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Foto:
Marisa Alvarez de Lima Recrutada de
uma feira na Bahia, onde vendia frutas, Marlene França chegou às telas do
cinema com 12 para 13 anos e dele nunca mais saiu. O filme de estréia foi o
episódio `Ana`, dirigido pelo grande Alex Viany para o longa-metragem produzido
por Jori Ivens, ´Rosa dos Ventos´, uma produção alemã. Apesar da
condição adversa, Marlene França é uma dos dez filhos de uma família de
retirantes nordestinos, a garota apaixonada pelo cinema sempre sonhou com as
telas, “eu queria sair daquele sertão e ir para o sul, para ganhar o sul,
para virar estrela. Ser como Eliana, Adelaide Chiozzo, Fada Santoro – de quem
eu gosto até hoje. Queria ser estrela de Hollywood”. Marlene França
construiu uma importante e premiada trajetória de atriz, com filmes no
currículo dirigidos por nomes como Walter Hugo Khouri, Milton Amaral, Jorge
Ileli, Carlos Coimbra, Luis Sérgio Person, Fernando Campos, Ozualdo Candeias e
Luiz Paulino dos Santos. Belíssima, atuou também em pornochanchadas, as
comédias eróticas que lotavam os cinemas, e entre elas sob a direção de um
dos maiores nomes do gênero, Fauzi Mansur. E, claro, foi dirigida por aqueles a
quem considera seus verdadeiros mestres: Alex Viany e Roberto Santos. Gentil e calorosa, Marlene França conversou com o Mulheres pelo telefone de sua casa em São Paulo. Além da carreira de atriz, atuou também atrás das telas como continuísta em vários filmes e diretora de três premiadíssimos curtas: `Frei Tito´, `Mulheres da Terra´ e `Meninos de Rua´, “Eu e o Sílvio Tendler somos os únicos documentaristas a receber três prêmios Margarida de Prata consecutivos”. Marlene França conta sobre sua paixão pelo cinema e seu encontro com Alex Viany, sobre a história de sua família, a vinda para São Paulo, os trabalhos na televisão e no teatro, sobre os seus filmes como atriz e como diretora. Homenageia os diretores Alex Viany, Roberto Santos, Luis Sérgio Person e Ozualdo Candeias, a atriz e cantora Vanja Orico, a atriz, produtora e diretora Carmen Santos, e a pesquisadora Maria do Rosário Caetano. Mulheres: Você
chegou ao cinema ainda adolescente pelas mãos do grande Alex Viany, no filme
‘ Rosa dos Ventos´ (1957). Como foi essa história? Marlene
França:
Eu estava, como sempre, viajando pelo Brasil com minha família. Éramos uma família
de retirantes e meu pai estava sempre procurando emprego, já que vínhamos
fugindo da seca do sertão. Nesse episódio, morava em Feira de Santana, e
ficava nas feiras vendendo frutas, banana. E eu vi aquela movimentação de
gente diferente, do sul. Aí o Ary Fernandes, diretor de produção do filme,
estava por ali procurando figurantes. Eu tinha 12 para 13 anos. Quando eu o ouvi
perguntando para as pessoas se elas queriam participar eu olhei para a cara dele
e perguntei se era mesmo cinema de verdade, tipo Eliana e Oscarito. Ele então
me olhou, me perguntou se eu sabia sobre cinema e eu desfiei para ele todos os
filmes da Atlântida. Ele então me chamou e foi comigo pedir autorização para
o meu pai, que trabalhava ali perto como alfaiate. E aí nós todos fomos
contratados, a família inteira.
Marlene França: Sim, somos dez irmãos, mais meu pai e minha mãe?
Marlene França: Manoel França e Maria Aparecida França. E então eles nos ofereceram um dinheirão. Imagina, para nós, nordestinos paus-de-arara, era um dinheiro fora de série.
Marlene França: Era uma produção do diretor Jori Ivens. O roteiro do episódio é uma história do Jorge Amado, que assinou o roteiro junto com o Alex e também com Trigueirinho Neto, que viria a ser um grande amigo.
Marlene
França:
Eu sempre quis. Não só ser atriz, mas ser uma estrela de cinema. Mas você
sabe como é, naquela época, gente pobre não nasceu para ser artista. No máximo,
faria um curso de datilografia e se muito, poderia vir a ser professora. Mas aí,
quando eu fui falar com o Alex, eu fazia perguntas sobre cinema para ele que o
deixava desconcertado. E falávamos sobre os filmes da Metro, Gene Kelly, e
outros. E ele foi aumentando a minha personagem. Até que um dia eu reclamei com
ele sobre o fato de minha personagem não ter sequer uma fala. Ele deu muita
risada e argumentou que muita gente em São Paulo e no Rio de Janeiro gostaria
de estar no meu lugar. Mas aí ele me disse que ia me dar algumas falas para ver
como me sairia.
Marlene
França: Fiquei numa alegria só. Era a realização
de um sonho. Como já disse, eu queria sair daquele sertão e ir para o sul,
para ganhar o sul, para virar estrela. Ser como Eliana, Adelaide Chiozzo, Fada
Santoro – de quem eu gosto até hoje. Queria ser estrela de Hollywood.
Marlene França: Foi muito difícil, só vendo para crer. Tínhamos que rodar 500km, indo de Salvador até Canudos, pegando estrada de terra. A câmera tinha que ser enrolada em um lençol. O filme foi com Vanja Orico, maravilhosa, que veio da Europa com dinheiro do bolso dela especialmente para fazer o filme. E tinha o Jori Ivens, que anos mais tarde fui conhecer como documentarista.
Marlene
França:
Não. Disseram-me, acho que foi o Alex, que eu recebi o prêmio de revelação
como atriz coadjuvante, mas foi na Chekoslovakia, em um festival de filmes de países
socialistas.
Marlene França: Bom, aí foi uma tristeza, voltar para aquela vida de sempre. Meu pai era uma pessoa muito inteligente, ele acompanhava a movimentação das estações e dos tempos de colheita. Assim, se era época de colheita de algodão ou de café nós íamos para a região, ele fazia ternos para os fazendeiros e o resto da família trabalhava na plantação, colhendo café, algodão. Meu marido me disse uma vez que meu pai era um tipo de ‘hippie. A minha vida era isso, e hoje, vendo de longe, dá para ver que eu só poderia mesmo ser documentarista. Apesar das dificuldades eu tenho muito amor às minhas origens, nunca deixei de ser uma mulher do povo. O que era um pouco difícil era a questão da escola, já que vivia mudando de cidade. Mas com o dinheiro que a família ganhou nas filmagens nós viemos para São Paulo e eu fui terminar os estudos. Estudar para
mim sempre foi prioridade. Eu sabia que tinha que estudar, estava na alma. Eu
sabia que tinha que perseguir o saber, que conhecimento era tudo.
Marlene
França:
Bom, todo mundo ficava falando que eu tinha que continuar a carreira, que eu
tinha talento, mas eu ficava relutante, tinha que trabalhar. Aí eu consegui uma
bolsa para ir estudar na União Soviética. Mulheres:
É mesmo? Eu não sabia disso? Marlene
França: Pois é, mas eu acabei não indo. Você sabe
como é, naquela época era tudo muito diferente e eu era muito nova, tinha 16
anos, era arrimo de família, pai cardíaco. E era aquela coisa, moça não sai
de casa para atravessar o mundo. Mas foi um acontecimento muito importante. Eu
era filiada ao Partidão. Eu era apaixonada pelo cinema russo, vi `Quando Voam
as Cegonhas´ (Mikhail Kalatozov, 1958) cinco vezes. Mais tarde, o Paulo Emílio
Salles Gomes me indicou o filme ‘Kanal´ (Andrzej Wajda, 1956) que mudou a
minha vida. Mas quando se
é muito jovem, é difícil ficar lendo ´O Capital´, ficar lendo Marx, toda
essa complexidade. Eu gostava, mas gostava também de ouvir Bossa Nova, de me
divertir, ser alegre. O Alex ficava
insistindo e queria que eu fizesse um curso de interpretação no Museu de Arte
Moderna de São Paulo, que era gratuito. E eu acabei chegando lá pelas mãos
dele e do Lima Barreto. Era um curso de três anos e lá eu conheci Paulo
Emílio Salles Gomes, Walter Hugo Khouri e Roberto Santos, meu segundo mestre.
Ele e o Alex foram as maiores referências da minha vida. O curso era dirigido
por Plínio Santos. Foram todas essas pessoas que me ajudaram, mas hoje sei que
o Alex, de certa forma, pressionava aquelas pessoas para poder me ajudar, já
que eu era muito nova na época, e não podia entrar menor de idade.
Tive também aulas de leitura e impostação de voz com Maria José de
Carvalho. Toda a minha geração passou pelas mãos dessa mulher. Então eu
estudava e trabalhava em um escritório do Ruy Santos (fotógrafo e
documentarista). Foi também o Alex que arranjou esse trabalho para mim. Era uma
espécie de montadora, ficava colando fita e também atendendo ao
telefone.
Marlene
França:
Pois é. Desde o início eu me interessei por esse outro lado. E acabei atuando
como continuísta em vários filmes até desaguar na direção.
Marlene
França: O Khouri dava
aula para mim no curso. Foi uma participação pequena, mas que abriu caminho
para eu ser continuísta em ‘A Garganta do Diabo´ (1919), e daí não parei
mais.
Marlene
França:
O Mazzaropi era um ídolo na época, é como se fosse o Renato Aragão hoje,
conhecê-lo foi realmente uma consagração. As filmagens foram na Vera Cruz e lá
eu vi Odete Lara, que ao encontrar achei que era uma miragem, como também o José
Mauro de Vasconcelos. Na época, eu conhecia mais o pessoal da Atlântida, o da
Vera Cruz vinha do teatro, gente da maior importância. E eu lá, como
estrelinha, filha do Jeca Tatu.
Marlene
França:
Na verdade, eu achava que ainda não tinha chegado lá, não era o que eu
queria. Aliás, até hoje acho que ainda não cheguei lá.
Marlene
França: Não, nós já éramos casados. Nos casamos
por causa do filme do Khouri, o ‘Garganta do Diabo´. Ele era rodado do lado
de lá das Cataratas do Iguaçu. Eu não podia viajar, mas como estava noiva
acabamos nos casando por isso.
Marlene
França:
Eu conheci o Milton no MAM, ele tinha sido aluno de um curso antes do meu. Não
ficamos casados durante muito tempo. O Milton era um bom diretor, um bom
roteirista. Ele teve uma carreira bonita depois que separou de mim. Depois
trabalhei com ele já como estrela em ´O Cabeleira´ (1963), um excelente
roteiro dirigido por ele. Eu gostaria de resgatar a memória dele. O Máximo
Barros gostava muito do Milton, ele foi um excelente professor de cinema na
FAAP.
Marlene
França:
Eu me lembro muito do Coimbra, tenho a maior admiração por ele. ´A Morte
Comanda o Cangaço´ foi um filme difícil de fazer, foi na transição do preto
e branco para o colorido. Fomos filmar no Quixadá, no Ceará. Nesse filme eu
fui assistente de direção e continuísta. Eu cometi erros enormes, a gente não
via o copião na hora, só vinte dias depois, quando ele vinha do laboratório
Rex. Foi aí que eu descobri o tamanho da minha imperfeição e que eu não
sabia nada. Tem uma cena em que o Milton Ribeiro, que fazia o Lampião, entra em
uma cena com uma camisa azul e volta com uma amarela. Meu Deus, eu não sabia
nada. Fora as broncas que eu devo ter recebido.
Marlene
França:
Essencialmente cinematográfica. Sempre tive paixão pelo cinema, sempre fui
dedicada, pronta para tudo, pau para toda obra. Segurava refletor, rebatedor, o
que precisasse.
Marlene
França:
Fiz uma carreira bonita no teatro, fiz textos maravilhosos. Teatro é uma grande
escola, hoje eu reconheço isso. Se fosse para começar hoje eu faria teatro sem
parar, como o Antônio Fagundes. Mas fiz trabalhos importantes. Fui para o
teatro Oficina, fiquei três anos por lá pesquisando. E aí conheci Antunes
Filho, José Celso Martinez Correia, de quem fiquei muito amiga e que apresentou
a literatura russa. O Antunes me dirigiu em ´A Grande Chantagem´. Fiz curso
com Eugenio Kusnet, um mestre. Pelas mãos dele também passou muita gente,
Regina Duarte, Miriam Mehler...
Marlene
França:
Bom, nessa época a televisão era muito menosprezada, não era considerada
arte, o que é uma bobagem. Mas fiz alguns trabalhos, sendo que um grande
sucesso foi `Almas de Pedra´ (1966), em que fui convidada por Walter Avancini.
A novela tinha no elenco Glória Menezes, Suzana Vieira, Íris Bruzzi, Francisco
Cuoco e Paulo Figueiredo. Esse último, um ator de muito talento, mas muito mal
aproveitado. Fazia o meu irmão na novela. E eu também tinha medo da tv, ficava
insegura. Além do fato de me chamarem só para interpretar mulher bonita e eu
estava mais interessada em me mostrar como atriz.
Marlene
França:
Sim, com o Ileli fiz o `Mulheres e Milhões´ (1961) e com o Person eu fiz
`Panca de Valente´ (1968). Eu tinha sido indicada também para fazer `O Pagador
de Promessas´, o personagem que seria da Maria Helena Dias e que acabou sendo
da Norma Bengell. Quem me indicou foi o Trigueirinho Neto, mas eu não pude
fazer, acho que também por problema de saúde. Depois o Anselmo Duarte quis que
atuasse em `Veredas da Salvação´, mas de novo eu não pude.
Marlene
França:
Eu e o Person ficamos cúmplices. Ele me achava uma grande atriz.
O Person tinha uma inteligência e uma sensibilidade extraordinárias. Eu
me lembro que no filme tinha uma cena em que eu tinha que abraçar o Jofre
Soares e chorar e eu não conseguia de jeito nenhum. Tentava, tentava e não
conseguia abraçar o Jofre de jeito nenhum. E aí o Person interrompeu as
filmagens dizendo que era para deixar aquela cena para a próxima semana, porque
o sol estava se pondo e estávamos com problema ali. Continuamos as filmagens e
a cena foi deixada para depois. Indo embora
para casa eu fui pensando sobre aquilo e notei que o Jofre Soares era muito
parecido com meu pai. No outro dia cheguei cedo no set, pois sempre fui muito
profissional, com pontualidade inglesa. Daí chamei o Person ao lado e perguntei
se ele podia me dar cinco minutos para falar com ele. Ele respondeu dizendo que
estava muito ocupado e que não seria possível, mas eu falei que era sobre a
cena.
Aí contei que na estrada, de madrugada, eu havia descoberto que o Jofre
se parecia muito com o meu pai e por isso eu não conseguia. Foi uma cena
maravilhosa, nos abraçamos e choramos muito.Durante a minha vida eu tive que
fazer terapia, são muitos altos e baixos, muitas mudanças. Terapia é algo
comum e necessário.
Marlene
França:
Fiz e não me arrependo. Lá na Boca do Lixo eu trabalhei com pessoas que eu
admiro muito, como o Candeias (Ozualdo), o Fauzi Mansur. Mas não era muito fácil
não, foi época da ditadura e a barra era muito pesada. Todos nós éramos
perseguidos de uma forma ou de outra. E no meu caso, eu fazia por necessidade de
alma, de paixão pelo cinema, sem ter necessidade financeira. Eu era bonita,
rica.
Marlene
França:
Sim. Eu fazia uma prostituta, uma personagem muito bem-estruturada, um roteiro
bem feito. Não tenho prova, mas fiquei sabendo que o Nelson Pereira dos Santos
me elogiou na cena final, em que eu como um sanduíche. Ele teria dito que
aquela era uma cena antológica. Não sei se é verdade. Meu sonho é filmar com
o Nelson Pereira dos Santos, o considero o maior diretor do cinema brasileiro.
Sonho em trabalhar com ele, nem que seja para carregar sacolinha para ele.
Marlene
França:
Não sei, ainda não chegou a hora. Uma vez eu o encontrei no Pelourinho
filmando e ele até improvisou uma cena na hora comigo. Mas depois ela não foi
usada, não entrou. Mas ainda vou filmar com ele, um dia ele ainda vai me
chamar, é o maior cineasta do Brasil.
Marlene
França:
Sim, tudo era feito com muito sacrifício, não se podia fazer do jeito que
queria. Quando penso em uma figura como o Candeias, tenho maior admiração por
ele. Person, Fauzi...
Marlene
França:
Foi. Luiz Paulino é um grande diretor, começou em `Barravento´, depois concluído
por Glauber Rocha. Esse prêmio eu nem esperava, foi uma surpresa, eu nem estava
lá no Festival. Eu fazia uma personagem interessante, uma mulher do subúrbio.
O filme era com a Marieta Severo. Não tínhamos muito dinheiro. Foi um filme
que eu fiz com prazer, vesti a camisa, estou sempre do lado diretor, que é a peça
chave de qualquer filme. Gosto do filme.
Marlene
França:
Roberto Santos é a outra paixão da minha vida, meu amigo, meu mestre. Existem
três referências masculinas importantes em minha vida, meu pai, o Alex Viany e
o Roberto.
Marlene
França:
Foi horrível. O Roberto foi vaiado escandalosamente. As pessoas podem até
vaiar, porque nazistas e fascistas existem em qualquer lugar, mas não poderiam
ter feito o que fizeram com ele. Aquele Festival é cruel, por lá só brilha
quem está na novela das oito. Eles não reverenciam quem está preocupado com o
cotidiano do homem brasileiro, como era o Roberto, como é o cinema dele. Eu
jurei que nunca mais voltaria aquele festival. Eu não vou
esquecer nunca a expressão de dor na cara do meu amigo, enquanto estávamos
almoçando. Aí teve uma exibição do meu filme `Mulheres da Terra´ (1985),
ele entrou, deu uma olhada e disse que tava muito bonito tudo aquilo, e me disse
`Mas você também não gostou do meu filme´. E eu respondi, `Vamos conversar
quando a gente voltar´ Assim como
muita gente, eu também achava que tinha que haver um corte de uns dez minutos
do filme. Só que eu não iria dizer isso naquela hora. E eu não podia mentir
de jeito nenhum para ele. Mas aí no aeroporto mesmo ele passou mal e morreu. Eu
jamais vou esquecer a cara de dor do meu amigo, um ser humano extraordinário. O
Festival não podia ter feito aquilo com ele, ele deveria ter sido convidado
como ´hours concours´, não podiam ter feito aquilo com ele. Eu jamais vou
perdoar, como também jamais vou perdoar algumas figuras da imprensa.
Marlene
França:
Então, pela minha própria trajetória de vida eu só poderia vir a ser mesmo
uma documentarista. Eu sempre tive interesse pelos oprimidos, pelas mulheres do
campo, pelos menores abandonados, pelos bóias-frias, pelas mulheres assexuadas.
Eu vim do povo, sou uma mulher do povo, filha de uma grande família nordestina
fugindo da seca. Se for do povo eu tenho que olhar de forma muito profunda,
tenho que olhar a alma, tenho que penetrar nesse universo. Eu ainda vou sair por
esse Brasil com uma câmera, ainda há muito que se filmar por esse país. Quando eu fiz o
`Frei Tito´ (1983) eu fiquei muito impressionada, eu fiquei chocada porque os
amigos de meu filho não sabiam quem era ele. Eu nunca entrei em escola para
aprender a fazer cinema. O Sílvio Tendler, que é um belo documentarista, me
disse ´nunca entre em uma escola, você é o Dovjenko (Aleksandr) de saias´. E
aí eu fui fazer o filme, mas fiquei preocupada em não saber como iniciar, como
colocar a câmera. O Roberto então me disse que era para eu não me preocupar
com nada, que era para eu apenas filmar a chegada do corpo do meu amigo da
melhor maneira que eu pudesse, ´O resto você esquece. É o seu amigo que está
chegando, essa pessoa está voltando e ninguém sabe a dor que você está
sentindo´. Além do
´Mulheres da Terra´ (1985) eu fiz também o `Meninos de Rua´ (1988). Esses
assuntos sempre me chamaram a atenção, eu não posso ver uma criança
abandonada, uma criança vendendo picolé, uma rua deserta, a solidão. Os prêmios que eu recebi como diretora foram: `Frei Tito’: `Mulheres da
Terra’: `Meninos de Rua’: Eu e o Sílvio Tendler somos os únicos documentaristas a receber três prêmios Margarida de Prata consecutivos.
Marlene França: Pois é, eu não sei porque a televisão não me chama. Meu último trabalho foi uma produção sobre a Guerra dos Farrapos, dirigida por Carlos Coimbra para a TV Bandeirantes. Fiz trabalhos maravilhosos também para a TV Cultura como o ´Antes do Baile Verde´, da Lygia Fagundes Telles, dirigido pelo Roberto.
Marlene
França:
Então, passei um ano pesquisando sobre essa mulher extraordinária que foi
Carmen Santos. É impressionante a história de vida dessa mulher, que veio
pobre de Portugal e chegou onde chegou: atriz, produtora, diretora. Ela deixou
um trabalho lindo. Pesquisei muito sobre ela, mas não consegui levara adiante.
Fiz uma besteira que foi me associar a uma produtora que não era do meio. Como
sou casada na família Matarazzo... você sabia disso?
Marlene
França:
Sou casada até hoje. Temos três filhos. Mas você sabe também que a família
faliu, né? (risos). Então, por isso acho que ela cresceu o olho e orçou o
projeto muito alto. Cada dia aumentava o orçamento um pouco mais, inventava
coisas. E teve também a questão dos herdeiros. Trabalhar com herdeiros é
complicado, eles embargam tudo, eu tinha que viajar com fotógrafo para fazer
pesquisa e acabou ficando tudo muito complicado. Daí não consegui levar
adiante.
Marlene
França:
Pois é. Tenho vontade também de fazer um filme sobre o Alex Viany. Nem que
seja mesmo um curta. É como se eu precisasse falar de poesia com o Alex,
colocar a doçura da Adélia Prado e o universo do Vale do Jequitinhonha. Para
mim nem parece que ele morreu, tenho fotos dele espalhadas pela casa. Esse ano estou
mais dedicada à família. Mas no ano que vem eu devo retomar a minha
carreira.
Marlene
França:
A Maria do Rosário Caetano, por quem eu tenho paixão. Ela está fazendo um
livro sobre mim para a Coleção Aplauso e a gente vive falando pelo telefone,
ela já me mandou separar muitas fotos. É incrível a paixão dela. Na minha
vida é assim, eu amo ou não amo. E eu tenho a maior admiração, o maior amor,
o maior respeito por ela. Eu quero
homenagear também a Vanja Orico. Imagine, uma mulher que filmou com o Fellini,
que cantou na União Soviética, em Cuba, que continua a fazer tanto pelo nosso
cinema e que está esquecida, abandonada. Eu tenho o maior respeito por
ela. E também, é
claro, a Carmen Santos. É isso, Maria do Rosário Caetano, Vanja Orico e Carmen
Santos. Mulheres:
Mais alguma coisa que você quer acrescentar. Marlene
França:
Sim, quero te agradecer muito e dizer que tenho o maior respeito com quem faz
pesquisa séria, ainda mais nesse país sem memória. Fico feliz com um site
como esse porque as pessoas da minha geração me conhecem, mas as outras não.
Por isso fico feliz em saber que os estudantes de cinema poderão entrar no site
e conhecer um pouco mais sobre todas nós. São poucas as pessoas que fazem
isso, como a Maria do Rosário. Muito obrigada.
Marlene França: Obrigada e um beijo.
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