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RAQUEL
HALLAK

Foto:
Leonardo Lara
Raquel
Hallak é sinônimo de excelência em mostras de cinema
em Minas Gerais. À frente da Universo Produção, com
Quintino Vargas e Fernanda Hallak, Raquel é a coordenadora de três
mostras mineiras: Mostra de Cinema de Tiradentes; Mostra de Cinema de
Ouro Preto – Cineop; e Mostra de Cinema de Belo Horizonte – MostraBH.
Na Mostra de Tiradentes, o público tem um encontro com o cinema
contemporâneo; em Ouro Preto a mola-mestra é a preservação
da memória cinematográfica; e em Belo Horizonte o eixo central
é a questão do mercado. Em todas as mostras, além
dos inúmeros filmes exibidos, há espaço permanente
para amplas discussões e reflexões sobre o cinema brasileiro
a partir de debates, seminários, fóruns e oficinas.
Raquel Hallak nasceu em São João Del Rey, mas foi em Tiradentes,
cidade vizinha com apenas 5 mil habitantes, que começou a carreira
no cinema como coordenadora daquele que se tornou o maior evento do cinema
brasileiro, e que acabou de realizar sua 11ª edição
– A Mostra de Cinema de Tiradentes: “Quando eu pensei no projeto inicialmente,
eu tinha pensado em São João Del Rey, porque eu tinha vontade
de voltar na minha terra trazendo alguma ação cultural,
já como uma contrapartida da minha atuação profissional.
E a gente acabou encontrando em Tiradentes um respaldo dentro de um contexto
interessante, que era em relação ao Centro Cultural Yves
Alves, que é hoje onde funciona a sede do evento”.
As Mostras realizadas pela Universo Produção são
hoje parada obrigatória para quem quer acompanhar a produção
e a reflexão sobre o cinema brasileiro: “A gente começou
em 1998 com quatro curtas-metragens de editais que já tinham sido
ganhos. Outro dia eu estava lembrando com o José Eduardo Belmonte,
o primeiro curta dele foi exibido aqui, tinha acabado de ficar pronto.
Tinham dois de Minas, um do João Vargas, o outro não me
lembro agora, acho que era da Patrícia (Moran), e mais um outro.
Eu sei que eu fui atrás desses curtas igual uma alucinada, porque
em um curto espaço de tempo eu estudei o cenário dos festivais,
sem nunca ter ido a algum festival”.
Durante a “11ª Mostra de Cinema de Tiradentes”, Raquel Hallak conversou
com o Mulheres. Na entrevista, ela fala sobre a gênese da Mostra
e de sua inserção no panorama do cinema brasileiro. Fala
sobre as três mostras que coordena, sobre a curadoria, sobre a Universo
Produção e seus projetos, avalia o cinema nacional, mostras
e festivais, e homenageia mulheres do cinema brasileiro.
Mulheres: Pelo que li a seu respeito, eu sei que você
se encantava com as sessões no Cine Glória, em São
João Del Rey, onde você nasceu, não é?
Raquel Hallak: Sim, foi.
Mulheres: A sua relação com o cinema veio
daí, da primeira infância? Como o cinema surgiu com essa
importância na sua vida, e que viria, inclusive, determinar o seu
espaço de atuação no cinema brasileiro?
Raquel Hallak: Na verdade, eu despertei a minha paixão
pelo cinema até um pouco mais tarde. Eu era freqüentadora,
mas eu sou de uma geração que pouco cinema tinha para se
ver, cinema brasileiro, né? Então a gente não foi
educada para ver cinema e foi exatamente por isso que me despertou pra
essa questão de criar uma movimentação em torno de
uma geração que cresceu num vazio de consumir o cinema brasileiro,
porque não existia. Numa época em que se pensava numa retomada,
que iniciava uma política pública para o cinema.
Quando eu pensei no projeto inicialmente, eu tinha pensado em São
João Del Rey, porque eu tinha vontade de voltar na minha terra
trazendo alguma ação cultural, já como uma contrapartida
da minha atuação profissional. E a gente acabou encontrando
em Tiradentes um respaldo dentro de um contexto interessante, que era
em relação ao Centro Cultural Yves Alves, que é hoje
onde funciona a sede do evento. E isso devido eu ter uma proximidade muito
grande com o Yves, porque eu fui uma das mentoras do projeto Ação
Global. Eu comecei minha vida profissional na área social, sócio-cultural,
eu não atuava só na área cultural. E eu desenvolvi
esse projeto de cidadania e tive a oportunidade de estar muito próxima
dele pela Globo, e o Yves era uma pessoa que tinha uma inquietude muito
grande. Então ele, com o Paulo Gil Soares, que fez, inclusive,
o seu primeiro longa aqui, em 1968, o “Proeza de Satanás” (“Proeza
de Satanás na Vila do Leve e Traz”).
Eu falo que a vida é muito interessante, porque quando a gente
se encontrava para tratar desses assuntos da Ação Global,
eles, na verdade, o Yves e o Paulo Gil, se conheceram pelo cinema e eu
fui acabar lidando com o cinema. Eu nunca podia imaginar, eu não
tinha isso como, foi uma coisa que foi despertada nesse decorrer. Quando
eu me inseri na área cultural, quando eu abri minha empresa, foi
o primeiro projeto que eu desenvolvi pela Universo. Porque a gente tinha
intenção de ter uma empresa que não fosse de agenciamento
de artistas, mas que fosse de projetos sócio-culturais, com o objetivo
de existência, com conteúdo, eu sempre atuei fazendo alguma
coisa que pudesse provocar alguma mudança, alguma transformação.
Então eu me inseri na área cultural pensando em projetos
que pudessem dar essa contribuição. Eu comecei com cinema
e fui parar aqui exatamente porque o Yves veio a falecer quando o Centro
Cultural não tinha sido terminado. E eu me senti co-responsável
de fazer alguma coisa pra poder pressionar a inauguração
desse espaço, que já estava fechado há oito meses
e tinha sido reformado pela Fundação Roberto Marinho, que
por sua vez não queria entregar para a prefeitura com medo exatamente
do destino que podia ter o espaço. Então dentro dessa coisa
do destino do centro cultural eu me inseri e falei “vamos fazer alguma
coisa” e tomei partido de uma causa, vamos dizer assim, de que a gente
precisava fazer uma programação cultural pra falar assim
“pode inaugurar porque já tem programação cultural”.
E aí veio essa idéia do cinema que era exatamente o que
a gente não tinha. Então eu sempre busco atuar naquilo que
pode ser diferente ou fazer diferente, ou que seja uma carência.,
seja uma deficiência em algum setor, alguma coisa que esteja precisando.
Mulheres: Mas nesse momento já é uma ação,
inclusive, de caráter político, de transformação
cultural pensada e sedimentada inclusive por essa observação
da falta. Mas lá nas sessões do Cine Glória, independente
de ser cinema brasileiro ou não, qual era a sua ligação
ali...
Raquel Hallak: É porque o cinema era a diversão
do interior. Cinema era o que a gente tinha para fazer. Então ir
ao cinema era o programa mais chique da época, era onde a gente
namorava, era o ponto de encontro, quer dizer, a própria magia
do cinema começa muito cedo na gente. É muito diferente
de você ir a um show, o cinema impregna, sabe? Então é
uma coisa que fica guardada para todo mundo, ele desperta, eu falo que
é arte mais poderosa porque ela trabalha o inconsciente, ela tem
uma capacidade não só de atravessar fronteiras, mas como
trabalhar você internamente, psicologicamente. Então você
sai do cinema, às vezes emocionado, então esse poder que
o cinema tem, como ele age, isso é que me fascina.
O meu olhar não é em função da produção
em si ou de quem faz, mas do resultado que ela é capaz de provocar.
Eu acabei planejando um projeto de cinema para cá, pra gente inaugurar,
e quando eu comecei a ligar para as pessoas dizendo que a gente ia fazer
uma mostra de cinema em Tiradentes, todo mundo falou: “Ah, até
que enfim um festival de cinema, ah, até que enfim Minas vai ganhar
um festival”. E aí eu comecei a perceber que o negócio poderia
ser de um alcance muito maior do que eu estava imaginando inicialmente,
que era uma coisa regionalizada. A gente foi buscar um projetor em um
cinema desativado em Montes Claros, doamos para ter um cinema, mas, infelizmente,
onze anos depois ainda não tem cinema aqui. A gente tinha essa
preocupação desde o início, de não ter só
um evento, que a gente viesse aqui, armasse o circo e fosse embora.
Então junto com o cinema foi toda uma ação de conscientização
na cidade, nós colocamos Tiradentes na mídia nacional e
internacional. Nós fizemos um trabalho imenso com os restaurantes
e pousadas, antes existiam 700 leitos e hoje tem 5 mil. Nós mostramos
o que precisava ser investido para o evento crescer, então essa
coisa dos bastidores é o que mais me impulsiona, o que o cinema
é capaz de fazer, de movimentar.
Então, inauguramos aqui, tornamos de fato, desde o início,
replanejamos o projeto para que ele fosse de formação, de
reflexão, exibição e difusão do cinema brasileiro,
numa época em que todo mundo dizia que a gente não ia conseguir
sustentar um evento só com cinema brasileiro. Eu então falei
que o evento ia ser um reflexo do que vai ser o cinema, se tiver filme
acontece o evento, se tiver dois para exibir vão ser dois filmes
para exibir.
A gente começou em 1998 com quatro curtas-metragens de editais
que já tinham sido ganhos. Outro dia eu estava lembrando com o
José Eduardo Belmonte, o primeiro curta dele foi exibido aqui,
tinha acabado de ficar pronto. Tinham dois de Minas, um do João
Vargas, o outro não me lembro agora, acho que era da Patrícia
(Moran), e mais um outro. Eu sei que eu fui atrás desses curtas
igual uma alucinada, porque em um curto espaço de tempo eu estudei
o cenário dos festivais, sem nunca ter ido a algum festival. Mas
eu comecei a estudar o que era, eu comecei a ligar para os realizadores,
eu promovi um encontro dos realizadores dos festivais aqui em Tiradentes,
foi o primeiro encontro dos realizadores de festivais, foi o primeiro
encontro da Curta Minas, da ABD.
Então o evento nasceu com essa preocupação, foi o
primeiro evento a propor oficina. Não existia, com exceção
de Brasília, que sempre teve um debate político. Os festivais
não tinham oficinas, não tinham debate de longa, não
tinham seminário, não tinham nada. Era exibição
de filme, geralmente seis filmes, doze filmes, aquele auê em torno
do glamour que continua ainda em Gramado. Era Brasília, que é
o festival mais antigo, que sempre teve essa conotação política,
que tem essa questão definida de ser um evento de película,
com diretores consagrados. E a gente sempre foi, a gente sempre apresentou
a cada edição um retrato, uma radiografia do panorama da
produção brasileira.
Mulheres: Depois dessa década de edições
da Mostra de Cinema de Tiradentes, em que você vem acompanhando
não só como organizadora, mas também participando
dos fóruns de discussões, como você vê o cinema
brasileiro? Quais as transformações?
Raquel Hallak: A gente tem agora três iniciativas,
o que fez, inclusive, surgir as outras duas, a de Ouro Preto e a de Belo
Horizonte. Quando a gente veio para Tiradentes, não cabia dentro
da programação e nem dentro do contexto, pois como a proposta
era ser um retrato atual da recente produção, em uma cidade
em que o evento é todo construído, quer dizer, tem sua limitação
técnica, logística, de infra-estrutura, não cabia
a retrospectiva. E aquilo me incomodava um pouco, porque, por exemplo,
você faz uma homenagem, você tem que mostrar um pouco da filmografia
da pessoa que está sendo homenageada para o outro conhecer. E,
ao mesmo tempo, foi aumentando muito a produção.
Então, assim, aquilo que no início a gente não sabia
se ia ter ou não futuro, a gente começou a ter que entrar
em um processo de seleção, e aí a gente ficava assim,
“não vamos tirar essa não, vamos colocar essa”, então
a gente tinha muita dificuldade de excluir alguma produção.
Só que hoje a gente tem que excluir de fato, porque aumentou a
produção, só nesse ano, uma coisa inédita,
teve 60 longas inscritos para um evento que nem é competitivo.
Então a gente estava mostrando muita coisa recente e eu tinha essa
vontade de tocar na nossa história, conhecer nosso passado, a gente
precisa entender porque surgiu o Cinema Novo, o que isso representou,
por exemplo, que é um movimento mais conhecido. A gente tem que
entender o que é essa retomada, se é retomada ou não
é, quem continuou produzindo no tempo que não tinha política,
enfim, entender um pouco esses 100 anos do cinema brasileiro. E aí
surge Ouro Preto com esse objetivo da gente olhar um pouco o nosso passado
e levantamos uma bandeira que foi o primeiro no mundo, dentro de festival,
que é a questão da preservação. O Festival
de Cannes agora é que falou em criar uma fundação
para recuperar o cinema mudo de Hollywood, que está acabando, chamou,
inclusive, o Walter Salles para ser sócio dessa fundação.
E em Ouro Preto a gente fez, foi o primeiro evento a dizer que o cinema
brasileiro precisa ter uma política de preservação,
uma política de restauração. Já unimos todos
os fornecedores, todos os arquivos públicos pela primeira vez na
história, colocamos frente a frente para entender o que era restaurar
um filme. Levamos a Petrobrás, que hoje é a única
empresa que tem um edital de incentivo à preservação.
É muito caro ainda, é um monopólio ainda que existe
no Brasil, os filmes, inclusive, estão fazendo mais fora do que
aqui, algumas etapas desse processo de preservação. A Cinemateca
ganha até um vulto maior porque você começa a criar
o festival, ele tem também esse poder, de movimentação.
A gente estava falando dessa questão de reflexão. E, em
Belo Horizonte? A gente tinha essa necessidade de abordar um pouco o mercado,
que filme que está indo para as salas de circuito, aquele filme
que era uma grande promessa, porque não deu certo, porque, às
vezes, um filme passa pelo cinema e não fica, o que a gente pode
mudar, o que está existindo de co-produção, o cinema
que é consumido fora. É fazer uma movimentação,
porque quando a gente começou Tiradentes, nem chegava, Minas Gerais
nem era pautada como um possível Estado para receber filme, só
Rio e São Paulo mesmo, depois se estendeu para o nordeste, Minas,
sul, enfim. Então o que aconteceu, o que eu percebo muito é
que a gente tem esses três eventos que são complementares.
As discussões em Tiradentes voltam-se para o que está sendo
exibido, por exemplo, vamos pegar a questão da juventude. Se a
gente for ver bem a programação, a gente tem praticamente
aqui dois cineastas consagrados, que é o Murilo Salles e o Reichenbach.
O resto, quase todo, é uma nova geração, então
como negar essa transformação, sabe? Por que, por exemplo,
abrimos para o Sistema Rain? Porque tem simplesmente cinco filmes na programação
que finalizaram em HD. Então, eu vou falar assim “não, vocês
finalizaram em HD, mas como aqui eu só exibo em beta e em película,
vocês vão ter que se adaptar”, mas não, eu é
que tenho que adaptar a eles, entendeu? Então a gente sempre tem
esse olhar contemporâneo. E as reflexões elas nos despertam
muito para além da obra assistida, elas nos ajudam entender um
pouco esse contexto.
Então, por exemplo, do próprio ponto de vista de jornalistas
que eu vejo é que a gente tem uma equipe de jornalistas de grandes
jornais de circulação que tem um olhar muito mais para o
cineasta consagrado, e Tiradentes está sendo essa quebra de barreira,
nitidamente. Não preciso citar nomes, mas, nitidamente, a gente
vê, quer dizer, não adianta falar que não tem essa
nova geração. E os debates ajudam a aproximar isso. Então
o que a gente está fazendo? Nós ampliamos ainda mais os
debates de longas para entender, por exemplo, “Ainda Orangotangos”, que
foi um filme ovacionado no final e eu vi todo mundo falando “pô,
a gente pode fazer um filme diferente, a gente pode sair daquela construção
estática que o cinema sempre nos reportou e mostrar que o cinema
é uma arte que pode ser criativa, que pode ser um autoral diferente”.
Porque a gente tem aqueles diretores que fazem um cinema de autor, que
imprimem a cara, mas hoje a gente tem um processo tecnológico a
nosso favor, uma nova geração que tem uma interatividade
imensa com esses novos processos tecnológicos, que [e uma geração
ousada, que não tem medo de errar, que põe a cara, que não
tem aquele peso de cobrança grande, e é isso que está
mudando, a gente está constatando perfeitamente isso aqui em Tiradentes.
Em Ouro Preto o que a gente está percebendo é que existe
pouca cultura cinematográfica, entendeu? Então, a gente
conhece muito pouco daquela arte que é a principal, que é
a nossa identidade. E então todo mundo, não sei se você
reparou, todo mundo quer se ver na tela. Por que os grandes filmes de
sucesso são filmes da realidade brasileira? Porque a gente quer
se ver na tela. “Tropa de Elite” (2007 – José Padilha) foi um sucesso,
é um sucesso de uma realidade que todo mundo convive diariamente
na televisão ou com proximidade, é uma coisa com a realidade
do Brasil. Então, esses filmes que são de grande bilheteria,
“Meu Nome não é Johnny” (2007 - Mauro Lima), por exemplo,
é de uma história real. Esses filmes cada vez mais têm
sido um sucesso, que é um reflexo também de que a gente
não quer um filme com efeitos, a gente não quer um filme
que seja uma cópia do filme feito lá fora, a gente quer
um filme que seja feito no Brasil com a cara do Brasil.
Mulheres: Como se dá o trabalho com a curadoria?
Você já trabalhou com a Francesca Azzi, agora está
com o Cléber Eduardo. Como é esse acompanhamento, a escolha
dos filmes, a escolha do conceito?
Raquel Hallak: Eu participo diretamente. O curador tem
a liberdade de fazer uma proposta, só que a linha do evento foi
determinada pela gente, do evento ter uma temática, do evento ter
um conceito, o objetivo que é Tiradentes. Então o curador,
muitas vezes, ele tem uma visão teórica, e eu atuo na prática,
como eu vou transformar uma idéia do curador em um link com o evento
e com a prática do evento. A Francesca até comentava que
uma das coisas que ela gostava era que as idéias dela eram bem
executadas, então é mais ou menos isso.
Por exemplo, com o Cléber. A linha que ele tem que partir é
mais ou menos a seguinte. Você tem que estudar o que está
acontecendo na produção de longas, curtas e vídeos,
mas principalmente, na produção de longas em termos de produção,
do que vai ser exibido nas telas do cinema em 2008, o que o brasileiro
vai ver, o que o país vai ver na tela. E a gente vai transformar
isso em temática. Então, por exemplo, a gente já
teve aqui um ano em que a temática foi as adaptações
literárias, porque praticamente todas as produções
que iam chegar ao cinema eram de roteiro adaptados de obras literárias.
Então vamos entender isso, porque isso está acontecendo:
é porque faltam roteiros? é porque a gente tem escassez
de mão-de-obra? é porque o cinema brasileiro não
tem bons roteiros? é porque a literatura se impõe sobre
isso?
E é a mesma coisa. Ele disse: o que a gente vai ver muito forte
nesse cinema, porque aí ele percorreu os festivais, o que a gente
vai ver muito forte é a juventude sendo retratada dentro da tela.
É os jovens, inclusive, de uma forma muito pejorativa, se drogando,
a violência, esse momento da vida do jovem, da adolescência,
uma coisa perdida, sem rumo, essa falta de identidade, isso é o
que vai ser mostrado. Então eu falei “ótimo, vamos trabalhar
então a temática juventude, vamos trabalhar a juventude
brasileira”. Então a gente vai concebendo junto. E aí ele
disse “vamos trabalhar a juventude em trânsito porque é uma
coisa transitória”. Aí veio a escolha dos homenageados.
Ele levantou seis nomes possíveis, aí chegamos juntos a
dois, eu disse que não queria homenagear mais do que dois, eu queria
que esses dois fossem representativos. Então a gente vai construindo
o evento junto. E então eu disse “ótimo porque eu vou inaugurar
uma nova década do evento e a palavra então vai ser renovação”.
E aí a gente vai descobrindo, até porque o Cléber
era uma pessoa, ele sempre viu de forma crítica o evento, então
ele tem que sair da posição de crítico, que é
um exercício que ele sempre fez a vida inteira, e com a experiência
que eu tenho de já estar atuando, de conhecer todo mundo. Porque
quando eu iniciei eu realmente não conhecia, era uma coisa que
eu me sentia pouco à vontade de falar “vou escolher tudo”. Muitos
realizadores fazem isso e às vezes perdem um pouco a qualidade
da programação.
Agora, a seleção dos filmes é feita realmente por
uma comissão mesmo. Isso aí eu procuro ficar isenta. Mas
a abordagem, a temática, a concepção é feita
totalmente em conjunto. Para os longas, eu vejo alguns, a gente às
vezes tem contato, e não é nem por uma opção
de escolha, mas até por uma questão de ter que estar na
programação. Agora curtas e vídeos é total
liberdade, é através de grades temáticas, eles seguem
o perfil que o evento aborda, que o evento impõe a eles.
Mulheres: Saiu uma radiografia aqui nessa edição
da Mostra sobre os festivais de cinema no Brasil, sobre os números
dos festivais. Qual a sua opinião sobre o assunto, sobre esse grande
números de festivais, sendo uns sobre o cinema brasileiro e outros
sobre o cinema estrangeiro? Qual a importância que você acha
que eles têm?
Raquel Hallak: Olha, foi até uma discussão
nova que surgiu, após o lançamento desse diagnóstico,
e até eu que coloquei isso, porque eu comecei a sentir muito em
Minas, principalmente, que dobrou o número de iniciativas de festivais.
Eu coloquei até para todo mundo questionar o que é festival
e o que mostra hoje no Brasil, o que a gente pode falar que é mostra
de cinema e o que é festival de cinema. Porque tudo virou mostra
e tudo virou festival. Então Minas, que é um estado de 853
municípios, e que pouco mais de 50 tem salas de exibição,
a carência é constatada. Eu acho super louvável que
as iniciativas se multipliquem, mas eu acho que agente tem que separar
o que é festival e o que é uma iniciativa de exibição,
o que é uma iniciativa de circuito, o que é uma iniciativa
de cineclube. E foi interessante porque todo mundo sentiu isso, porque
os recursos estão cada vez menores pra esse tipo de iniciativa,
porque tem 170 festivais hoje no Brasil, então como que você
pega 170 e nivela.
Então a primeira a coisa é a seguinte: o festival ou a mostra,
ela tem que ter um conceito e tem que mostrar a que se veio, ela tem que
ter uma cara, e vai ficar no cenário esses que têm cara,
esses que têm uma proposta. Então você tem Brasília,
que tem uma proposta, você tem Gramado, que tem uma história,
vamos dizer assim, você tem o Festival do Rio, você tem o
Festival de São Paulo, você tem um representativo de Recife,
o de Fortaleza, o de Vitória, está renascendo o de Curitiba,
você tem o de Minas. Bom, a gente tem aí uns 25 que hoje
está nesse panorama. Você tem lá o Fan em Florianópolis,
você tem o Guarnicê no Maranhão, então praticamente
é um representativo de cada estado, o resto são ações
complementares. E é aí que a gente começou a discutir,
que é para a gente tentar direcionar esses outros festivais, para
eles incorporarem as propostas do governo federal de cineclube e da Programadora
Brasil, até para gerar uma identidade com o patrocinador, com a
cidade, com o estado.
A gente já chegou a lançar aqui em Tiradentes que quanto
mais festival melhor. Depois lançamos: quanto mais festival melhor,
com qualidade. Depois fizemos um código de ética que os
festivais têm que se enquadrar para se chamar festival; como uma
referência, não como uma imposição, porque
a gente tem essa instituição que agrega esses festivais
que é o Fórum dos Festivais, que a gente tem aprimorado
através disso e tem sido uma referência para os editais,
e etc. Então eu hoje vejo com bons olhos os festivais que realmente
têm um propósito de realmente gerar um intercâmbio,
de ser uma vitrine da produção brasileira, de ser um festival
que muda a rotina no período em que ele acontece, ou seja, que
tenha uma interferência positiva direto na cultura, que venha a
ser uma referência, uma mudança a cada edição.
Então eu acho que a gente tem que repensar um pouco o que é
festival e mostra, essa é a proposta.
Mulheres: E qual a importância que você vê
nesses grandes festivais internacionais, feitos com dinheiro público,
que abrem pouco ou muito espaço para o cinema brasileiro na programação?
Raquel Hallak: Sabe o que eu sinto? Por exemplo, a Mostra
Internacional de São Paulo, ela é uma mostra totalmente
internacional. O cinema brasileiro está ali como uma bengala para
se conseguir recurso, entendeu? Então, por exemplo, eu vi vários
depoimentos de pessoas, de cineastas que foram convidados para estarem
em Tiradentes, e que a última exibição foi em São
Paulo, eles exibiram no Rio e exibiram em São Paulo, e agora estão
aqui. Pessoas que dizem que “a sensação que eu tenho é
que eu estou no festival de favor, eles me dão uma sala, colocam
na programação, e eu tenho que me virar com o resto”. Eu
acho que seria muito mais salutar continuar sendo só um festival
internacional, porque eu acho isso necessário, a gente conhecer
a cultura de outros países, eu acho necessário o intercâmbio.
E acho que alguns festivais, como por exemplo, Manaus, é um festival
que está totalmente internacionalizado. Mas ele nasceu com essa
preocupação de ser uma ponte até para levar as pessoas
lá, foi sempre um estado independente, vamos dizer assim, um estado
muito mais voltado, muito mais com um olhar estrangeiro que brasileiro.
Então o que ele está proporcionando é que, através
dele, as pessoas passam a conhecer um pouco da cultura do Amazonas. Não
que eu esteja vendo grandes produções lá na tela,
não que o cinema brasileiro que está sendo exibido lá
é de suma importância. Não, é um evento que
está sendo único talvez de elo, está servindo de
elo para que os outros estados brasileiros compareçam ao Estado.
Então o cinema está criando essa proximidade que é
uma outra coisa bacana, que o cinema aproxima povos e continentes. Então
dentro desse território imenso do Brasil, tem alguns festivais
que estão servindo para essa proximidade. Eu acho que são
poucos ainda os festivais dedicados exclusivamente ao cinema brasileiro.
A gente suga muito pouco do que está sendo exibido, eu acho ainda
muito isso, e eu vejo isso muito diferente. Por exemplo, nessa edição
eu estou vendo uma coisa que é essa inovação dessa
linguagem, esse olhar para esses novos diretores, todo mundo dizendo “nossa
eu escolhi o lugar certo para estrear o meu filme”. O fato de não
ter essa competitividade, de não gerar esse stress, você
está ali para ter essa troca, com a platéia, com os seus
colegas, para você ter essa liberdade. O próprio Kleber Mendonça
Filho é um exemplo disso, porque ele roda o Brasil, premiado com
seus curtas. É o primeiro longa dele (“Crítico”), se inscreveu
em Brasília, ele disse “nossa foi um presente, foi assim uma iluminação
eu ter vindo aqui”. Eu falei “gente, um cara tão viajado, o que
ele pensava de Tiradentes”, ele não conhecia o evento, mas escolheu
aqui para estrear o filme, ele que nos procurou.
Mulheres: Em conversas que eu já tive com você
eu percebo uma preocupação sua de que esses filmes cheguem
às telas. Isso é uma preocupação que vejo
muito particular em você. Você acha mesmo que um festival,
uma mostra, tenha que fazer uma ponte para que a cadeia de exibição
possa levar esses filmes para a tela. Que depois esses filmes, que foram
tão debatidos, possam chegar ao público em geral?
Raquel Hallak: É porque eu acho que o cinema brasileiro
tem público. Ele tem público, isso é uma coisa comprovada.
Porque desde sempre a gente ouviu dizer que o som do cinema brasileiro
era horrível, cinema não sei o quê, que teve uma época
muito de pornochanchada. Então é assim, o cinema brasileiro,
culturalmente falando, não teve uma trajetória cem por cento
que você amasse, que voe gostasse, que você admirasse, como
a gente faz com a música. A gente adora a nossa música,
a gente aprecia outras, mas a gente ouve a nossa música, a gente
quer ouvir.
Então eu tenho comigo, a gente quer assistir cinema brasileiro
no circuito comercial, só que eu acho que é muito desigual
a forma como ele é lançado, a forma como chega as cópias,
a forma como os filmes independentes precisam sobreviver. Como eu acho
também que tem alguns filmes que não têm que ir para
o circuito comercial, tem que existir o circuito de arte e outros têm
que ir direto para a televisão. Eu acho que falta a gente identificar
aqueles que devem ocupar as salas de cinema, e não só proporcionalmente
ao seu orçamento, à sua história, mas que tenha o
perfil para ser comercial. Como alguns documentários que tem o
perfil de ir para a TV, que nunca chegaram ao circuito comercial, mas
talvez não seja para chegar mesmo. Talvez a gente tenha que ter
espaços alternativos de exibição que tenha o perfil
público daquele, porque a gente também na pode empatar o
circuito comercial com filmes que não são lucrativos. A
gente está falando de uma indústria e uma indústria
não tem que ter uma estética única, e ela também
não vai ter uma platéia única que vai consumir.
Então o que falta, essa diversidade, isso aí ainda é
muito incipiente ainda, mas a gente tem que começar a discutir
um pouco isso, discutir os perfis de produção que estão
sendo feitos no Brasil. Porque a transformação é
muito grande, então a gente tem filme que é feito no celular,
filme que é feito no fundo de quintal, filme que é feito
com uma câmera só, filme que o cara faz com o dinheiro do
próprio bolso. Como a gente tem também filmes de grandes
orçamentos, filmes de época, filmes de adaptações
literárias, filmes de co-produção. Então identificar
isso é que eu acho que falta, essa sensibilidade entre exibidor,
distribuidor, realizador e produtor para você batalhar, para a gente
poder identificar o que vai para cada setor.
Mulheres: O seu foco é o cinema, mas você
também trabalha com a música e com o teatro. Eu gostaria
que você falasse um pouco a respeito disso.
Raquel Hallak: É porque eu não consigo
trabalhar segmentada, eu não consigo ver a música sem ver
o teatro e sem ver o cinema. O cinema é a minha prioridade, sem
dúvida, porque dentro do cinema estão todas as outras manifestações
da arte. Então é como se ele fosse um guarda-chuva e os
outros estivessem debaixo dele, então ele espelha todas essas manifestações.
Quando a gente faz um show aqui, só com artistas mineiros, é
porque às vezes conhecendo ali você pode pensar nele para
a sua trilha sonora, aí você vê um teatro e pode ver
um cara fantástico, entendeu? Porque nós estamos trabalhando
aqui com uma média de 400 convidados, então eu sempre fico
naquela esperança de que o evento possa ajudar a descobrir talentos.
Mulheres: Mas independente da Mosta, você trabalha
com grupos de música e de teatro, como, por exemplo, a Cia Burlantins.
Raquel Hallak: É, com Monte Pascoal. É
porque é uma forma da gente conhecer essas outras vertentes. O
nosso foco de atuação são projetos, mesmo a Burlantins,
mesmo o Monte Pascoal, a nossa parceria se dá transformando esses
grupos em projetos nossos. Então eu não tenho foco, por
exemplo, só em estrear. A gente não é uma produtora
de agenciamento de artistas. Isso faz parte, porque eu também não
posso negar que isso exista, mas sempre tem um objetivo.
Por exemplo, a gente está até finalizando uma primeira parte
da parceria com a Burlantins. O nosso propósito era não
deixar o grupo morrer, reunir o grupo de novo, e a gente tinha como meta
que a nossa parceria iria rodar um pouco o Brasil com uma mostra que eu
fiz, com a Burlantins reunindo o repertório para dar um fôlego,
para a gente ter um patrocínio, para a companhia ser revigorada
até ela ter um novo espetáculo. E a gente conseguiu cumprir,
a meta era até em três anos e agente acabou fazendo isso
em quatro anos. E agora a gente praticamente vai vender só espetáculo,
e aí ele já tem pernas para continuar, a idéia que
a gente atua é mais ou menos isso também. Vamos ser um suporte,
porque às vezes você trabalha com os artistas, mas eles não
são empresários, não são produtores.
A mesma coisa a gente fez na carreira da Regina (de Souza), como uma forma
da gente estar atuando para ela dar um impulso, porque ela começou,
pelo próprio estilo dela, a lidar com produção e
deixou a carreira de lado. Então como a gente formou junto, estudou
junto, eu disse que até que ela fosse ao novo CD, que fica pronto
esse ano, a gente caminharia junto. Porque a gente tem os nossos projetos
próprios. Nosso forte é desenvolver projetos próprios,
que a gente quer fazer com a cara da empresa. Então os grupos,
eles fazem parte. Por exemplo, em vez de agenciar um músico, nós
queremos fazer um evento de música. Entendeu a diferença?
O mesmo e dá com o teatro. Porque essa é a nossa marca,
esse é o forte da nossa atuação, então eu
quero aproveitar esse dom, essa visão que eu tive desde que comecei
a minha carreira profissional pra colocar isso em prática.
Mulheres: E na Universo vocês trabalham em equipe
em todos esses eventos, como é aqui na Mostra?
Raquel Hallak: É, a gente tem os núcleos,
o núcleo de produção, de logística, técnico,
planejamento. Então praticamente o planejamento, a idéia
inicial, a concepção é minha mesma, eu que gosto
de escrever, de pensar. A gente troca uma idéia com a equipe inteira.
E depois que já está pronto, concebido um projeto, que ele
sai para a venda. E aí todo mundo e, mais praticamente, eu e o
Quintino é que atuamos na venda do projeto.
E na prática a gente chama a equipe toda, contrata pessoas de fora.
Aqui, por exemplo, são 126 pessoas atuando. A gente tem a felicidade
de ter uma equipe, que mesmo que não seja fixa durante o ano todo
na Universo, ela acaba sendo fixa na Mostra, todos tiram férias
para vir trabalhar, atuar, então é uma equipe não
só coesa, mas que faz parte da trajetória. A gente olha
11 anos, a Mônica, por exemplo, trabalhava no O Tempo, tinha acabado
de se formar, hoje ela está na Universo. Pessoas que sempre fizeram
questão, que fazem parte mesmo. Tiradentes é um evento que
eu acho que tem uma magia, o novo sempre acontece a cada edição.
Mulheres: E como se dá a interferência na
economia do Estado?
Raquel Hallak: Eu acho que é uma contribuição
inegável. Por exemplo, do ponto de vista turístico, cultural
e social, de desenvolvimento. É, inclusive um dos maiores eventos
estudados dentro de universidade. A gente recebe muito pedido, a gente
atende muitos estudantes que têm a mostra como evento bem-sucedido
de aplicação das leis de incentivo, de impacto na economia
na cidade e na região, de impulso turístico muito forte.
Você vê esse crescimento, essa mudança em Tiradentes,
que é um crescimento que a gente tem que acompanhar ano a ano,
senão ele cai. O ano inteiro a gente tem que fazer parte do processo
da cidade e chega na época da Mostra a gente assume tudo, do trânsito
da cidade à limpeza, pra ter continuidade, senão o evento
acaba. Então essa visão inteira, eu fico assim feliz de
estar proporcionando isso, do evento servir como objeto de estudo, e mesmo
como objeto de exemplo do que isso transformou Minas, de uma época
em que não vinha turista para Minas, que era de baixíssima
temporada. Aqui por exemplo, em Tiradentes, movimenta-se uma média
de 2 milhões e meio em dez dias. Praticamente esse ano, tem uma
pesquisa que foi feita pelo Instituto da Estrada Real, a ocupação
tem se dado com freqüência praticamente o ano inteiro. Chega
a época da Mostra ela registra quase 100% de ocupação
da rede hoteleira, ela já entrou para uma rota de visita turística
no mês de férias. Então é uma conseqüência
do trabalho, realmente.
Mulheres: Além das três Mostras e mais os
trabalhos com os projetos de música e teatro dá tempo de
ir ao cinema, ao teatro e aos shows como espectadora normal?
Raquel Hallak: (risos) O problema não é
a ida. O problema é que a gente vai ao cinema e ao teatro, mas
a gente tá trabalhando (risos). Tem que ser produções
muito boas para a gente se abstrair. Porque a gente entra, por exemplo,
como eu trabalhei muitos anos no Sesi, eu não consigo ir ao teatro
do Sesi sem me enxergar trabalhando (risos). Porque a gente olha os defeitos
e as sugestões, as idéias boas. Então a gente olha
e diz “nossa, eu faria isso assim, nossa isso é bacana”. Então
o olhar para a área cultural é sempre mesclado com o trabalho.
Pra tirar férias tem que ir para o mato (risos).
Mulheres: Você se lembra qual foi o último
filme brasileiro que você viu no cinema sem ser para os trabalhos
na Mostra?
Raquel Hallak: Sem ser para a mostra... sem ser em festival...
Não me lembro não, acho que foi em festival ou em casa,
porque a gente acaba tendo uma biblioteca com um monte de filme. Eu não
consigo ir entrar nas sessões para ver filme, às vezes eu
fico morrendo de vontade, às vezes eu fico lá vendo um curta,
dois. Por exemplo, “O Andarilho” (Cao Guimarães) foi uma coisa
inédita, que marcou, porque era a última sessão em
Ouro Preto, o encerramento, e eu consegui ficar sentada do início
até o fim vendo o “Andarilho”. Porque a gente fica louca pra ver.
“O Andarilho” me marcou porque eu fiquei vendo, eu até falei “gente,
eu consegui ficar até o final sem ficar estressada, sem ficar imaginando
o que podia estar rolando lá como filme de encerramento”. Mas geralmente
cinema brasileiro eu acabo vendo ... Ah, o “Extremo Sul”, eu vi no cinema.
Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para
homenagearem uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época
e de qualquer área. Quem é essa mulher para você?
Raquel Hallak: Uma pessoa que eu gostaria muito de homenagear
até em Tiradentes é a Fernanda Montenegro. Eu até
faria três homenagens. Fernanda Montenegro enquanto atriz de modo
geral, assim completa, e como ser humano, porque eu tive oportunidade
de conhecer e, realmente, eu acho ela singular.
Enquanto produtora eu homenagearia a Mariza Leão, no Rio, adoro
a coerência dela, a forma como ela se posiciona, não pelo
resultado dos trabalhos, mas pelo conjunto profissional dela. E a Sara
Silveira, em São Paulo, que eu acho que é uma produtora
fantástica, que eu também me identifico muito.
Eu acho que as produtoras são mais guerreiras, eu acho que elas
têm uma missão muito especial de tornar aquilo viável
e real, E muitas vezes as produtoras são esquecidas enquanto profissionais
importantes do cinema brasileiro.
Mulheres: Obrigado pela entrevista.
Raquel Hallak: De nada.
Entrevista
realizada em janeiro de 2008,
na 11a Mostra de Cinema de Tiradentes.
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