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036 - ISABEL LACERDA
Foto: Fábio Carvalho Nascida em Belo Horizonte, Isabel
Lacerda é atriz, roteirista, produtora e agora diretora. Desde meados dos anos
90 vem marcando presença ao lado do marido e companheiro, Fábio Carvalho, em
uma seara difícil: o cinema de idéias. Bem distantes do formato puramente
comercial, os dois são legítimos representantes do cinema experimental, no
significado mais positivo dessa palavra já um tanto gasta. Com formação em Letras e em Ciências
Sociais, Isabel Lacerda trafegou por várias áreas: História, Fotografia,
Canto, Publicidade, Teatro, Vídeo, Cinema. Ainda na década de 80 forma, com
professores, a Companhia de História, ciclos de cursos livres que trouxeram a
Belo Horizonte nomes como Augusto Boal. Depois, atua como atriz em São Paulo,
onde trabalha ao lado de outro nome fundamental das artes cênicas: Maria Alice
Vergueiro. De volta a Belo Horizonte no início da década de 90, trabalha na
publicidade até se encontrar com o cineasta Fábio Carvalho, de quem vai se
tornar companheira, parceira e musa primeira.
“O nosso encontro deu muito certo, ele é muito frutífero”, diz a
musa, e a verdade é mesmo essa: vários vídeos, curtas, e o longa “O
General”. Em todos eles, Isabel Lacerda se meteu em quase tudo: roteiro, produção
e atuação. O longa “O General” é uma vitória
de Fábio Carvalho, um cineasta persistente na sua estética e no seu pensamento
de cinema. É uma vitória também de Isabel Lacerda, cúmplice e parceira do
projeto. Aliás, além de co-roteirista e produtora do longa, é uma bela presença
em cena como atriz. Agora, Isabel Lacerda faz sua estréia como diretora com o vídeo
“Arquitetura e Utopia”, uma homenagem a arquitetos especiais para a
diretora. Esse trabalho é mais uma vitória pessoal de uma artista que vem
apostando em um cinema autoral e em produções realizadas em Belo Horizonte, uma
cidade fora do principal pólo de produção, o eixo Rio-São Paulo. Em conversa
agradabilíssima em sua bela casa, Isabel Lacerda repassa sua trajetória para o
Mulheres. Mulheres: Em qual momento da sua vida você escolheu o
audiovisual para ser o seu ofício e o seu veículo de expressão artística? Mulheres: Eu comecei a perguntar sobre cinema, mesmo sabendo
que você tem toda uma trajetória antes, porque é o foco principal do site.
Mas agora, eu quero que você retorne um pouco. Você tem formação em Letras e
Ciências Sociais, não é isso? Como seu deu o passo desse universo para o
cultural, antes ainda do cinema? Isabel Lacerda: Desde muito cedo estive
embrenhada no universo artístico, porque em minha família tem muitos artistas,
sempre muita música, fotografia, arquitetura. Isso sempre foi natural dentro de
casa, então, desde nova, desde criança, eu já participava de festivais de
inverno em Ouro Preto e, cada vez fazendo uma área. Era aquela inquietação de
menino, que cada vez quer experimentar algo diferente, desenho, dança, música,
instrumentos, então isso sempre foi uma coisa próxima a mim. A expressão artística
não foi uma coisa para a qual eu parei e tomei consciência. Trabalhar com isso
foi uma coisa que veio vindo naturalmente. E acho que a questão das Ciências
Sociais foi também uma preocupação quando a gente vai se tornando adulto, época
de entrar na Universidade, mas ao mesmo tempo sem saber bem o que quer, como a
maioria dos jovens. Mas eu acho que já era uma vontade de entender as
estruturas de sistema, de como o mundo funcionava, porque eu não entendia nada.
Já saindo da adolescência e perguntando o que era isso tudo em torno de mim.
Então eu achava que as ciências sociais iam me dar uma resposta sobre a
estrutura do mundo que a humanidade construiu. Mulheres: Nesse tempo você já trabalha com idéias, uma
coisa importante que você vai fazer também no cinema e que a gente vai falar
mais pra frente. Nesse período você realizou cursos com convidados, como
Augusto Boal etc. Pessoas de idéias no Brasil. Isabel Lacerda: Exatamente, o mundo das idéias
sempre me interessou muito, a leitura sempre me interessou muito. Sempre li
muito e nessa época tinha todo o ambiente da Fafich, a Faculdade de Ciências e
Filosofia, e eu me aproximei de um pessoal que era da turma da história. Eles
me chamaram para a gente fazer junto, e eu era a única que não era da área,
todos eram professores de história. O chamado era para fazer uma empresa que se
chamava Companhia da História e que oferecia cursos livres, porque tem muita
gente que adora história, mas não quer fazer curso superior. Então o Boal foi
um que participou de “A História do Teatro”. Normalmente, eram temas mais
históricos mesmo, como a História da Revolução Francesa, Inconfidência
Mineira, e eu trabalhava na organização, na produção. Eu não dava aulas,
mas ficava ali, junto com eles, pensando em que tipo de curso ia ter, e
contactar as pessoas. Mulheres: E você se contaminava com esse ambiente o tempo
inteiro, não é? Isabel Lacerda: O tempo todo. Mulheres: Eu acho importante, porque é uma característica da
sua participação no cinema, que é essa busca, e a partir de idéias. E a História,
eu imagino, é o foco primordial para esse tipo de abordagem. Isabel Lacerda: Eu acho que se o cinema que me
interessa, que é não é necessariamente um cinema de contar histórias, que não
tem uma narração clássica, é muito importante a gente conhecer a História
vista de vários ângulos. E um dos ângulos é a dos historiadores, que tiveram
a preocupação de registrar, de documentar, o que a humanidade fez no decorrer
de seu caminho, pra gente poder entender um pouquinho que rumo a gente está
caminhando de acordo com os acontecimentos políticos, com as revoluções, com
tudo mais. Eu acho que isso não é nem entender, mas você vai assimilando e
vai sentindo o rumo que as coisas vão tomando. A expressão artística é algo
que eu tenho que estudar muito, aprimorar, porque a arte, eu acredito, tem as
suas regras. A gente tem que entender, estudá-las, e ver como é, ver os
mestres, como se expressaram, e tudo. Agora, para isso é importantíssimo a
gente conhecer o máximo que a gente puder. É aquele velho conselho: leiam,
leiam, leiam. Quer fazer música, vai ler, quer dançar, vai ler, quer fazer
teatro, vai ler, quer fazer cinema, vai ler. Então eu acho que essa minha
passagem pelas ciências humanas me orientaram para a leitura. Mulheres: No final da década de 80 você vai para São Paulo,
onde fica três anos. Essa sua mudança tem a ver com o lado pessoal, com esse
universo artístico que a gente está falando ou porque era outra forma de atuação. Isabel Lacerda: Essa minha mudança, para te
falar a verdade, foi por causa de uma dor-de-cotovelo (risos). Eu levei um fora
danado, foi a minha primeira grande decepção amorosa. Eu tenho uma grande
amiga, poeta, atriz, diretora de teatro, Beatriz Azevedo, que vive em São Paulo
até hoje. Eu estava completamente perdida, e aí ela disse para irmos embora
para São Paulo, pois estava começando um trabalho lá. Ela precisava formar um
coro para o espetáculo “Medeia”, com a Maria Alice Vergueiro. Nessa época
eu também cantava, sempre cantei muito em corais, cantei no Ars Nova. Daí eu
fui e fiquei. E fui me entranhando com as coisas do teatro. Mulheres: Você vê que há uma linha interessante. Porque se
nos cursos você esteve ligada a nomes como Boal, uma referência no teatro
autoral, você vai para São Paulo e trabalha com a Maria Alice Vergueiro, que
é outro gigante. Isabel Lacerda: Outro gigante. Uma gigante
Brechtiana. Mulheres: É interessante vendo agora, como é a linha do
destino, porque ali você estava, de novo, trafegando na linha das idéias. Isabel Lacerda: É verdade. Eu acho que não é tão
louco assim o caminho (risos). Ás vezes a gente faz umas curvas estranhíssimas,
e quando vai ver faz algum sentido. A paixão sempre move de alguma forma, seja
de forma bem-sucedida ou mal-sucedida. Ela te faz movimentar de algum jeito. Isabel Lacerda: E como foi o seu trabalho em São
Paulo? Você fez basicamente trabalho de atriz? Isabel Lacerda: De atriz e de produção, porque
todo ator é produtor também, e era um grupo que nós formamos lá com o
pessoal da Unicamp, e que se chamava “Godot Vem Aí”. Eu como atriz, e nós
todos produzindo as peças. Mulheres: Você volta para Belo Horizonte em 1993, é nesse
momento que você faz trabalhos publicitários? Isabel Lacerda: Lá em São Paulo eu já comecei
a trabalhar com projetos gráficos, com programação visual, porque eu não
vivia exclusivamente de teatro. Eu trabalhei junto com um jornalista fazendo
assessoria de imprensa. Foi quando começaram a aparecer esses “bureaus” de
editoração eletrônica, então a gente fazia jornalzinhos, e eu fui
acompanhando. Eu levava os jornais para serem editados e fiquei encantada com
aquele universo gráfico, quando eu vi pela primeira vez uma tela de plataforma
gráfica, aquelas letras bonitas, que você podia trocar, colocar colorido. Eu
fiquei encantada com aquilo e ali era realmente o ganha-pão. Daí é que,
quando vim para Belo Horizonte, eu abri um escritório de programação visual
que foi crescendo muito e se transformando em publicidade. Daí, eu comecei a
mexer com mídia mais pesada e aí já não me interessou mais. Surgiu então
essa idéia de escrever um roteiro e comecei no cinema. Mulheres: Além de companheira e de parceira do Fábio
Carvalho, você também é sua musa. Como é isso para você? Isabel Lacerda: Ah, não sei, ele tem várias
musas (risos). Quer dizer, eu acredito que eu deva ser a primeira, porque por
estarmos apaixonados, esse nosso encontro resultou em várias coisas juntos,
como fazemos até hoje. Eu acho que é uma admiração mútua, ele é meu muso
também, eu respeito demais a opinião dele. O que eu faço eu sempre converso
demais com ele, a gente troca demais. Tudo é exaustivamente discutido, então
uma coisa eu posso garantir, monótono não é. Mulheres: O primeiro curta que você fez com ele é o
“Geografia do Som”? Isabel Lacerda: Foi “Encontro com Barden”. Nós
fizemos alguns vídeos antes também. Se formos separar essa questão de bitola,
o “Encontro com Barden” foi o primeiro filme em 35mm. Mulheres: Mas fala dos vídeos também. Nós estamos falando
de audiovisual e o vídeo é uma linguagem importante. Você tem uma passagem
por aí, inclusive com o Fábio, indo do vídeo para o 35mm. Isabel Lacerda: No caso dele, ele já tinha um
trabalho de mais de 10 anos em vídeo. Na verdade, hoje em dia, está tão difícil
separar o que é do que não é, está surgindo um novo cinema que ainda está
em compasso de espera. Quer dizer, ele já existe, mas aí eu imagino que é uma
corrida louca que é o que chamam a Retomada, de mais produção. Eu imagino uma
série de gente correndo tentando pegar o cinema, mas ainda não sabendo direito
o que é o cinema. Então tem várias tentativas de se fazer. Agora, os suportes
são esses mesmos, ou vídeo ou película. Para você realizar seu pensamento,
com película você tem um compromisso maior porque é mais caro, envolve mais
dinheiro, então você tem um compromisso, um comprometimento maior mesmo. Mulheres: Vamos falar sobre esses vídeos, nos quais você
atuou, ora roteirizou, ora produziu. Isabel Lacerda: O nosso encontro deu muito certo,
ele é muito frutífero na coisa de roteirizarmos juntos. Nós fizemos vários vídeos
assim e muitas vezes fizemos experiências em casa mesmo. Muitas vezes mesmo sem
condições, de uma ilha, montando na própria câmera. A gente estudou muito os
cortes, as posições. Como eu atuo também, isso tudo foi muito bom como exercício
de atriz de cinema, pra conhecer o que é uma continuidade de movimento no
cinema. Alguns exercícios técnicos foram muito bons e eu acho que tiveram um
resultado artístico ótimo também. Dentre esses vídeos estão
“Desaforada” e um que eu gosto muito chamado “Obra-Prima”, que ele fez
dedicado à várias atrizes. Tem vários. Fizemos viagens também. Fomos até a
França fazendo um trabalho sobre Buñuel, porque a idéia era percorrer toda a
trajetória do Buñuel na Europa. Mas aí aconteceu da gente já estar com um
grande material filmado e ele ser roubado, a câmera ser roubada. Não roubaram
dinheiro nem passaporte, roubaram a câmera e o material filmado, coisas incríveis,
em Amsterdã. Enfim, o material se
perdeu, deve estar no fundo de um canal em Amsterdã. Nós fomos para lá porque
o Buñuel fez uma primeira peça de teatro em Amsterdã antes de começar a
fazer cinema. Com isso tudo, o roteiro se transformou
completamente, e depois ficou até engraçado porque não poderia ser mais
surrealista do que com esses acontecimentos todos (risos). Esse vídeo ainda está
sendo feito até hoje, vamos ver quando é que a gente vai terminar. Foi uma
experiência fantástica, sobre o acaso e o azar, fomos mexer com ele (risos)...
Nessa mesma viagem fizemos um vídeo chamado “Século Passado”, que foi uma
experiência de produção internacional, pois depois de tudo que nos aconteceu
tivemos que pedir ajuda às instituições de cinema lá em Amsterdã. Mulheres: O passo de atriz para produtora foi quase natural,
mas e o passo para roteirista? Foi difícil? Isabel Lacerda: Não, eu vou te dizer que eu
considero o mais fácil. Pra mim é natural porque eu quero aprender a fazer um
roteiro livre, e é claro que eu vou saber se consegui a partir do momento em
que eu tiver retorno com o meu trabalho e ver que as pessoas gostam, que aquilo
as toca de alguma forma. Eu nunca tive a preocupação de fazer um curso formal
de roteiro, de estudar aqueles métodos, aquelas cartilhas. Pelo contrário,
esse tipo de leitura eu não quero fazer, apesar de eu já ver quais são as
regras, basta a gente ver os filmes do “mainstrean” que a gente percebe
quais são essas regras. Então, nesse ponto é onde eu quero ficar mais livre,
e isso, para mim, é o mais fácil. Quanto a isso não tenho problema nenhum. A
produção mesmo é que eu acho que é o “tour de force”, aquilo que vai te
exigir mesmo, acreditar nessa idéia de liberdade que você teve pra poder fazer
o trabalho. Mulheres: E o trabalho de roteirista você sempre fez junto
com o Fábio? Ou você já trabalhou em roteiros com outros parceiros? Isabel Lacerda: Eu já trabalhei dando algumas
contribuições, eu troco muito. Como com o José Sette (de Barros), que é um
diretor que eu admiro muito. Ele sempre costuma me mandar roteiros dele, ele
gosta da minha opinião, o que me deixa muito envaidecida. O Luís Rosenberg
Filho é também um diretor com quem corresponde muito, ele não usa o
computador, isso não existe para ele, ele vai ao correio. Eu mando roteiros
para ele, ele me manda roteiros, e a gente vai contribuindo. Mulheres: Você citou agora, fora o Fábio, dois nomes que são
de cinema autoral, de pesquisa: José Sette de Barros e Luís Rosenberg Filho.
É a sua praia? Isabel Lacerda: Só pode ser, porque eu estou no
meio desse caminho e não vou por outro. Então eu acho que é. Mulheres: E quais são os outros nomes que você admira no
Brasil, e que passam por esse viés, de cinema de pesquisa? Isabel Lacerda: O Rogério Sganzerla é um
diretor que eu respeito demais. Eu tive oportunidade de conhece-lo e me
surpreendi mais ainda com a pessoa, com a sua inteligência, uma figura admirável.
A Helena Ignez também, como mulher, como companheira dele, dona de uma inteligência
incrível. Ela desenvolveu esse trabalho de atuação completamente original,
diferente, moderno, inventou mesmo uma forma de atuar. E corajosa, porque ela
era toda linda, toda padrão de beleza, loira, e fazendo um tipo escrachado. A
voz dela se transforma, se você conversar com ela e vê-la atuando, a voz dela
é outra coisa, ela inventou uma coisa, então eu tenho um respeito muito grande
pelo trabalho dela autoral como atriz. Mulheres: O Cinema Marginal enquanto estética não
desapareceu, não é? Porque as pessoas acabam datando, mas tem uma porção de
gente que está fazendo um tipo de cinema no qual a gente vê um diálogo com
esse momento criativo. O próprio Fábio Carvalho. Isabel Lacerda: Eu acho que não desapareceu. E não
é a tôa que esses filmes são sempre citados, são estudados nas
universidades, são vistos, são revistos. Tem uma importância. Mulheres: O “Encontro com Barden” foi o primeiro filme em
35mm que você fez. Dá para resgatar como foi o seu sentimento na época, você
que é uma amante do cinema e estar ali fazendo cinema? Isabel Lacerda: É claro que o pensamento
cinematográfico a gente pensa da mesma forma, seja fazendo vídeo ou filme, mas
um set de 35mm é diferente. É muito mais emocionante, primeiro porque tem mais
gente. Aliás, isso nem é sempre, porque é claro que você pode fazer cinema
com equipe mínima, você fazendo a câmera e outra pessoa o som, e pode filmar
em vídeo com uma equipe de quinze. Mas não é o normal, normalmente em cinema
tem mais gente. E há o silêncio que você exige na hora de fazer. O vídeo te
dá mais possibilidade de repetir, te dá mais mabealidade, mas como o 35mm tem
mais gente, o próprio barulhinho da câmera, é tudo muito diferente. Eu senti
uma emoção muito maior. Eu gostaria de filmar só em cinema, apesar de saber
que isso é loucura hoje em dia, loucura total. Loucura por causa do custo e por
causa da exibição também, que é algo que todo mundo sabe, as dificuldades... Mulheres: Como é fazer esse tipo de cinema, experimental, e
fora do eixo Rio-São Paulo? É mais difícil ou é mais fácil? Como é
trabalhar com esse tipo de cinema em uma cidade como Belo Horizonte? Isabel Lacerda: Eu acho que Belo Horizonte te
permite ter maior concentração para estudar melhor. Para esse tipo de cinema
eu não sinto necessidade de estar no Rio ou em São Paulo. Talvez eu sentisse
necessidade de estar em Veneza, ou no sul da Bahia. Para você pensar mesmo no
que você quer. E na hora da produção, por ser um cinema de expressão, de
poesia, que é sempre difícil de produzir em qualquer lugar, então eu não
vejo diferença em estar aqui ou no eixo. Eu sinto falta do eixo por causa das
pessoas, que são de lá ou porque foram pra lá. Pessoas com as quais eu possa
trocar idéias, com quem eu tenha mais afinidade, Mas hoje também a gente já
conversa de tantas formas, são tantos os meios de comunicação, que eu acho
que a vontade mesmo é de sentar para tomar cerveja com eles. Mulheres: Aqui em Belo Horizonte os realizadores conversam
entre si? Isabel Lacerda: Eu não sei se aqui é tão
diferente de outros lugares. É tão difícil realizar, tão complicado, demanda
um esforço e uma dedicação tão grande, que às vezes as pessoas até não se
encontram por falta mesmo de tempo. Elas estão tão envolvidas com seus
projetos que acabam não se encontrando. Agora tem os eventos, os festivais, que
possibilitam os realizadores se encontrarem com mais tranqüilidade para
conversarem melhor, trocarem idéias. No dia-a-dia é uma loucura para todo
mundo. Mulheres: E como você vê o mercado de exibição? Isabel Lacerda: Olha, o que eu vou falar é o que
todo mundo já disse: é o grande problema. Até estão surgindo formas de exibição
alternativas, exibições em lugares inusitados, em mostras. Mas uma exibição
regular, você terminar seu trabalho e colocá-lo numa tela, isso é dificílimo.
E tem as tvs também que deviam ter um compromisso maior com o cinema
brasileiro. Elas deveriam fazer essa ponte, não só nos canais fechado, mas
exibindo, remunerando os realizadores, profissionalizando, ajudando a fazer um
intercâmbio com as tv públicas do mundo inteiro. Os diretores têm que fazer
tudo e isso fica difícil. O primeiro passo seria ajudar ao diretor brasileiro a
exibir seu filme. Mulheres: “O General” é seu primeiro longa no currículo.
Vamos falar um pouco dele, sobre esse acontecimento na sua vida. Isabel Lacerda: Puxa vida, “O General”
significou muito mais, uma paixão maior pelo cinema. Ver que foi possível
fazer um longa, em 35, que foi possível, com poucas condições, mas com tantas
pessoas envolvidas, com atores maravilhosos que também queriam tanto filmar.
Era um filme muito esperado. Desde que o Fábio começou a fazer seus trabalhos
ele sempre foi conhecido no meio de cinema como cineasta. Foi um meio natural
dele, então era esperadíssimo esse filme, por todas as pessoas que trabalham
no filme ou já trabalharam com ele nos vídeos. Então ele estava com muito gás
para fazer esse filme, e eu também, é claro. Mulheres: Você está muito bonita em cena, uma presença
forte. Você percebeu que tinha ali também um espaço diferenciado no seu
trabalho de atriz? Isabel Lacerda: Tenho trabalhado (risos). Ah sim,
eu me dediquei muito. Não fazendo ensaios, de falar o texto, contracenar, mas
de junto com os outros atores falar de cinema, porque é um filme que homenageia
muito o cinema, tem citações de filmes clássicos, “O General” é uma
declaração de amor ao cinema. Então, eu acho que ali foi se apaixonar e se
entregar ao cinema. Essa foi a direcionada que eu dei pra atuar. Mulheres: Em “O General” você produz, roteiriza e atua? Isabel Lacerda: Isso. Mulheres: Você vem agora para uma outra etapa, não é?
Primeiro os cursos, depois atriz de teatro, produtora, publicidade, roteirista,
produtora de vídeo, depois de cinema, e agora diretora. Isabel Lacerda: E agora diretora. Acho que quando
a gente começa a ver a coisa toda a gente fica doida para falar: agora eu é
que vou resolver tudo aqui, vai ser a minha palavra, nem que eu faça um
documentário eu é que vou escolher as palavras de quem eu vou colocar Aquilo
vai ser a minha idéia. Você até falou pela paixão pelas idéias, que você
percebeu tão bem na minha pessoa, então eu acho que é natural tanto para a
atriz de cinema, porque ela se expressa quando está pensando, como para a
diretora, eu colocar o meu pensamento ali. O passo para diretora foi natural, eu
já tinha esse meu projeto de estréia em direção que é o “Arquitetura e
Utopia”. Há muito tempo que eu queria fazer essa homenagem tanto à
arquitetura como ao cinema. Juntando, eu fiz uma ponte entre os dois, já que ao
estudar muito o Enseinsten, eu vi que ele era arquiteto, então pra mim foi uma
sopa no mel, porque eu comecei a imaginar a estrutura da montagem como os
tijolos que vão se montando. Eu me diverti com isso, com esse estudo, colocando
em prática o que eu estava estudando, que era a montagem. Também eu não
poderia começar de outra forma querendo dirigir, se não fosse através da
montagem. Agora, já direção de atores é uma coisa que eu ainda tenho que
trabalhar muito. Mulheres: Me fala sobre o filme e quais os arquitetos que você
aborda. Isabel Lacerda: Meu pai é de uma geração de
arquitetos, ele é de 1927, que foi a dos fundadores do IPHAN, Instituto Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional. O IPHAN foi uma coisa que eles fizeram na época
por puro idealismo, ele fez junto com o Dr. Rodrigo Melo Franco, pai do Joaquim
Pedro, num primeiro esforço que houve do Brasil em tentar preservar e conservar
a sua arquitetura colonial. Então eu acompanhei muito essa dedicação desses
arquitetos, dessa geração. Depois veio uma nova geração aqui em Belo
Horizonte, especificamente, em que muitos foram, inclusive, alunos dele na
Escola de Arquitetura. É também uma geração maravilhosa, fantástica. Eu eu
fiz amigos sensacionais, mestres que me ensinaram coisas da vida, arquitetos com
A maiúsculo: Éolo Maia, o Veveco, o João Diniz. O Éolo e o Veveco já se
foram, eu até dedico pro Éolo, pro meu pai e para o Enseinsten o vídeo. E o
João Diniz que está aí, atuantíssimo, que é um arquiteto que eu acho raro,
uma amplitude de pensamento maravilhosa. O vídeo é uma homenagem a todos esses
homens, que amavam com paixão sua profissão e fizeram várias coisas sem
dinheiro, por amor mesmo. Eu não podia deixar de prestar essa homenagem para
essas pessoas que foram tão importantes para mim. Mulheres: E que também está associado à linha do seu
cinema, porque os arquitetos trabalham com a questão da estética, pensamento e
realização. Isabel Lacerda: Exatamente. Para o próximo
trabalho eu quero fazer uma homenagem às atrizes. Mulheres: O “Arquitetura e Utopia” está inédito ou já
foi apresentado? Isabel Lacerda: Ele foi apresentado no Festival
Santiago Alvarez de Documentários, em Cuba, foi para a Mostra do Filme Livre,
no Rio de Janeiro, e para o Festival dos Cinema de Países de Língua
Portuguesa, em Cataguases. Eu quero lançar ele em Ouro Preto, porque é um
lugar onde começou, onde tem um movimento grande do patrimônio histórico. O
Éolo Maia era de lá, meu pai também. Ouro Preto está vivendo um momento
interessante, pois finalmente está aceitando a sua condição de monumento
mundial e está se abrindo para a vocação que a cidade tem, que é para a
cultura, para as manifestações artísticas. A cidade é um monumento, mas o
ouropretano é um povo muito fechado. Mas eu acho que isso agora está mudando. Mulheres: “O General” ainda não foi exibido
comercialmente, mas ele também já foi mostrado em festivais, não é? Isabel Lacerda: Ele foi exibido na Mostra de
Cinema de Invenção, em Belo Horizonte, em Tiradentes e na Mostra Internacional
de Cinema de São Paulo. Mulheres: E como será seu novo trabalho, o sobre as atrizes? Isabel Lacerda: Esse trabalho começou por causa
da Elis Regina, então ele se chama, “Elis, Beatriz e a Atriz”. Eu quero
fazer uma conversa de algumas atrizes com a Elis Regina. Agora eu tenho que
partir para a produção. Mulheres: Já tem alguma atriz em mente? Isabel Lacerda: Tenho, mas nem elas sabem
(risos). Eu vou pegá-las de surpresa. Mulheres: Já é para agora? Isabel Lacerda: Ele já está escrito. Tem
algumas colaborações de texto que eu quero, e eu já estou começando a pedir
para as pessoas que eu quero que me ajudem, elas já estão começando a me
mandar. Eu pretendo começar mesmo a filmar em março, por aí, mas vai ser rápido,
e eu quero que em junho já esteja terminado. Mulheres: Belo Horizonte tem uma produção grande de cinema,
principalmente de curtas. Temos também muitos vídeos, e em cinema nomes como
Helvécio Hatton, o próprio Fábio, Rafael Conde, Patrícia Moran, entre
outros. Como você vê essa realização cinematográfica aqui em Belo
Horizonte? Você acha que é um pólo atuante ou tímido? Isabel Lacerda: Não havia uma política
cinematográfica, começou agora. Para longas foi interrompida ainda na época
que o Schubert (Magalhães) filmou, o Paulo Agusto (Gomes) quando fez
“Idolatrada”, década de 80, aí interrompeu. Agora, com essa iniciativa do
Estado, que teve em 2004 e agora em 2005, é que deu essa possibilidade para
retomada de longas. Para curta teve um primeiro Prêmio Estímulo, e agora, em
2005, teve o segundo. Então quer dizer, a coisa está começando. Eu não acho
que ainda exista um movimento solidificado, pois acho que deviam apoiar também
o processo todo até a exibição, que é uma coisa que eu quero me engajar. Então
está começando, ainda não dá para a gente saber ainda não. Eu acho que a
gente tem que tomar cuidado, tem uma geração que está se firmando, essas
pessoas que você falou, tirando o Ratton, que é um pouco mais velho. Essas
pessoas estão tendo a oportunidade de fazer seus longas. Vamos ver daqui pra
frente o que vai acontecer. Eu acho que tem que dar oportunidade para todos que
já tem um trabalho reconhecido e ter o cuidado para que não se concentre, para
que não apenas um pequeno grupo saia privilegiado sucessivamente. Mulheres: Você é uma expectadora do cinema brasileiro? Isabel Lacerda: Sou. Quer dizer, não, não só
cinema brasileiro. Eu vou ver cinema brasileiro como vou também ver qualquer
cinema que me interesse. Sou grande expectadora do Canal Brasil, porque gosto
muito das notícias, a gente fica informado sobre o que está acontecendo na
area. Sempre que posso eu vejo, eu adoro os artistas brasileiros e eles estão
ali de toda forma. Mulheres: Qual foi o último filme que você assistiu? Isabel Lacerda: “Vinícius” (Miguel Faria Jr) Mulheres: Então está em dia. Isabel Lacerda: Sim (risos) Mulheres: Tem uma mulher, ou mais de uma, de qualquer área e
época do Cinema Brasileiro que você queira homenagear aqui nessa entrevista? Isabel Lacerda: Tem uma de cara que é a Ana
Maria Nascimento e Silva. Ela é uma mulher fantástica, uma mulher de uma
energia e que conhece muito bem a história do cinema brasileiro. Linda,
maravilhosa. É ela, pela vivência dela do cinema, pela paixão e pelo amor
dela pelo Paulo César Saraceni, por tudo o que ela já fez e faz pelo cinema. Mulheres: Muito obrigado pela entrevista. Isabel Lacerda: De nada. Eu é que agradeço. Me
sinto muito honrada por participar do seu site, que acho fundamental por
trabalhar com memória. Tudo que é trabalho pela memória tem o meu respeito. Mulheres: Muito obrigado.
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