
interferindo naquele processo. E é sempre um foco interessante, seja de ator,
atriz, direção ou tema. Como é esboçada a Sessão Interativa? Simone Zuccolotto: Então, os filmes são definidos
pelo gerente de programação, e, a partir daí, ele monta esses bloquinhos temáticos,
como o descobrimento do Brasil, e aí escolhe três filmes que falam sobre o
tema. Ou pega por atores, perfis, um diretor, e faz isso. E é muito curioso
porque a Sessão Interativa é uma faixa que tem uma audiência muito boa no
canal. E é assim, a gente escolhe três filmes e conta um pouquinho de cada um
deles para a pessoa votar naquele que ela quer assistir na sexta-feira. Com o
tempo a gente foi percebendo que os filmes que têm um teor com uma dose de
erotismo maior, com cenas mais quentes, eram sempre os mais votados. Por
exemplo, em três filmes com a Monique Lafond, o que tinha as cenas mais
picantes, o erotismo em mais alto grau, é sempre o filme escolhido. É curioso,
pois a gente fez esse teste depois, a gente colocava uma Sessão Interativa, por
exemplo, com o Paulo José, que não fez muita coisa assim, e a audiência era
bem diferente. E a partir disso, eu até estou
produzindo uma série de quatro documentários, quatro programas para o Canal,
que se chama “Foi Bom pra Você?”. Ele vai abordar exatamente o sexo e o
erotismo no cinema brasileiro do início dos anos 70 até o final dos anos 80.
Vai passar pela comédia erótica, pela pornochanchada, essas duas palavras são
chaves para falar desse assunto. Comédia erótica, pornochanchada e no início
dos anos 80, quando o cinema brasileiro entrou na era do sexo explícito, até o
final dos anos 80, quando pararam de fazer o sexo explícito por causa do
videocassete e uma série de fatores. Então,
esse projeto foi a partir de uma indicação da Sessão Interativa. Mulheres: Nesse projeto você vai recuperar os personagens, os
atores, as atrizes? Simone Zuccolotto: Sim, já entrevistei Carlo Mossy,
Alfredo Sternheim, Helena Ramos, Mojica, que foi um cara que fez muito filme de
zoofilia e sexo explícito, Jece Valadão, Victor di Mello. Já entrevistei uma
turma. Mulheres: Tem uma atriz maravilhosa, mas dizem que ela não
quer falar a respeito... Simone
Zuccolotto: … A Matilde Mastrangi? Mulheres: Não, a Meire Vieira. Simone Zuccolotto: A Meire Vieira é uma que estava
na lista. A gente tem algumas pessoas, e é engraçado, até agora, da nossa
lista, a gente não teve negativa de ninguém. Mas realmente tem algumas que não
falam sobre o assunto. A gente vai tentar falar com a Vera Fischer. A Matilde
Mastrangi é uma que a gente está tentando, mas não estamos conseguindo falar
com ela. É engraçado, as mulheres têm mais resistência, até porque é um
tema que explorava corpo e tal. Mas eu acho que vai ser bacana, ainda não tem
data, será talvez para o final desse semestre ou início do próximo. É engraçado
como a própria programação, como no caso da Sessão Interativa, foi uma
indicação do próprio telespectador, porque foi uma resposta dele que fez com
que eu pensasse nessa série e fizesse essa proposta para o Canal, e eles
topassem. Mulheres: O Canal Brasil é fundamental para todos nós,
pesquisadores e amantes do cinema brasileiro. Como se dá o processo interno,
cada programa convive e troca informações com as equipes de outros programas,
ou são estruturas fechadas? Simone Zuccolotto: A gente tem alguns programas
terceirizados, o programa do Paulo Betti, do Selton Mello, eles já chegam
pronto no Canal, é uma parceria. Mas os programas produzidos pela nossa equipe
de produção, apesar de ter assim separado você é do Cinejornal, você é da
Sessão Interativa, você é de outro projeto especial, apesar disso, é todo
mundo junto na mesma sala, o tempo inteiro. Então a gente almoça junto, toma
café junto, e aí existe uma troca total, por exemplo, uma pessoa que está me
ajudando muito nessa série de quatro documentários é a Fernanda, que faz os
textos da Sessão Interativa. Como na Sessão Interativa a gente passa muitas
comédias eróticas e pornochanchadas, ela viu muita coisa. Então é uma troca,
a gente tem pessoas especializadas em temas, tem o Fernando que acabou de ser
contratado, ele era estagiário, estudante de cinema, a gente sabe que as
coisas-cabeça o Fernando sabe. Mulheres: De vez em quando vem esse boato de que o Canal
Brasil vai encerrar, problemas de manutenção do canal. Simone Zuccolotto: Na verdade, a gente teve um
problema, eu não estava lá, que foi há uns três anos, e estava com problema
de gestão, era um outro diretor do Canal, o Wilson Cunha. E aí o Paulo Mendonça,
que é um dos sócios do Canal, assumiu e em um ano virou e agora o Canal está
muito bem. Você deve ter percebido que deu uma movimentada no Canal e mudou,
agora é outra história. Estamos firmes e fortes (risos). Mulheres: Eu acompanho a programação diariamente e a vejo
sempre, e a impressão que você me dá é que no Canal Brasil é como você
estivesse em casa. Tem o lado profissional, evidente, mas eu vejo também uma
tranqüilidade muito grande em você. Conta para nós como foi sua trajetória
até chegar ao Canal Brasil. Simone Zuccolotto: Eu fazia jornalismo na Puc, no
Rio de Janeiro, e aí no primeiro estágio, já mais para o final, no sexto período,
foi no Telecine. Eu comecei a estagiar lá, e em três meses já era produtora.
Aí fiz reportagem no Telecine e depois fui para a TVE. Na TVE eu primeiro fiz
reportagens e depois apresentei um programa de cultura, chamado Caderno2, que
falava sobre cinema, teatro, música, todos os segmentos culturais. Fiquei uns
seis anos lá, mas antes de terminar esse período, eu já entrei para o
Multishow, e fiquei nos dois lugares. Daí, fiquei também quase seis anos no
Multshow, que é um canal de variedades, cultura e entretenimento, e depois fui
para o Canal Brasil. Na verdade, sem ser uma opção minha, a cultura acabou
sendo minha área. Eu também escrevia para o Valor Econômico na Editoria de
Cultura, e a cultura acabou mesmo determinando a minha carreira, ser uma
apresentadora, uma editora de cultura. É curioso porque eu sempre gostei, sabe
aquela história de você pegar o jornal e sempre ler a página cultural
primeiro, ser sempre o encarte que você lê primeiro? Sempre foi assim, mas na
verdade eu não optei, pois quando fui fazer jornalismo eu queria trabalhar em rádio,
em rádiojornalismo, mas acabou, ainda bem, que a vida profissional me levou
para esse caminho. Mulheres: Você consegue lembrar as datas dessa sua trajetória? Simone Zuccolotto: Em 1990 eu entrei no Telecine e
fiquei até 1992. Fiquei na TVE de 92 até 98. Eu entrei no Multishow no final
de 1996 e fiquei até 2003, e aí entrei no Canal Brasil em seguida. Mulheres: É uma trajetória interessante, porque todos esses
veículos dão um tratamento bacana para a cultura. E nem sempre a gente pode
fazer isso na nossa trajetória profissional. Simone Zuccolotto: Isso é verdade, ainda bem que eu
acabei trabalhando em programas e produções que registram a cultura brasileira
de uma forma bacana, mas eu não sei se não fosse dessa forma eu toparia,
entendeu? Porque eu acho que esse cuidado e essa preocupação que eu tenho em
tratar a cultura brasileira é o motivo de eu estar nesses lugares também, eu não
sei se fosse para fazer outra coisa eu estaria. Mulheres: E o cinema brasileiro, quando acontece na sua vida,
de querer participar desse processo de entendimento, de reflexão, de divulgação? Simone Zuccolotto: Eu nasci nos anos 70, então
quando eu comecei a assistir eu peguei um período muito ruim do cinema
brasileiro que foi os anos Collor, toda aquela crise do cinema brasileiro. Isso
eu peguei muito na fase da adolescência, um pouquinho mais, enfim, foi quando
eu queria ver muito cinema brasileiro, e foi nesse momento ruim. E aí, a partir
da retomada, eu acho que eu faço parte da retomada do cinema brasileiro, começaram
a pintar os filmes e eu comecei a trabalhar muito. A partir desse movimento, da
retomada, os filmes começarem a chegar aos cinemas, eu comecei também a ver
muita coisa antiga importante e que eu não tinha visto. De 94 para cá eu vi
quase tudo do cinema brasileiro, no cinema. O atual, o contemporâneo. E o para
trás, enquanto eu ia ao cinema assistir uma obra contemporânea, eu assistia em
casa um filme antigo, o que determina muito o trabalho que eu faço no momento.
Por exemplo, eu fiz uma série chamada “Glauberianas”, foram seis programas
sobre o Glauber. Eu já tinha visto muita coisa do Glauber, mas aí peguei toda
a filmografia dele para rever. Agora que eu estou pegando esse período entre 70
e 80, eu estou vendo muita coisa sobre esse tema, é muito amplo, então estou
vendo muita coisa. Às vezes vou fazer uma matéria especial ou um perfil de um
diretor, e como sou muito obsessiva, por mais que eu saiba que a matéria será
de cinco minutos, o que para os padrões da TV é grande, eu gosto de entender
aquela pessoa, eu gosto de saber tudo sobre a vida daquela pessoa. Por mais que
aquilo não me sirva para a entrevista, é assim que eu me sinto mais segura, o
que facilita muito. Mulheres: Você disse que a nova série, sobre as comédias eróticas
e as pornochanchadas, surgiu a partir da Sessão Interativa, e já citou também
outra série que foi a Glauberianas. Como se dá o processo, você propõe
pautas? Simone Zuccolotto: No caso da Sessão Interativa, eu
achei importante fazer essa série porque se as pessoas se interessam pelo tema,
eu acho importante fazer um documento jornalístico sobre ele, é de interesse
do público. No caso do Galuberianas, o Canal comprou da dona Lúcia Rocha, mãe
do Glauber, um material, que era a participação dele no programa Abertura da
TV Tupi. Daí, ao invés de só exibir esse material, eles me propuseram que eu
inserisse esse material em um programa jornalístico. Foi uma proposta do Canal
e eu fiz seis programas de meia-hora. Eles
estão sempre abertos. Agora eu devo fazer alguns retratos brasileiros, a partir
desses personagens que eu estou descobrindo nessa série que eu estou fazendo. Mulheres: Você, que está acompanhando o chamado Cinema da
Retomada, e que vem participando dos festivais, acompanhando as produções e
conversando com todo mundo. Como você está vendo esse processo do cinema
brasileiro? Simone Zuccolotto: Tem muita gente que fala que o
cinema brasileiro é cíclico, mas eu acho que isso na verdade é uma maldade.
Nessa nova geração, que não é nem mais retomada, tem pessoas muito
talentosas. Eu acho que a gente está muito bem servido de diretores, de atores,
de atrizes, de produtores, o que eu acho é que a gente precisa criar uma escola
de roteiros. O cinema argentino é um exemplo. Se você for ver, eles não têm
dinheiro, eles estão ainda numa crise muito séria e no entanto você pega
qualquer filme argentino e você vê que eles são muito bons em roteiro. Eles têm
uma boa escola de roteiros. O Brasil também precisa fazer uma boa escola de
roteiros, porque nós já temos bons roteiristas. Eu acho que o mais importante, e é uma
questão complexa, é o de se formar uma indústria de cinema nacional. O cinema
nacional é hoje todo subvencionado pelo Governo, Se você pegar, por exemplo, o
cinema da época das comédias eróticas, das pornochanchadas, e do próprio
sexo explícito, sem discutir qualidades artísticas ou não, você vê que teve
ali um momento de indústria cinematográfica brasileira. O dinheiro era todo
apoiado no capital privado, era fazer um filme, vendê-lo para, sei lá, quatro
milhões de espectadores, e com essa grana fazer outro filme. Eu não sei de que
forma, eu não sou uma estudiosa no assunto, eu não participo dessa área, mas
eu acho que o cinema brasileiro precisa construir uma indústria cinematográfica
para tentar sair da barra da saia do Governo. Eu acho que em termos de mão de
obra, de qualidade artística, a gente não fica pra trás. Tanto que a gente vê
por aí uns expoentes, um Fernando Meirelles da vida, um Walter Salles, enfim,
dirigindo filmes fora e não devendo nada a ninguém. Para os atores já é um
pouco mais difícil de sair, porque tem o sotaque. Mulheres: Nesses seus vários trabalhos para o Canal Brasil, dá
para você citar alguns momentos especiais? Simone Zuccolotto: Eu gosto dessas séries especiais
porque eu me envolvo muito. Tem algumas entrevistas especiais para o Cinejornal.
Tem as transmissões ao vivo de Gramado, tem as coberturas do Festival de Brasília,
que é um festival que eu adoro, é muito bom trabalhar em Brasília, o público
é muito bom. E tem entrevistas especiais. Eu entrevistei há pouco tempo o José
Dumont, que é um ícone do cinema brasileiro, uma entrevista ótima. Conversei
com o Walter Salles e a Daniela Thomas recentemente para o lançamento do
“Terra Estrangeira” em DVD. Aliás, tem uma amiga minha que fala que quando
conversa com o Walter Salles sai mais inteligente (risos). E tem outras figuras que não são
nomes tão grandes do Cinema Brasileiro mas que às vezes a gente acaba se
surpreendendo. Tem um outro grande nome que é a Dira (Paes), que é sempre um
bom papo, que está sempre em todos os festivais. Entrevistei o Pelé no lançamento
do documentário; Beto Brant, que está lançando filme agora, e que é sempre
um papo excelente. Sérgio Machado, com esse filme maravilhoso que ele acabou de
fazer com o Lázaro Ramos, o Wagner Moura e a Alice Braga (“Cidade Baixa”).
Eu acabei de chegar de Salvador e falei com o Edgar Navarro, que ganhou o
Festival de Brasília e está aqui em Tiradentes também com o “Eu Me
Lembro”. Mulheres: Teve uma época em que não havia muitas publicações
sobre o cinema brasileiro, mas hoje, felizmente, mudou, e temos uma oferta muito
interessante, como a Coleção Aplauso. Você pensa, com a sua formação jornalística
e acompanhando o cinema brasileiro tãod e perto, em desaguar para outras praias
além da televisão? Simone Zuccolotto: Um livro é até uma boa idéia,
mas em princípio não. Eu gostaria
muito, e isso é um projeto muito ambicioso, mas nessas pesquisas que eu estou
fazendo para essa série sobre o sexo, eu estou tendo uma dificuldade muito
grande. A gente tem uma Enciclopédia do Cinema Brasileiro, mas mesmo ela não dá
conta de um monte de nomes.Uma enciclopédia de nomes e filmes seria
maravilhoso, é um projeto louco e ambicioso, não é o meu, mas eu gostaria de
ter a possibilidade de ter uma fonte de pesquisa como essa. Mas escrever, por
enquanto, não. Eu escrevi para jornal durante um tempo, mas não é uma coisa
que eu penso no momento. Eu ainda estou muito focada na TV, mas mais para frente
eu talvez escreva alguma coisa. Mulheres: Você disse que vai fazer alguns Retratos
Brasileiros. E fazer filmes, te interessa? Simone
Zuccolotto: Eu gosto muito de documentários. Eu acho que documentário pode ser
um braço na minha carreira, mas ficção definitivamente não. Eu gosto muito
de documentários, eu gosto de assistir, de personagens, eu gostaria de fazer.
Também não tenho um personagem, uma coisa fixa que eu gostaria de fazer, mas
é um gênero que me interessa muito e provavelmente mais pra frente vai fazer
parte da minha vida. Mulheres: E o seu foco inicial, o rádio, abandonou por
completo? Simone Zuccolotto: O rádio foi a única mídia em
que não trabalhei, já trabalhei em jornal, revista, televisão, Internet, mas
eu gostaria. Eu acho que ainda não trabalhei por falta de uma oportunidade, mas
é uma coisa que me interessa. Rádio é uma loucura, a agilidade, chega rápido,
é impressionante. Estou aberta para propostas no rádio (risos). Mulheres: E TV aberta? Por exemplo, eu acho que o Canal Brasil
deveria ser veiculado em tv aberta. Você tem uma trajetória grande em canais
fechados. Como você vê isso, as tvs fechadas segmentadas e as abertas com uma
programação com uma qualidade cada vez menor? Esse diálogo não existe, elas
são completamente estanques? Simone Zuccolotto: São estanques, mas é uma pena,
é um reflexo mesmo da nossa sociedade. A cultura não chega na massa, para o
povo, só quem tem a possibilidade de pagar uma tv a cabo tem acesso a isso. Eu
acho uma pena, não por questões pessoais de vaidade, isso não me interessa
definitivamente, mas eu gostaria muito que o meu trabalho chegasse ao grande público.
Um dos motivos que eu escolhi fazer jornalismo foi por causa dessa função
prestadora de serviço que o jornalismo tem, pelo menos uma parte do jornalismo.
Então, eu ficaria muito, mas muito grata se o meu trabalho pudesse chegar a
essas pessoas. Não que eles gostassem ou não, mas que eles conhecessem. Eu dou
aula também em Universidade, então é mais uma forma de eu tentar passar,
tentar levar a algumas pessoas o que eu conheço de cinema. Mulheres: Você dá aula de quê? Simone Zuccolotto: Eu dou aula de telejornalismo, de
redação para tv, na Estácio de Sá. È uma pena, mas eu acho que a tv a cabo
é o retrato cruel da nossa sociedade. Mulheres: É claro que são formatos diferentes, apesar de que
no jornalismo é possível trafegar por ambas. Mas a Tv aberta te seduz? Porque
mesmo que você tenha feito a TV Cultura, ainda assim é um veículo
diferenciado. Simone Zuccolotto: TV aberta não me interessa não.
Na verdade, a minha idéia é continuar trabalhando com esse segmento, e agora
mais do que nunca, agora eu não escapo, e é realmente o que eu gosto. Eu não
gostaria de trabalhar em uma editoria de economia, política, não é o meu
interesse. Cultura eu gosto muito de forma geral, e agora especificamente o
cinema. Mulheres: Nesse tempo que te sobra, entre uma viagem e outra,
entre uma cobertura e outra, você é uma espectadora do cinema brasileiro? Simone Zuccolotto: Eu vou muito ao cinema (risos),
eu adoro. Eu vou pelo menos duas vezes por semana, eu adoro. Vejo também DVD em
casa. Se eu pego a programação do jornal e não tiver visto pelo menos a
metade dos filmes eu me sinto defasada (risos). Quando combino de ir ao cinema
com meus irmãos, que são mais novos, acontece deles escolherem um filme e eu já
ter visto, daí eles escolhem outro, e eu também já vi, e aí eles reclamam
“pôxa Simone” (risos). Mulheres: Você já citou o “Cidade Baixa”, quando falou
do Sérgio Machado.Tem mais algum filme que você tenha gostado muito? Simone Zuccolotto: Na hora da gente lembrar a gente
esquece um monte, mas desses recentes eu gostei muito do “Cinema, Aspirinas e
Urubus”. Eu gostei muito do filme que ainda não está no circuito do Lírio
Ferreira, chamado “Árido Movie”, eu gosto muito da coragem daquele filme do
Lírio. Gosto muito do “Cidade Baixa”, muito, muito, muito, aquela cena
final sensacional, Vi agora “A Máquina”, aqui em Tiradentes, achei tão
fofinho, já tinha assistido a peça, um filme muito delicado. E tem os documentários. Eu vi o do
Evaldo Mocarzel, “A Margem do Concreto”, que faz parte da trilogia. Eu já
tinha visto “Á Margem da Imagem”, muito bom também. Tem o “Morro da
Conceição”, que é da Cristiana, que é assistente do Coutinho. Gosto de
todos os filmes do Coutinho, esse último, inclusive, “O Fim e o Princípio”.
Nossa, no Festival do Rio, em 2005, eu acho que eu vi mais de 15 filmes
brasileiros, e filmes bons. Eu fiquei tão feliz com o festival do Rio, uma
safra boa do cinema brasileiro. E tem “O Jardineiro Fiel”, que apesar de não
ser um filme brasileiro, por causa do Fernando Meirelles a gente acha que é. E
o filme tem muito do Fernando. Mulheres: A cada dia cresce cada vez mais a presença das
mulheres no cinema brasileiro, Hoje elas ocupam inúmeras funções atrás das câmeras.
Como você vê esse movimento? Simone Zuccolotto: Eu acho que é isso, é a nossa
sociedade mesmo, é a mulher cada vez mais chegando ao mercado de trabalho, e no
cinema também. Eu acho que é fundamental essa troca, nesse caso eu acho que é
como em qualquer profissão, não tem médico e médica, então, é a mulher
chegando ao mercado de trabalho. Mulheres: Um dos motivos pelos quais te fiz essa pergunta e
que também é um dos motivos pela existência do site, é que como pesquisador
eu acho que essa história de olhar feminino é uma das maiores balelas
reducionistas. O que eu acredito é que são homens e mulheres fazendo a história
do cinema brasileiro. Simone Zuccolotto: Sim, eu também acho. Imagina,
devia ser uma pedreira uma mulher fazer cinema na época da Carmen Santos, mas
essa coisa de olhar feminino é nada, é uma bobagem, não temos aí um Chico
Buarque escrevendo letras como se fosse uma mulher? Enfim, na hora do trabalho não
tem sexo, no cinema, por exemplo, porque é claro que no trabalho braçal tem
diferenças. Já a sensibilidade está presente no homem e na mulher. Mulheres: Você gostaria de homenagear alguma mulher de
qualquer área e época do cinema brasileiro aqui na entrevista? Simone Zuccolotto: Eu gostaria de homenagear as
produtoras brasileiras, nenhuma específica, mas as produtoras porque são as
viabilizadoras, é a parte onde o cinema mais empaca. È nessa coisa da capacitação
de recursos, da grana para realizar, e é uma atividade que é um pouco
esquecida. Normalmente, as produtoras são aquelas mulheres que sobem ao palco só
para agradecer os patrocinadores e são pessoas muito importantes, na verdade
maestros de uma produção. Sem desmerecer os atores, as atrizes, as diretoras,
e todas as que estão por trás das câmeras, como as jornalistas. Mulheres: Mais alguma coisa que eu não te abordei e que você
gostaria de acrescentar? Simone Zuccolotto: Não, eu acho que é isso mesmo,
um desejo que o cinema brasileiro cada vez mais ocupe espaço, e principalmente
o espaço brasileiro. Mulheres: Muito obrigado pela entrevista. Simone Zuccolotto: Muito obrigada.
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