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REJANE
ARRUDA

Foto:
com Leonardo Medeiros em cena de "Corpo" (2007),
de Rossanna Foglia e Rubens Rewald
Rejane
Arruda nasceu em Florianópolis, Santa Catarina. Foi lá que
começou a carreira artística aos 14 anos fazendo publicidade,
teatro e dança. No início dos anos 1990 mudou-se para São
Paulo e foi aí que sua carreira deslanchou. Atriz, diretora e professora
de teatro, tem ligação profunda com o palco - já
atuou em 18 espetáculos. A atriz já atuou em novelas - "O
Cravo e a Rosa", "Jamais Te Esquecerei", "Essas Mulheres",
mas é com o cinema que se identifica mais: "A televisão
é um grande exercício, mas eu não queria me acomodar
na televisão não, eu quero fazer cinema. É o meu
grande objetivo. E o Brasil está num momento muito interessante
hoje e eu acho que o ator agora já dá para optar pelo cinema".
Rejane
Arruda estreou no cinema em grande estilo: como Rosário, uma personagem
importante em "O Veneno da Madrugada", de Ruy Guerra: "Um
grande diretor e um grande filme. E o Waltinho (Walter Carvalho) na fotografia,
e aquela cidade cenográfica no meio da mata. Realmente, era um
projeto de grande porte, uma produção um pouco maior do
que os B.O., com mais gente envolvida, mais produção envolvida.
E depois a gente foi pra San Sebastian, fomos pra Biarritz, eu fui com
eles, viajei, participei do lançamento do filme e fiquei muito
satisfeita com esse trabalho",
Além
de vários curtas no curriculo, Rejane Arruda está também
em "Corpo", primeiro longa dos cineastas Rossana Foglia e Rubens
Rewald, em que tem desafio triplo: faz três personagens. A atriz
faz considerações interessantes sobre o processo de trabalho
para esse filme e sobre a questão de construção de
um personagem: "Na verdade eu não encarei como personagens.
Porque se eu encarasse como personagens eu ia representar, e eu não
queria representar no sentido de estar estabelecendo um sentido e reproduzindo,
e construindo, a coisa do fake, eu não queria trazer esse caráter".
Rejane
Arruda esteve na "11ª Mostra de Cinema de Tiradentes" para
acompanhar, ao lado dos diretores Rossana Foglia e Rubens Rewald, o lançamento
do filme "Corpo". A atriz conversou com o Mulheres. Na entrevista
ela fala sobre sua formação, dos trabalhos no teatro, na
televisão e no cinema; fala mais detalhadamente sobre os dois longas
em que atuou, "O Veneno da Madrugada" e "Corpo"; fala
sobre representação e contrução de personagens;
e repercute questões que tratou no debate que a Mostra realizou
sobre o filme.
Mulheres:
Qual é a sua formação de atriz?
Rejane Arruda: Eu sou formada na ECA, em interpretação
teatral, fiz graduação, bacharelado, e faço mestrado
lá, em pedagogia do teatro e a formação do artista.
Então eu pesquiso alguns procedimentos para o ator. Dou aula também,
no Teatro Vocacional, que é na periferia de São Paulo. Tenho
um trabalho com adolescentes com jogos teatrais, sou diretora de uma companhia
de teatro, “Acting Out”, e estou começando a produzir meus projetos
como diretora também. Então me interessa muito essa parte
pedagógica, reflexão sobre a arte de interpretar, dirigir,
escrever, produzir teoricamente. Por isso que eu fiquei muito feliz com
o debate, de poder participar também, porque acho que faz parte
pensar sobre o que faz também né?
Então eu tenho essa formação acadêmica e tenho
uma formação no mercado, eu atuo desde os 14 anos. Eu comecei
fazendo publicidade, dando aula de dança, porque eu tenho formação
em dança. E aí eu comecei a fazer teatro, cursos. Eu tinha
um grupo em Florianópolis, porque eu sou ou do sul, de Santa Catarina,
chamado “Balé Desterro”, a gente começou a produzir dança
teatro e eu comecei a fazer teatro. Aí me deu vontade de ir pra
São Paulo, estudei com o Antunes (Filho). Comecei a trabalhar no
mercado de São Paulo desde 1992, eu trabalho no mercado de São
Paulo, já fiz 18 espetáculos.
E aí comecei a fazer curtas, e dos curtas eu passei para os longas.
O primeiro longa que eu fiz foi “O Veneno da Madrugada” (2004), do Ruy
Guerra, e agora o “Corpo” (2007 – Rossana Foglia e Rubens Rewald).
Mulheres: Você fez trabalhos na televisão
também.
Rejane Arruda: Sim, no meio disso teve um trabalho na
televisão que foi na novela “O Cravo e a Rosa” (2000 – 2001).
Mulheres: Tem outros trabalhos.
Rejane Arruda: Eu fiz na Record “Essas Mulheres” (2005),
fiz “Jamais te Esquecerei” (2003 – SBT).
Mulheres: É interessante porque você passou
por várias emissoras, Globo, Record, SBT. Como você vê
esse trabalho na TV?
Rejane Arruda: Eu sinto assim, que a televisão
não é o forte do meu trabalho. Eu acho que a televisão
é necessária para o ator até um certo ponto. Eu não
queria me acomodar na televisão, entendeu? A “O Cravo e a Rosa”
foi um marco importante, como se eu passasse a existir a partir dali,
né? Com uma passagem pela televisão, numa novela bonita,
de época. “Essas Mulheres” foi também uma novela bonita,
de época. E em “Jamais te Esquecerei” eu fiz um personagem que
eu acho precioso, que foi a Branca. Ela era muito graciosa, era filha
de caminhoneiro, ela tinha toda uma parte do núcleo cômico
que me atraía muito. Foi uma personagem que estava no ar todo dia.
A televisão é um grande exercício, mas eu não
queria me acomodar na televisão não, eu quero fazer cinema.
É o meu grande objetivo. E o Brasil está num momento muito
interessante hoje e eu acho que o ator agora já dá para
optar pelo cinema. A gente está começando a ter uma demanda
de trabalho que dá para o ator optar pelo cinema, pelo teatro.
E executando esse trabalho pedagógico, eu emplaco projetos que
são meus como diretora e aí dá para eu ir me mantendo
até chegar um trabalho. Porque às vezes demora para chegar
um novo trabalho, um trabalho de porte grande, que você atinja o
grande público, às vezes demora na carreira da atriz. Então
dá para ter esses intervalos. E enquanto isso eu vou fazendo teatro,
vou estudando, fazendo mestrado, dando aula, dirigindo. Tem todo um pensamento
por traz no que eu estiver exercendo, e a televisão eu acho que
é um grande exercício, eu acho que ela é importante,
mas até uma certa medida.
Mulheres: E como foi com os curtas?
Rejane Arruda: Com os curtas foi o seguinte. Eu fiz um
primeiro curta chamado “O Beijo”, que foi muito caseiro, foi com uma amiga
que a gente fez, foi em 1996. E a gente foi para o Japão, foi para
a Bahia, foi bonitinho, me deu uma certa repercussão, foi para
o Mix Brasil. É de uma amiga que se chama Andréa Del Fuego,
ela é escritora hoje em dia. Ela foi a diretora do curta, foi uma
iniciativa dela, ela me convidou e foi muito interessante. A gente fez
depois o “Ela”, com a Andréa também. Depois eu fiz “A Boneca
de Sal”, que foi um curta de estudantes da Eca. Como eu estudava na ECA
no curso de interpretação, eu trabalhava com os estudantes
de cinema, a gente se arranjava ali e produzia junto alguma coisa interessante.
Porque eram alunos de cinema que estavam desenvolvendo linguagem, tinha
o anteparo da Eca. Então eu fiz o “A Boneca de Sal”.
Depois eu fiz um curta que teve o apoio do edital do Minc, que se chama
“Cabra Cega”, e que ainda não finalizou. Foi a Jung Li que dirigiu
e que é uma figura interessante. Ela fez um primeiro curta que
foi premiado no Festival de Brasília. Ela é interessante
como diretora, é o segundo curta dela, ela agora está nos
Estados Unidos, mas está voltando para finalizar e lançar.
E a fotografia é do Tim Tim, que é um fotógrafo bem
interessante, eu gosto muito desse trabalho, eu espero que eles lancem
logo. Daí tem depois “A Cidade do Tesouro”, que eu faço
com o Lourenço Mutarelli, que é aquele quadrinista, nós
dois fazemos. É bem interessante também, é sobre
um assassinato, uma coisa meio misteriosa, tem uma linguagem meio encoberta,
ele trabalha muito bem a câmera. Tem também um curta que
chama “O Espelho”, que foi muito interessante também. Ele é
pequenininho, sem palavras, mas é o encontro de uma pessoa que
está andando na rua consigo mesma, tem um clima que é bem
bonitinho, é em 16mm, da Laura Taffarel.
Mulheres: Como você foi escalada para “O Veneno
da Madrugada”?
Rejane Arruda: Bom, fiz teste, aquela coisa de atriz
iniciante, Eu fiz um teste com a Vivian Golombek, lá na VGI. O
Ruy estava procurando desesperadamente a Rosário, que é
essa personagem, e ele não achava, não achava, não
achava. Ele já tinha feito testes no Rio, tinha feito workshoop,
e não fechava. E aí a Vivian me chamou para um registro
em vídeo para ele. Não lembro se primeiro eu levei meu vídeo-book,
não sei o que foi. Mas eu fiz um teste e ele gostou. Aí
eu fui conhecê-lo, não estava fechado ainda, fui conhecê-lo,
falei que queria muito fazer o filme dele, que estava lendo tudo do Gabriel
Garcia Márquez. E aí a gente fechou e eu fiz, e foi ótimo,
foi muito legal trabalhar com ele.
Mulheres: E de cara com um grande diretor.
Rejane Arruda: Um grande diretor e um grande filme. E
o Waltinho (Walter Carvalho) na fotografia, e aquela cidade cenográfica
no meio da mata. Realmente, era um projeto de grande porte, uma produção
um pouco maior do que os B.O., com mais gente envolvida, mais produção
envolvida. E depois a gente foi pra San Sebastian, fomos pra Biarritz,
eu fui com eles, viajei, participei do lançamento do filme e fiquei
muito satisfeita com esse trabalho. Era uma co-produção,
Argentina, Brasil e Portugal, então teve atores argentinos, atores
portugueses, atores espanhóis, atores brasileiros. Foi muito interessante,
começar desse jeito, com o Ruy, e com uma personagem densa, porque
a Rosário é densa, ela é sofrida, ela é rústica,
ela é um tom muito especial, muito diferente do que eu fiz no “Corpo”.
Eu acho que a longo prazo essas coisas vão contar pra carreira,
porque o cinema é assim, vai passando o tempo, a gente vai se distanciando.
O “Veneno” agora vai passar no Canal Brasil, ele ficou muito pouco tempo
em cartaz, pouca gente viu “O Veneno da Madrugada”. Mas eu sinto que ele
continua, ele continua indo para festivais, já foi lançado
em DVD. Então o tempo parece que vai dando para o filme uma cara
mais forte. E eu acho que a longo prazo para a minha carreira isso vai
contar muito. A diferença desse trabalho que eu faço no
“Veneno” para o “Corpo” é radical, é outra pessoa entendeu?
Então eu acho que isso é muito interessante, essa marca
de diversidade. Que nem você falou das emissoras, eu acho que a
minha marca ali não é nem as emissoras, mas a diferença
das personagens. Se você pega “O Cravo e a Rosa” para a Branca do
“Jamais Te Esquecerei”, e para Lúcia do “Essas Mulheres”, é
radicalmente diferente. Praticamente você não me reconhece,
é outro cabelo, outra roupa, outra produção, outro
diretor. Quando você se acostuma a trabalhar com o mesmo diretor
parece que você vai ficando com a mesma cara.
Mulheres: E em “O Veneno da Madrugada” tem um elenco
de peso, tem a Juliana Carneiro da Cunha...
Rejane Arruda: Tem a Juliana Carneiro, o Leonardo (Medeiros),
esses atores portugueses, espanhóis e argentinos que são
de peso. Tem uns caras ali que você fala “nossa senhora!” O Jean
Pierre Noher, que fez o meu marido, que é ator internacional, um
grande ator da Argentina. E tem aquele espanhol que faz o dono do circo
e que é um arraso. Então, assim, são pessoas que
eu considero muito, foi uma grande entrada, eu acho.
Mulheres: E para o “Corpo”? Foi teste também?
Rejane Arruda: Foi teste também, até agora
tudo em minha vida foi teste (risos).
Mulheres: Que é comum.
Rejane Arruda: É, por isso que eu me considero
em início de carreira, apesar de já ter bastante tempo,
eu comecei aos 14 anos. Eu comecei a fazer comercial, a dar aula, e aí
estreei no teatro profissionalmente em 1992 com o Oswaldo Montenegro.
Eu fiz três peças com o Oswaldo Montenegro, aí engatei
no mercado. Apesar de já estar há algum tempo, eu ainda
me considero uma pessoa em início de carreira, porque as coisas
comigo aconteceram um pouco mais galgadas, passo a passo, não fui
uma atriz que com 19 anos estourou na Rede Globo. Eu me considero assim
galgando, e por isso que eu disse no debate, que eu acho que agora eu
já fiz alguma coisa, porque o “Corpo” pra mim é isso assim,
é a conclusão de uma estrada, de uma história, é
ponto final de um grande aprendizado.
Eu acho que eu cheguei em algum lugar com o “Corpo”, porque é um
trabalho refinado, é um trabalho que não é grosseiro,
é um trabalho que exige um domínio do que você faz
ali, não é um trabalho fácil. Então eu acho
que depois de 20 anos galgando, o “Corpo” é onde eu posso falar
que o meu trabalho ficou maduro, sou uma atriz, me vejo como uma atriz,
posso bancar qualquer coisa, entendeu? Porque antes eu tinha dúvida
ainda, quando eu fui pra Globo pela primeira vez em 2002, eu disse “será
que é isso?” Era insegura ainda entendeu? Não tinha ainda
firmado, pegado a coisa na mão. Agora não tenho dúvida
nenhuma, agora é isso, que eu posso fazer, que eu sei fazer, que
desenvolvi na minha vida inteira. E estou aí para qualquer parada.
Então o “Corpo” pra mim significa isso, esse amadurecimento. Eu
acho a Rossana (Foglia) e o Rubens (Rewald) pessoas muito especiais, eu
acho precioso o trabalho deles, eu acho de uma honestidade. São
pessoas que amam o cinema, que trabalham a linguagem, que se dedicam.
Eles dialogaram durante muitos anos pra construir esse roteiro, que tem
assessoria, dialogaram com o Jean-Claude Bernadet. São pessoas
que estão fazendo em parceria, não são grandes estrelas
que vão lá e impõem um roteiro e aí ninguém
pode falar nada. Não, é tudo no diálogo, você
sente fazendo junto com eles, é muito interessante, é um
trabalho em equipe. E, ao mesmo tempo, eles sabem muito bem o que eles
querem. A Rossana tem uma coisa muito firme, ela diz “não, assim
não é o meu filme”.
Então tem uma propriedade do que eles querem, uma segurança.
E olha, é muito interessante, pra gente trabalhar com eles é
muito bom, porque eles dão abertura pro processo, pro filme acontecer.
E, ao mesmo tempo, eles sabem o que eles querem e vão atrás.
São pessoas muito especiais, muito generosas como pessoa, muito
tranqüilos, muito simples. Porque é isso que a gente vê
né? A gente é gente, as pessoas são gente, antes
de serem cineastas, antes de serem qualquer coisa, as pessoas são
gente, estão trabalhando com ser humano, com sentimento, com reação.
Então foi muito interessante trabalhar com eles, eu amei o trabalho,
estou muito satisfeita.
Mulheres: E como foi fazer os três personagens
do filme - Fernanda, Teresa e o próprio corpo?
Rejane Arruda: Na verdade eu não encarei como
personagens. Porque se eu encarasse como personagens eu ia representar,
e eu não queria representar no sentido de estar estabelecendo um
sentido e reproduzindo, e construindo, a coisa do fake, eu não
queria trazer esse caráter.
Mulheres: No debate, você falou uma coisa interessante
sobre a sua interpretação no filme, que tem a ver com o
que seria uma falência dos sentidos. Gostaria que você explicasse.
Rejane Arruda: É, eu queria ser eu reagindo com
alguns estímulos diante da câmera e vivendo aquele momento
profundamente. Aproveitando a oportunidade que eu estava tendo, de que
aquele segundo fosse eterno, de estar vivendo aquilo profundamente. Aquele
m mês de filmagem, que seria muito importante, seria dilatado. E
não representar, uma coisa que a gente construiu, que a gente pensou,
que a gente resolveu, porque é a sensação do inesperado
que acontece na hora, aquilo que falei do senso da negação,
do vazio. Você entra no estúdio, liga a luz, fala ação,
é aí um grande vazio. É um sentimento assim, aquela
luz, parece que o espaço abre, é outro tempo né?
É outro tempo. Então é a reação do
inesperado que dá essa espontaneidade no trabalho do ator, essa
brincadeira com o que aparece na hora, com a coisa inesperada, a não-representação.
Eu queria trabalhar com essa idéia um pouco, é o que eu
acredito, sabe? E eu vejo grandes atores trabalhando, pessoas que pelas
quais eu sou apaixonada, eu vejo lá um mistério, uma coisa
que eu vejo que não é representação, do que
eles dominam, do que eles controlam, do que eles repetem. É alguma
coisa além, sabe? Então eu quis partir desse princípio.
A Teresa, a Fernanda, pra mim era tudo eu lá. Era eu lidando com
um cabelo crespo, com um cabelo liso, com uma roupa anos 70 ou atual.
Com um jeito de rir ou com um olhar, com um movimento de câmera,
com uma partitura gestual que eu tinha treinado e que absorvi no momento.
Com o Leo (Leonardo Medeiros), com as reações do Leo, provocando
reações no Leo. Então é aquela coisa genuína
do jogo, que o ator se coloca, que não é o ato de representar
um personagem. Até me surpreendi deles tocarem sobre isso no debate,
não esperava, porque esse o tema do meu mestrado, do que busco,
do meu trabalho, do que ensino. O Antunes (Filho) fala uma coisa interessante,
que o ator é um pouco Shiva, é um pouco aquele Deus que
manipula as coisas, que tem aquele monte de braços. Porque eu tenho
um andar, um olhar, uma reação do outro ator, o cabelo,
uma idéia da revolucionária, e não sei o quê
mais. E na hora eu sou uma cozinheira que bota isso tudo num panelão
e equilibra as dosagens, né? Então é essa a idéia
do jogo, e não o da representação.
Mulheres: E a forma do outro ator jogar, porque os atores
têm outras formas, e ali você tem o Leonardo Medeiros, tem
a Louise Cardoso...
Rejane Arruda: É por isso que tem os ensaios,
para a gente equilibrar essas coisas. Eu acho esse elenco muito especial.
A Louise, no primeiro ensaio, me surpreendeu profundamente. Porque para
mim ela era a “Louise Cardoso”. Claro né? Eu assisti a Louise na
televisão quando eu era criança, quando eu era adolescente.
Lógico que fica uma imagem mitificada. Mesmo a Regiane (Alves),
que é super jovem, mas por eu ter visto ela várias vezes
na televisão, ter conhecido ela na televisão, claro que
a gente fica com uma imagem mitificada. E claro que tem assim um certo
cuidado até romper isso, entendeu? E tanto uma como outra foi absolutamente
despojada, absolutamente generosa, a gente já estabeleceu um jogo
de cara.
Eu acho que um bom ator saca que essa entrega é necessária,
entendeu? Pro que ele não controla, pro que ele não domina,
e que ele vai descobrir ali na hora com o outro. E a sensação
do risco. O Leo então nem se fala. Eu já tinha contracenado
com ele no “Veneno”, a gente já tinha uma cumplicidade, um jogo
bom. E ele fez dois testes comigo pra eu entrar no “Corpo”. Eu conheço
o Leo há muito tempo do teatro paulistano. Porque isso está
acontecendo de bom, dos atores do teatro paulistano estarem ocupando lugar
no cinema. O Milhem Cortaz é outro, que eu conheço há
muitos anos do teatro paulistano, entendeu? O Matheus Naschtergaele também
saiu do teatro paulistano.
A gente está ocupando espaço. A Leona Cavalli, aquela menina
que fez o “Contra Todos” (2003 – Roberto Moreira) também, a Sílvia
Lourenço, que foi atriz do Antunes. A Sabrina Greve foi protagonista
de um longa (“Uma Vida em Segredo” – 2001 - Suzana Amaral). Então
são pessoas que a gente conhece, que têm um pouco o mesmo
código de comportamento, sabe? Por exemplo, eu fiz um teste com
a Sabrina Greve, não rolou o trabalho e tal, mas a gente jogou
ali um bolão, porque o ator saca que precisa disso e ele gosta
quando você o desafia. Então quando eu dava alguma coisa
que o Leo não esperava, ele fazia “hum...”. Eu provocava nele uma
reação também, que ele tinha que sambar ali, e é
esse que é o jogo, que é emocionante. Te vem uma reação
que você não tinha planejado, que aquele ator te proporcionou
a oportunidade de viver uma coisa nova no teu organismo, porque o ator
é esse cara que o organismo reage né? Se o ator não
tem um organismo que reage ele não tem verdade nenhuma, ele está
sempre construindo, sempre representando. O ator é um cara que
reage a tudo, reage ao comando da direção, ele reage à
uma luz, ele elabora as coisas o tempo todo, ele ta vivo né? è
orgânico.
Então com o Léo foi ótimo, porque o Léo tem
uma coisa que é maravilhosa, que eu acho que é rara, e que
eu acho que é aí que ele ganha o jogo, que são os
tempos dele. Ele tem uma tranqüilidade, um tempo, que é raro
num ator. E o cinema necessita do tempo, porque parece que o espectador
faz assim junto, ele relaxa junto, ele não está na frente,
naquela ansiedade. Porque no teatro é tudo muito rápido,
é tudo um jogo rápido, é over, o teatro é
pra fora. O Léo desce a energia dele, então ele fica. E
aí você diz “caramba!” E eu me desafiei a descer também,
baixar a respiração. E tem o período de ensaio, o
período de ajustar, é que nem instrumento, que você
vai lá e afina um com o outro, você sintoniza. Teve uma preparação
corporal com a Leticia Lemos, que ajudou a centrar também. E tiveram
algumas improvisações que eu fiz, tanto com o Léo
quanto com a Regiane, com a Louise. Com a Chris (Couto) foi a que eu menos
experimentei antes porque a gente não tem cena junto, mas também
amei o trabalho dela, achei ela uma atriz muito interessante.
Mulheres: às vezes a televisão chapa mesmo.
Mas no caso da Regiane Alves eu fiquei surpreso, eu a achei tão
cinematográfica.
Rejane Arruda: A Regiane é maravilhosa, despojada,
uma pessoa simples, talentosíssima, sensível, ela pega muito
rápido as coisas. Por isso que eu digo que a televisão é
um grande treino. Não é que a televisão é
ruim, ela é ótima para o ator, ela é uma escola,
ela é um treino, o ator aprende a ser rápido na televisão.
Porque na televisão você não sabe o roteiro inteiro,
o que vai acontecer com seu personagem, são cenas e cenas por dia,
grava e joga fora, grava e joga fora. Você fica treinado a responder
rápido, a pensar rápido, a criar rápido, a reagir
rápido. A televisão é até no improviso, eu
acho a televisão uma grande escola.
Eu só acho assim, que não pode correr o risco de se acomodar
na televisão, em termos de carreira mesmo, em termos do que você
pode se desafiar. Porque aí você acostuma a trabalhar com
um diretor, com uma linguagem ou com um ator, e começa a se repetir,
e aí é uma pena. Então você meio que se estabiliza
naquilo, que também é uma escolha, tudo bem. Mas a televisão
é um grande treino, pra mim foi também, foi onde eu me desafiei
a virar profissional. É um grande desafio, é rápido,
você sai de uma cena e já é outra, e tem que ser rápido,
ensaiou uma vez, e outra, e gravou. Tem que ser profissa, tem que sambar,
e rápido. É um exercício.
Mulheres: É impressionante a renovação
no cinema brasileiro, estamos vendo a revelação de tantos
novos e ótimos atores. Muita gente acha que não temos vocação
para o cinema. Qual a sua opinião? Você acha que o Brasil
tem vocação para o cinema?
Rejane Arruda: Claro! Eu acho que tem tudo pra estourar
no cinema, pra fazer cinema bem, e pra estar trazendo propostas, coisas
novas. Em termos de produção eu não sei muito falar
porque não é muito a minha área, mas eu acredito
que a gente tenha locações maravilhosas para o cinema, cultural
maravilhosa pra estar mostrando no cinema. E escolas de cinema. Estão
se formando técnicos, a coisa está girando, está
andando, e está tendo financiamento. Eu acho que a tendência
é crescer cada vez mais, começar a fazer co-produção,
e começar a se colocar lá fora. Eu acho que não pode
ficar só nos editais, entendeu? Tem que conseguir achar outras
formas de financiamento que não seja só os editais. Porque
o edital, o orçamento, é tudo muito apertado. Você
fazer um filme com um milhão, isso não é nada. Então
é tudo muito apertado. Mas eu acho que está surgindo aí
uma nova geração, gente que está começando,
gente boa, e ator. Eu acho que tem tudo para crescer no cinema.
Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que
você viu no cinema?
Rejane Arruda: Eu vi o “Noel Rosa” (Noel – Poeta da Vila
– 2006 – Ricardo Van Steen), eu vi “Meu Nome Não é Johnny”
(2007 – Mauro Lima), eu vi “Batismo de Sangue” (2007 – Helvécio
Ratton).
Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas a homenagearam
uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer
área.
Rejane Arruda: Olha, eu homenageio a Norma Bengell pela
aquela clássica e famosa cena com o Ruy Guerra que ela fez em “Os
Cafajestes” (1962). Porque foi de um despojamento, foi de uma coragem,
de uma entrega. Às vezes a gente pensa que o filme é do
cineasta, mas não é, ele é do ator também.
Conforme o ator que está lá protagonizando o filme muda,
entendeu? É uma escolha crucial a escolha do elenco. E aquela cena
eu sei que ele descobriu com ela, de um improviso, de uma entrega, de
uma ousadia de uma atriz. E, de repente, uma cena marcou o cinema brasileiro,
entendeu? Então eu homenageio ela, Norma Bengell.
Mulheres: Obrigado pela entrevista.
Rejane Arruda: De nada.
Entrevista
realizada em janeiro de 2008,
na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes".
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