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Mulheres do Cinema Brasileiro O filme “Mulheres do Brasil” é o
primeiro longa da cineasta Malu di Martino. Antes, ela tinha dirigido os médias-metragens
“Ismael e Adalgisa” e “Sexualidades”, além de vários vídeos e
documentários para a televisão. Em “Mulheres do Brasil” são contadas
cinco histórias compondo um retrato geográfico do Brasil, tendo como cenário
as cidades de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Maceió e Salvador. Malu di Martino escalou um time
impressionante de talentosas atrizes para dar vida às personagens do filme:
Camila Pitanga, Dira Paes, Bete Coelho, Roberta Rodrigues, Carla Daniel, Débora
Evelyn, Luana Carvalho, Thaís Garayp, Ana Beatriz Nogueira, Marília Medina,
Magdale Alves e Léa Garcia. Malu di Martino esteve na 8a
Mostra de Cinema de Tiradentes, onde concedeu entrevista exclusiva ao Mulheres.
A cineasta fala sobre seus filmes, sobre seu interesse pelo documentário, e
sobre a união dos universos ficcional e documental em “Mulheres do Brasil”,
“Eu queria, na verdade, fazer um filme baseado na ficção, que a ficção
fosse o mote principal do filme, mas que eu pudesse pontuar documentalmente. E
faria isso usando depoimentos de mulheres que tivessem relação com aqueles
personagens, que tivessem algum tipo de semelhança ou diferença com aqueles
personagens. Para poder fazer uma
espécie de comentário documental”. Muheres: O seu filme anterior, que foi exibido em edição
passada da Mostra de Tiradentes, “Ismael e Adalgisa” , é exibido na televisão,
no Canal Brasil, e funciona muito bem na telinha. O que te chamou atenção para
escolher falar sobre aquele tema e aqueles personagens. Malu di Martino: Eu trabalho para televisão há
vinte anos, já fiz videoclip, já fiz milhões de trabalhos. Uma das áreas que
eu mais atuo é a área de documentário de artes plásticas. Primeiro porque é
o que eu gosto. Segundo, porque quando eu voltei dos Estados Unidos, para onde
eu fui estudar, eu tinha participado de uma exposição chamada Geração 80, e
aí o primeiro vídeo que eu fiz no Brasil foi sobre a trajetória dessa geração,
da Exposição de 83 até a Bienal de 85, a décima oitava bienal. Eu comecei a
trabalhar com isso, visitei várias instituições, o Centro Cultural Banco do
Brasil, o Museu de Arte Moderna, o Museu Nacional de Belas Artes.
Mesmo na televisão, eu sempre trabalhei na parte documental, nunca fiz
uma novela, por exemplo. Em 2000, a gente estava para fazer uma
exposição no CCBB sobre o Ismael Néri. Quando eu conversei com a curadora,
que era a Denise Matar, ela me explicou que havia feito uma proposta para uma
exposição dele, mas que na pesquisa ela tinha descoberto a figura da Adalgisa
Néri, que foi a sua mulher. E que ela tinha achado interessantíssimo, porque
se ela tivesse descoberto antes, teria feito uma exposição chamada “Ismael e
Adalgisa”. E ai, conversa daqui, conversa dali, ela me sugeriu que eu fizesse
um filme sobre eles. Ela é prima da Cristhiane Torloni,
e a Cristhiane queria muito
fazer Adalgisa Néri, conhecia a história e tal. Tava ligada nisso, é
minha amiga há vinte anos. Daí, fomos e fizemos esse primeiro filme. O documentário para mim é uma coisa
super importante, é uma coisa que está dentro de mim, sempre esteve. Então, o
que eu quis, naquela época, foi misturar uma coisa com a outra. Eu parti do
documentário para a ficção. Então,
o que eu tinha no filme eram depoimentos dos dois filhos do Ismael e da Adalgisa , o depoimento da Denise, que era curadora da
exposição dos cem anos do Ismael e
a biógrafa da Adalgisa, que era Ana Arruda
Calado. A partir do documentário, eu comentava ficcionalmente, eu diria
que eu ilustrava o documentário com a ficção. Ou seja, eu não fugia do meu
formato, da minha vontade do formato original. E foi muito bacana. Depois disso, eu fiz um filme chamado
“Sexualidades,” que era
um filme sobre psicanálise, e foi também um média. Foi um filme também de
pesquisa de linguagem, em que o roteiro foi da Helena Soares, que é uma pessoa
que conhece essa linha psicanalítica que é a linha do m.d Magno, do O Grupo
Novamente. A Helena fez um roteiro completamente maluco e que misturava coisas
muito loucas, apesar de ser um documentário. O gênero é documentário, mas
ele é um documentário que se passa às vezes numa lavanderia, outras num
curral com vacas, entendeu? Ele tem uma coisa muito própria,
foi um exercício de linguagem. Quando eu resolvi fazer o primeiro
longa-metragem e conheci a Elisa Tolomelli, eu expliquei para ela que eu queria
fazer o processo contrário. Eu queria, na verdade, fazer um filme baseado na
ficção, que a ficção fosse o mote principal do filme,
mas que eu pudesse pontuar documentalmente. E faria isso usando
depoimentos de mulheres que tivessem relação com aqueles personagens, que
tivessem algum tipo de semelhança ou diferença com aqueles personagens.
Para poder fazer uma espécie de comentário documental. O que acontece com “Mulheres do
Brasil” é exatamente o processo contrário do que eu fiz em “Ismael e
Adalgisa”. Eu diria pra você que 80% do filme é ficção e 20% é esse
comentário- documentário. E falando
ainda em linguagem de cinema, eu trabalhei com Heloisa Passos, que é a fotógrafa
do “Mulheres do Brasil,” também no
“Sexualidades”, e ela tem uma coisa super bacana porque ela solta muito a câmara.
Ela solta, ela corre atrás com a câmara, ela faz câmara na mão, ou seja, ela
faz uma câmara essencialmente documental. Ela tem essa característica. E o que
a gente fez em “Sexualidades” a gente resolveu fazer a mesma coisa com o
“Mulheres do Brasil”. No filme, os depoimentos são câmaras paradas, já na
trama você vai ver a câmara sempre correndo atrás. E tem muita situação de
rua com gente normal. Entendeu? Que é o que faz a contextualização regional
do filme. Mulheres: Essa divisão das histórias geograficamente no
Brasil é a presença desse olhar documental? Malu di Martino: É, porque o que aconteceu foi o
seguinte: eu viajo muito por conta dessa minha coisa com a televisão. E daí,
vejo muitas coisas que me deixa ressentida por
ver coisas que o Brasil não
vê , entende? Porque o Brasil
elege umas coisas, assim de maneira
geral, e mostra aquelas regiões,
aquelas coisas. Então, o Brasil vê pouco Curitiba, por exemplo. Vê mais Porto
Alegre. O Brasil vê pouco Maceió, vê mais Recife. Então o que eu quis foi tentar trazer
um pouco isso, mostrar, por exemplo, Maceió,
que é uma cidade linda, uma cidade espetacular.
E tem uma coisa em Maceió que é essa coisa bonita daquela comunidade
rendeira, da qual sou fã,. que é
o pontal da barra. Maceió tem gente muito rica. Ás vezes o cinema nacional
corre um pouco pra essa coisa da seca, do agreste e tal. Eu corri pra água, a
minha coisa é um pouco com a água. Tanto na história da Bahia, que é na
beira do São Francisco, no Bom Jesus da Lapa,
a gente tentou tirar um pouco dessa aridez. Água é um elemento
feminino, né? E que é muito forte
na vida das mulheres. Tem várias explicações psicanalíticas para essa relação
que a mulher tem com a água, por conta do nascimento, por conta da placenta,
dessas coisas todas. Eu corro muito pra água, eu adoro. Mulheres: é uterina. Malu di Martino: Exatamente, é uma coisa uterina.
Então eu procurei um pouco isso. Eu procurei mostrar isso, que é uma coisa que
pouco se mostra. Então quando eu digo que Mulheres do Brasil tem uma ótica
feminina, eu não quero dizer que ele é um filme feminista. Ele tem uma ótica
feminina porque é um filme feito por mulheres, não haveria possibilidade de
ser diferente. Mas os personagens masculinos também têm muita importância,
porque estão dentro da vida das mulheres e a gente sabe disso. Uma coisa é
muito ligada a outra. Mulheres: Eu acho que um dos grandes reducionismos que se
comete é quando se fala num tal
olhar feminino. Aqui eu entendo ótica feminina porque é a história daquelas
personagens, é você trabalhando com todas aquelas atrizes. Mas isso não quer
dizer que é um olhar feminino, porque olhar feminino pode ser muitas vezes um
estereótipo como olhar masculino. Malu di Martino: Exatamente. Mulheres: Você não pensa o público do filme como um público
majoritariamente feminino, não é? Malu di Martino:
Não. Não é pra ser. A gente nunca teve a intenção de fazer um filme
pro clube da luluzinha. O que acontece é que
como é um filme de mulheres comuns
há uma coisa muito bacana que é a identificação. Então as mulheres
se identificam muito rapidamente, porque conhecem. Não que todas elas sejam
parecidas, mas minha mãe era assim, minha prima também, entendeu?
Tem essa cara. E os homens também, porque eles também convivem o tempo
todo com as mulheres. Eles também identificam com muita rapidez.
E é muito gozado isso. Toda vez que a gente apresenta o filme,
alguém chega e diz assim: “ Nossa, fulana é muito parecida com minha prima,
fulana é muito parecida com minha mãe. Eu conheço um caso assim. Eu conheço
uma história assim.” Entendeu? E cara, todas as pessoas tem as suas histórias.
A gente tem essa história o tempo todo. Cada pessoa comum tem um caso para
contar, tem uma história. Então o que a gente tenta é um pouco isso. Mostrar
essa coisa comum. O que é a mulher comum. O que é a mulher que trabalha. Tem
uma perua, mas também tem uma que não é; tem uma que é perversa, que é má;
tem uma que é bacana. Mas na verdade o filme tem essa necessidade. O tempo todo
a gente trabalhou, com as atrizes e os roteiristas, o fato de nenhuma delas ser
100% boa e 100% má. Tem a Esmeralda, por exemplo, que é o personagem da Camila
(Pitanga), Ela é pervertida até o último grau, mas ela também sofre,
entendeu? Ela não é a vilã.. Mulheres: A primeira vez que eu li sobre o nome do filme eu
fiquei curioso sobre quem seriam as atrizes. Como foi a escolha? Porque há um
momento, eu imagino, que é um momento chave. Porque se erra no elenco... Malu di Martino: Ah! sim, é importantíssimo. Na
verdade, a gente trabalhou muito isso. Eu trabalhei
muito com Elisa, especificamente com Elisa, que é uma pessoa que tem muito mais
experiência em cinema do que eu, e que podia me dar essa segurança de saber
que eu estava escolhendo as mulheres certas. Essa parceria minha com Elisa é
uma coisa muito importante dentro do filme.
Ela participou do processo desde o começo, entende? Então, nós estamos
completamente integradas dentro desse processo. Nós procuramos achar as atrizes em que
a gente via algum traço da personagem, ou via nelas o potencial de desenvolver
aquela personagem. O caso da Luana (Carvalho)
talvez tenha sido o caso mais diferente de todos, porque a Luana é uma
menina do Rio de Janeiro,, não tem nada, aparentemente,
a ver com a nossa Ana, que
é a personagem de Maceió. Mas, não sei ..., tem muito de intuição quando
você escolhe um ator. Quando a gente vai lendo o roteiro, a
gente vai trabalhando, vai mudando
de roteirista, vai lendo, vai lendo, vai lendo .. e você não vê a cara. Você
constrói uma cara. Porque nós, diretores trabalhamos com a imagem, né? A gente pensa vendo, né? Ou vê pensando. É um pouco isso.
Então, quando a gente começou a ver as caras dessas mulheres, nós fizemos
muitos testes. Eu via, não achava e dizia: “mas não é a cara que eu tenho
aqui”. Entendeu? Quando batia eu dizia “essa cara é a que ta aqui dentro.
Vamos lá”. Entendeu? Mulheres: Você tem mulheres especiais no elenco, atrizes que
são mulheres de cinema, como Dira
Paes e Ana Beatriz Nogueira. Malu di Martino: Isso, exatamente. É um prazer
enorme trabalhar com essas mulheres, porque elas ensinam a gente. Ambas são
generosas. Tanto a Dira, quanto a Ana Beatriz nos ajudaram muitíssimo, sempre.
Nos ajudou a construir as personagens e ajudaram as atrizes iniciantes, como a
Luana ,que foi por acaso a pessoa que contracenou com as duas. E nessa história
a gente teve muito essa preocupação,
de saber que a Luana tava trabalhando com uma mulher que tem dezesseis filmes
nas costas, que é a nossa querida Dira Paes, entendeu? Ela é a musa do cinema
nacional, todo mundo a conhece como uma atriz de cinema. E ai a gente trabalhou
muito , preparou muito, ensaiou muito e a Dira sempre muito generosa. Tanto com
a Luana quanto comigo também. De me ajudar, de acertar, de trabalhar. E o
elenco foi um pouco isso. Foi maravilhoso trabalhar assim. Tive o maior prazer
em trabalhar com elas. Foi genial. Mulheres: Você tem uns trabalhos fora do Brasil também, não
é isso? Malú di Martino: Tenho. Eu estudei fora, nos
Estados Unidos, em Nova York. Eu trabalhei algumas coisas lá. Foi pouca coisa,
eu era estudante, e tal. Eu fiz um vídeo em Nova York sobre brasileiros que
moravam na cidade há mais de dez anos. Mulheres: Foi seu primeiro vídeo? Qual é o nome? Malu di Martimo: Sim, chama-se chama “New York,
Nova York”. Mulheres: Foi quando isso? Malu di Martino: Ah! rapaz. Olha, “New York,
Nova York” foi em 1983. Foi um trabalho de escola, com duração de 24
minutos, foi meu primeiro trabalho. Foi engraçado. Mulheres: Malú , eu sempre peço para minhas entrevistadas
homenagearem uma ou mais de uma mulher de qualquer área e época do cinema
brasileiro. Você aceita o convite? Malú di Martino: Mulher do Cinema Brasileiro que
eu admiro? Nossa! Eu tenho uma
lista. Mulheres: Sem problemas, eu falo uma para não dar muito
trabalho... Malú di Martino: Ta, mas deixa eu pensar uma.É do
cinema mudo que você quer? Mulheres: Pode ser do cinema mudo até o atual, e de qualquer
área. Malú di Martino: Gilda de Abreu. Gilda Abreu, um
espetáculo. Não tenho nem palavras para falar sobre ela. Tão genial. Uma mulher naquela época, ter chegado onde
ela chegou, ter feito o que ela fez. Nossa. Eu sou completamente fã.
Me arrepio toda só de pensar. Entendeu? Por que eu sei o quanto é difícil
hoje, imagina naquela época. Mulheres: Muito obrigado pela entrevista. Malú di Martino: Obrigada.
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