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Fotos:
Raquel Hallack - Leonardo Lara site mostradetiradentes
A Mostra de Tiradentes chega à sua 9a
Edição como o maior painel do cinema brasileiro apresentando 173 títulos,
sendo 24 longas, 60 curtas e 89 vídeos. Completam a programação uma série de
oficinas, debates, seminário e homenagens, tudo com entrada franca. Dentre os vários eventos cinematográficos
no Brasil, entre mostras e festivais, a Mostra de Tiradentes apresenta uma
característica interessante que é o grande número de mulheres por trás dessa
grande realização da Universo Produção. A coordenação geral é de Raquel
Hallack; a coordenação logística é de Fernanda Hallack; a coordenação de
produção é de Denise Hallack, a curadoria de longas é de Francesca Azzi; a
curadoria de curtas é de Daniela Azzi; a curadoria dos vídeos documentários
é de Cláudia Mesquita. Os homens também têm participação
importante, como Quintino Vargas Neto, um dos realizadores da Mostra e também
coordenador técnico; e Roberto Moreira, curador dos vídeos. Mas o número de
mulheres em postos-chaves surpreende. Nada mais significativo e ilustrativo da
posição cada vez mais crescente das mulheres em todas as searas do cinema
brasileiro. O Mulheres do Cinema Brasileiro
entrevistou 10 mulheres das mais diferentes áreas do cinema brasileiro que
passaram pela Mostra apenas no primeiro final de semana: as cineastas Malu di
Martino e Érika Bauer; a atriz, assistente de direção e também diretora de
curtas, Janaína Diniz; as atrizes da novíssima geração, Roberta Rodrigues e
Rosanne Holland; as produtoras Lili Bandeira, Elisa Tollomelli e Vânia Catani;
a gerente da Quanta, Edna Fuji; e a jornalista do Canal Brasil, Simone
Zuccolloto. O Mulheres abre essa série de
entrevistas com depoimentos de duas personalidades importantes do evento: Raquel
Hallack, coordenadora geral e uma dos realizadores da Mostra; e Maria do Rosário
Caetano, nome importante da crítica e da pesquisa do cinema brasileiro,
homenageada pelo evento com placa comemorativa ao seu trabalho como crítica
cinematográfica – seu marido, o crítico Luiz Zanin Oricchio, foi agraciado
pela mesma distinção. Ambas são mineiras, Raquel é de São João Del Rey e
vive atualmente em Belo Horizonte; Já Maria do Rosário é de Coromandel, e
mora em São Paulo. RAQUEL HALLACK A gente está sempre com uma
expectativa boa de que o público possa desfrutar da programação que a gente
faz, pensando em reunir toda a demanda: a demanda do realizador que faz um filme
querendo que tenha público para assisti-lo; e a do público que é a Mostra
poder criar, ter um público para esse nosso cinema, o que eu acho importantíssimo.
Eu acho que os festivais e as mostras de cinema no Brasil têm que cumprir não
só essa missão de exibir, mas de gerar uma reflexão, de aproximar o público
do cinema. Eles têm que criar oportunidade do debate, do bate-papo, de não ser
uma coisa fria, de você só assistir ao filme, mas oferecer mecanismos a uma
pessoa que quer fazer cinema, mas não sabe como. Então é uma grande
oportunidade de intercâmbio também. Esse ano a gente traz uma proposta
antiga que a gente queria fazer que é a de criar esse debate do filme em si,
porque a gente conversa muitas vezes de mercado de distribuição e esquece de
falar da obra. E daqui a cem anos a obra permanece, ela é que faz história,
ela que vai trazer a nossa identidade. Eu acredito na arte como uma transformação,
e o cinema tem um poder muito grande dentro do segmento cultural, ele tem a
capacidade de exercer esse fascínio sobre nós, no nosso imaginário. Eu acho
que essa oportunidade da gente ver e depois poder compreender, poder também
expressar nossa opinião em relação ao filme é tornar o público mais
comprometido com a nossa cultura. A cada ano a gente evolui. Quando
fazemos um evento, a gente acha que ele nunca vai chegar a um formato ideal,
ele sempre gera uma inquietação e a gente tem que acompanhar essa inquietação.
E eu acho que ela é um reflexo do que está acontecendo no cinema, o cinema
também nos propõe a isso. Como a gente não tem interesse só em exibir
filmes, mas de formar, de debater, de refletir, é o sétimo seminário que nós
vamos fazer, são treze oficinas que a gente oferece. O formato ideal de
estrutura nós já chegamos, até porque a cidade de Tiradentes tem 5 mil
habitantes, quer dizer, tem o fator limitador. Nós não contamos com uma sala
de exibição, a gente constrói os espaços. Do ponto de vista conceitual, nós
vamos estar sempre propondo uma mudança, uma reflexão diferenciada dos outros
anos. Por exemplo, já teve anos em que trouxemos uma discussão sobre a questão
dos roteiros serem adaptações de obras literárias, com questões como será
que está faltando roteiro e bons roteiristas no cinema brasileiro? Teve um ano
que a gente trouxe a questão da mulher, pois tínhamos sete mulheres na direção,
então algumas das questões eram: o olhar feminino é diferente? Por que este
“boom” de mulheres produzindo? O ano passado a gente trouxe a questão dos
novos realizadores, porque a gente tinha mais de 20 longas de diretores
estreantes, então a gente trouxe essa discussão de como seria a convivência
no cinema brasileiro entre os veteranos e os iniciantes.
Eu acho que a questão tecnológica é uma questão que a gente vai
discutir, assim como a regionalização. Tem vários temas que eu acho que são
pertinentes, que a gente deve discutir a cada ano. Nessa edição, estamos discutindo a
questão da crítica, porque nenhum festival nunca abordou essa questão e a crítica
é um segmento profissional que sempre teve uma distância, sempre ficou nos
bastidores. Nós queremos colocá-la em cena, inclusive para que o crítico
possa saber como que o público reage à sua crítica, o seu papel no cinema
brasileiro, quantos filmes poderiam ter grandes bilheterias e não tem, a importância
desse profissional no cenário. Então reunindo o crítico, quem faz cinema e
quem assiste, colocamos esse triângulo frente a frente. A Mostra tem uma cara sim, de ser o
maior evento do cinema brasileiro, é democrático. As pessoas têm acesso fácil,
podem consumir cultura, podem se formar e informar. A questão é só aprimorar
a cada ano. Agora, conceitualmente, a gente sempre vai estar trazendo uma
proposta nova. MARIA DO ROSÁRIO CAETANO Eu vim nas três últimas edições da
Mostra, e o que eu percebo é que atrás desse festival tem um pensamento, tem
curadoria, e isso é muito bom, quer dizer, existe a equipe central que
organiza, que se escora em quem está pensando o cinema. O Roberto Moreira está
selecionando os vídeos, a Francesca Azzi está selecionando os longas, então
você sente que há um pensamento. Uma roteirista me perguntou hoje por
que o filme do qual ela participa não está em debate. Eu não falei nada para
ela porque não quis magoá-la, mas é porque há uma curadoria, e a curadoria
escolheu sete filmes para serem debatidos nesse projeto que é a espinha dorsal
dele. Ele tem um tema, o livre pensar, o encontro do crítico, do realizador e
do público, então há uma diretriz, uma coordenada e isso é levado adiante.
Eles então selecionaram os filmes que eles acharam que são os mais
instigantes, que vão dar melhores debates, gente que pensa o cinema. Os outros
18 ficaram para o encontro com o público. O festival é o mais longo de todos,
ele dura dois fins de semana e um miolo, é o maior de todos, fora os do Rio e São
Paulo, as grandes mostras, que duram quinze dias, e aqui nove, dez dias. Mas dos
festivais dedicados ao cinema brasileiro é o que tem mais longa duração. E aí
ele permite que durante dez dias haja esse prazer de ver o cinema, mas também
de refletir sobre o cinema. O que o diferencia dos outros é essa curadoria que
ele tem, mesmo! A gente sente nos outros, por serem competitivos, que eles
escolhem seis ou dez filmes para serem exibidos e a competitividade cria um
acirramento muito grande. Cada festival tem uma cara, o de Recife, por exemplo,
é o festival do público, de três mil pessoas assistindo a um filme no mesmo
momento, é uma coisa única, não há outro no cinema nessas dimensões. O
Festival de Brasília, por sua vez, é um festival mais tradicional, tem 40 anos
de história, ele formou uma respeitabilidade, ele não aposta na quantidade,
mas na qualidade. Cada um tem as suas características e eu acho que o daqui já
tem cara, com nove edições ele criou essa cara que é o rigor da curadoria. Sobre a placa que nós recebemos nós
fomos pegos totalmente de surpresa, nós não sabíamos que isso ai acontecer. Nós
nem estávamos vestidos adequadamente, se a gente soubesse que íamos receber,
que íamos sentar à mesa com os convidados, com o Éder (Santos), com o Ruy
Guerra, com todos os patrocinadores, nós teríamos nos vestido melhor (risos)
para a solenidade. Cada ocasião tem a sua solenidade e eu respeito isso. Não
vestiríamos, eu e o Zanin, de vestido longo e terno, mas daríamos um caráter
mais solene. Foi um momento de muita honra para nós dois, eu acho que por sermos um casal a gente vive e pensa o cinema constantemente no nosso dia-a-dia, por causa da nossa profissão, por sermos dois jornalistas dessa área. É uma honra muito grande. Eu acho que nem somos os dois nomes mais significativos. Vou confessar aqui para você: o crítico em atividade na imprensa brasileira que eu mais leio, que eu mais respeito, é Inácio Araújo. Eu o acho um excelente crítico, até porque foi um homem de cinema, ele é montador de cinema, um homem que fez cinema e que pensa o cinema. Ele tem uma trajetória privilegiada no cinema brasileiro, talvez um caso único que esteja na imprensa diária e que tenha feito cinema com o Carlão Reichenbach, com o Sylvio Back, que tenha atuado na Boca do Lixo paulistana, que foi um lugar muito fértil na história do cinema brasileiro. Mas como fomos escolhidos, sentimo-nos muito honrados, muito felizes e vamos ser eternamente agradecidos ao festival de Tiradentes por ter nos dado essa honra.
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