|
MONIQUE
LAFOND

Foto:
Monique Lafond (beijando Tarcísio Meira) e Nicole Puzzi no filme
"Eu" (1987), de Walter Hugo Khouri
Bela
e talentosa, Monique Lafond é estrela de brilho eterno no cinema
brasileiro. Com a marca impressionante de 54 filmes no currículo,
a atriz sempre privilegiou o cinema em sua carreira, mesmo que tenha atuado
na televisão e no teatro – começou sua carreira nos palcos.
A trajetória cinematográfica começou no final dos
anos 1960 – “Até que o casamento nos separe” (1968 – Flávio
Tambellini) é o primeiro filme, mas foi nos anos 1970 que se tornou
uma das deusas de nossas telas.
Monique Lafond tem filmes marcantes no currículo, como “As Moças
Daquela Hora” (1973 – Paulo Porto), “Enigma para Demônios” (1975
– Carlos Hugo Christensen) e “Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor”
(1982 – Jair Correia e Hélio Porto), mas é em três
segmentos que a atriz se tornou inesquecível. O primeiro deles
foi com os filmes dos Trapalhões: “Uma vez, inclusive, a Denise
Dumont me ligou, perguntando se era legal participar do filme que tinha
sido convidada, e eu disse “faça sim, é bárbaro.
Você se diverte, aprende”. Grande parte do meu público está
aí, com os filmes dos Trapalhões. Eu me afastei porque senão
eu ia acabar virando uma trapalhona também”.
Outro segmento importante são os filmes com Walter Hugo Khouri,
um dos maiores diretores do cinema brasileiro: “O Khouri foi me ver no
teatro, daí, depois do espetáculo, ele veio falar comigo
e disse que queria me contratar. Nós saímos para jantar,
depois ele me levou a uma livraria, me mandou ler um monte de livros sobre
psicologia, aquelas coisas do Khouri. O Khouri foi meu amigo da vida inteira”.
E por fim, Margarida Maria, uma das personagens femininas mais notáveis
do cinema e o maior da carreira da atriz – Prêmio Air France, em
1980: “Foi substituindo uma atriz. Foi muito bom fazer aquela personagem,
foi muito interessante. Eu amei fazer o filme. Foi um desafio”.
Monique Lafond conversou com o Mulheres por telefone do Rio de Janeiro.
Em ótima entrevista, com aquela voz inconfundível, a atriz
repassa a carreira, fala dos principais filmes e de nomes essenciais do
cinema brasileiro, e de como era fazer cinema nos anos 1970 e agora. Fala
também de televisão e de teatro, da sua produtora (com mais
dois sócios), Impar Produções, e do trabalho para
a terceira idade no Centro de Convivência Cultural da Idade da Sabedoria,
no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana.
Mulheres: A Andrea Ormond, em seu fundamental blog “Estranho
Encontro”, fez uma ótima entrevista
com você, revivendo sua trajetória desde a infância,
em que você conta sobre o início como bailarina e a projeção
da sua mãe em você. Foi no teatro que você começou,
não é?
Monique Lafond: Sim, com 11 anos, em “Música Divina
Música”. Foi uma versão de “A Noviça Rebelde”, da
Broadway, apresentada no Teatro Carlos Gomes. Eu fiz um teste e fui selecionada
dentre 500 crianças. Fui escondida com a minha mãe. Foi
uma grande montagem, encenada por três famílias, , "Família
Von Trapp", com apresentações de terça a domingo
e mais as matinês, com três horas de duração.
Tinha orquestra de fosso, cenários e figurinos vindo dos Estados
Unidos. A Gisela Machado contribuiu no figurino, mas praticamente tudo
veio de lá, cenários, aqueles tecidos... A peça ficou
sete meses em cartaz e deu muito trabalho, pois com o tempo eles tiraram
uma das famílias, que era muito bagunceira, e ficaram só
as outras duas se revezando. Daí veio o filme e derrubou a peça.
O filme foi um sucesso, eu mesma assisti 11 vezes, porque eu gostava de
ver a minha personagem. Ela era, na escadinha, a terceira personagem,
a Briguita. Foi o meu início, havia uma disciplina muito grande,
com tabelas espalhadas pela coxia, aquele tipo de teatrão que eu
gosto tanto, com as anotações do diretor sobre os personagens,
o espetáculo..
Mulheres: E aí vem o “Até que o Casamento
nos Separe”, em que você, já no começo, contracena
com duas deusas que são Glauce Rocha e Darlene Glória.
Monique Lafond; E com o Jorge Dória. Durante minha
vida eu fiz quase tudo com o Dória, fui esposa, fui amante, fui
filha, só faltou a netinha (risos). A Glauce Rocha era a minha
tutora, nas viagens eu ficava com ela no mesmo quarto de hotel. Eu tinha
treze anos, era por volta de 1967, 1968, tempos difíceis, com os
presos políticos. A gente não ficava sabendo de nada, pois
a conscientização não chegava através dos
jornais, mas do material que circulava nas ruas. Então a Glauce
me dava as coisas para ler. E tinha também a Darlene, esse ser
iluminado que eu adoro. A Darlene ficava me dando toques, tipo não
faça isso, não faça aquilo, tipo mãezona mesmo.
Como eu sou de uma família de franceses, então havia muito
desprendimento da parte dos meus pais, não era esse modelo dos
pais brasileiros, agarrados. A gente ensaiava ali no Posto 6, no Teatro
Brigite Blair, onde os travestis se apresentavam, e eu ficava vendo, entendendo
o outro lado do ser humano, o contrário dessa visão torta
de que negro é ladrão, de que essa é puta, aquele
é viado. Ia aprendendo a lidar com as pessoas de forma profunda.
Para você ter uma idéia, eu fui ter minha primeira relação
sexual com quase 19 anos. Ou seja, como eu tive uma criação
solta, eu podia ter me descambado, mas não houve nada disso. Acho
que é por causa da minha índole mesmo, eu era uma criança
adultinha, eu tinha uma consciência maior, não entrei na
porralouquice.
Era uma época bacana, a gente trabalhava, trabalhava e trabalhava.
Muito diferente de hoje em que todo mundo pode e quer atuar, em que há
uma competição enorme. Todo mundo pode tirar o registro.
Ou seja, eu peguei as duas épocas, aquela e essa de hoje.
Mulheres: E daí a peça "Os Pais Abstratos",
de Pedro Block, virou filme, “Até que a Morte nos Separe” (1968
– Flávio Tambellini).
Monique Lafond: Sim, o Flávio Tambellini (pai)
viu a peça e me convidou. Mas eu não me lembro de nada do
filme.
Mulheres: Mas eu ia te perguntar exatamente isso, qual
era a sua lembrança do primeiro set de cinema?
Monique Lafond. Mas é porque eu não vi
o filme. Quer dizer, eu me lembro que era uma casa com piscina, e que
a minha mãe era a Vera Barreto Leite. Foi interessante, porque
nos anos 70 eu fui fazer um curso de manequim no Senac, que foi quando
eu conheci a Alcione Mazzeo, que também fazia o curso, e era a
Vera a professora. Nessa época eu fiz também muito teatro
infantil, as produções do Aurimar Rocha, dono do antigo
Teatro de Bolso, no Leblon.
Mulheres: E daí, talvez, a sua associação
com os Trapalhões. Sua atuação com o grupo foi marcante.
Monique Lafond: Sim, foi muito. Eu fiz aqueles filmes
todos.
Mulheres: O primeiro foi “Bonga, O Vagabundo” (1971 –
J.B.Tanko).
Monique
Lafond: Sim, mas no “Bonga” eu fiz quase que só uma figuração.
Mulheres: A estrela era a Maria Cláudia.
Monique Lafond: Sim, e ali nem eram os Trapalhões
ainda, era só o Renato, eu conheci o Renato ali. O Tanko é
que gentilmente foi me convidando para os outros filmes. Daí eu
fiz, inclusive, o maior sucesso dele na época que foi “O Trapalhão
nas Minas do Rei Salomão” (1977 – J.B. Tanko).
Mulheres: Você fez também “Aladim a Lâmpada
Maravilhosa” (1973 – J.B. Tanko), “Robin Hood – O Trapalhão da
Floresta (1974 – J.B. Tanko), e “Ladrão de Bagdá” (1976
– Victor Lima).
Monique
Lafond: E fiz também a linha de shows. Na época
havia muito preconceito em trabalhar na televisão, principalmente
na linha de shows. Mas eu fazia. Eu precisava pagar as minhas contas,
não tinha opção. Desde que eu não me sentisse
constrangida, que aquilo não me ofendesse, eu sempre ia aceitando
os trabalhos.
Os
Trapalhões é referência na minha carreira, é
o meu público. Eles eram a Xuxa da época.
Mulheres: Mais que isso, não?
Monique Lafond: Sim, maior ainda. Eu fui a primeira pessoa
a fazer a linha de shows com eles. Uma
vez, inclusive, a Denise Dumont me ligou, perguntando se era legal participar
do filme que tinha sido convidada, e eu disse “faça sim, é
bárbaro. Você se diverte, aprende”. Grande parte do meu público
está aí, com os filmes dos Trapalhões. Eu me afastei
porque senão eu ia acabar virando uma trapalhona também.
Além do que, eu também queria fazer outras coisas.
Mulheres: Você falou em televisão, e um
trabalho seu que me marcou muito foi um seriado na televisão chamado
“Casa Fantástica”.
Monique Lafond: Nossa, é mesmo, era do Negrão,
não é? Com o Edson Celulari. Acho que foi o último
da Tupi, pouco tempo antes dela fechar.
Mulheres: Isso mesmo, do Walter Negrão, em 1979.
Era um seriado delicioso, com uma trama fantástica, em que vocês
viajam no tempo.
Monique Lafond: Você se lembra mais do que eu,
que ótimo.
Mulheres: Voltando ao cinema, você tem um papel
importante em “As Moças Daquela Hora” (1973), do Paulo Porto.
Monique Lafond: Sim. Foi bacana fazer. O engraçado
é que eu era virgem na época e daí eu dizia para
o Paulo “como é que vou fazer aquelas cenas de amor?”, e ele dizia
“pensa que você está comendo chocolate” (risos).
Mulheres: O Paulo Porto é um artista tão
importante, mas tão pouco lembrado, não é?
Monique Lafond: Sim, infelizmente. Ele era um excelente
diretor. Como era ator também, ele sabia conduzir, sabia extrair
sentimentos, não ficava só na coisa da técnica.
Como eu já fazia filmes eu já entendia um pouco da técnica,
como me mostrar para aquelas três lentes, sabia me proteger muito
bem. Daí teve uma cena engraçada nas filmagens, que foi
a última do filme. Eu tinha que atravessar uma praça completamente
nua, na cidade de Três Corações. Foi a última
cena do filme que fizemos. Eu era a mulher do hímem complacente,
então tem uma hora em que meu marido me expulsa, eu saio enrolada
em um lençol, ele me bate, eu bato nele, e daí o lençol
cai e atravesso a praça.
A cena foi gravada às três horas da manhã, mas do
outro lado da praça tinha um tanto de gente me esperando, achavam
que iam me ver nua quando eu chegasse do outro lado. Só que eu
taquei fita crepe e esparadrapo no seio e lá embaixo, fiz uma espécie
de biquíni (risos). E aí eu ficava vendo a decepção
das pessoas, gente olhando pelas persianas, e eu chegando lá toda
tapada (risos). Logo que acabou, a produção me colocou em
uma kombi e fui despachada para o Rio de Janeiro (risos).
Mulheres: Outro filme marcante é o “Enigma para
Demônios” (1975 – Carlos Hugo Christensen).
Monique Lafond: Sim, o Christensen foi outro diretor
de peso. Ele chegava no set 24 horas antes, ele já filmava editando.
E tinha o José Mayer, eu acho que foi o primeiro filme dele. Foi
uma grata surpresa conhecê-lo. Ele continua gentil até hoje,
como são as verdadeiras estrelas.
Mulheres: Além do trabalho com os Trapalhões
outra grande marca da sua carreira é a parceria com o cineasta
Walter Hugo Khouri. O primeiro foi “Paixão e Sombras” (1977), com
a Lílian Lemmertz. Como se deu a sua parceria com o Khouri?
Monique Lafond: O “Paixão e Sombras” foi um filme
importante, representou o Brasil no Festival de San Sebastian, em 1977,
mas quase ninguém viu. O Khouri foi me ver no teatro, daí,
depois do espetáculo, ele veio falar comigo e disse que queria
me contratar. Nós saímos para jantar, depois ele me levou
a uma livraria, me mandou ler um monte de livros sobre psicologia, aquelas
coisas do Khouri. O Khouri foi meu amigo da vida inteira.
Os filmes dele não tinham roteiro, ele ia concebendo o texto 24
horas antes e ia passando para a gente. O único que teve roteiro
foi o “Eu”. Eu não gostava de ficar tirando a roupa, ficar nua.
Olhando hoje, a gente sabe que nós, as atrizes, éramos objeto
do desejo. Por mais que caprichassem na fotografia, nós éramos
objeto do desejo. Como eu já sabia um pouco de técnica,
então eu falava que não queria ficar nua e ele dizia “então
vamos deixar para fulana”. Ele já sabia qual atriz que poderia
tirar a roupa. Porque tinha atrizes que já iam fazendo, nada contra,
só que eu tinha um certo constrangimento.
Eu não era só corpo, para mim, na minha cabeça, não
tinha essa coisa de símbolo sexual. Eu cheguei a ser rainha de
presídio na Frei Caneca, fazia capa de revistas, Ele & Ela,
mas bem diferente dessas fotos de hoje, era ainda com estrelinhas. Depois
fiz, nos anos 80, a Playboy, gostei, não era vulgar como passou
a ser depois.
Eu fui na Frei Caneca e tudo. Mas na época eu não me dei
conta da construção dessa imagem. Aliás, nem eu e
nem várias outras atrizes. Na minha cabeça eu não
tinha nada disso de símbolo sexual. Na época, inclusive,
resolvi me enfeiar, cortei o cabelo curto, tirei a maquiagem. Muita gente
chegava para mim e falava sobre a minha beleza, mas eu respondia “eu não
como a minha beleza”, Chegava a ser cruel, muita gente dizia “você
é tão bonita, não precisa de mais nada”. Você
paga um prelo alto por ser bonita, acham que você não precisa
de mais nada,
Eu deixei de ganhar prêmio, inclusive, por causa de ciúmes
de mulher de diretor, ou de produtor, pois muitas vezes não fui
chamada para a dublagem, em três filmes eu tive problemas com isso.
O próprio Christensen não me chamou para dublar no “Enigma
para Demônios”. Só com o tempo é que fui ficando atenta
e daí exigia participar da dublagem, que me achassem na hora da
dublagem, e fazia constar em contrato. É muito ruim você
fazer um filme e depois colocarem uma voz de outra pessoa em você.
A minha voz é importante para o meu trabalho, e ela é diferente,
tem a minha cara, o tom das personagens.
Mulheres: Depois você fez o “Eros – O Deus do Amor”
(1981), com o Khouri.
Monique Lafond: Foi aí que pedi para não
ficar nua, falei “dá para ficar de camisolinha?” (risos). No “Giselle”
(1983 – Victor di Mello) foi uma toalha. Aliás, eu não sabia
que o filme era aquilo. Eles me deram a parte da minha personagem, aquela
guerrilheira, tinha uma relação homossexual discreta. Infelizmente,
nesse país, eles acabam te rotulando muito. Eu fiz também
o “Amor Maldito” (1984 - Adélia Sampaio), sobre um caso homossexual,
em que trabalhei com a Wilma Dias, e daí, quando o Sílvio
de Abreu me convidou para o filme dele ("Mulher Objeto" - 1981)
eu recusei - acho que foi a Maria Lucia Dahl que fez a personagem.
Era sempre assim. Se era para fazer uma homossexual chamavam a mim e a
Maria Lúcia Dahl. Daí eu passei a recusar, iam acabar me
chamando só para esses personagens. Quando vi o “Giselle”, aquilo
era uma porrada, um dos filmes mais assistidos. Se soubesse que seria
daquele jeito eu não teria feito. Mas na época eu ia trabalhando,
tinha necessidade de trabalhar, já que a televisão não
era a minha praia, tive poucos papéis de destaque. O papel que
chamou mais atenção, realmente importante que se lembram
até hoje, foi na novela “Moreninha” (1975, Marcos Rey), ali eu
tive uma personagem de verdade (Marina).
Em relação à televisão, às novelas,
eu ainda tenho uma espectativa de que realmente pode ser que ainda role
alguma coisa interessante. Eu fiz trabalhos que gostei muito, em minisséries
e especiais. Fiz “O Fantasma da Ópera” (1991 – Geraldo Vietri)
na Manchete; fiz “Senhorita Júlia”, em p&B, um trabalho bárbaro
com o Antunes Filho.
Mulheres: Com o Khouri você fez também o
filme “Eu”, em 1987.
Monique Lafond: Eu adorei fazer esse filme, essa personagem.
A crítica do Rio foi unânime em relação ao
meu trabalho nesse filme. Eu realmente vesti o personagem. E olha que
foi difícil, cansativo, com locações em Ilha Bela.
Ficamos três meses, todo mundo junto, daí você tem
que lidar com humores. Tinha atrizes que de manhã nem te cumprimentava.
Mas teve também o Tarcísio Meira, adorei trabalhar com ele.
O Tarcísio não colocava ninguém para fazer o contraponto,
isso faz uma diferença enorme. Ele dava todas as falas, mesmo sem
aparecer, com todo mundo. Pois cinema é isso, você, na maioria
das vezes, contracena é com a câmera.
Mulheres: E por fim, com o Khouri, tem “As Feras”.
Monique Lafond: Sim. Com “As Feras” foi o seguinte. Há
muitos anos atrás o Khouri fez um filme comigo e com a Lúcia
Veríssimo, um caso homossexual que ia entrar em um filme de episódios.
Mas como esse episódio ficou sofisticado, muito diferente dos outros,
eles resolveram guardá-lo na gaveta. Foi uma produção
bonita, anos 50. E aí foram passando anos e anos, até que
mais de uma década depois o Massaíni (Aníbal), produtor,
e o Khouri resolveram dar continuidade ao filme. Só que eu me recusei
a participar. Estava cansada de filmes sobre homossexualismo, e a Lúcia
também não quis. Seria até interessante continuar
a história daquelas duas mulheres, mas eu não quis. Há
rótulos muito fortes nesse país, as pessoas passam a te
olhar pelo avesso. Aliás, se você é homossexual nesse
país, já te olham diferente.
Daí eles fizeram “As Feras”. O filme foi muito mal lançado,
foi na época em que o Khouri já estava doente.
Mulheres: Falar sobre sua carreira cinematográfica
sem falar na Margarida Maria em “Eu Matei Lúcio Flávio”
(1979), de Antonio Calmon, é impossível.
Monique Lafond: Sim. Eu adoro.
Mulheres: Como você foi escalada para o filme?
Monique Lafond: Foi substituindo uma atriz. Foi muito
bom fazer aquela personagem, foi muito interessante. Eu amei fazer o filme.
Foi um desafio. Uma atriz tinha sido chamada e não pode participar,
daí o Alberto Magno, filho de Jece Valadão (produtor do
filme) me chamou. E já era para fazer na semana seguinte. A Vera
Gimenez morreu de ciúme da época, hoje é amiga minha.
E ela tem um papel importante no filme.
O filme foi muito especial. A primeira cena filmada já era dela
morta, naquele camburão. Eles chegaram, tocaram álcool e
fogo para limpar o sangue, e me colocaram lá dentro, nua, com mais
dois figurantes. Ainda bem que tinha os figurantes. Isso já no
primeiro take. Logo depois a cena do enterro, enfim, uma barra (risos).
É um filme muito importante, me deu o prêmio Air France,
aos 26 anos, quem me deu a notícia foi o Jaguar. Eu estava concorrendo,
inclusive, com a Fernanda Montenegro.
Eu fiquei muito emocionada. Meu pai tinha acabado de morrer num domingo
de sol. No filme, o personagem do Rodolfo Arena também morria num
domingo de sol. E depois o próprio Arena morreu num domingo. O
“Eu Matei Lúcio Flávio” é filme muito especial na
minha vida. E eu fiquei desempregada durante oito meses depois desse filme
(risos).
Mulheres: Mesmo? Por que?
Monique Lafond: Sei lá, acho que olho gordo. Então
fui convidada a fazer "Coração Alado” (1980). Era para
eu ter uma personagem interessante, a irmã da Vera Fischer, tinha
tudo a ver, mas mudaram a personagem umas cinco vezes, me puxaram o tapete.
O mesmo aconteceu com o Anselmo Vasconcelos, que fazia aquele homossexual
em “República dos Assassinos” (1979 – Miguel Faria Jr). Ele também
ficou desempregado um tempão.
Mulheres: Você tem um filme nos anos 1980 que gosto
que é o “Sonhos de Menina Moça” (1986 – Teresa Trautman).
Monique Lafond: Sim, esse foi um filme diferente, um
filme todo em cima da maneira de se filmar comercial, o que era novidade
na época. Não tinha travelling, não tinha câmera
em tripé, era tudo filmado em plano-sequência. Eu até
achei que não ia dar certo.
Mulheres: O filme tem um elenco feminino fabuloso: Tônia
Carrero, Marieta Severo, Louise Cardoso, Selma Egrei, Xuxa Lopes, Dóris
Giesse, Zezé Motta, Flávia Monteiro, dentre outras.
Monique Lafond: Pois é. E aí ficamos todas
nós lá, foi filmado em 40 dias, mas como a história
se passava em 24 horas, então ficávamos com o mesmo figurino,
a gente já não agüentava mais aquelas roupas (risos).
Mas foi muito bom fazer e ficou super bonito.
Mulheres: Dentre as pornochanchadas que você fez
tem uma que eu gosto muito, principalmente da abertura e do encerramento
do filme, em que tem uma tomada do seu personagem filmado em cinemascope.
É o “Emanuelle Tropical” (1997).
Monique Lafond: É mesmo? Não me lembro
dessas cenas.
Mulheres: É uma cena realmente bonita. O filme,
nem tanto, mas essas cenas cruciais sim.
Monique Lafond: Vou tentar rever. Aliás, esse
filme deu uma confusão... É do Jair e do Hélio ...
Mulheres: Não, é do J. Marreco.
Monique Lafond: Ah, do J. Marreco. Do Jair (Correia)
e Hélio (Porto) é o “Retrato de Uma Mulher sem Pudor”. Esse
filme deu história, teve barra pesadíssima envolvendo essa
produção, com produtor preso e tudo mais. Mas quanto ao
“Emanuelle Tropical” pra começo de conversa não me achava
nada tropical (risos).
Mulheres: Qual a importância que você vê
nas pornochanchadas para o cinema brasileiro, esse filão que está
sendo reconsiderado atualmente?
Monique Lafond: Eu vejo assim. Eu fiz muitos filmes,
54 filmes, fiz filmes bons e também fiz filmes ruins. Mas há
uma mania em colocar tudo no mesmo saco. Eu não considero, por
exemplo, que “Enigma para Demônios” seja pornochanchada, que “As
Moças daquela Hora” seja pornochanchada. Só que todo mundo
mistura tudo. Para mim pornô, como o próprio nome já
diz, é algo mais vulgar. Mas sobre a pornochanchada o que eu acho
é que a gente teve que fazer. Inclusive, para se chegar ao que
se faz hoje.
Tinha toda aquela precariedade no cinema dos anos 70. Eu mesma cansei
de comer sanduíche de mortadela debaixo de caminhão nos
filmes do Didi. Era tudo feito na garra. Tinha gente que vendia apartamento
para fazer filme.
Hoje tem lei de incentivo. O Collor (ex-presidente Fernando Collor) acabou
com a gente. Ele acabou com o cinema e eu vivia do cinema. Daí
eu voltei para o teatro, mas o teatro também não é
algo do qual você possa viver. E continuei tentando com o cinema.
A Aninha, coitada, ficou cinco anos captando para fazer o “Lara” (2002
– Ana Maria Magalhães), é muito tempo.
Mulheres: Me lembro que seria a Vera Fischer que ia fazer
a história da Odete Lara, depois acabou sendo a Christine Fernandes.
Monique Lafond: Pois é, loucura dos egos. Mas
achei demais a postura da Ana, que me chamou para fazer uma mulher feia,
com lepra. Achei tudo de bom. O Walcyr Carrasco também me deu uma
bruxa no teatro. Era o que eu gostava, porque durante um tempo era assim,
mulher fina, amante, chama a Monique. Viver de teatro é muito difícil,
só se produzindo e montar espetáculos como o Diogo Villela,
por exemplo, que faz coisas fantásticas.
Eu montei uma produtora, com mais dois sócios, a Impar
Produções, onde fazemos vários vídeos
institucionais, website, cd-rom multimídia. Atualmente, inclusive,
estamos finalizando um documentário sobre a Marlene, essa artista
fantástica.
Mulheres: É mesmo? Que ótimo.
Monique Lafond: Pois é, nós nos voltamos
sobre ela porque quando a Emilinha Borba morreu e tivemos que pesquisar
na internet, nós descobrimos que não tinha nada sobre a
Marlene. Daí resolvemos fazer o documentário. Desde o ano
passado que estamos fazendo, sem verba, tá difícil. Mas
queremos fazer, para ter um registro, botar nos festivais.
Tem também um trabalho sobre uma artesã, Dona Dagmar, uma
senhora que tem 22 filhos. Ela faz um trabalho fantástico, tudo
tirado do rio, o barro. A produtora tem também um programa voltado
para pessoas com mais de 60 anos, tipo de programa que não tem
na TV atualmente. Um programa de prestação de serviço.
Seria um bloco de cultura e lazer comigo e um bloco jornalístico
com Lúcia Leme.
E montamos também o Centro de Convivência Cultural da Idade
da Sabedoria. Um trabalho que eu adoro fazer para maiores de 40. Lá
nos divertimos muito, são 100 alunos circulando, interagindo, não
é o máximo? Ministro as aulas de teatro com André
Luiz França, há 9 anos estamos nesse segmento. Entre os
meus alunos tem de tudo, gente que estava com depressão, com pânico,
gente de longe, gente de perto. Enfim, há uma troca muito grande,
muito rica, é um projeto muito importante para eles e também
para mim. Todo ano montamos um espetáculo no final do ano. Consegui
implantar também as aulas de dança criativa ministrada pela
Giselle Ruiz, a roda de leitura pela Eliane Paz, da Cátedra da
PUC, e em 2008 quero implantar o Coral, Conversa Vai Conversa Vem, História
da Arte, Criação Literária... Ahhhhhh! Eu quero muito
ter uma casa, um centro cultural de verdade.
Mulheres: Você fez parte de um cinema, sobretudo
nos anos 1970, em que havia uma constelação impressionante
de deusas da tela. Como você analisa isso?
Monique Lafond: Eu acho bárbaro. A mulherada estava
toda lá no cinema, mas o que faltava eram boas personagens. Só
dos anos 80 para cá é que deu uma guinada, com personagens
com conteúdo. A Fernanda Montenegro estava até comentando
sobre isso outro dia.
É claro que havia personagens interessantes também naquela
época, não quero generalizar, mas realmente ficou melhor
agora. Você tem aí o Walter Salles, o Andrucha (Waddington),
cineastas oferecendo novas possibilidades. E mesmo os outros, tem o Back
(Sylvio), o Carlão (Carlos Reichenbach), eu adoraria filmar com
o Carlão, mas ainda não rolou.
Com o Collor, muita gente que era do cinema pirou, teve gente que se suicidou,
outros foram para a TV, outros viraram jornalistas, outros foram viver
no mato.
Mulheres: Eu gostei muito de vê-la na novela “Paraíso
Tropical” (2007 – Gilberto Braga). Sinto falta de você nas telas
da TV e do cinema.
Monique Lafond: Ah, você viu? Então, foi
uma participação. A gente fica esperando um convite, que
muitas vezes não vem. Outro dia mesmo me ligaram da produção
desse novo filme do Belmonte (2007 – “Minha Vida em Perigo” -José
Eduardo Belmonte). Era para eu fazer uma participação, daí
eu perguntei qual era o cachê, e a moça que me ligou me disse
que não havia cachê, que era de graça. Como assim?
De graça? Tem que ter um valor, tem que ter um mínino. Não
que eu não faça filme de graça, posso até
fazer sim, mas quero uma atenção especial. Quem me ligou
nem foi o diretor, foi uma moça da produção, que,
com certeza, nem me conhecia.
Outro dia mesmo me ligaram, me chamando para fazer uma "figuração",
e o cachê era de 60 reais. Eu disse para a moça, coitada,
, completamente despreparada, “escuta aqui, antes de ligar, dá
uma pesquisada na internet, entra no site do artista, tem toda a minha
vida. Daí você veria o descabimento desse convite”. Teve
uma vez que um rapaz me ligou dizendo que queria fazer um filme sobre
a participação das atrizes no cinema brasileiro. Daí
eu perguntei pelo roteiro e ele nunca mais ligou. Mas é isso. Hoje
tem de tudo. Todo mundo faz cinema hoje em dia, tudo agora virou aquela
base de uma câmera na mão. E tem as secretárias dos
poderosos, que nem sabe quem você é, daí você
nem tem mais acesso.
Mas a gente vai trabalhando. Recentemente fiz uma leitura de uma peça
com a Tâmara Taxmann, com direção da Maria Pompeu.
Vamos ver no que vai dar.
Mulheres: Você agora tem um blog. Como está
sendo essa experiência?
Monique Lafond: Eu tenho usado o blog basicamente para
os meus trabalhos no Centro de Convivência Cultural. Tem muita gente
legal lá no blog, o endereço é
http://bloglog.globo.com/moniquelafond/
Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para
homenagear uma mulher do cinema brasileiro de qualquer área e época.
Aceita?
Monique Lafond: Sim, essa mulher é a Darlene Glória.
É a Darlene porque ela é uma mulher iluminada, como atriz,
como pessoa. É uma mulher inteira, verdadeira, não tem máscaras,
aquele sorriso que ilumina o quarteirão. Eu tive a oportunidade
de trabalhar com ela no início de carreira, muito pequena. A homenagem
poderia ser também para a Glauce Rocha.
Eu admirava ver a Darlene em “Toda Nudez Será Castigada” (1973
– Arnaldo Jabor). Semana passada eu a encontrei o Rodrigo, o filhão
dela. E como são as coisas, as costuras da vida. Eu comecei com
ela e depois fiz o “Eu Matei Lúcio Flávio”, que é
sobre o Mariel (Mariscot, policial envolvido com o Esquadrão da
Morte, com quem Darlene teve o filho, e interpretado por Jece Valadão).
A Darlene nunca ficou fazendo caras e bocas, tem uma simplicidade natural
de quem é uma verdadeira estrela. Iluminada.
Mulheres: Mais alguma coisa que não perguntei
e que você queira falar.
Monique Lafond: Só gostaria de chamar atenção
para a produtora, Impar Produções, e o trabalho no Centro
de Convivência Cultural. Além de ter adorado a entrevista.
Mulheres: Muito obrigado.
Monique Lafond: Obrigada, adorei.
Em
tempo: mais informações sobre Monique Lafond:
site: www.moniquelafond.com.br
blog: http://bloglog.globo.com/moniquelafond/
Entrevista
realizada em dezembro de 2007
sala
indice arquivo
home
|