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Rebecca Ferrari - Espaço/Z Nascida no Rio de Janeiro, em 31 de março
de 1969, Paula Lavigne trocou a carreira de atriz, segundo ela sem expressão,
pela de produtora bem-sucedida do cinema brasileiro, “Eu estou entre as cinco
maiores produtoras de cinema do Brasil, você mesmo está me entrevistando aqui
de uma maneira que você nunca me entrevistaria se eu fosse uma atriz, e na
televisão eu não tinha muita expressão”. Seu primeiro trabalho como atriz
foi no filme “O Cinema Falado” (1986), dirigido pelo cantor e compositor
Caetano Veloso, com quem foi casada durante muitos anos e teve dois filhos. Na
televisão, interpretou personagens secundários em minisséries e em novelas,
como “Anos Dourados” (1986) e “Vale Tudo” (1988) – sua última novela
foi “Explode Coração”, em 1995. Nos anos 90, Paula Lavigne estreita sua
relação com o cinema e passa para o outro lado das câmeras. É a época em
que se torna sócia da Natasha Records e se lança ao universo das trilhas
sonoras. Convidada pelo cineasta Carlos Diegues, produz a trilha de “Tieta do
Agreste” (1996) e depois, associada a ele e à sua esposa Renata, produz
“Orfeu” (1999). Estava carimbado
aí o passaporte para Paula Lavigne iniciar sua carreira como produtora de
cinema, sendo sua primeira produção um sucesso popular que agradou também a
crítica, “Lisbela e o Prisioneiro”, dirigido em 2003 por Guel Arraes, seu
parceiro das futuras produções. A partir daí torna-se uma produtora
respeitada, com filmes de sucesso e prestígio no currículo, como o belo
“Benjamim” (2003), de Monique Gardenberg,
o divertido “Meu Tio Matou um Cara” (2004), de Jorge Furtado, “2
Filhos de Francisco” (2005), de Breno Silveira – do qual é produtora
associada, e agora “O Coronel e o Lobisomem” (2005), de Maurício Farias. Paula Lavigne esteve em Belo Horizonte
para o lançamento de “O Coronel e o Lobisomem”, adaptação cinematográfica
do livro homônimo de José Cândido de Carvalho, com roteiro assinado por Guel
Arraes, João Falcão e Jorge Furtado. Em entrevista exclusiva para o Mulheres,
Paula Lavigne fala de sua passagem de atriz para produtora, sobre as dores e as
delícias de produzir cinema no Brasil, sobre as suas produções, sobre o
momento atual do cinema brasileiro e sobre o filme “O Bem-Amado”, sua próxima
produção. Mulheres: Você tem uma participação importante nos últimos
sucessos do cinema brasileiro. Como foi o passo da atriz para a produtora? Paula Lavigne: Olha, foi um pouco até natural
porque quando eu me casei com o Caetano (Veloso), eu tinha 17 anos, e aí eu
meio que comecei, numa necessidade doméstica, a cuidar dos negócios.
Logo depois eu me envolvi com uma gravadora, que era a Natasha Records,
que vem a ser a minha empresa hoje. Naquela época, a gente começou a
distribuir a Disney, com as trilhas para cinema. Foi aí que o Cacá Diegues me
chamou para produzir a trilha do “Tieta” e depois para produzir “Orfeu”.
Com isso, eu fui fisgada pelo bichinho do cinema e estou aqui até hoje. Mulheres: E a carreira de atriz? Você não pensa mais? Paula Lavigne: Não, não dá. Eu estou entre as
cinco maiores produtoras de cinema do Brasil, você mesmo está me entrevistando
aqui de uma maneira que você nunca me entrevistaria se eu fosse uma atriz, e na
televisão eu não tinha muita expressão. Eu ficaria ali sempre na mesma coisa,
eu não tinha um diferencial. Eu teria que ter um talento natural para ter um
diferencial e poder trabalhar no Brasil. Eu acho que eu realmente não tenho
vocação para ser atriz, eu tenho muito mais vocação para ser produtora. Mulheres: Mas a sua presença, por exemplo, no filme “O
Cinema Falado”, do Caetano, é uma presença bonita em cena. Paula Lavigne: Obrigada. Mulheres: Então, você não pensa mais nem atuar no cinema? Paula Lavigne: Não penso não, e nem tenho
tempo para isso. Eu sou tão bem-sucedida na minha carreira de produtora que
fica difícil. Mulheres: Quando você foi abrir a Natasha Records, você
tinha dimensão que ia chegar até aqui? Paula Lavigne: Não, eu não abri, ela já
existia, era um selo. Mas quem começou a fazer cinema lá dentro fui eu. Mulheres: Você tinha essa dimensão, de onde iria chegar? Paula Lavigne: Não, não tinha. Eu aprendi tudo
com o Cacá Diegues e com a Renata, mulher dele em “Orfeu”. Logo depois eu
parti para uma carreira solo para produzir “Lisbela e O Prisioneiro”.
“Lisbela” foi um sucesso muito grande e aí as coisas começaram a dar
certo. Mulheres: Você comanda tanto a parte da produção de um
filme como também a trilha sonora? Você se envolve na escolha de quem vai
fazer? Paula Lavigne: Sim, claro, me envolvo em tudo. Não
na coisa artística, criativa. A gente respeita os artistas. Mas quem vai fazer
e como vai ser, com certeza. Mulheres: As produções têm correspondido às suas
expectativas? Porque têm sido sucessos, não é? Paula Lavigne: Tomara. O “Coronel” a gente não
sabe ainda. Mulheres: Os filmes que você vem produzindo são de sucesso
popular, mas eles têm também um traço autoral, não é? Paula Lavigne: Mais ou menos. Eu produzi
“Benjamim” que não era um sucesso popular, era um filme pequeno, um filme
de arte, um filme autoral da Monique Gardenberg, não teve esse sucesso popular,
nem 200 mil espectadores. Mulheres: Mas nesse caso é porque era mesmo um filme mais
fechado. Paula Lavigne: A proposta era essa, entendeu? Eu
também gosto de fazer filmes assim. É porque no momento, como o Guel (Arraes)
vem falando, a gente está em um grupo muito bem-sucedido, e eu não vou abrir mão
disso para arriscar em uma outra coisa. Eu me entendo muito bem com o Guel, então... Mulheres: Mas eu vejo mesmo nesses sucessos mais populares,
também um caráter mais autoral. Paula Lavigne: Têm, têm. São filmes de
qualidade. O que a gente pretende fazer são filmes comerciais de qualidade, não
interessa fazer bagaceira não. Mulheres: Sua próxima produção é “O Bem-Amado”? Paula Lavigne: É “O Bem-Amado” e um filme
do Guel que chama-se “Romance”. Esse vai ser um filme como você chama,
autoral. Mulheres: É produção para o próximo ano? Paula Lavigne: Tudo depende do dinheiro que a
gente arruma, né? Tudo depende dos editais, de como são facilitadas as coisas.
Eu costumo correr atrás e realmente sou bem chata para isso, eu encho o saco de
todo mundo (risos), mostro o meu trabalho, provo que eu dou retorno, faço as
coisas direito. Mas depende, vem ano de eleição, daí complica mais para uma
captação, tudo mais. É difícil prever, mas a gente não costuma demorar não,
a gente é rápido. Mulheres: Qual é a maior delícia e qual a maior dificuldade
em ser produtora de cinema brasileiro? Paula Lavigne: Olha, a maior delícia é quando
você faz um sucesso e todo mundo reconhece o seu trabalho, você ter aquele
prazer de ver as pessoas gostando e se divertindo com aquilo. A maior frustração
é quando você começa a ter problemas, e aquilo vai em cadeia, não dando
certo. Graças a Deus eu nunca passei por uma experiência assim tão drástica,
porque é muito responsabilidade, é muito dinheiro, né? Apesar da gente,
comparativamente à Argentina, ao México, ter produções mais baratas, em
torno de 2 e 3 milhões de dólares, se você for olhar assim, ainda é muito
dinheiro para a gente, para a nossa realidade. Por isso, a gente acha que tem
fazer barato e rápido. Se você for ver um filme como “Casa de Areia”, que
gastou 10 milhões, “O Casamento de Romeu e Julieta”, que eu acho que foi
quase 10 milhões, nós fazemos filmes mais baratos. Agora é porque é em
equipe, senão a gente não faria. Mulheres: Quando você aposta em uma produção, o que te
chama atenção primeiro? Quem está envolvido, o roteiro? Paula Lavigne: Eu e o Guel fazemos uma
dobradinha, então a gente discute tudo. Daí eu vou à luta do meu lado, ele
vai à luta do lado dele, com os dois sempre dando palpite um no lado do outro.
A gente se respeita, tem que se saber respeitar o trabalho dos outros. Mulheres: Você é uma espectadora do cinema brasileiro? Paula Lavigne: Olha, bem menos de que eu
gostaria, porque fazer cinema não me sobra muito tempo para assistir (risos).
Então eu acabo vendo quando a coisa chega mais em DVD. Mas eu gosto muito de
cinema. Mulheres: Na história do cinema tem alguma mulher que vem a
sua cabeça, seja atriz, diretora ou de qualquer área, que você admire? Paula Lavigne: Marcélia Cartaxo, me lembro
muito dela no cinema, a admiro muito. Seu surgimento foi uma coisa que me
impressionou, foi bom ter tido aquela figura, foi uma coisa nova a gente ter
aquela nordestina, aquela cara no cinema. Falar Fernanda Montenegro é óbvio,
Marília Pêra é óbvio em “Pixote”. Nós temos grandes atuações de
mulheres, eu posso passar aqui a tarde inteira falando, temos muitas. Mais difícil
é homem (risos), mas mulher tem uma presença mais forte. Eu acho que o Daniel
(Oliveira) agora com o “Cazuza” conseguiu um grande trabalho, mas em clássicos
mesmo se você for lembrar, como “Central do Brasil”, por exemplo, são as
mulheres. Mulheres: Os produtores de cinema conversam muito entre si? Paula Lavigne: Muito menos do que eu acho que
deveria. A gente tem um sindicato de produtores no Rio, a gente se fala, mas no
Brasil todo a gente deveria se falar muito mais. Mas é aquela história, corrida
ao ouro, todo mundo batalhando pelo mesmo dinheiro, então cria-se um clima de
rivalidade que não é legal. Mulheres: Como você vê o momento atual do cinema brasileiro? Paula Lavigne: A gente está passando por um
momento de depressão ruim, 2003 foi bem melhor, agora a gente teve um ano não
muito bom. Tem o “2 Filhos”, do qual sou produtora associada, para resgatar
essa vivacidade. Eu acho que isso é resultado de dois anos de discussão de
Ancinav, Ancine, isso e aquilo, e aí pára, pára tudo, e com isso tivemos um
ano não muito bom. Com “2 Filhos” vamos recuperar um pouco? Mulheres: Essas dificuldades não te emperra no trabalho como
produtora? Paula Lavigne: Emperra sim. De prosseguir não,
mas diminui o ritmo, atrapalha muito. Mulheres: É claro que é difícil para os negócios, mas, particularmente, como você se sente com esse vai e vem da nossa economia e seus efeitos no cinema brasileiro? Paula Lavigne: Eu fico arrasada. De repente você
conquista um lugar no mercado e quando você vê já não está podendo dar continuidade
aos seus planos. A gente quer fazer “O Bem-Amado”, o Nanini (Marco) só tem
pauta para julho, eu não sei se vou estar preparada, é uma montanha russa,
entendeu? Quando eu digo preparada é em termos de produção para rodar quando
ele pode. E a gente faz questão em ter o Nanini como o Odorico Paraguaçu, entendeu?.
Então é uma instabilidade muito grande. Mulheres: Obrigado pela entrevista. Paula Lavigne: Obrigada.
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