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PALOMA
ROCHA

Foto:
Alexandre C. Mota
"Cineop - 3a Mostra de Cinema de Ouro Preto"
Paloma
Rocha é cineasta. Filha de Glauber Rocha e enteada de Rogério
Sganzerla, Paloma Rocha acompanhou as homenagens aos dois cineastas que
a Cineop - 3a Mostra de Cinema de Ouro Preto promoveu. O evento reuniu
as famílias dos cineastas, vistos por muitos como ferozes opositores,
já que o primeiro foi do Cinema Novo e o segundo do Cinema Marginal::
"eu sempre via as duas obras e achava que uma complementava a outra,
uma tinha esse olhar mais épico, mais político sobre os
problemas do Brasil, e o outra detalhava quais seriam esses problemas".
Paloma saudou a iniciativa: "eles perceberam isso e resolveram homenagear
os dois juntos aqui hoje, o que é um fato histórico".
Paloma
Rocha vivenciou perdas trágicas:: o pai, Glauber, morreu aos 42
anos; a tia, a atriz Anecy Rocha, morreu tragicamente ao cair no fosso
do elevador; o padrasto, Rogério, foi vítima de um câncer
fulminante. Paloma comenta: "Então fica para mim essa experiência
da tragédia, eu tento remontar essa questão da vida, do
que é vida, do que é trabalho, do que é arte, entendeu?
Essa coisa de ir até as últimas conseqüências.
Só que quando eu chego na última conseqüência,
eu falo “não, não vou nessa compulsão até
lá, eu vou parar aqui e vou criar uma ponte, vou dar um salto”.
Paloma
Rocha está a frente do Tempo Glauber, espaço que abriga
toda a obra de seu pai. É um trabalho gigantesco: "Eu acho
o Glauber um homem de extrema generosidade porque ele deixou horas e horas
de fala dele, contando ele mesmo o próprio processo. Deixou os
escritos, as pistas, quatro mil fotografias. Ele deixou as várias
versões dos roteiros dos filmes. Ele conta todo o processo, todo
o método de direção e de criação do
período dele. Quer dizer, está tudo ali documentado e a
gente colocou em DVD, estamos dando acesso.".
Na
Cineop, além dos filmes dos dois cineastas e de outros interligados,
teve também a exibição de dois filmes de Paloma,
co-dirigidos com seu marido, o cineasta Joel Pizzini: "Abry"
e "Anabazys". Paloma Rocha participou também de debates,
ao lado de familiares como a mãe Helena Ignez, a avó dona
Lúcia Rocha, os irmãos Djin e Sinai Saganzerla e Eryk e
Pedro Rocha.
Paloma
Rocha conversou com o Mulheres. Na entrevista, ela fala sobre a relação
com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, o trabalho a frente do Tempo
Glauber, a sua carreira, a parceria com Joel Pizzini, a tia Anecy Rocha,
e outros assuntos.
Mulheres:
Como você vê essa homenagem que a Cineop faz a dois cineastas
até então vistos mais como opositores, Glauber Rocha e Rogério
Sganzerla, sendo que o primeiro é seu pai e o segundo seu padrastro?
Paloma Rocha: Então, essa é a pergunta
que não quer calar. Eu tenho dito nas minhas declarações
que é um momento de celebração muito grande porque
de fato eu acredito , eu acho que eu sou também um pouco mentora
, eu venho falando sobre isso. Há uns três anos eu já
tinha falado com a minha mãe. Já tinha sido feito uma homenagem
na Suíça, onde, coincidentemente, se passou o “Terra em
Transe” e onde se passou “O Bandido da Luz Vermelha”. Eu venho falando
sobre isso, brincando e falando que o meu próximo projeto ia se
chamar “O Bandido em Transe”. Porque eu sempre via as duas obras e achava
que uma complementava a outra, uma tinha esse olhar mais épico,
mais político sobre os problemas do Brasil, e o outra detalhava
quais seriam esses problemas. E ainda brincava , achando que se Paulo
Martins não tivesse morrido ele teria virado o Bandido da Luz Vermelha,
ele teria ido para a luta armada, ele teria, enfim, partido para a sua
própria revolução pessoal. E achava que a Janete
Jane, ela poderia, se tivesse tomado um ácido, a Sara (risos) poderia
ter sido a consciência do Bandido. Mas são coisas muito domésticas,
isso é papo de cozinha, dentro de casa.
Então eu venho falando isso por esse motivo, porque eu acho sempre
muito primário a maneira que se lê a história do cinema
brasileiro, quando se chega nesse ponto, quando se chega nessa briga,
nessa polêmica. É uma mania brasileira, quer dizer, não
se discute os pontos da polêmica, dos motivos estéticos,
fica discutindo quem brigou com quem, vira tudo uma novela. E isso é
uma coisa que me incomodava pessoalmente, mesmo porque muitas vezes também
atacavam o Glauber: “ah, porque o Glauber é uma instituição
do Cinema Novo“. E não tem nada a ver. Tudo bem que o Glauber fez,
foi o principal articulador do Cinema Novo, e, na verdade, representa
o Cinema Novo até hoje, junto com Joaquim Pedro, Leon Hirszman,
e tantos outros, o Cacá Diegues. Mas no final da trajetória
dele, ele acabou sozinho, esse grupo não fazia mais parte da vida
dele. E eu via a reaproximação dele até bastante
solitária do Rogério, quando ele voltou do exílio,
apesar de todas as questões e tal, eu vi os dois conversando algumas
vezes, e vi conversando também em outros momentos na minha juventude.
Mas não porque eu tenha sido testemunha pessoal, mas é porque
eu acho que, independentemente do meu testemunho pessoal, te ter visto
ou não ter visto eles conversando, de fato as obras dialogam entre
si. E elas ficam, elas ficam como uma lição de cinema e,
sobretudo, uma lição do método e uma lição
do modo de produzir, do método de criar.
Porque se vivia aquilo, não como “ah, vou fazer um filme, vou montar
uma produção, ou fazer um roteiro”. Não tinha esse
negócio, era a vida deles, resolver um filme era resolver a própria
vida. Fazer aquele filme era um ato de existência, tanto é
que eu acho que era um sentimento compartilhado com os artistas, com os
revolucionários da época. E por isso morrem de uma maneira
jovem, adoecidos, até pela impossibilidade de continuar produzindo,
dentro daqueles padrões, daqueles moldes, na hora que o mundo mudou.
Tem uma coisa que o Paulo César conta do Glauber. Eles foram assistir
um filme, só estou me esquecendo do nome do filme agora, um filme
americano de sucesso que estava na época . Quando saíram,
o Glauber disse para o Paulo César “você sabe fazer isso?”
, o Paulo César falou “não”, ele falou “então nós
estamos fudidos” (risos). Entendeu? Ou seja, o que eu acho que também
contextualiza um pouco o que eu estou dizendo.
Então eles dois são ímpares. Eu não estou
com isso querendo botar panos quentes ou omitir qualquer discussão,
qualquer polêmica que tenha havido. Mesmo porque eu acho que ela
é saudável, ela é salutar. Mas o que eu quero dizer
é exatamente o que move esses dois homens a fazer o cinema que
fizeram, que são cinemas ímpares, cada um no seu estilo.
E fundamentais pra gente, para a própria sobrevivência do
cinema brasileiro. Então é nesse aspecto. E aí eu
fico muito contente que isso esteja acontecendo nesse momento, porque
eu achava que o negócio estava ultrapassado. É como se eu
fosse fazer a releitura da história do Brasil, entendeu? E você
precisa rever, reler a sua própria história. Eu acho que
isso é um avanço, e a jovem crítica brasileira, que
é a turma da Contracampo, o Cléber, o Ruy. O Ruy saca porque
ele trabalha dentro do Tempo Glauber, convive comigo. E aí começaram
a sacar isso. Porque rola um certo oportunismo também porque os
filmes ficam em guetos, então têm as pessoas que vivem de
estudar isso, de defender essa idéia. Mas aí realmente a
coisa não flui.
Então eu acho que com essa iniciativa da Cineop e do Cléber,
da jovem crítica e da Cotracampo, e de toda a sociedade, de todo
mundo que está envolvido, eles perceberam isso e resolveram homenagear
os dois juntos aqui hoje, o que é um fato histórico. E você
vê que a homenagem que foi feita também foi muito especial.
Eu esqueci ontem de agradecer as pessoas no cinema, mas a maneira que
foi feita, a montagem, a intervenção da música eletrônica,
a banda de música, o berimbau, a comunhão das cenas, tudo
convivendo num grande plano de fundo, que é você ter generosidade
com a sua própria história e se aceitar. É um pouco
o que o Gustavo Dahl estava falando hoje, o Brasil não conhece
o Brasil, o Brasil não aceita o Brasil, O Brasil não acredita
no Brasil. Então isso tudo é muito importante. E é
muito importante desse ponto de vista pessoal, porque como eu disse ontem,
como um desabafo, eu não agüentava mais toda essa encheção
de saco.
Agora com os filmes restaurados, hoje eu abri os jornais e tinha foto
do “Dragão da Maldade”, que entrou em cartaz em Belo Horizonte.
É uma iniciativa que estamos fazendo de acreditar nesses filmes,
de conseguir parcerias na distribuição comercial para essas
obras, de colocar elas na roda. A Folha de S. Paulo fez um debate semana
passada em São Paulo, foram 80 pessoas. Então é o
que Silvio Da-Rim estava falando, existe um interesse, inventaram que
não se tem esse interesse, mas esse interesse existe.
Mulheres: Pode-se até gostar ou não, mas
é impossível ficar indiferente tanto ao cinema de Glauber
quanto ao de Rogério, e também às pessoas, aos depoimentos
deles. Como foi conviver em meio a esse caldeirão e como isso refletiu
na sua trajetória agora como cineasta?
Paloma Rocha: Olha, pra mim foi sempre muito chato, desconfortável,
não é uma coisa agradável você viver em um
caldeirão como você bem observou, né? Nesse aspecto,
assim do que era às vezes a convivência, a briga, conviver
no meio disso tudo era muito desagradável. Agora, era muito agradável
por outro lado, a convivência com cada um deles individualmente
sempre foi muito prazeirosa. Eu acho que isso influencia. O que é
fica? Fica a maneira de se viver a vida, de encarar os problemas, entendeu?
A maneira de você encarar a arte, de você encarar a sua profissão,
a sua atividade, como ser humano, como artista, como uma contribuição.
Aquilo que você está fazendo está contribuindo, então
fica para mim isso. Para mim não interessa fazer um delay estético,
inatingível, que não vai comunicar com ninguém. Então
isso talvez tenha me trazido um pouco, pela educação que
tive mesmo, de dar voz, enfim. Eu estava falando sobre isso hoje, quer
dizer, a gente não faz uma coisa pensando no que ela vai dar, o
resultado. O ato de fazer é mais importante, quer dizer, a sua
concentração, a sua energia é colocada no fazer,
no ato. Você investir todas as oportunidades que você tem,
das circuntâncias com os atores, das circustâncias econômicas,
transformar toda aquela dificuldade em matéria para sua criação.
Às vezes as coisas ficam um pouco difíceis, você tem
recessões econômicas muitos violentas e você não
consegue levar o projeto adiante. Mas até onde der, transformar
sua dificuldade em criação, isso foi uma coisa que aprendi
com eles. É que não existia separação entre
a obra e a vida, é tudo uma coisa só, é tudo uma
questão de vida ou morte. Agora fica para mim também a experiência
da tragédia, essa fica muito forte na minha vida, de ver essas
pessoas que eu amei profundamente, tem a minha tia, Anecy Rocha, tudo
isso, pessoas que se retiram do cenário muito jovens. O caso de
meu pai, aos42 anos, com 10 longas-metragens e não sei quantos
curtas, mais 70 mil documentos, etc.
Rogério também nos deixa de maneira fulminante, sem avisar.
Em seis meses aparecem dois tumores na cabeça fulminantes. Com
uma diferença em relação ao Glauber, ele ainda teve
tempo de se despedir da família. O Glauber foi de um dia para o
outro, ele estava em Sintra quando aconteceu, passa, inclusive, o filme
de Paula Gaitán hoje. Eu não estava lá, mas para
mim durou doze horas de aviso: “está chegando, está muito
mal”. Quando eu cheguei demorou quarenta minutos, e ele morreu, eu estava
do lado, estava do lado dele quando ele morreu.
Então fica para mim essa experiência da tragédia,
eu tento remontar essa questão da vida, do que é vida, do
que é trabalho, do que é arte, entendeu? Essa coisa de ir
até as últimas conseqüências. Só que quando
eu chego na última conseqüência, eu falo “não,
não vou nessa compulsão até lá, eu vou parar
aqui e vou criar uma ponte, vou dar um salto”. Eu preciso sobreviver,
e aí, de uma certa maneira, internamente, eu me aproprio dessas
responsabilidades, dessa herança, dessa bagagem, que já
um grande peso e agora mais leve. Para fazer essa passagem trazendo comigo
essas pessoas, essa história. Ontem eu até estava falando
com o Joel, que a gente tem um papel importante no sentido de que a gente
está a “curar”, nós somos os curadores da obra, e estamos
tentando curar também os problemas que envolveram essa obra. Então
eu tento curar o problemas de Glauber com os militares, a má interpretação.
No “Anabazys” a gente aborda essa questão, o Glauber se defendendo
das acusações, que ele apoiou os militares porque ele acreditava
que o grupo nacionalista ia fazer a abertura de maneira democrática
e não de uma maneira lenta e gradual. Que eles conduziriam o Brasil
a uma democracia e não porque ele tinha se aliado aos militares,
porque ele sempre viveu exilado.
Então você oferece a oportunidade. Na restauração
do “Barravento” a gente reincorporou o Luiz Paulino dos Santos, que também
tinha aquela polêmica. O Luiz Paulino hoje convive com a gente,
tem uma declaração dele, está no DVD. Porque tem
uma crítica especializada que enche o saco (risos), “É,
porque tem o Luiz Paulino”. Então é o seguinte: “veja o
DVD que o Luiz Paulino está lá contando a própria
versão dele (risos), entendeu?” Quer dizer, no sentido de que existe
o direito também das coisas, de haver uma união para haja
esse salto, para que a gente possa estabelecer essas pontes, essas relações.
Porque há um hiato. Vivi com quatro anos o golpe, a ditadura toda
depois, o hiato. Quer dizer, se não reconstruir essa ponte e eu
sendo quem sou, pelo fato de ser filha do Glauber, tenho uma responsabilidade
enorme. Além da minha existência ser completamente impregnada
disso, eu resolvi transformar essa impregnação então
em alguma coisa que me ajudasse também a me libertar disso e que
também desse a responsabilidade social, pública, que eu
tenho com essa obra. Porque eu sei que Glauber, pelo amor que ele me deu,
e da minha relação de amor e de afeto, eu não posso
deixar isso abandonado, e também porque acho a obra extraordinária.
E é a mesma coisa com Rogério.
Mulheres: E a diretora nasce como?
Paloma Rocha: Ah, ela nasceu faz tempo....
Mulheres: Mas como? Como você descobriu...
Paloma Rocha: Não se dá comigo desse jeito.
Mulheres: Sei, foi mais orgânico.
Paloma Rocha: É, não se dá comigo
dessa maneira. Você está compreendendo? Eu até tenho
uma certa dificuldade, e aí tem gente que fala: “ah, por causa
do mito, por causa do pai” Não se dá mesmo dessa maneira,
entendeu? Porque, por exemplo, a minha trajetória. Eu comecei com
teatro, fazia teatro como atriz, que era algo que eu gostava, eu gostava
muito do palco, e dirigir teatro, e não sei o quê. E hoje
eu dirijo uma instituição. É enorme, então
eu acho que faço um grande longa-metragem todos os dias, em projeto
interminável, em que eu tenho ali um elenco de pessoas e funcionários,
pessoas que eu tenho que pagar, que tem que gerir projetos, que eu tenho
que estimular. É um exercício diário de convivência
humana que é como se você estivesse trabalhando com atores,
com personagens, guardando suas devidas proporções. Muitas
vezes para você poder conduzir e dirigir uma equipe, você
precisa ter lá também seu jogo de cintura, nos intertícios
da personalidade de um, do outro e tal.
E tem esses documentários, desde 1987. O, o primeiro foi o “Romanceiro
do Cristo”, que também foi a partir do meu pai, sempre movida muito
por essa necessidade de contar essa história. Talvez por enquanto
eu tenha sido a diretora de uma história só, que é
a minha história. Hoje à tarde eu estava dando uma entrevista
para a TV e me ocorreu uma coisa que era mostrar a pessoa que eu conheci.
Então eu acho que o meu trabalho de direção se dá
na medida em que eu consigo mostrar as coisas da maneira como eu as vejo.
E eu acho que é muito simples. O resto é uma série
de técnicas que você tem que dominar.
Eu passei nove anos na TV Globo, eu fui assistente de direção
na TV Globo. No Governo Collor eu fui trabalhar lá como assistente
de direção e lá fui ficando. Eu tinha duas filhas
pequenas e então criei minhas filhas ali, batendo ponto. Nunca
dirigi na Globo, nunca deixaram, talvez eu nunca quisesse, talvez eu só
quisesse mesmo aprender. Talvez eu tenha ido lá para descobrir
quem tivesse matado o meu pai. Porque eu tive uma educação
que foi o seguinte,. O Glauber me colocou para falar inglês numa
escola americana quando eu tinha quatro anos de idade porque ele queria
que eu aprendesse a língua do colonizador. Entendeu? (risos) E
aí quando ele morreu, eu fui aprender a língua do colonizador
pela segunda vez. E foi uma experiência muito difícil pra
mim porque eu não era muito aceita ali naquele meio. Não
abriam mão do meu trabalho porque eu era competente e me impunha,
ganhava a simpatia de um e de outro. E tinha um sentimento de independência
muito grande porque eu tinha muito brio desse negócio de ser filha
de Glauber, ter visto tudo do jeito que eu vi e não virar uma pessoa
dependente, achando que o mundo me devia alguma coisa, entendeu? Ficar
pedindo comida na casa dos outros, ficar vivendo de favor.
Então para mim era uma questão de dignidade me manter, e
trabalhar na Globo virou para mim um grande desafio, de onde eu tirei
muitas coisas, porque eu descobri a atividade capitalista. No cinema e
na televisão é a capacidade de você resolver problemas
e vários ao mesmo tempo. Então eu ia todo dia para o set,
eu tinha trezentos figurantes, 40 pessoas no elenco, três diretores,
quatro continuístas, não sei quantas câmeras. Então
você vai desenvolvendo sua atividade. Muito da minha formação
vem disso aí, a parte mais prática, que foi fundamental
agora para poder administrar o Tempo Glauber e fazer esse projeto que
começou com o cinqüentenário da Petrobrás.
Teve um proponente que me desviou verba, eu pensei que ia perder tudo.
Esse trabalho ocupa uma média de treze horas por dia e várias
atividades relacionadas a esse mesmo tema. Porque o Glauber é uma
loucura, se você botar 30 pessoas ali trabalhando, hoje tem 24,
você vai trabalhar de oito da manhã à meia-noite do
mesmo jeito. Porque tem atendimento internacional, atendimento nacional,
os próprios projetos que estão sendo realizados agora, a
formação do banco de dados, projeto com equipe multidisciplinar
com o arquivo nacional. Então vai desde a criação,
ali da coisa mais lúdica, mais onírica, da delicadeza que
é o “Abry”, que é uma câmera de um ccd, nos momentos
da minha vó com a vida no fio da navalha, literalmente, até
uma coisa institucional com o arquivo nacional, multidisciplinar, de ser
absolutamente preciso e impecável na execução da
descrição dos documentos que tem que ser na regra internacional
dos arquivos. Então tem os profissionais envolvidos nisso, quer
dizer, na verdade eu lido com tudo isso, então eu vou de um extremo
ao outro, porque senão não acontece.
Mulheres: E como é co-dirigir? E ainda no seu
caso com o Joel Pizzini, seu marido.
Paloma Rocha: Também não tem isso. Com
o Joel é o seguinte. Ele é uma pessoa muito competente,
muito criativo, a gente se casou e tal porque é o seguinte. Nesse
meu olhar, ou seja, mostrar a pessoa que eu conheço, o papel dele
é, muitas vezes, de enxergar como um lapidador, como se fosse aquilo
ali uma relação muito bruta, entendeu? Então a gente
divide bem o trabalho. Ele tinha muita resistência disso no começo.
Eu falava “não, não tem nada disso, vamos fazer juntos,
não tem problema nenhum, isso é problema de ego, não
tem esse negócio, o importante é que fique bom, eu preciso
que você me ajude”. E aí eu fui enrolando ele (risos). Ele
se convenceu, fez o primeiro, fez o segundo, e está no quinto.
Mas ele faz as coisas dele sozinho e eu faço as minhas outras coisas
sozinha também, que é administrar esse negócio todo,
fazer banco de dados, site, exposição. É isso.
Mulheres: Assistindo ao “Abry” ontem eu adorei rever
as cenas da Anecy Rocha, que está linda em “A Lira do Delírio”.
Você tem também esse interesse em recuperar esses trabalhos
da Anecy? Porque ela é uma atriz extraordinária, mas muita
gente ainda não conhece os trabalhos dela.
Paloma Rocha: Tem. A Anecy é a minha madrinha,
eu fui criada por ela. Na verdade, a gente tem essa necessidade de fazer
isso, mas a gente ainda não consegui chegar até lá.
Mas... para mim talvez seja mais difícil. Eu fiquei pensando nisso
outro dia, por que eu não consigo organizar, “ah, é por
falta de tempo?”... È mais difícil. É mais difícil
para mim, é mais difícil para a minha avó... Mais
difícil por questões mesmo todas. Entrar em contato com
a história toda.
Mulheres: Há alguns anos eu entrevistei a dona
Lúcia e, apesar de todas as tragédias pelas quais ela passou,
eu percebi que foi difícil para ela falar da Anecy.
Paloma Rocha: É barra pesada. Então, tem
alguns filmes, como o “Menino de Engenho”, que o Walter restaurou, tem
“A Lira do Delírio”, tem o “Brasil Ano 2000”, tem os filmes que
estão com o Cacá, tem o filme com o Khouri. Na verdade,
talvez haja uma certa dificuldade de reunir isso, mas isso é uma
besteira, é uma falta realmente de iniciativa nossa. Também
pelo volume de coisas que o Glauber deixou, a produção do
Glauber é muito maior e aí ficou ali para eu fazer. Não
dou conta de fazer tudo, mas a gente quer fazer. Outro dia a gente passou
“A Lira do Delírio” no Tempo Glauber. Depois também porque
teve questões ali, pessoais, da família com o Walter, que
demoraram anos para serem superadas entendeu? E que até hoje não
foram completamente, hoje existe uma convivência formal, inclusive
ele vem aí. Mas a gente vai fazer. Inclusive tem o nome da sala
lá no Tempo Glauber, o nome é dela, chama Sala Anecyne.
A gente vai fazer sim.
Mulheres: Uma curiosidade que eu tenho. Por que a Anecy
não fez filmes com o Glauber?
Paloma Rocha: Eu acho que o Glauber não trabalhava
muito com a família não. A Rosinha trabalhou com ele.
Mulheres: A Helena Ignez.
Paloma Rocha: Só o “Pátio”. A Anecy fez
o “Menino de Engenho” com o Walter, ele fez o “Terra em Transe”. Aí
depois ele fez o “Dragão” e depois foi para fora, né?
Mulheres: É porque poderia ser um encontro tão
interessante.
Paloma Rocha: Exatamente. Talvez tenha sido falta de
oportunidade. Trajetórias também, personagens.
Mulheres: E o Tempo Glauber? Ele está agora garantido?
Paloma Rocha: Não, garantido não está
não. A Cinemateca Brasileira não está garantida.
Mulheres: Mas não está mais naquela fase
mais complicada de anos atrás, não é isso?
Paloma Rocha: Não está porque nós
estamos há quatro anos fazendo uma gestão lá. Às
vezes bastante difícil, dura, mas a gente reformou, tem um acervo
climatizado. A gente está com um projeto chamado Revitalizando
a Cultura que vai se encerrar agora, não o projeto, mas o recurso,
em que a gente está recatalogando toda a documentação,
restaurando alguns documentos. Dentro do Tempo Glauber foi montado um
pequeno laboratório digital, um laboratório de restauração
de papéis e de fotos. Tem o apoio do arquivo nacional. Toda a documentação
chamada de PI, produção intelectual dele com quase onze
mil itens, já está toda digitalizada, ela está duplicada.
Foi feito um arranjo arquivístico em relação a todo
esse material, tem princípios de conservação, a gente
trabalha com profissionais lá dentro, está sendo feito um
banco de dados em LPO3, que são aqueles discos e também
em DVD. Esse banco de dados foi desenvolvido a partir do banco de dados
do Siam, que é o sistema internacional de arquivos. Foi feito um
mini-sian a partir de um projeto que foi desenvolvido com a UERJ, do Centro
de Cidadania Barbosa Lima Sobrinho, está alimentando esse banco
de dados.
Tem o site que está em quatro línguas, tem esse projeto
Coleção Glauber Rocha, da Petrobrás, que foi administrado
por uma outra produtora, mas que nós estamos concluindo agora,
onde foi também bem ou mal digitalizado todo esse acervo que está
compondo os extras. Eles nos deram orçamento para fazer restauração
de quatro filmes, duas películas e quatro DVDs, várias cópias
distribuídas no Brasil e no mundo. Um dos quatro documentários
virou o “Anabasys” que é um filme em 35mm, os outros viraram seriados
de TV. Então o volume de coisas que apareceram... Eu acho o Glauber
um homem de extrema generosidade porque ele deixou horas e horas de fala
dele, contando ele mesmo o próprio processo. Deixou os escritos,
as pistas, quatro mil fotografias. Ele deixou as várias versões
dos roteiros dos filmes. Ele conta todo o processo, todo o método
de direção e de criação do período
dele. Quer dizer, está tudo ali documentado e a gente colocou em
DVD, estamos dando acesso.
Agora, paguei as contas do mês passado... Vou começar a cortar
o pessoal agora, começar a desmobilizar a equipe, captar um pouco
do Fundo Nacional de Cultura, que segura até dezembro. E eu estou
lutando. Foi feita uma exposição, eu mandei um projeto para
o Centro Cultural Banco do Nordeste, que está na Bahia, foi feito
pelo governo baiano. O governo baiano queria fazer uma filial do Tempo
Glauber na Bahia, mas aí vai faz, mas não faz, porque tudo
é difícil, porque as pessoas não sei o quê
e tal.... Mas aí não dá para ficar parado.
Ontem eu fui em Furnas, vamos trazer a exposição para São
Paulo, para o Rio de Janeiro, tem que movimentar. Os recursos para a cultura
nesse ano não são muito promissores, porque a nossa principal
incentivadora, que era a Petrobrás, está com problemas.
Então diversificou nas outras estatais, tudo através da
Lei Rouanet, e aí fica esse negócio, vai que não
vai. Na maioria do meu tempo eu procuro solução, é
quase uma obsessão, entendeu? Então eu fico o tempo todo
me movimentando e as coisas acontecem com muita velocidade. A obra é
muito fértil, você lança um filme e o filme pega,
o filme dá público, você faz três cópias
e o filme entra em circuito, e está nas capas dos jornais como
se fosse um filme novo, que tivesse sido lançado com trinta ou
trezentas, e fica ali pau a pau. A energia é colocada na hora em
que está sendo feita a coisa, na hora em que você está
pensando na idéia, por onde que ela vai sair, entendeu? E não
“ah, se vai ter bilheteria, que fulano, borderô, estatística”.
E é um exercício de convencimento muito grande. O Joel é
muito bom nisso, ele pesquisa, manda os catálogos, pega matéria
com Visconti, com Rosselini. Ele ajuda muito no poder de convencimento,
da importância da obra do Glauber.
Mulheres: E da obra do Rogério é a Helena
que cuida?
Paloma Rocha: A Helena e as minhas irmãs, Sinai
e Djin, do jeito delas. Djin está dividindo a atividade dela também
como atriz. Minha mãe na frente, e Sinai também. Sinai é
que fez a exposição de Helena no centro Cultural da Caixa
Econômica.
Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que
você assistiu?
Paloma Rocha: Se não me engano foi “Desafinados”.
Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para
homenagearem uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época
e de qualquer área.
Paloma Rocha: Eu vou homenagear a minha tia, Anecy, pelos
motivos todos que a gente já sabe. Pelo papel todo que ela teve
no cinema brasileiro, pela beleza dela, pela contribuição
que ela deu.... Pelo anjo que ela é, que ela se transformou.
Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.
Entrevista
realizada em junho de 2008,
na "CINEOP - 3ª Mostra
de Cinema de Ouro Preto".
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