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Foto: Mulheres do Cinema Brasileiro Mônica
Cerqueira é nome fundamental e histórico na exibição de filmes de arte em
Belo Horizonte. Durante 10 anos esteve à frente da então Sala Humberto Mauro
(hoje Cine Humberto Mauro), no Palácio das Artes, espaço cultural
e palco de formação de toda uma geração de cinéfilos e profissionais
da área. Segunda programadora da sala, Mônica Cerqueira passou, de uma hora
para outra, de secretária para um dos postos mais importantes para a
intelectualidade cinéfila da época. Com uma proposta de ampliar o público que
freqüentava o reduto dessa intelectualidade cinéfila, Mônica ventilou a
programação e despertou a ira de muita gente, “Teve abaixo-assinado,
inclusive, publicado no jornal Estado de Minas, do tipo: quem é essa menina? E
eu concordava um pouco com esse abaixo-assinado (risos)". Com
competência e sensibilidade, Mônica Cerqueira reverteu a situação e
transformou-se em nome de ponta nesse mercado exibidor. Menos de 10 anos depois,
promove outro “boom” na cidade com a abertura do Savassi Cineclube, mudando
para sempre o circuito de exibição em Belo Horizonte. Mônica Cerqueira esteve
presente também na abertura do Usina Unibanco de Cinema e do Cine Imaginário,
e programou, durante sete anos, o Cine La Bocca. Essas são apenas algumas
atividades dessa agitadora cultural, que se envolveu com tantas outras frentes,
como a curadoria da 1a Mostra de Cinema de Tiradentes, a implementação
da TV UFMG, a implantação do Cine-Café Estação do Pará, em Pará de Minas,
a criação da TV Horizonte, a produção de curtas-metragens, a consultoria de
vários projetos culturais, entre eles o FID – Festival Internacional da Dança
e o Festival de Inverno da UFMG, os cursos de cinema como o “Cinema Documentário”,
entre outras. Convidada
pela atual Secretária de Cultura, Eleonora Santa Rosa, atualmente, Mônica
Cerqueira ocupa a Diretoria de Espaços Culturais e Extensão da Fundação Clóvis
Salgado, um feliz retorno para o Palácio das Artes – como a gente conhece o
local, mas que na verdade abriga todos os teatros, galerias e também a Serraria
Souza Pinto. Mônica Cerqueira está à frente também do “1o
Festival Brasileiro de Música para Cinema”, que vai premiar trilhas originais
compostas para o cinema brasileiro, e que terá como Presidente do Júri na
primeira edição o cineasta Carlos Reichenbach. Mônica Cerqueira conversou com
o Mulheres e repassou a sua trajetória cultural: fala dos primeiros tempos da
Sala Humberto Mauro, do surgimento do Savassi Cineclube, das difíceis relações
com mercado exibidor da época, do Cine Imaginário e do La Bocca. Fala também
da sua volta ao Palácio das Artes e, conta para nós como será o Festival, que
homenageará, na primeira edição, Humberto Mauro e seu “Ganga Bruta” e o músico
e compositor Radamés Gnattali. Mulheres:
Mônica, sua formação é Comunicação Social, não é isso? Mônica
Cerqueira:
Exato. Mulheres:
Antes de você se enveredar para o cinema e para outros projetos culturais você
chegou a atuar na área? Jornalismo, por exemplo? Mônica
Cerqueira:
Não, eu fiz comunicação já com essa intenção de trabalhar com cultura.
Podia até ser em uma página de jornal, mas tinha muito forte para mim que a
essência da minha profissão estaria voltada para a comunicação. Daí
aconteceu um fato que me ajudou a tomar essa decisão. Eu vim ao Palácio das
Artes com uma prima minha que ia fazer um teste para datilógrafa, era
datilografia mesmo, não tinha nada de computador. Eu tinha 20 anos, estava
estudando. Ela era uma economista
recém-formada, não estava trabalhando, e eu vim de companhia, porque eu
adorava o Palácio das Artes. Ela
então achou que era muito pouco o salário que eles ofereceram, porque ela já
tinha se formado, e não quis. Aí a pessoa que estava contratando me perguntou
se eu sabia datilografia, eu disse que sim, e ela me perguntou se eu queria
trabalhar aqui.E eu: é claro, eu adoraria! Daí fiz o teste, passei, e comecei
no Palácio das Artes como datilógrafa. Fiquei muito pouco tempo nessa função,
pois logo, devido ao meu interesse por cinema, eu fui para essa área. Então,
ainda estudante, eu já estava trabalhando no Palácio das Artes, com cinema. Mulheres:
Você é nascida em Belo Horizonte? Mônica
Cerqueira:
Sou de Belo Horizonte. Mulheres:
Quando você foi para a área de cinema, aqui no Palácio das Artes, foi para
fazer o quê? Mônica
Cerqueira:
Eu vim para o Humberto Mauro (sala de cinema) logo depois do Wagner Correia Araújo,
que foi quem bolou, quem deu a idéia e corpo para essa idéia de existir uma
sala de cinema no Palácio das Artes. Ele inaugurou a sala em 1978 e eu entrei
em 1980. Quer dizer, eu entrei no Palácio das Artes em 1979, fiquei um tempo
como secretária, e aí por um atrito entre ele e o presidente da Fundação na
época (Fundação Clóvis Salgado, mantenedora do cinema Humberto Mauro),
porque ele tinha feito uma viagem ao exterior, não sei bem o que aconteceu, ele
então não voltou mais. Esse presidente me colocou porque ele sabia que eu
gostava de cinema, então, eu queria trabalhar com o Wagner, mas acabei
trabalhando no lugar do Wagner, o que foi meio constrangedor porque eu não
sabia das coisas, nem o que era distribuidor. Quer dizer, eu sabia, mas não
tinha noção como funcionava, eu fui aprender tudo na própria vivência do meu
trabalho. Então, eu fui a segunda programadora, e fiquei durante 10 anos. Mulheres:
Você se lembra do primeiro filme que você exibiu, ou da primeira mostra? Mônica
Cerqueira:
Não me lembro, mas me lembro de uma coisa que eu fiz logo que entrei que foi
colocar a programação de cinema diária, porque eu acho que cultura é hábito.
Na época a Humberto Mauro funcionava com mostras essencialmente de Embaixadas,
nem sempre com legendas, eram coisas muito raras e muito boas, mas ela não
tinha uma freqüência. E aí eu implantei uma regularidade na programação,
com exibição todos os dias, com exceção das segundas-feiras. Coloquei
também muita coisa que na época os jornais e os críticos foram contra.
Eu coloquei o “Magical Mistery Tour”, dos Beatles, “Hair” (Milos Forman),
justamente em uma estratégia de chamar, principalmente, os jovens para conhecer
a sala, já que ela era muito restrita, como se fosse um templo dos cinéfilos,
dos conhecedores de cinema. Eu quis abrir e acho que consegui, pois na época
teve um público muito impressionante. E além de ser uma sala de cinema, eu
sempre promovi muitos seminários, palestras, convidava muitos autores
brasileiros, muitos artistas, sempre tentando fazer essa movimentação em torno
da exibição, eu nunca fui só preocupada em exibir. Mulheres:
Deve ter sido muito difícil nesses primeiros momentos, pois havia essa pressão
externa, você acabando de chegar, as pessoas não te conheciam. Mônica
Cerqueira:
Teve abaixo-assinado, inclusive, publicado no jornal Estado de Minas, do tipo:
quem é essa menina? E eu concordava um pouco com esse abaixo-assinado (risos).
Na época eu era só muito animada, mas, felizmente, eu absorvi muito rápido e
dei uma resposta muito rápida, daí não deu tempo de me tirarem. Teve gente
que assinou esse abaixo-assinado que hoje é minha amiga, na época nem tinha
Secretaria de Cultura, tinha Coordenadoria de Cultura. Outra coisa que eu fiz
também foi chamar todas as representações, seja CEC, Associação de
Produtores, Universidades. Eu nunca quis trabalhar sozinha, sempre achei que
aliando, com parcerias, a coisa se fortaleceria, e de fato foi isso mesmo. Eu
aprendi na prática que parceria é fundamental para a produção cultural. Mulheres:
Quanto tempo levou para que esse tumulto fosse resolvido? Mônica
Cerqueira:
Talvez tenha durado meio ano esse tempo em que fiquei meio tensa. Mas teve outra tensão
também que foi com a Cinemas e Teatros, que era um monopólio dos cinemas de
Belo Horizonte na época. Havia um certo temor em relação a esse monopólio. A
Humberto Mauro até que tinha algum tipo de autonomia por ela ser do Estado. Eu
sofri isso mais verdadeiramente quando abri o Savassi Cineclube. Mulheres:
Durante o período em que você ficou na Humberto Mauro, em que você ventilou a
programação, você teve também essa preocupação com o cinema brasileiro? Mônica
Cerqueira:
Sempre. Inclusive, com grandes retrospectivas, do Humberto Mauro, do Nelson
Pereira dos Santos, e com ótima produção por trás, como cartazes e catálogos,
que eram feitos com o Banco Nacional (extinta instituição financeira e grande
apoiadora do cinema brasileiro da época). Foi aí que eu comecei a conhecer o
pessoal do Banco e fazer trabalhos na Humberto Mauro para eles. Foi a minha
grande escola, eu fiz duas universidades, uma foi a PUC e a outra o Palácio das
Artes. Mulheres:
Em relação ao cinema brasileiro, na época, ou hoje, a sua preferência era
pelo ciclo do Humberto Mauro, Cinema Novo, ou o quê? Como foi o seu encontro
com o cinema brasileiro? Mônica
Cerqueira:
Eu respeitei o cinema brasileiro em qualquer tempo, mas sempre tive um olhar
histórico, eu sempre tentei fazer programação de cinema olhando para trás e
para frente, mostrando as coisas. Cada geração tem o direito e a necessidade
de conhecer as obras, o acervo da nossa cultura, quanto também o que está
sendo produzindo hoje, o que há de mais novo. Eu sempre tentei fazer essa
composição, o que tem de ponta e o que foi feito lá atrás. Então, fiz
grandes retrospectivas do Glauber (Rocha), do Roberto Santos, do Cinema
Marginal. Fiz também um grande panorama do Cinema Mineiro, com filmes de todos
os tempos e de todas as bitolas. Mulheres:
E a predileção pessoal? Mônica
Cerqueira:
Eu gosto muito do Capovilla (Maurice), gosto muito do Person (Luis Sérgio),
tudo muito “cult”, né? (risos). Gosto muito do Joaquim Pedro de Andrade. E
tem um lado meu, menos subjetivo, que mesmo não gostando tanto, respeita todo
mundo que faz cinema brasileiro, porque eu acho que sempre foi um ato muito heróico,
eu sempre dei valor para o cinema brasileiro. Mulheres:
Ao ficar durante 10 anos à frente da Sala Humberto Mauro você sabe que formou
toda uma geração que está aí hoje trabalhando com cinema, não é? O Alécio
Cunha (crítico do jornal Hoje Em Dia), eu mesmo, já que toda a minha formação básica
foi na Humberto Mauro, aliado ao Cineclube da Face e ao Cine Roxy, e muitos
outros. Naquele momento você tinha noção que você estava formando essa
gente? Mônica
Cerqueira:
Nenhuma. E acho bonito de ver, até hoje eu escuto isso e fico um pouco corada.
Mas quando eu vejo o conteúdo daqueles 10 anos de trabalho, como era sério, eu
buscando filmes de festivais internacionais, eu vejo que realmente foi uma
programação muito rica. Hoje eu entendo isso melhor, mas eu te confesso que eu
fiz tudo com a minha alma e o resultado disso é o resultado de um esforço, de
uma vontade, de um empenho. Acho também
que era o papel de uma sala como a Humberto Mauro, que tem esse perfil formador. Mulheres:
Eu me lembro de mostras fabulosas, e entre elas, uma extensa que você fez sobre
cinema e sexualidade, quando você trouxe a Dina Sfat. Você se lembra dessa
mostra? Mônica
Cerqueira:
Me lembro, eu estava falando dela outro dia. Inclusive, foi na Grande Galeria
que aconteceu um debate, com um monte de gente sentada no chão, pareceu-me uma
grande terapia coletiva (risos). Foi muito quente, as pessoas com muita vontade
de falar e de ouvir. Eu também acho que um dos grandes destaques foi essa
mostra. Mulheres:
A Dina Sfat é uma das homenageadas do site, ela dá nome a uma das salas. Eu
gostaria muito que você desse um depoimento sobre ela, pois eu sei que vocês
chegaram a conviver. Mônica
Cerqueira:
Você sabe o tanto de artistas que a gente conhece nesse meio artístico que a
gente vive, mas têm uns que são especialmente iluminados. A gente reconhece o
valor de todos eles, mas têm uns que são cinco estrelas, e a Dina Sfat é um
deles. Nós ficamos amigas, foi uma coisa muito natural, ela era uma pessoa
muito simples, muito generosa, muito bem-humorada. E ela já estava doente na época
em que veio aqui (Dina Sfat faleceu vítima de Câncer, em 1989), mas sempre de
bom-humor. A
Dina Sfat foi a grande estrela desse seminário, a que falava as coisas mais
interessantes. Tinha o Neville D´Almeida (cineasta), o psicanalista Célio
Garcia, mais algumas outras pessoas, mas ela é que foi o grande show. Eu tenho
um carinho muito grande por ela, depois a procurei no Rio de Janeiro, eu
realmente fiquei muito impressionada. Mulheres:
E foi uma atriz maravilhosa. Mônica
Cerqueira:
E uma pessoa maravilhosa. Foi uma atriz fabulosa, nunca vou me esquecer dela. Mulheres:
Você participou de um segundo momento fundamental para Belo Horizonte que foi a
renovação das salas de cinema de arte quando você abriu o Cineclube Savassi.
Como foi essa passagem para esse novo modelo de cinema e que foi um “boom”
em Belo Horizonte? Mônica
Cerqueira:
Como eu fiquei 10 anos fazendo programação na Humberto Mauro eu vi,
claramente, que era possível fazer um trabalho de formação de público, e com
êxito. Com todos os problemas que a Humberto Mauro enfrentava na época e que são
típicos de funcionalismo público, como o operador que não podia vir, por
exemplo, a sala era um êxito, de receita, de público e de crítica. E aí eu
quis fazer um projeto independente, que fosse mais da minha vida mesmo, sem
estar atrelado a uma instituição pública. A minha vontade de imprimir o meu
gesto pessoal dentro de uma programação, de um modo de administrar, foi devido
a esse êxito. E
parece que foi a coisa certa na hora certa. Eu já conhecia o pessoal do Banco
Nacional (que viria a ser o patrocinador do Cineclube Savassi), já tinha
antecedentes desse tipo de cinema no Rio de Janeiro, o Estação Botafogo foi a
primeiro, e com isso foi, relativamente, simples. O Banco Nacional era daqui,
mesmo a gente não tendo a mídia do eixo Rio-São Paulo, tinha esse fator meio
carinho, meio histórico, do fato do banco ser daqui, da origem do banco. E aí
parti para essa estratégia de comunicação, a coisa se efetivou, e foi uma
parceria muito boa para todo mundo, tanto para o banco, quanto para o público e
para o empreendimento. Mulheres:
Quando você abriu o Cineclube foi você sozinha, ou já com sócios. Mônica
Cerqueira:
Já com os sócios, nós nos unimos, mas já tinha essa perspectiva de participação
do Banco, e isso tornou mais fácil fazer a sociedade, ou seja, eu estava
procurando sócios para um bom negócio. Havia um risco óbvio, mas não o risco
sem o guarda-chuva (símbolo do Banco Nacional), sem o patrocínio. Mulheres:
Eu te faço a mesma pergunta: você tinha noção do que seria o surgimento do
Cineclube em Belo Horizonte? Mônica
Cerqueira:
Eu me lembro que aí eu comecei a sofrer direto a pressão da Cinemas e Teatros.
Teve até uma página inteira, se não me engano, do jornal Hoje Em Dia, em que
dizia que estava sofrendo boicote. A gente teve que cancelar um programa
inteirinho, nós abrimos em agosto de 1988 e isso foi em novembro, logo depois
da abertura. Nós tivemos que cancelar uma programação inteira e ficamos
passando só filme de acervo, de cinemateca, porque estávamos proibidos de
fazer negócios com as distribuidoras. Foi
um momento de pânico, pois estávamos nos estabilizando, foi nos meses
iniciais, mas, por incrível que pareça, o êxito foi tão bom, até para esses
filmes de cinemateca, não tão conhecidos, que alguns distribuidores começaram
a propor, e aí nós conseguimos de novo abrir negócios com todas as
distribuidoras. Com isso, o tempo foi passando, o monopólio também acabou e o
Savassi viveu em paz. Mulheres:
Mas eu me lembro que durou bastante a pressão, porque eu entrei em 1991 e ela
ainda existia. Mônica
Cerqueira:
Sim, ainda tinha, mas no início foi mais difícil, nós tivemos que encontrar
saída fora das distribuidoras. Foi uma coisa que aos poucos foi se acomodando.
Tínhamos mais problemas com as distribuidoras americanas, mas a gente não se
preocupava muito, o que não dava não dava, e, ao mesmo tempo, começou um
“boom” relativo de distribuidoras independentes que começaram a surgir,
como a Filmes do Estação, Pandora, Imovision, e outras. O universo foi favorável
para que os caminhos e as perspectivas fossem se abrindo. E
lá, você se lembra, ultrapassava a mera exibição, era algo mais que
simplesmente vitrine de filmes, tinha convites de pessoas, cursos de roteiros, a
gente desdobrava a ação do cinema. Mulheres:
Eu me lembro bem que tinha também o próprio local como agente agregador. Eu
entrei em 1991, quando eu tive o prazer de ser o primeiro bilheteiro do
Cineclube Savassi, e até lá, vocês mesmo é que faziam o papel de
bilheteiros, o que era uma diferença enorme em relação ao padrão que a gente
via nos outros cinemas. Mônica
Cerqueira:
Esse atendimento a gente fazia questão, de conhecer o público, de conversar
com o público. Tinha aquele caderno de anotações que foi uma das primeiras
iniciativas de interatividade com o público, pois não havia internet. A gente
atendia aos pedidos e respondia todas as perguntas, não deixava ninguém sem
resposta. Você se lembra como era esse atendimento, pois você também tinha
esse perfil, de saber lidar com o público, de saber informar, quem era aquele
diretor, que filme era aquele. Isso deu uma fidelização para aquele espaço,
que eu acredito foi um fator relevante para o público, pois muita gente ia
ao Savassi sem nem saber que filme era aquele, mas sabia que podia ser um bom
filme, que tinha referência de qualidade, já que tinha essa possibilidade do público
ser ouvido. Nós
estávamos ali à frente da bilheteria exatamente para saber quem era esse público,
e depois, quando você entrou, a gente tinha essa mesma intenção, era uma
continuidade, como se a gente continuasse ali do mesmo jeito. Mulheres:
Depois o Cineclube deságua, e aí vem o Usina, depois outro grupo com o Belas
Artes, outros espaços que estão aí até hoje. Eu quero falar sobre um projeto
específico que foi o Cine Imaginário, que era uma casa linda e que não durou
muito. Você acha que foi o quê? Belo Horizonte não estava preparada para um
espaço como aquele, não era o momento, o que foi? Mônica
Cerqueira:
Não, eu acho que o que aconteceu ali foi interno. Eu acho a idéia do Imaginário
muito legal, eu não tinha medo dela e não teria hoje. Eu tenho muita segurança
daquele formato. O Imaginário durou um ano, de 1995 a 1996. Logo que a gente
inaugurou teve a dissolução da sociedade, que foi muito pesado para mim, não
sei como foi para os outros. Para mim foi muito pesado, até em termos de saúde,
fiquei comprometida. Coincidiu também com o Unibanco assumindo o Banco
Nacional, foi na mesma época, e eu acho que eu acabei não fechando um bom
acordo para o Imaginário. A
idéia do Imaginário seria como foi com a Usina. Quando a gente abriu a Usina,
até que ela ficasse em cima de suas próprias pernas, ela dependia, de uma
certa forma, da receita do Savassi. Depois ela teve sua autonomia. O Imaginário
seria da mesma forma, ele tinha dívidas da instalação, era tudo de primeira,
material de palco, de iluminação, tudo caro. O Imaginário teria que ter sido
calçado pelo Savassi e pela Usina, esse era o plano inicial. Como ficou o
Imaginário para mim, e aqueles dois empreendimentos completamente consolidados
para eles, foi uma atitude de muito risco da minha parte, mas foi a única forma
que a gente conseguiu para as coisas caminharem, não ficar entravado, o jurídico
embolado. Eu
então aceitei o desafio de tentar conduzir aquilo em condições muito pouco
favoráveis, em termos de estrutura, patrocínio, finanças e, naturalmente, não
foi possível. A equipe teve que mudar toda, eu não teria que contratar uma
equipe porque seria a mesma que estava no Savassi e na Usina. Como a gente se
separou, engordou muito o nosso gasto para o tanto que a gente recebia, e para
ele continuar sobrevivendo, ele teria que fazer muitas coisas de “covers”,
de festas, que não era muito o meu desejo, que seria uma corrupção muito
grande da idéia, do espaço, e eu preferi não praticar. O
projeto foi abortado, mas com plena consciência de que ele não foi sequer
acabado, ele ficou no meio, as idéias, o que tinha ali para acontecer de
projeto. E mesmo assim eu acho que ele foi um lugar que marcou de certa forma. Mulheres:
Desse período, a partir do Imaginário, você inaugurou algumas frentes, não
é? Você foi para a Universidade, ajudou a implementar a TV UFMG, fez projetos
de consultoria. Mônica
Cerqueira:
Sim, fiz muitas coisas, como aquele cinema de Pará de Minas, em uma estação
de ferro que estava super caída, não sei se você conhece. Mulheres:
Sim. Fez a programação do cinema La Bocca. Mônica
Cerqueira:
Exatamente, que foi outra experiência fabulosa, porque lá não tinha patrocínio
e tinha ingresso mais barato que os cinemas. Era um cinema popular, vamos dizer
assim, passando a mesma programação que passava no circuito comercial. O que
ele tinha para mim de mérito era que o ingresso era muito mais baixo, dava
acesso para muita gente que há muitos anos não ia ao cinema. Foi um projeto
que deu certo e eu fiquei muito feliz com essa experiência, foi um projeto
absolutamente comercial, que dependia da renda dele e durou sete anos. Era um público
que foi crescendo aos poucos, a cada ano, e fechou por causa do bar. Mas foi uma
experiência muito gratificante, ver um cinema dar conta de si mesmo. Diferente
daquele modelo que vinha de cinema com patrocínio ou de uma instituição pública. Mulheres:
Como seu deu o seu retorno, felizmente, aqui para a Fundação Clóvis Salgado,
como Diretora de Espaços Culturais e Extensão. Nesse cargo você cuida de... Mônica
Cerqueira:
Cuido da programação dos espaços, teatros, galerias, Humberto Mauro, Serraria
Souza Pinto. E Extensão é essa parte de intercâmbio, de inclusão cultural.
Minha vinda foi através do convite da Secretária de Cultura, Eleonora Santa
Rosa, que eu não tive como recusar, mesmo achando que eu não voltaria mais
para a área pública. Voltei pelo grupo que ela montou, pelo trabalho que a
gente pode imprimir juntos, por ser algo temporário também, e pela paixão,
pelo amor que eu tenho pelo Palácio das Artes. Mulheres:
Apesar do Palácio das Artes ser da esfera oficial, aqui é um espaço onde o público
se sente em casa, não é? Pelo menos eu me sinto assim, a Fundação, o Palácio
das Artes, a Humberto Mauro, é meio a casa da gente, por onde a gente circula,
vê coisas, vê pessoas, conversa, todos nós passamos por aqui. Mônica
Cerqueira:
É assim que eu vejo também. É um espaço de convivência, é público mesmo,
não é público de poder. Mulheres:
E como estão os trabalhos por aqui? Mônica
Cerqueira:
A gente vai ter muita coisa boa, tanto na Humberto Mauro como nos outros espaços,
a gente vai ter muitos projetos pela frente, será um ano e oito meses de gestão,
mas vai dar para imprimir algum tipo de diferença, de inovação. Mulheres:
Mônica, vamos falar agora sobre o projeto “1o Festival Brasileiro
de Música para Cinema”. Qual é o conceito do projeto? Mônica
Cerqueira:
É o primeiro festival brasileiro de música para cinema, em que nós vamos
premiar as trilhas compostas originalmente para cinema. É um nicho que o cinema
e a cultura brasileira têm, muito rico, desde o início do cinema. O Cinema
Brasileiro pode ter tido seus altos e baixos, mas a música no cinema brasileiro
sempre foi muito top de linha. A música brasileira é reconhecida nacionalmente
e internacionalmente, ela tem um poder pra fora muito grande, há muitos anos,
é muito consolidada essa força da música brasileira. Eu acho que para um país
como o nosso, tão musical, com filmes premiados internacionalmente, nada mais
justificável que premiar e divulgar essas trilhas originalmente compostas. Mulheres:
Essas trilhas serão de qualquer época, ou atuais? Mônica
Cerqueira:
Serão de cada ano, as edições serão anuais. Tem um programa chamado Resgate
que trará essas coisas de trás, trilhas importantes. Villa-Lobos, Caetano Veloso, Tom
Jobim, todos esses mitos, todos esses ídolos
já compuseram para o cinema. Então, haverá um programa resgate para mostrar
esse trabalho da produção passada. No entanto,
quem vai concorrer será a produção do ano. O Festival será anual e
contará com seminários em torno de interesses como direito autoral, como é
feito roteiros internacionais para que haja um desenvolvimento e uma interação
entre o pessoal da área, terá oficinas, já que de novo não vai me interessar
só exibir os melhores, terá também esse olhar mais consistente, mais
profundo, de abordar o projeto. Mulheres:
Quais serão as categorias? Já estão definidas? Mônica
Cerqueira:
Vai ser Trilha Original, e a gente vai, eventualmente, convidar, canções, vai
ter canções convidadas. O Presidente do Júri será o Carlos Reichenbach
(cineasta), que já topou, nós tivemos uma reunião e vamos ter outra
brevemente para fechar essas questões, isso logo logo estará sendo difundido. Mulheres:
O Reinchenbach, além de ser um cineasta muito importante, é uma pessoa muito
generosa, séria, preocupado em pensar o cinema brasileiro. Além de diretor é
também compositor de músicas para cinema. Como se deu a sua escolha para ser
ele o Presidente do Júri? Mônica
Cerqueira:
Por todas essas coisas, essa seriedade, esse comprometimento. Ele é um cara que
circula nas duas vias, ele compõe música e é diretor de cinema, então é
alguém que tem muito para nos dizer e para presidir o júri. Mulheres:
As outras pessoas, os outros jurados, já estão definidos? Mônica
Cerqueira:
Ainda não, mas serão em breve. Serão cinco pessoas, entre locais e nacionais,
da crítica de música e de cinema. Mulheres:
O Festival será quando? Mônica
Cerqueira:
Nós fizemos um programa de lançamento. Como é uma coisa inédita, então para
as pessoas entenderem como projeto é, vai haver um programa de lançamento
nacional. Para a primeira edição o ganhador do primeiro prêmio vai fazer uma
apresentação em um festival internacional na França, este será o prêmio do
Festival. O nome é “Festival International Musique e Cinema”, em uma cidade
chamada Auxerre, que fica a 170 quilômetros de Paris, supercharmosa. Vão
muitos parisienses, muitos europeus, já é um festival consagrado, e vai estar
lá uma atração brasileira a cada ano. Mulheres:
Nesse Programa Resgate, você já pode falar quem você vai focar? Mônica
Cerqueira:
Para esse nascedouro, esse germe inicial do projeto, eu estou fazendo questão
de homenagear o Humberto Mauro e o “Ganga Bruta”, porque eu acho que é um
cineasta que é uma referência, um ícone mundial, não só do cinema
brasileiro. Acho que ele é muito pouco propagado aqui por nossas bandas. Mulheres:
E tudo passa por ele, todo o cinema brasileiro passa por ele. Mônica
Cerqueira:
Tudo. Ele é o pai do Cinema Novo, como disse o Glauber. E o Radamés Gnattali,
que foi um dos primeiros compositores de música para cinema, um cara que também
foi um gênio como o Mauro, articulado, conhecia todo mundo, inventava coisas,
esse jeito inventivo do criador, do autor. Então a gente estará homenageando,
essencialmente, o Radamés e o Mauro. Mulheres:
Hoje nós temos aí o José Miguel Wisnik, o Ivan Lins, todos fazendo trilha
para cinema. Você está acompanhando essas produções? Mônica
Cerqueira:
Eu sempre gostei de trilhas de cinema, eu tenho muitas. Eu já fiz contato com o
Wagner Tiso, que é o cara que mais fez trilha para cinema, desde o início.
Inclusive, a música “Coração de Estudante” foi para o filme “Jango”
(Sílvio Tendler). Depois o Milton (Nascimento) fez letra, mas a música foi
feita para cinema. Ele já fez muitas trilhas, o “Vida de Menina” (Helena
Solberg) que foi
premiado agora, ele foi premiado muitas vezes no Festival de
Gramado, foi premiado pelo conjunto da obra pela Associação de Críticos
Paulistas. Ele também estará nessa primeira edição pelo conjunto da obra. Mulheres:
Qual é a sua trilha do cinema brasileiro do coração? Mônica
Cerqueira:
Eu adoro “Bye Bye Brasil” (Carlos Diegues), eu acho uma coisa, é do Menescal (Roberto), é
maravilhosa. Mulheres:
O Cacá Diegues tem essa relação forte com a música brasileira, em todos os
filmes dele. O “Veja Essa Canção”, inclusive, foi feito a partir de músicas. Mônica
Cerqueira:
Exatamente. Ele também está na minha pauta para participar de alguma forma,
ele também será, certamente, um dos convidados para essa primeira edição. Mulheres:
Eu sempre peço para minhas entrevistadas homenagearem alguma mulher do cinema
brasileiro de qualquer época e área. Tem alguma, ou mais de uma, que você
quer citar aqui no site, que você admira? Mônica
Cerqueira:
Tem duas. Uma é a Dina Sfat, da qual nós já falamos, que é uma atriz
referencial, não só pela atuação, mas também pelo modo de ser, pela pessoa
que ela era. E a outra é a Lúcia Rocha, que acho também uma pessoa de uma
fibra, de uma coragem e de uma presença incrível. Mulheres:
Mônica, eu quero deixar registrado aqui, e não é nenhum tipo de tietagem, que
eu acho você uma pessoa fundamental na história do cinema em Belo Horizonte e
que é uma honra poder tê-la no site. Mônica
Cerqueira:
Meu querido, a honra é minha em participar do seu site. Muito obrigada e
sucesso. Mulheres:
Muito obrigado. Entrevista realizada em junho de 2005.
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