|
|
|
|
|
|
|
Estréia nacional dessa semana,
“Cazuza – o tempo não pára” é o aguardo filme sobre aquele que é
considerado o maior poeta do rock dos anos 80, Agenor, o Cazuza. O Filme reúne
na direção dois cineastas de trajetória importante como documentaristas: ela,
Sandra Werneck, que já dirigiu documentários premiados como "Geléia
Geral" e “Boca” (1994),
e também as comédias românticas de grande sucesso, “Pequeno Dicionário
Amoroso” (1997) e “Amores Possíveis” (2001); e ele, Walter Carvalho, um
dos maiores fotógrafos do Cinema Nacional, e diretor também do belíssimo
“Janela da Alma” (2001), co-dirigido por João Jardim. Sandra Werneck, Walter Carvalho e
Daniel Oliveira estiveram em BH para lançamento do filme em pré-estréia para
convidados, e depois conversaram com a imprensa. O Mulheres fechou seu foco em
Sandra Werneck para conhecer um pouco mais sobre sua obra e sua forma de fazer
cinema, em coletiva com outros colegas da imprensa. Perguntada sobre as dificuldades
para a realização do filme, Sandra disse que “o mais complicado é que o
Cazuza era tão inquieto, era tão criativo, a vida dele, o coletivo em torno
dele era tão cheio de alegria, cheio de vida, que para fazer uma leitura dessa
vida, de 10 anos dos 32 que ele viveu, você todo dia tinha que fazer
escolhas”. E completa, “Se eu tivesse que fazer esse filme de novo, seria um
filme de cinco horas”. Mulheres: Como você vem de
uma trajetória inicial importante como documentarista, e depois com duas comédias
românticas, até que ponto essa sua trajetória como documentarista influenciou
no seu olhar? Sandra: Eu acho que sem dúvida,
até na comédia romântica, por eu ter feito muitos documentários, ajuda a ficção,
né? Porque exatamente essa emoção do documentário, a emoção do momento,
isso ajudou muito no “Cazuza”. Porque filmar determinadas coisas num show,
deixar a câmera solta, isso o Walter também pode falar muito bem disso porque
ele fez muitos documentários. Agora, o que eu acho em comum nisso tudo é que
mesmo no documentário e na comédia romântica, como agora no “Cazuza”, eu
não me afastei um minuto do meu foco. Meu foco é: relações humanas. No
documentário já era, nas comédias românticas já era, e agora continua
sendo. O que é em “Cazuza”? É a relação dele com a banda, relação com
pai e mãe, com os amigos, com a poesia. É um filme sobre o afeto. Sobre o amor
também. Então eu acho que eu continuei no meu foco, apesar de ser um filme
rock´n roll, mais rock´n roll. Mas o foco sempre esteve aí, no mesmo lugar. (Abordada sobre a expectativa em relação
ao público, Sandra Werneck diz que pensa em “um público amplo, em que não o
conheceu”. E diz, “Você não vê na história do cinema brasileiro filmes
de cantores, de poetas, de músicos, você não tem muito”. E faz questão de
dizer: “O filme é totalmente ficção. É documental na forma de filmar.
Atores jovens interpretando de forma solta, tudo na mão. É como se o próprio
Cazuza e os meninos da banda estivessem fazendo esse filme. É um filme mais
transgressor na sua linguagem”.) (Como havia dito que o filme é o
seu Cazuza, ela é perguntada qual é esse seu Cazuza, e ela,
“Não dá para atender a todos. Meu Cazuza é transgressor, é amoroso,
é mimado, é agressivo, é amigo, é muito amigo, é cúmplice, é parceiro, é
doidão, é sexual, é solar e sombrio, esse é o meu Cazuza”.) Mulheres: É, esse é o seu
Cazuza. Ainda assim, ele foi inspirado, ou baseado, no livro da mãe dele (“Só
as Mães são Felizes”, de Lucinha Araújo – e Regina Echeverria). Até que
ponto é completamente livre o seu Cazuza, ou é através do filtro do livro? Sandra: É, eu vou dizer o
seguinte, o filme é baseado no livro “Só as Mães são Felizes”. Tem várias
seqüências do filme que estão no livro. Agora, tem muitas seqüências que eu
fui ouvindo, eu pesquisei muito gente, então, por exemplo,
aquela mordida que o garoto dá na mão eu ouvi de um dos amigos dele,
entendeu, eu fui montando coisas. Mulheres: Um ponto muito
importante que eu vi no filme foi a interpretação do Daniel (Oliveira) -
fabuloso. O Walter disse na apresentação (na abertura da pré-estréia) que
Deus tinha colocado ele no caminho de vocês, você... Sandra:
Eu acho que o Cazuza colocou no nosso caminho. Mulheres: É? Ele conseguiu
passar para a tela tudo o que você imaginou, você e o Walter? Sandra: Tudo, tudo. Mulheres: A composição do
Cazuza? Sandra: Tudo, tudo. Tem
horas que o pai, que viu o filme, eu já to dizendo aqui, ele jura que no “o
tempo não pára” tem horas que é o Cazuza verdadeiro, e não é. Não tem
Cazuza verdadeiro. Não tem. É só o final, naquelas imagens em Super 8... Só
tem planos de costas do Cazuza verdadeiro (no show do Rock´in Rio) de longe. (Sandra conta que foi convidada pelo
produtor Daniel Filho, da Globo Filmes, para dirigir o filme. E daí convidou o
Walter, “É o casamento mais longo que já tive na minha vida, já dura 20
anos, casamento cinematográfico, é bom dizer, já que sou amiga da mulher
dele”. E diz que chamou o parceiro porque “Era um filme muito grande, um
desafio muito grande, uma responsabilidade muito grande. Eu ia ter muitas angústias,
eu falei, ele vai me ajudar criativamente e humanamente. Eu não vou conseguir
fazer isso sozinha”.) Mulheres: Agora, no elenco,
eu sei que o Daniel foi indicado, a Marieta Severo, a princípio, fala que era o
próprio Cazuza porque elea achava parecida com a mãe. E o Reginaldo Farias foi
como? Porque... Sandra: ... (levantando o
dedo) Eu escolhi, eu escolhi, e o Walter me apoiou. O Daniel Filho queria outro
ator, mas eu fiz questão que fosse o Reginaldo. Mulheres: É novamente o casal, a Marieta e o Reginaldo, que fez o “Com Licença eu vou à Luta” (Lui Farias, 1996). E agora, novamente eles funcionam, com personagens bem diferentes, numa química perfeita. (Ao ser citado a semelhança entre
Daniel e o Cazuza, Walter Carvalho diz, “Eu nem acho que o Daniel tem essa
semelhança física com o Cazuza. Ele pegou o espírito, o espírito da
representação”. E sobre as músicas, Sandra diz que o Daniel canta bem, que
ele canta em todos as apresentações pequenas, de garagem. Nos shows grandes é
o Cazuza, e mesmo assim misturado. E completa, “Quando eu vi “The Doors”
(Oliver Stone, 1991), eu falei assim: eu nunca na minha vida vou achar um ator
brasileiro, que esse cara faça o que o cara
(Val Kilmer) do “The Doors” fez. Eu nunca vou conseguir isso, eu
pensava todo dia E eu acho que a gente não fica atrás dessa veracidade de
atuação”. E Walter, “O Daniel não foi para o filme, ele saiu do
filme”.) Mulheres: E de vocês, tinha
algum receio de vocês, de alguma forma, alguma preocupação com o aval
da Lucinha? Sandra: Não, assim, desde
o começo a Lucinha ficou muito... é claro que eu ficava sempre pensando, Ai
Meu Deus do Céu!, eu sou mãe, como é que ela vai receber o filme, eu ficava
“ai”. No dia em que ela foi ver o filme eu fiquei roendo as minhas unhas
inteiras. É claro, né?, é uma leitura da gente, não é uma leitura dela. Eu
não posso querer que ela tenha a mesma, mas ela hoje é apaixonada pelo filme,
ela é apaixonada pelo filme.E eu acho tão bonito, porque uma coisa é você
escrever um livro, são letras, né? Outra coisa é você ver o seu filho
beijando outro homem, né? Nada, nada, pra ela tá tudo bem. (Questionados sobre um certo tipo de
recato no filme, sobre, por exemplo, a ausência de trepadas, Sandra diz “Bem
que eu queria. Mas a gente é diretor contratado. A gente tem um produtor artístico
que é o Daniel Filho. A idéia é dele. E Walter, “Não adiantava fazer um
filme com uma violência sexual para agredir e de cara reduzir as possibilidades
da juventude ver o filme. Porque se você faz um filme com a censura alta você
liquida o filme, porque a
juventude, o que interessa é o jovem ir ao cinema. Sandra, “É uma história
tão recente, todo mundo vivo. Eu quis ligar para o Daniel e dizer: é mais
simples, vamos fazer um documentário? Mas eu adorei o desafio de fazer uma ficção”.) ( E sobre a fotografia do filme,
que carrega um certo tom de sujeira, Walter diz “Fizemos o filme
em 16mm por opção, poderia ter feito até em 75mm se quisesse. É uma
impureza perfeita, é o desejo da impureza”.) Mulheres: Todo o elenco coadjuvante, eles foram
considerados por características das pessoas mesmo, as que conviveram com o
Cazuza? A Leandra Leal... Sandra:
A Leandra Leal, ela se parece um pouco com a Bebel (Gilberto); o André
Gonçalves era um amigo dele chamado Bineco, que já morreu, de Aids; a Andréia
Beltrão é uma mulher mais velha que tinha se casado com gays, é uma amiga
mais velha chamada Yara Neiva. A gente juntava, às vezes a gente juntava porque era muito amigo, o cara vivia cercado de gente.
A gente pegava três mulheres e juntava numa, senão não dava conta. Mulheres: Quando você falou sobre a composição do
Daniel, você falou também que tinha a fotografia (de Walter), tinha os
figurinos (de Cláudia Kopke), tinha a maquiagem (em certa altura da entrevista,
Sandra ressaltou esses aspectos). Fale um pouco sobre essa parte técnica. Sandra: A Direção de
Arte é do Cláudio Amaral Peixoto, amigo do Cazuza, íntimo, que fez os meus
dois outros filmes, “Pequeno Dicionário Amoroso” e “Amores Possíveis”.
Então ele é da mesma geração Cazuza. A Lucinha cedeu muitas coisas, a máquina
em que o Cazuza escreveu, as roupas que o Daniel usou. Mulheres: O seu projeto novo é
um documentário, não é? Sandra: Pois é, estou
voltando ao documentário. Mulheres: É um longa? Sandra: É um longa. Vou
voltar a falar com a sociedade um pouquinho, né? É sobre meninas que tem
filhos aos 10, 12 anos. Mulheres: Foi aprovado
agora, não é isso? Sandra: É, entrei na
verba da BR (Petrobrás) Mulheres: Já tem previsão? Sandra: Já estou começando
a pensar na pesquisa e no roteiro. Mulheres: Como é o nome? Sandra:
“As Meninas” Mulheres: Sandra, você
disse que até então nunca tinha pensado em fazer um filme sobre o Cazuza. Mas
você era fã do Cazuza? Sandra: Eu era fã do
Cazuza. Fui a shows, mas não o conhecia pessoalmente. Mas agora ele é meu
amigo íntimo. (Ao final da coletiva, ao nos
despedirmos, Sandra se diz surpresa como um site sobre as mulheres do cinema
brasileiro e diz: “Existe? Que chique!”. Então pergunto:) Mulheres: Você vê importância
nesse site? Ele tem a pretensão, e está realizando isso, em não ser só uma
homenagem mas um mapeamento das mulheres desde o cinema mudo até o atual –
produtoras, atrizes, diretoras, roteiristas, etc. Sandra: Maior importância!
A maior importância. Porque eu acho assim,
nosso trabalho é pouco divulgado quando se fala de cineastas. Até há
pouco tempo, eu estou dizendo, porque agora não, agora tá tudo bem. Mas, no
Brasil é o lugar onde existem maiores diretoras mulheres, existem muitas. Eu
acho bom, a gente conhecê-las e saber mais da produção delas. Uma vez o Cacá
Diegues, uma brincadeira que faço com ele, disse “Nossa mãe, essas mulheres
agora só fazem cinema! Pô , como tem mulher fazendo cinema!” E eu, “Você
quer o quê? Mulher aprende a arrumar a dispensa, fazer supermercado, trocar
fralda, entreter o filhinho. Diz aí, não ia ser capaz de fazer cinema,
cara?” Porque tem mil sensibilidades envolvidas no cinema. E a gente aprendeu
muito, né? Mulheres: O Site busca
exatamente isso. Porque todo mundo fala de Humberto Mauro, mas lá no início,
estava a Carmen Santos, produzindo os filmes dele, atuando,
dirigindo. Então é exatamente isso, para mapear e trazer luz para essas
mulheres. Sandra:
Que bom! Uma super iniciativa. Mulheres: Obrigado! Entrevista realizada em junho de 2004
|
|