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014 - LÉA GARCIA Foto:
cena de "Filhas do Vento" (2004), de Joel Zito Araújo Premiada como Melhor Atriz no Festival
de Gramado 2004 – junto a Ruth de Souza – pelo filme “Filhas do Vento”,
de Joel Zito Araújo, Léa Garcia é uma das mais
importantes atrizes brasileiras. Presença fundamental nas artes cênicas, a
atriz começou a carreira no TEN – Teatro Experimental do Negro, estreou no
cinema em “Orfeu Negro” (1959), de Marcel Camus e desenvolveu na tv uma
carreira extensa cujo ponto alto é a odiada – na época – vilã Rosa em
“Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga. Léa Garcia conversou com o Mulheres
pelo telefone de sua casa no Rio de janeiro. Ela lembra o início da carreira no
TEN, “Não queria ser atriz, queria ser escritora”, da chegada ao cinema e
da carreira na televisão, “A Rosa é o meu cartão de visitas”. Léa Garcia
faz severas críticas ao cineasta Carlos Diegues, “Não quero fazer mais
nenhum trabalho com ele”, e elogia Sylvio Back , “aqueles minutozinhos em
que eu apareço, aqueles segundos em que apareço na tela valem mais do que vários
trabalhos que eu fiz aí inteiros”. A atriz fala também, é claro, de
“Filhas do Vento”, “ele era favorável aos nossos anseios, ele vinha
realmente satisfazer os nossos anseios”. Mulheres: Léa, você começou sua carreira artística pelo
Teatro Experimental do Negro. Como você chegou até o TEN? Léa Garcia: Eu cheguei ao TEN através do
Abdias do Nascimento. Nós estávamos morando juntos, eu era bem jovem e tinha
acabado de ter um neném. E ele falava para mim que eu tinha um temperamento artístico,
mas eu não queria, eu queria ser escritora. Então ele insistia para que eu
verificasse o meu potencial. Eu não queria saber disso, então eu brigava em
casa e dizia “não quero!”, aqueles ataques de garota de 16 anos. Aí ele me
levava em frente do espelho e mostrava a minha máscara, assim e assado. Bom,
ele me convenceu e eu acabei estreando em um trabalho que intitulava-se “Rapsódia
Negra”, que era dança, poema. Eu estreei dizendo o poema “Navio
Negreiro”, do Castro Alves. Mulheres: Isso foi em 1952? Léa Garcia: É. E eu já tinha um bebê. Dançando
algumas coisas também, como “Rainha do Maracatu”, “Oxum” e várias
outras danças. Aí eu pisei nas tábuas e gostei. Mulheres: Você que participou, como foi o TEN na época? Léa Garcia: Olha, eu não peguei o TEN na época,
quem pegou foi a Ruth de Souza, de 45 a 48. Eu peguei o TEN numa outra fase, em
52. Eu dividia a minha vida entre o TEN e o bebê que eu tinha em casa. O
objetivo do TEN era que realmente, em termos artísticos, que não se pintasse
mais nenhum ator branco para fazer papéis de negro e que abrisse esse espaço
também para dar oportunidade às pessoas que tinham algum potencial em relação
às artes cênicas. E o TEN, antes de mais nada, sempre se preocupou com a questão
da discriminação racial. Esse era o objetivo maior, que era a parte sócio-racial. Mulheres: E que é nos anos 50 e é uma luta até hoje. Léa Garcia: Até hoje, pois é. Mulheres: No final dos anos 50 você chega ao cinema. Foi o
cinema primeiro ou foi a televisão? Léa Garcia: Eu cheguei primeiro ao cinema. Eu
fiz televisão, mas foi com o TEN, em São Paulo, estava grávida de meu segundo
filho, foi lá na Tupi de São Paulo. Mas foi rápido, foi uma peça que eu
encenei lá, “Onde Está Marcado
a Cruz”, de (Eugene) O´Neil, que foi a peça que Ruth estreou em teatro. Eu
fiz uma velhinha de 80 anos e eu tinha dezessete anos. Mas então, eu fiz
primeiro cinema, eu fui fazer os testes para “Orfeu”. Mulheres: Você chega ao cinema em um momento muito
importante. Como você chegou até ele? Léa Garcia: Eu desenvolvi toda a minha vida
fazendo teatro no TEN, fiz algumas peças do Abdias, depois eu fiz “Orfeu da
Conceição”, de Vinícius de Moraes, e aí o nome começou a ser ventilado.
Quando o Marcel Camus chegou, ele na certa deve ter feito um levantamento das
pessoas daqui que tinham um pouco de projeção no meio artístico. Assim mesmo
ele abriu um concurso na “Maison de France” para que as pessoas se
candidatassem aos personagens de “Orfeu”. Eu fui correndo me candidatar ao
personagem da Mira, porque eu a tinha feito no teatro, mas acontece que não era
o tipo físico que o Camus queria. Eu fiz a Serafina, que não existe na
peça, só na adaptação cinematográfica. Eu concorri com várias candidatas,
foram quatro finalistas e eu acabei conquistando esse personagem. Ele
achava que eu não tinha o tipo físico para a Serafina, ele gostava mais
do tipo da Teresa Santos, que hoje é uma mulher engajada no movimento negro em
São Paulo, e da Eunice, uma menina que logo após as filmagens morreu em uma
explosão de gás em um banheiro. Ela faz uma daquelas moças do filme. Mas eu,
sabidamente, ficava observando elas interpretarem e aí ficava tirando uma coisa
de uma, uma coisa de outra, um pouquinho de cada uma. E Marcel começou a
observar que eu me detinha muito olhando as outras ensaiarem. E nós ficamos lá,
acho que um mês ou dois, fazendo esses testes. Eu estava sempre muito atenta e
quando eu ia fazer o trabalho ele sentiu que eu colocava um pouco das outras.
Ele percebeu um interesse maior. Aí eu conquistei a personagem. Mulheres: E
que fez um grande sucesso no Festival de Cannes. Lea Garcia: É, eu quase ganhei a Palma. Muheres: Você foi indicada a Melhor Atriz, não é? Você
se lembra quem ganhou na época? Léa Garcia: Fui sim. Quem ganhou na época
foi Simone Signoret, em “Almas em Leilão”. Mulheres: Depois você repete outra
parceria com ele em “Os Bandeirantes”. Você entra os anos 60 com um papel
que eu, particularmente, acho maravilhoso: “Ganga Zumba” (Carlos Diegues).
Aquela cena em que você cantarola, eu gosto muito. Léa Garcia: Você gosta daquela cena? Eu não
gosto. Mulheres: Eu adoro. Léa Garcia: Eu gosto da cena do rio com o
Pitanga, eu gosto da cena do leque, a cena do leque eu acho ótima. Dificilmente
eu acho ótimo alguma coisa que eu faço. Mas a cena do leque, se arrastando no
chão para apanhar o leque, ele se desenrola e ela mesmo se prejudica, aquela
cena eu acho muito boa, porque é uma cena em que eu não estava posando e ela
é naturalmente sensual, sem cortar nada. Mulheres: Aí nos anos 60 você ainda faz o “Santo Módico”
(1964). Léa Garcia: É, do Robert Mazoyer, que foi o
assistente do Camus em “Orfeu Negro”. Mulheres: Nessa mesma década você começa nas novelas, em
69, na novela “Acorrentados”. Léa Garcia: Na TV Rio?... “Acorrentados”
na TV Rio, com Leila Diniz, Betty Faria acabando de ter a neném, Dina Sfat
ainda sem casar com o Paulo José. Tinha
muitos atores na novela. Monah
Delacy, Ivone Hoffman… Mulheres: Na televisão você desenvolve uma carreira longa
com mais de 20 novelas. Léa Garcia: É, eu ganhei esse ano em São
Paulo um prêmio do Emanoel Araújo. Eles fizeram um levantamento e eu fui a
atriz negra que mais fez televisão até aquela data. Naquela época, daqui a
pouco deixa de ser. E não só novelas, naquele tempo tinham muitos casos
especiais, série Aplauso, Obrigado Doutor, o Fantástico com aquelas cabeças
de poesia, Plantão de Polícia. Então eu fiz todos esses seriados. Mulheres: É impossível falar de televisão sem falar da
Rosa em “Escrava Isaura”. Léa Garcia: A Rosa é o meu cartão de
visitas. Mulheres: Eu queria que você falasse um pouco sobre esse
personagem já que você mesmo a considera seu cartão de visitas. Léa Garcia: Na época ele me incomodava
bastante, mas agora eu acho que ele foi um dos trabalhos positivos que eu fiz.
Aliás, eu considero todos os trabalhos que eu fiz, mesmo aqueles que aparentam
não ter grande importância. Eles são todos muito importantes na minha vida.
Quanto à Rosa, é sempre muito bom fazer a vilã, o próprio público gosta
muito da vilã. E para o ator enquanto trabalho é muito bom porque você libera
as suas feras e explora um lado que você acha que talvez não tenha. Isso é
muito bom. Como ele era o segundo personagem feminino da novela, ele tinha essa
grande importância na história e realmente foi um personagem que cada vez que
a TV lembra das grandes vilãs aí no Vídeo Show ou em vários outros programas
da Globo, nas grandes vilãs da televisão a Rosa está sempre incluída. Mulheres: E porque você não gostava na época? Léa Garcia: Porque eu apanhei muito na rua.
Eu apanhei bastante. Eu fui vaiada uma vez no Sambódromo, o Sambódromo
inteirinho me vaiou. Foi com meu querido amigo falecido, vai fazer um ano agora,
Haroldo de Oliveira. Nós estávamos passeando com a esposa dele e mais alguns
amigos meus e o Haroldo brincando se posicionou bem no meio da passarela e foi
dizer, “Minhas senhoras e meus senhores, eu tenho a honra de apresentar a vocês
aquela que tanta maltratou a nossa Isaurinha” (risos). Eu fui me encolhendo e
dizendo para ele “não faça isso Haroldo”, e ele rindo porque ele era muito
engraçado. Aí o Haroldo falou isso e todo o público me vaiou:úuuuuuuuuuu.
(risos). Apanhei também tomando um táxi, uma
mulher me deu um beliscão no braço e me disse que não agüentava mais me ver
fazendo tanta maldade. Meu caçula, que tinha uns dez anos, dizia, “bate nela
mamãe, bate nela”, e eu disse, “não vou bater nada, se eu bater vai ficar
pior ainda”. Uma outra foi pior ainda, essa eu falei no Fantástico. Eu gosto
muito de fazer feira, esse meu lado de Iansã é muito interessante. Eu fui à
feira de manhã, eu morava no Flamengo e fui a uma feira que tinha no Catete.
Então, quando eu estava toda prosa andando na feira uma mulher me lasca uma
corvina no meu peito, me bate com aquela corvina para eu parar de fazer maldade
com a Isaura. Sabe o que é levar uma peixada no peito, aquelas escamas todas em
cima de você? O Rubens de Falco também sofreu, aliás todos esses vilões de
novelas sofreram bastante. Agora é que o público já está em um processo de
compreensão, mas antes era muito forte para o grande público. A minha prima morou durante não
sei quantos anos, a Cléa Simões, atriz também... Mulheres: Ela é sua prima? Léa Garcia: É minha prima não consaguinea,
é por afinidade. Ela morava em Ramos e eu ia sempre na casa dela, todo domingo,
durante anos, 20 anos ou mais. Na
época da `Escrava Isaura” ela estava em casa assistindo a novela e aí daí a
pouco eu morro. A vila inteira foi para a praça
gritando: “bandida, bem feito!”. Aí a Cléa chegou e disse “gente
que é isso, vocês conhecem a Lea!” (risos). Eu morava numa casa que tinha um
quintal enorme, eu morei um ano em Oswaldo Cruz em uma casa grande que era toda
arborizada e eu tinha mudado. Eu morei lá um ano, durante a época da novela e
saí porque eu não agüentava mais ter que ficar indo para lá e para cá,
achava longe, subúrbio. Aí (risos), apedrejaram a casa toda (risos), quebraram
vidraça, a casa toda. Os vizinhos me ligaram, “Léa se você estivesse
morando aqui ia ser um terror”. Mulheres: Eu já li você
falando de uma personagem de
televisão que você gosta que é a Leila da novela “Marina” (1980). É um
destaque? Léa Garcia: Gosto muito. Para mim ela é
importante porque o pessoal diz aí que a gente não vê negro com uma posição
social em novelas. A Leila tinha uma posição social boa, era professora de
história em um colégio de grã-finos. A Íris nascimento fazia a minha filha e
ela estudava no mesmo colégio e sofria discriminação por parte de algumas
alunas. Mas ela se mantinha firme, às vezes eles não respeitavam a entrada
dela em sala de aula, ela voltava, impunha silêncio e respeito e sabia se
colocar muito bem com eles. E teve um momento em que a minha filha começa a
ficar com problemas em relação ao rapaz por quem tinha se apaixonado, um rapaz
branco e eu então dou uma aula para ela da História do Brasil em relação ao
Quilombo dos Palmares. Só que a moça que fez a pesquisa fez uma pesquisa que não
tinha a minha visão, tinha uma visão eurocentrista, a visão da história
oficial. Aí eu cheguei para o Herval Rossano, diretor, e pedi para ele se eu
podia mudar. Naquele tempo eu fazia parte da direção do IPCN (1980), eu não
era diretora, eu fazia parte do corpo de direção. Aí então o Herval disse
que sim que eu pegasse e depois levasse para ele lê. Era um momento em que eu falava duas páginas
quase, sem parar, a novela quase toda naquele dia era eu dizendo isso. Eu fico
muito boba, assim, muito surpresa porque o pessoal do Movimento Negro nunca
mencionou isso. Eu levei ao diretor
Herval Rossano, ele mostrou para a pesquisadora dele, Ana Maria, ela concordou,
e eu disse toda a página do Quilombo dos Palmares com a visão afro-brasileira,
com a visão realmente certa do que aconteceu,
com toda a problemática da época colocada de uma forma decente, sem
paternalismos, sem nada, e nunca (veemente) eles disseram nada. Mulheres: Como é o seu envolvimento com o Movimento Negro? Léa Garcia: Eu vou dizer uma coisa para você.
A minha postura é de uma pessoa que sabe o preconceito que nós passamos, sabe
que nós temos que ter uma
conscientização dessa questão e comecei a fazer parte, mas eu saí. Porque
antes de mais nada eu sou atriz e eu não posso permitir, eu não podia permitir
que determinadas pessoas do movimento negro achassem que eu era mais atriz que
engajada. Então eu disse a eles, já que aqui dentro eu não posso ser as duas
coisas eu vou ser o que eu realmente tenho, todo o meu sentimento, a minha alma
voltada. E que é a arte de representar, porque através dela eu posso fazer várias
denúncias. Então eu não me afastei, eu apenas não tomo mais parte de direção
de nada, não estou engajada ali, mas com todo o meu sentimento democrático e
anti preconceito racial, voltada para o social desse país, o sócio-econômico
do país. Extremamente voltada para a nossa questão porque ela é vital para nós. Mulheres: Lá do TEN, nos anos 50 até agora, você acha
que modificou muito a questão do artista negro nos veículos? Léa Garcia: Não, o que aconteceu foi que
houve uma penetração maior. Foi muito bom porque as pessoas que abriram as
portas estão vendo que tudo que passaram, com todas ass dificuldades, que isso
tudo foi muito bom porque essa penetração agora de vários atores, vários
jovens que estão surgindo, isso é muito importante. Que nós temos realmente
que ocupar esses espaços, se nós quisermos realmente produzir trabalhos que
nos dizem realmente respeito, nós temos que ocupar todos os cargos, direção,
produção, não só como ator, porque se ficar só como ator você não
consegue nada. Você tem que estar nos postos de direção, de produção, câmera,
edição, para você chegar realmente a ter um lugar ao sol. Mulheres: O que você pensa sobre políticas como a de
cotas para negros nas universidades? Léa Garcia: Olha, eu acho que a questão da
cota é muito importante. Eu não falo em termos de paternalismo não, eu falo
em termos de dar oportunidades, porque muitas vezes as vagas terminam. E depois
se passa por uma peneira seletiva em que os acentuadamente mais negros dançam.
Então eu não quero dizer que você vai dar um espaço a quem não merece, a
quem não está bem preparado, não é isso. Eu quero dizer que se você sobrou
em determinado momento você poderá ser aproveitado daqui a pouco, se você tem
capacidade, e não você passar por uma peneira. Eu fico triste quando eu
encontro vários negros dizendo que isso os incomodam porque se sentem
humilhados, porque acham que isso é uma
forma de paternalismo, não é. Se você tiver uma visão de que você passa
realmente por peneira, e a gente sabe que passa, não pode ser encarado dessa
forma. Agora, daqui a pouco talvez não precise mais, com essa coisa agora da
ENEN eu acho que daqui a pouco não se precisa mais disso. Por enquanto só,
quem sabe, dois ou três anos, daqui a pouco não. É negros e índios, já
passou da hora. A gente tinha que fazer isso também em empresas, não é só em
faculdades não. Em empresas privada não se pode fazer, mas nas empresas
exige-se pessoas de boa aparência e qual é a boa aparência que se exige? Mulheres: Léa, voltando um poucopara o
cinema, eu queria que você comentasse alguns
filmes: tem “O Forte” (1974), do Olney São Paulo... Lea Garcia: Gostei muito de fazer. Mulheres: “Em Compasso de Espera”
(1969), do Antunes Filho; “Ladrões de Cinema” (1977), do Fernando Cony
Campos, “ A Deusa Negra” (1978) e
“A Noiva da Cidade” (1978). Eu gostaria que você falasse sobre “Em
Compasso de Espera”, esse filme do Antunes Filho é quase mítico, muita gente
não viu. Léa Garcia: Eu mesma não vi o filme, eu só
vi a parte que eu fiz no dia. Aliás, eu
vi o filme em São Paulo, em uma projeção rapidamente, não me lembro mais, só
me lembro daquela cena em que como angu com o Zózimo Bulbul, que faz o meu irmão.
Se você me perguntar do que realmente tratava o filme eu não me lembro mais. Mulheres: Eu ia perguntar se você se lembra de como era a
direção do Antunes? Léa Garcia: Me lembro, me lembro. Antunes é
um cara meio engraçado, mas estava bem, naquela época ele estava mais
tranquilo, foi boa a direção dele. Eu só fiz uma cena no filme, ou duas
parece, se não me engano. Eu não me lembro mais. Mulheres: E “A Deusa Negra” (1978)? Léa Garcia: “A Deusa Negra” foi muito
bom, com Ola Balogum. Nós íamos fazer aquelas cenas todas debaixo d’água, só
que não houve possibilidade. Eles não conseguiram a piscina, não conseguiram
nada, eu queria fazer debaixo d’
água, como é realmente, fosse num lago ou coisa assim. Mulheres: E “A Noiva da Cidade”, do Alex Viany? Léa Garcia: Esse aí eu tenho muito carinho
por ele, porque Alex era uma pessoa muito querida, pessoas que eu adoro, como
Betina (Vianny) e Bibi (Vianny). Nós vivemos em uma cidade que eu tenho impressão
que não existe mais, Volta Grande, não deve estar mais como era naquela época.
Nós vivemos assim um período de sonho naquela cidade. Convivendo com Humberto
Mauro, com a esposa dele, dona Bebê, pessoas que nem existem mais. Me traz
recordações muito boas em termos de convivência. Mulheres: A minha entrevista anterior foi com a Dóris
Monteiro, cantora que foi lançada como atriz pelo Alex Viany no cinema em
“Agulha no Palheiro” (1953). Léa Garcia: Eu tinha um carinho muito grande
pelo Alex, aquele filme tem muita gente que morreu, mas muitas. Aliás, em
“Ganga Zumba” tem uma cena em que o Pitanga é o único vivo, meu Deus do Céu!,
todo mundo morreu ali, uma loucura. Eu gostei bastante. “Ladrões de Cinema” foi lá em
cima no morro, eu tenho uma cena apenas e foi muito interessante fazer aquela
cena com o Antero Luís. Mulheres: “Ladrões de Cinema” é um clássico. Léa Garcia: É um clássico do Fernando e ele
fez muito bem. Aquele filme foi muito dificultoso, teve vários problemas, mas
foi bom. Mulheres: Você voltou ao “Ganga Zumba” e me veio uma
questão: onde anda Luíza Maranhão? Léa Garcia: Pitanga disse que ela está na
Europa. Parece que ela se corresponde sempre com o Antônio Pitanga. Parece que
as pessoas estavam dizendo que ela tinha morrido, mas não. Quando eu fui fazer
com ele uma entrevista agora para o Caderno de Cinema, ele então disse que Luísa
Maranhão, ela era muito bonita, né?, está lá, não sei se na Itália, em um
lugar qualquer da Europa. Mulheres: Nos anos 80 você faz com o Carlos Diegues “Quilombo” (1984) e depois volta nos anos 90 fazendo “Orfeu” (1999). O Cacá
Diegues é tido como o cineasta brasileiro que mais focaliza a cultura negra no
conjunto de obra. Como que é trabalhar com o Cacá Diegues? Você concorda com
isso? Léa Garcia: Olha, eu não sei o que aconteceu
com o Cacá Diegues em relação a mim, porque no “Quilombo” ele me chamou,
eu tenho uma participação apenas, eu faço aquela cena, uma pietá com o
Milton Gonçalves deitado no meu colo, ali nos leprosos, na morte dos leprosos.
Eu não queria fazer o “Orfeu”, esse segundo Orfeu, eu até falei para o
Milton que ia devolver e o Jorge Coutinho disse para eu não fazer isso. O Cacá
disse “Léa, eu quero te
homenagear, você que é a única que fez “Orfeu””. Mas ele não me
homenageou, porque ele me botou como participação especial. Ele não me
colocou nos créditos maiores do filme e a tomada que ele fez comigo ele devia
ter feito com qualquer pessoa. Porque eu fiz uma tomada, uma única cena à
noite, cumprimentando a Zezé (Motta) na porta, com uma criança que gritava,
que não podia ver a câmera na frente dela, a criança me socava, me unhava,
coitada da menina ela tinha pavor da câmera. E eu tenho reações com o filho
porque ele muda de nome, com a neném, surpresa porque o filho inventa um nome
que não era dele e aquela loucura de ter que trabalhar e tem que deixar a criança.
Ele fez tudo em plano geral. Eu não sei porque. Então ele me usou a toa,
talvez ele tenha querido mostrar o quanto eu já estivesse ultrapassada, eu
acredito. Mulheres: É mesmo? Você acha isso? Léa Garcia: Eu acho isso. Porque homenagem
ele não me fez em momento algum, em momento algum. Não tenho medo de dizer
isso e eu digo isso para o Cacá. Homenagem o Cacá não me fez em momento
algum. Mulheres: Curioso, porque você é uma presença tão forte
em “Ganga Zumba”. Léa Garcia: Ele não me fez homenagem em
momento algum, algum. Nem no outro, o Milton disse “vamos Léa, fazer a cena
juntos”, e eu fiz em “Quilombo”. E
quanto a esse “Orfeu”.... Mas
como o filme é uma porcaria, uma droga, não tem importância, foi até bom eu
ter aparecido pouco. O filme é um horror. Na hora em que fui ler o texto e eu
vi o menino chamando a Eurídice de Pocahonta, eu disse puxa porque ele não a
chama de Iracema, Jaci, por que Pocahonta? Ah não, Deus me livre!. E não vi o
filme. Eu vi uma vez na televisão, um pedaço, desliguei porque foi horrível o
que estava vendo, eu não queria mais. E eu disse isso, eu saí da gravação
e ele disse “Léa venha ver”, e eu disse “eu não enxergo no monitor, eu
sou míope”. E é verdade, eu tenho que ficar de óculos e com a cara grudada
no monitor. Ele disse “você gostou?” Eu disse, “ Eu gostei tanto” e
olhei para a cara dele e virei as costas. Aí a moça olhou para mim, a menina
da produção, “Lea, o trabalho...” e eu saí de perto dela, não disse
nada. Primeiro me enfeiaram toda, passaram coisa no meu rosto para eu ficar mais
velha, uma roupa horrorosa que não tinha sentido. Aliás, em relação às
roupas daquele filme... Então eu fiquei surpresa, porque se
eu posso ser mãe do menino de 12 anos e de uma menina pequenininha e eu
não tenho necessidade de estar vestida feito uma carcamana. As mulheres negras
do morro usam bermuda, top, são gordas, uma bunda enorme, a barriga lá na
frente. Essa é a realidade no morro, atualmente. Você não usa cinza nem preto
e nem fica toda suja, não tem necessidade de fazer isso com você, com a
pessoa. Eu podia estar normal, normal, normal. Porque é assim, atualmente é
assim, elas descem aqui e você nem sabe se são do morro ou não. Então
realmente eu achei um descaso do Cacá Diegues e não o perdôo, não o perdôo
mesmo. Não quero fazer mais nenhum trabalho com ele. Mulheres: Você termina os anos 90 fazendo “Cruz e Souza
– O Poeta do Desterro” (1998), do Sylvio Back. Como foi trabalhar com ele? Lea Garcia: Foi muito bom, eu gosto bastante
daquele filme, é um filme difícil, não é para grande público. E também é
um filme muito do Sylvio, muito voltado para dentro dele e para dentro do Cruz e
Souza. Não é fácil também você fazer um filme dizendo poemas do simbolismo
do Cruz e Souza, são poemas bem difíceis de fazer e eu acho que naqueles
minutozinhos que eu apareço, aqueles segundos em que apareço na tela valem
mais do que vários trabalhos que eu fiz aí inteiros, porque foi muito bem
aproveitado. Eu não tive nome como destaque nem nada, tive nome normal, mas
estava lá, ente as pessoas principais do filme. Eu também não era o Cruz e
Souza, eu não era a mulher dele então eu não podia ter o nome na frente, mas
eu era o quarto nome e a cena foi muito bem aproveitada, tudo o que eu fiz foi
muito bem aproveitado. Olha, foi um prazer fazer aquele filme com o Sylvio Back
e o convívio com a equipe dele também foi muito boa, o convívio com todo o
elenco, o convívio sem estrelismos, não tinha ninguém posando de estrelo nem
olhando de cima, nada disso, excelente o convívio. A mesma coisa foi o filme do
Joel (Zito, “Filhas do Vento”), pessoas que você convive bem, com quem
você tem um bom relacionamento, uma equipe maravilhosa. Então o filme
do Sylvio foi muito bom, ficou uma amizade muito boa dele com a gente, e
atencioso, atenção, não é tratar você como um lixo. É um cinema sério. Agora fala-se
tanto lá do Palmares, do “Quilombo”. O “Quilombo” para mim é
muito festivo, eu acho uma festa. Eu entendi ali a visão do diretor, ele achou
que chegou lá em cima, porque o “Ganga Zumba” é uma preparação para o
“Quilombo”. Mas “Quilombo” é uma festa, apesar das mortes acontecendo,
é tudo muito festivo. Será que aquelas pessoas tinham tempo de fazer aquelas
trancinhas cheias de contas? Cada hora que o Pitanga vem ele está com
um cabelo diferente na cabeça, cada um, a
cada hora, está
com um cabelo diferente. Não, eu sei que na África tinha tempo para
isso, mas lá em cima no Quilombo não tinha muito não. Muita fantasia, muito
carnavalizado, muito. Mulheres: Os anos 2000. Você participou do “Viva
Sapato” (Luiz Carlos Lacerda, 2002). Eu não vi esse filme ainda. Léa Garcia: E nem eu. É que na duas vezes em
que eles me chamaram para as estréia que teve aqui eu estava em Lavras Novas
fazendo “Filhas do Vento”. Depois teve uma outra exibição, mas eu estava
em Cantagalo fazendo “Remissão”, do Sílvio Coutinho. Mulheres: Esse filme você já rodou? Léa Garcia: Eles estão aprontando. “Remissão”
está sendo aprontado, está na fase de montagem. Mulheres: E o grande momento “Filhas do Vento”,de Joel
Zito Araújo, em que você foi
premiada esse ano no Festival de Gramado (com Ruth de Souza). Esse é um filme
que foi aplaudido por toda a crítica. Léa Garcia: É, foi muito prazeiroso fazer
“Filhas do Vento” Mulheres: O filme reuniu um elenco imbatível, você, Ruth,
Maria Ceiça, Elisa Lucinda... Léa Garcia: As meninas, (Maria) Ceiça,
Danielle (Ornelas), Taís (Araújo), Thalma (de Freitas). Milton Gonçalves,
Rocco (Pitanga), Zózimo Bulbul, meu querido Zózimo, meu irmãozão amado, então
foi muito bom. E Joel que é um
diretor maravilhoso, excelente, e que nos deu essa chance de um diretor negro
estar rodando um filme de 35 mm que ganha, que premiou tanta gente. Mulheres: Ele já vinha com aquele trabalho tão bonito,
“A Negação do Brasil”, o documentário, a participação dos atores negros
nas novelas, e se coroou agora com “Filhas do Vento”. Teve aquela polêmica
em Gramado com o Rubens (Ewald Filho) e que depois acabaram resolvendo as questões.
Você que está dentro, qual a importância de um filme como esse, já que nós
já falamos sobre a participação do artista negro desde o TEN até hoje. Léa Garcia: “Filhas do Vento” foi um
filme que desde o inicio, quando o roteiro chegou até nossas mãos, que nós
torcíamos muito para que acontecesse bem.
Porque ele era favorável aos nossos anseios, ele vinha realmente satisfazer os
nossos anseios, de um elenco composto a maioria por atores negros e com um
diretor negro, vários elementos dentro da equipe negros também. Então esse
filme veio realmente justificar, favorecer e mostrar que nós estamos certos,
que a partir do momento em que nós temos um diretor e um elenco negro e
tivermos um dia a produção, nós estaremos muito bem, porque nós estaremos
fazendo, representando sem nenhuma visão eurocentrista. A nossa realidade, será a nossa
verdade que estará à tona porque temos a mão de um homem que sabe o que é
isso, ele é um homem do interior, a mãe dele é mineira, a família dele é
mineira, e é negro. Ele sabe como cada uma daquelas mulheres iriam se
comportar. Então aí vem um cinema verdade. Ele veio realmente mostrar que
nossos anseios estão certos, nós temos que nos preocupar é com os
espaços para que possamos ser reconhecidos algum dia. Mulheres: No teatro você tem também uma carreira extensa.
Está agora em “As Pequenas Raposas”. Léa Garcia: Terminamos no Rio e vamos no dia
3 de janeiro para Brasília. Depois voltamos a Niterói, não sei se vamos a São
Paulo, vamos ver. Mulheres: Tem projeto para o cinema? Eu li sobre um projeto
que você falou que se chama “Minuano”... Léa Garcia: Eu estive falando com o Eliobe,
diretor. Nos temos esse projeto já há uns três ou quatro anos, mas há
o problema da verba. Eu fico como medo, porque
as pessoas estão envelhecendo, Zozó (Zózimo Bulbul) já está meio
doentinho. Eu vou ter que enfrentar o extremo gaúcho com um vento terrível, eu
sou a personagem principal do filme. Eu fico com muita pena do atraso e espero
que eu possa fazê-lo. Mulheres: Ele então ainda está nesse processo, está se
conversando sobre ele? Léa Garcia: Está na captação de recursos. Mulheres: Durante
a carreira do cinema brasileiro tem
alguma atriz que você destacaria, que você gosta muito, seja da época dos
primeiros filmes ou atualmente? Tem alguma atriz que você gosta, admira? Léa Garcia: Eu gosto muito de algumas atrizes
negras.Eu vou citar, eu gosto muito dos trabalhos da Neusa Borges, da Ruth de
Souza, da jovem Taís Araújo, da Thalma de Freitas. As outras, as que não são negras, eu não preciso
citá-las porque elas sempre são muito citadas. Mulheres: Alguma coisa que você gostaria de acrescentar? Léa Garcia:
Tem uma atriz que me apoiou muito em um momento muito difícil da minha
vida que se chama Bibi Ferreira, quando eu fiz “Piaf” com ela. Essa criatura
talvez, se fosse uma outra pessoa, não aceitaria as dificuldades que tive
durante os primeiros seis meses para fazer aquele personagem. E a Bibi me
segurou e isso eu tenho guardado em mim durante muito tempo, para o resto da
minha vida. Mulheres: Muitíssimo obrigado, foi um prazer enorme falar
com você. Léa Garcia: Eu também. Ah, tenho três
filhos, três netos, dois bisnetos. Mulheres: família grande, né? Léa Garcia: Médio, né? Mulheres: Ma já faz
um barulhinho. Léa Garcia: (risos). Obrigada, tudo de bom
para você.
Entrevista realizada em novembro de 2004 |
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