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025 - LÚCIA ROCHA

Foto/fonte:
"Lucia, mãe de Glauber", de José Roberto Arruda
ed. Geração Editorial - "Lúcia Rocha assinando a primeira
ata do Tempo Glauber
Impossível não se
emocionar ao falar com dona Lúcia Rocha – ela também se emocionou em alguns
momentos da conversa -, essa guerreira de 86 anos, em luta permanente para preservar uma das mais
memoráveis páginas do nosso cinema: a produção artística do cineasta
Glauber Rocha, seu filho. Nome de ponta do Cinema Novo, brilhante momento
do cinema brasileiro e que projetou nossa produção cinematográfica em nível
internacional, Glauber Rocha é um gênio da nossa cultura e produziu muito:
filmes, roteiros, desenhos, cartas. Entre seus filmes, clássicos como a
trilogia da terra, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e
“A Idade da Terra”, que estão sendo restaurados - "Terra em
Transe" está sendo relançado em várias capitais..
Todo o material produzido por Glauber
Rocha está reunido no Tempo Glauber, fundado e cuidado com mãos zelosas por Lúcia
Rocha. Personagem fundamental do moderno cinema brasileiro, Lúcia Rocha foi
incentivadora do filho cineasta, “O Cinema Novo nasceu dentro da minha
casa”, e agora responsável pela preservação de sua memória. Se a vida tem
sido dura com Lúcia Rocha, seus filhos morreram jovens e no auge da
criação, ela também lhe foi generosa dando-lhe outra artista fundamental do nosso
cinema: sua filha, a atriz Anecy Rocha, musa inconfundível do cinema brasileiro
e ícone desse site.
Dona Lúcia Rocha nasceu em Vitória da
Conquista, no dia 16 de janeiro de 1919. Com o fascínio do filho, Glauber
Rocha, pelo cinema, ingressou no universo cinematográfico de corpo e alma,
ajudando o filho a produzir seus filmes. Em 1999 ganhou bela biografia, “Lúcia,
a mãe de Glauber”, de José Roberto Arruda, ed. Geração Editorial. Em
entrevista exclusiva ao Mulheres, Lúcia Rocha fala sobre os filhos, o Tempo
Glauber, e sua luta para manter vivo todo um acervo essencial para a
cinematografia mundial.
Mulheres: A trajetória do moderno cinema brasileiro se
confunde com a trajetória da senhora. A senhora é chamada, carinhosamente, por
muitos, como a mãe do Cinema Novo, não é isso?
Lúcia Rocha: Eu fui marcada por isso. É que o
Cinema Novo nasceu dentro da minha casa. O Glauber era o guru de todos, e lá em
casa se reuniam o Cacá (Carlos Diegues), o (Paulo César) Saraceni, o Leon (Hirszman),
o Joaquim (Pedro de Andrade), o (Arnaldo) Jabor, o Nelson Pereira (dos Santos).
Outro que freqüentava muito a minha casa era João Ubaldo (Ribeiro). Todos
ficavam meio em volta dele.
Anos mais tarde, quando o filme “A
Idade da Terra” foi lançado, e foi muito mal lançado, pois até hoje muita
gente não o conhece, os jornais acabaram com ele e diziam que o Glauber era um
impostor, era um ignorante, não tinha cultura, que era um louco. E o Glauber me
disse uma coisa que nunca mais esqueci. Ele disse assim: “não importa não
minha mãe, eles têm a cultura, a sabedoria, mas eu fico com a minha loucura,
porque os loucos herdam a razão”. O Glauber quando vivo era chamado de louco,
e eu até acho que era loucura
mesmo, mas era uma loucura santa.
Antes de morrer, o Glauber me pediu
para cuidar das coisas dele, para reunir seus filmes. Com tanta coisa que me
aconteceu, depois de passar pelo sofrimento com a morte dos meus filhos e do meu
marido, eu nem sei como resisti - entre essas perdas, a morte trágica de Anecy
Rocha, ao cair no fosso de um elevador. No início eu fui muito acusada, de que não ia
conseguir. O Orlando Senna me ajudou na criação do Tempo Glauber, mas depois,
é compreensível, teve que se afastar. Eu continuei, viajei muito, catei
artigos no mundo todo. Não venci tudo porque a falta de dinheiro é a maior
dificuldade. Mas ainda assim o “Tempo Glauber” está aí.
Mulheres: O Tempo Glauber não tem patrocínio, não tem
ajuda?
Lúcia Rocha: Tem muita gente que até poderia
ajudar, mas eu acho que eles têm medo, medo de ver esse vulcão. Eu conto com
algumas ajudas. Em 2003 a Brasil Telecom me ajudou na restauração dessa casa.
O Walter Salles também me deu uma ajuda particular, ele não gosta muito que se
fale sobre isso, para a nossa sala de computadores. Eu tenho um patrocínio
pequeno da RioFilme, mas que me ajuda bastante. Porém, tem cinco meses que eles
não liberam a verba. Teve também uma ajuda do MINC. Mas é tudo com muita
dificuldade. Agora está se falando por aqui em fazer uma Ong de amigos doTempo
Glauber. A gente recebe muita visita aqui, mas a gente não cobra, daí que
através dessa Ong as pessoas poderiam contribuir da forma que for possível.
Mulheres: Seus filhos, o cineasta Glauber Rocha e a atriz
Anecy Rocha, são personagens fundamentais da história do cinema brasileiro.
Quando eles eram crianças a senhora chegou a imaginar, em algum momento específico,
o tamanho do espaço que eles teriam no nosso cinema?
Lúcia Rocha: Não teve um momento específico
não, mas começando pelo Glauber, eu via que ele era uma criança diferente.
Enquanto os meninos ficavam às voltas com os brinquedos da época, como bola de
gude, ele ficava ligado aos estudos, gostava de escrever poemas.
Até que aos nove anos eu tive uma surpresa ao ser chamado pelo diretor
de sua escola, que era um colégio americano, prebisteriano, o Instituto 2 de
Julho. O diretor me disse que tinha encontrado um gênio entre seus alunos e me
mostrou o Glauber. O Glauber tinha escrito uma peça, “Ilito Doro”, um título
em espanhol que quer dizer "Menino de Ouro". Era a história de um
garoto de origem real que se apaixonava por uma plebéia.
Ele montou a peça, dirigiu e atuou. Daí
não parou mais, aos 17 fez “Pátio” e “A Cruz na Praça”, aos 18
“Barravento” e aos 23 “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Tem 24 anos que
ele foi embora, mas está aí, ligado pelo Brasil. Agora mesmo, eu acabei de
chegar da França, das festividades do Ano Brasil/França. Eles exibiram a cópia
restaurada de “Terra em Transe” e foi um sucesso extraordinário. Muita
gente veio me falar o quanto Glauber é genial. Foi realmente um sucesso de
espantar, que me fez crer de vez que ele é mesmo um cidadão do mundo.
Eu fico cuidando das coisas dele aqui
no Tempo Glauber. São 80 mil documentos, entre livros, roteiros, peças,
cartas, fotografias e também uma faceta pouco conhecida dele que são os
desenhos. Vem muita gente aqui, na verdade, mais gente do exterior que
brasileiro.
Mulheres: O que a senhora acha disso, do fato de ter mais
visitante estrangeiro que brasileiro?
Lúcia Rocha: Não sei. Quer dizer, agora até
que tem tido mais brasileiro, as faculdades têm se interessado mais. Eu acho
que o Brasil tem medo do Glauber. O Glauber morreu aos 42 anos, mas ele fez
muita coisa. E ele viveu no exílio, ele ficou sete anos no exílio quando foi
botado para fora do Brasil. Foi na época do “Terra em Transe”, o filme foi
censurado, e é aquela coisa, o
Glauber não tinha medo de falar as coisas. Já se passaram 24 anos e os jovens
de hoje, de vinte e poucos anos, não tiveram acesso à obra dele. Já na Europa
ele escreveu muito, fez três filmes maravilhosos. Eu acho que a Europa entende
o Glauber melhor.
Mulheres: A Anecy Rocha é uma atriz maravilhosa do cinema nacional.
E com ela, como a senhora percebeu o seu talento?
Lúcia Rocha: A Nécy era uma atriz nata. Aos
quatro anos já dançava balé e virava de ponta à cabeça. Ela adorava
recitar, ela foi uma grande declamadora. Teve uma escritora de teatro que há
pouco tempo disse que ela é uma musa do cinema brasileiro. Ela fez 16 filmes.
Era uma pessoa carinhosa, muito generosa, tinha um humor fantástico, era uma
alegria só. Não é corujice minha não, você pode perguntar para qualquer
pessoa que a conheceu que ela vai te afirmar isso. Você chegou a conhecê-la?
Mulheres: Infelizmente não, mas a considero uma atriz
excepcional. Ela é mesmo uma autêntica musa do cinema brasileiro e no site eu
faço uma homenagem a ela. Ela dá nome a uma das salas do site e sua foto está
na página principal ao lado das outras homenageadas, em uma cena de “A Grande
Cidade”.
Lúcia Rocha: A Anecy fez curso de teatro, era
aluna aplicada, sempre bem classificada, e daí fez grandes filmes. Tem “A
Lira do Delírio” (Walter Lima Jr), por exemplo, que é uma obra-prima. Tem
“A Grande Cidade”, pelo qual ela foi a primeira atriz a receber o
Urso de Prata no Festival de Berlim. Ela era uma menina espetacular, tenho
lembranças dela, muitas saudades. Ela teve aquela morte triste, até hoje eu
detesto elevador, ele, que levou minha filha lá para o fundo. Até hoje eu não
consigo compreender essa morte dela, mas aconteceu não é, era o que Deus tinha
para ela.
Eu tive outra filha que morreu e que
também era gênio. Ela era mais nova que o Glauber, morreu aos 14 anos, de
leucemia.
Mulheres: A senhora se lembra da sensação que teve ao ver a
Anecy pela primeira vez na tela do cinema?
Lúcia Rocha: A primeira vez que a vi foi em
“Menino do Engenho” (Walter Lima Jr). Aquele papel lindo, de uma garota que
acaba virando tia daquele menino. E teve também “A Grande Cidade”, em que
ela tem aquela grande coragem para defender o seu grande amor. A cena em que ela
atravessa o portão e leva aquele tiro, quando ela cai... que atriz fantástica,
que desempenho ótimo para uma atriz iniciante.
Tem também “O Amuleto de Ogum”
(Nelson Pereira dos Santos”), premiado no Festival de Cannes. No filme ela faz
o que se chama hoje de garota de
programa, está fantástica, muito natural. Há pouco tempo eu vi o filme e eu
senti os telespectadores fascinados com o trabalho dela.
Mulheres: Como a senhora vê essa continuidade com os seus
netos envolvidos com o cinema, como o Erik e a Paloma Rocha?
Lúcia Rocha: Eu vejo com uma alegria muito
grande, todos têm cinema na veia. O Erik é muito inteligente, fez o “Rocha
que Voa”, mas agora foi para Bauru, em São Paulo, e não anda querendo
voltar. A Paloma se comprometeu em recuperar os filmes e está fazendo isso
junto à Petrobrás. Não é uma garota, é uma senhora de 43 anos, mas esse
trabalho é fundamental, porque para mim, com 86 anos, as coisas já não ficam
tão fáceis.
Além deles tem o João Rocha, que é
quem cuida aqui do Tempo Glauber junto comigo, ele é o responsável pela
divulgação, eu sou a presidente e ele dirige a divulgação. Ele está fazendo
um filme, “Profana”, que é um primeiro filme, sem financiamento, apenas ele
a Renata Rocha, que é diretora. Ela é Rocha também, mas não é dos nossos
rochas. Ele está produzindo, lutando.
Mulheres: Dona Lúcia, muito obrigado pela entrevista, a
senhora é peça fundamental tanto na produção desses filmes essenciais da
nossa cinematografia como agora na preservação
deles e de nossa memória.
Lúcia Rocha: Muito obrigada Adilson, é como está lá na Bíblia,
a medida da felicidade é em Deus que a gente encontra, e também a vontade de
viver.
Entrevista
realizada em maio de 2005.
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