Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 3
Um mapeamento das mulheres que fizeram
e fazem a história do Cinema Nacional

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037 - MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

Fotos: Raquel Hallack - Leonardo Lara site mostradetiradentes
Maria do Rosário Caetano - Mulheres do Cinema Brasileiro

A Mostra de Tiradentes chega à sua 9a Edição como o maior painel do cinema brasileiro apresentando 173 títulos, sendo 24 longas, 60 curtas e 89 vídeos. Completam a programação uma série de oficinas, debates, seminário e homenagens, tudo com entrada franca. 

Dentre os vários eventos cinematográficos no Brasil, entre mostras e festivais, a Mostra de Tiradentes apresenta uma característica interessante que é o grande número de mulheres por trás dessa grande realização da Universo Produção. A coordenação geral é de Raquel Hallack; a coordenação logística é de Fernanda Hallack; a coordenação de produção é de Denise Hallack, a curadoria de longas é de Francesca Azzi; a curadoria de curtas é de Daniela Azzi; a curadoria dos vídeos documentários é de Cláudia Mesquita.  

Os homens também têm participação importante, como Quintino Vargas Neto, um dos realizadores da Mostra e também coordenador técnico; e Roberto Moreira, curador dos vídeos. Mas o número de mulheres em postos-chaves surpreende. Nada mais significativo e ilustrativo da posição cada vez mais crescente das mulheres em todas as searas do cinema brasileiro.  

O Mulheres do Cinema Brasileiro entrevistou 10 mulheres das mais diferentes áreas do cinema brasileiro que passaram pela Mostra apenas no primeiro final de semana: as cineastas Malu di Martino e Érika Bauer; a atriz, assistente de direção e também diretora de curtas, Janaína Diniz; as atrizes da novíssima geração, Roberta Rodrigues e Rosanne Holland; as produtoras Lili Bandeira, Elisa Tollomelli e Vânia Catani; a gerente da Quanta, Edna Fuji; e a jornalista do Canal Brasil, Simone Zuccolloto.  

O Mulheres abre essa série de entrevistas com depoimentos de duas personalidades importantes do evento: Raquel Hallack, coordenadora geral e uma dos realizadores da Mostra; e Maria do Rosário Caetano, nome importante da crítica e da pesquisa do cinema brasileiro, homenageada pelo evento com placa comemorativa ao seu trabalho como crítica cinematográfica – seu marido, o crítico Luiz Zanin Oricchio, foi agraciado pela mesma distinção. Ambas são mineiras, Raquel é de São João Del Rey e vive atualmente em Belo Horizonte; Já Maria do Rosário é de Coromandel, e mora em São Paulo.    
 

RAQUEL HALLACK   

A gente está sempre com uma expectativa boa de que o público possa desfrutar da programação que a gente faz, pensando em reunir toda a demanda: a demanda do realizador que faz um filme querendo que tenha público para assisti-lo; e a do público que é a Mostra poder criar, ter um público para esse nosso cinema, o que eu acho importantíssimo. Eu acho que os festivais e as mostras de cinema no Brasil têm que cumprir não só essa missão de exibir, mas de gerar uma reflexão, de aproximar o público do cinema. Eles têm que criar oportunidade do debate, do bate-papo, de não ser uma coisa fria, de você só assistir ao filme, mas oferecer mecanismos a uma pessoa que quer fazer cinema, mas não sabe como. Então é uma grande oportunidade de intercâmbio também. 

Esse ano a gente traz uma proposta antiga que a gente queria fazer que é a de criar esse debate do filme em si, porque a gente conversa muitas vezes de mercado de distribuição e esquece de falar da obra. E daqui a cem anos a obra permanece, ela é que faz história, ela que vai trazer a nossa identidade. Eu acredito na arte como uma transformação, e o cinema tem um poder muito grande dentro do segmento cultural, ele tem a capacidade de exercer esse fascínio sobre nós, no nosso imaginário. Eu acho que essa oportunidade da gente ver e depois poder compreender, poder também expressar nossa opinião em relação ao filme é tornar o público mais comprometido com a nossa cultura. 

A cada ano a gente evolui. Quando fazemos um evento, a gente acha que ele nunca vai chegar a um formato ideal, ele sempre gera uma inquietação e a gente tem que acompanhar essa inquietação. E eu acho que ela é um reflexo do que está acontecendo no cinema, o cinema também nos propõe a isso. Como a gente não tem interesse só em exibir filmes, mas de formar, de debater, de refletir, é o sétimo seminário que nós vamos fazer, são treze oficinas que a gente oferece. O formato ideal de estrutura nós já chegamos, até porque a cidade de Tiradentes tem 5 mil habitantes, quer dizer, tem o fator limitador. Nós não contamos com uma sala de exibição, a gente constrói os espaços. 

Do ponto de vista conceitual, nós vamos estar sempre propondo uma mudança, uma reflexão diferenciada dos outros anos. Por exemplo, já teve anos em que trouxemos uma discussão sobre a questão dos roteiros serem adaptações de obras literárias, com questões como será que está faltando roteiro e bons roteiristas no cinema brasileiro? Teve um ano que a gente trouxe a questão da mulher, pois tínhamos sete mulheres na direção, então algumas das questões eram: o olhar feminino é diferente? Por que este “boom” de mulheres produzindo? O ano passado a gente trouxe a questão dos novos realizadores, porque a gente tinha mais de 20 longas de diretores estreantes, então a gente trouxe essa discussão de como seria a convivência no cinema brasileiro entre os veteranos e os iniciantes.  Eu acho que a questão tecnológica é uma questão que a gente vai discutir, assim como a regionalização. Tem vários temas que eu acho que são pertinentes, que a gente deve discutir a cada ano.  

Nessa edição, estamos discutindo a questão da crítica, porque nenhum festival nunca abordou essa questão e a crítica é um segmento profissional que sempre teve uma distância, sempre ficou nos bastidores. Nós queremos colocá-la em cena, inclusive para que o crítico possa saber como que o público reage à sua crítica, o seu papel no cinema brasileiro, quantos filmes poderiam ter grandes bilheterias e não tem, a importância desse profissional no cenário. Então reunindo o crítico, quem faz cinema e quem assiste, colocamos esse triângulo frente a frente. 

A Mostra tem uma cara sim, de ser o maior evento do cinema brasileiro, é democrático. As pessoas têm acesso fácil, podem consumir cultura, podem se formar e informar. A questão é só aprimorar a cada ano. Agora, conceitualmente, a gente sempre vai estar trazendo uma proposta nova.     

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO  

Eu vim nas três últimas edições da Mostra, e o que eu percebo é que atrás desse festival tem um pensamento, tem curadoria, e isso é muito bom, quer dizer, existe a equipe central que organiza, que se escora em quem está pensando o cinema. O Roberto Moreira está selecionando os vídeos, a Francesca Azzi está selecionando os longas, então você sente que há um pensamento. 

Uma roteirista me perguntou hoje por que o filme do qual ela participa não está em debate. Eu não falei nada para ela porque não quis magoá-la, mas é porque há uma curadoria, e a curadoria escolheu sete filmes para serem debatidos nesse projeto que é a espinha dorsal dele. Ele tem um tema, o livre pensar, o encontro do crítico, do realizador e do público, então há uma diretriz, uma coordenada e isso é levado adiante. Eles então selecionaram os filmes que eles acharam que são os mais instigantes, que vão dar melhores debates, gente que pensa o cinema. Os outros 18 ficaram para o encontro com o público. 

O festival é o mais longo de todos, ele dura dois fins de semana e um miolo, é o maior de todos, fora os do Rio e São Paulo, as grandes mostras, que duram quinze dias, e aqui nove, dez dias. Mas dos festivais dedicados ao cinema brasileiro é o que tem mais longa duração. E aí ele permite que durante dez dias haja esse prazer de ver o cinema, mas também de refletir sobre o cinema. O que o diferencia dos outros é essa curadoria que ele tem, mesmo! A gente sente nos outros, por serem competitivos, que eles escolhem seis ou dez filmes para serem exibidos e a competitividade cria um acirramento muito grande. Cada festival tem uma cara, o de Recife, por exemplo, é o festival do público, de três mil pessoas assistindo a um filme no mesmo momento, é uma coisa única, não há outro no cinema nessas dimensões. O Festival de Brasília, por sua vez, é um festival mais tradicional, tem 40 anos de história, ele formou uma respeitabilidade, ele não aposta na quantidade, mas na qualidade. Cada um tem as suas características e eu acho que o daqui já tem cara, com nove edições ele criou essa cara que é o rigor da curadoria. 

Sobre a placa que nós recebemos nós fomos pegos totalmente de surpresa, nós não sabíamos que isso ai acontecer. Nós nem estávamos vestidos adequadamente, se a gente soubesse que íamos receber, que íamos sentar à mesa com os convidados, com o Éder (Santos), com o Ruy Guerra, com todos os patrocinadores, nós teríamos nos vestido melhor (risos) para a solenidade. Cada ocasião tem a sua solenidade e eu respeito isso. Não vestiríamos, eu e o Zanin, de vestido longo e terno, mas daríamos um caráter mais solene.  

Foi um momento de muita honra para nós dois, eu acho que por sermos um casal a gente vive e pensa o cinema constantemente no nosso dia-a-dia, por causa da nossa profissão, por sermos dois jornalistas dessa área. É uma honra muito grande. Eu acho que nem somos os dois nomes mais significativos. Vou confessar aqui para você: o crítico em atividade na imprensa brasileira que eu mais leio, que eu mais respeito, é Inácio Araújo. Eu o acho um excelente crítico, até porque foi um homem de cinema, ele é montador de cinema, um homem que fez cinema e que pensa o cinema. Ele tem uma trajetória privilegiada no cinema brasileiro, talvez um caso único que esteja na imprensa diária e que tenha feito cinema com o Carlão Reichenbach, com o Sylvio Back, que tenha atuado na Boca do Lixo paulistana, que foi um lugar muito fértil na história do cinema brasileiro. Mas como fomos escolhidos, sentimo-nos muito honrados, muito felizes e vamos ser eternamente agradecidos ao festival de Tiradentes por ter nos dado essa honra.

 


 Depoimentos colhidos em janeiro de 2006

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