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002 - FERNANDA MONTENEGRO
Foto:
Mulheres do Cinema Brasileiro Questionada
sobre o que a atraiu na personagem Regina - uma aposentada que foge da solidão
prestando, voluntariamente, serviços como informante para a polícia, e que
acaba por se envolver com um possível assassino – Fernanda diz que chamou-lhe
atenção “a instabilidade, a inquietação dela, o mal-estar dentro dela, o
inconformismo dentro dela. Tem lá seus momentos de depressão doméstica, mas
levanta e canta, vai pra rua fazer qualquer coisa. Uma personagem mais
humanizada, menos equacionada, mais solitária”. Sobre o primeiro encontro com
Raul Cortez no cinema, o encontro de dois gigantes do teatro, onde se reuniram
pela primeira vez, segundo o gentilíssimo Raul, na peça “Dançando o Rock in
Roll”, Fernanda diz: “Eu acho que nós tínhamos esse encontro marcado no
destino da gente, e o Marcos Bernstein teve a gentileza de nos chamar e nos
reunir”. Em
determinado momento da coletiva, Fernanda Montenegro diz que “toda criação
de ator tem uma zona não explicável, uma zona do mistério mesmo, do fazer um
personagem”. E é sobre sua profissão, sobre a violência no país – “o
Rio de Janeiro é a Geni do país” -, e sobre a sua personagem Regina e o
filme “O Outro Lado da Rua’ – premiado nacional e internacionalmente,
(Fernanda recebeu o prêmio de Melhor Atriz, mais um prêmio nos Estados Unidos,
no Tribeca Festival Film, criado pelo ator Robert De Niro depois do 11 de
setembro; ela, a única atriz brasileira indicada ao Oscar -
por ‘Central do Brasil”) que Fernanda Montenegro conversou com a
imprensa de Belo Horizonte. O Mulheres do Cinema Brasileiro, claro, não poderia
ficar de fora desse grande momento. Mulheres:
Ontem eu assisti ao filme, e mais uma vez você tem uma interpretação
maravilhosa. Na sua trajetória, você tem momentos luminosos no Cinema
Nacional: “A Falecida” (Leon Hirszman), “Tudo Bem” (Arnaldo Jabor),
“Eles não usam Black-tie” (Leon Hirszman)... Mas quando você lançou o
“Central do Brasil”, você disse que naquele momento o bichinho do cinema
tinha te pegado de vez. O que mudou de lá para cá? Você passou a receber mais
convites ou a prestar mais atenção nesses convites? Fernanda:
Eu sou uma pessoa de teatro, uma atriz de teatro, do diamante do teatro. E o
cinema sempre veio quando podia fazer, quando tinha tempo, quando sobrava tempo
do teatro. E o cinema tem uma dinâmica, que quando o ator chega lá está em
disponibilidade. É um lugar onde a gente terceiriza o talento da gente, a gente
faz as cenas quantas vezes o diretor acha necessário, o material fica ali, você
não escolhe o que vai para o filme, é a critério do diretor, do montador. Você
é uma matéria-prima, você tenta produzir o melhor, mas você não tem nenhuma
autonomia, a não ser na hora da ação. Você faz mais ou menos buscando o que
você intui, o que o diretor te passa. Mesmo o enquadramento, às vezes você
preferia que a câmera estivesse do outro lado, você acha que não houve um
contraponto, uma contracena, mas isso tudo você não tem nada a ver. É um
exercício de abrir mão e de paciência. Isso, pra quem vem do teatro, você
leva um tempo pra se acalmar diante disso. É preciso que você faça um filme,
outro filme, pra que você entenda a dinâmica do cinema. Principalmente, pra
gente que vem do teatro, onde você se propõe de corpo inteiro, e é com você
mesmo, porque depois que abre pano você vai pra uma ação teatral, é você,
você mata no peito ou não. Com o tempo eu fui entendendo, eu tive que me
educar pro cinema, eu acho que a gente, o cinema é um exercício de paciência
principalmente. E de esperar, esperar a cena que vai ser ou não escolhida.
Quando vai ser lançado. Pra onde você vai quando for lançado, compreende? Não
tem autonomia. O teatro é opinativo mesmo, em cima do ator. Cinema não. Então,
pra educar pra isso leva um tempo. Eu acho que a partir, foi realmente a partir
do Central, porque foi um filme assim que a gente andou pelo sertão, sabe,
vivemos quarenta dias no sertão, é central do Brasil, zonas muito difíceis, e
é pelo resultado do filme, é que você entende a importância do cinema, como
é fundamental fazer cinema. Uma vez, foi assim, o Paulo Gracindo não queria
fazer cinema, a gente tinha feito “A Falecida” e, anos depois, convidaram a
gente pra fazer um curta, aliás, muito bom, que se chama “Trancado por
Dentro” (Artur Fontes, 1988). Não sei se vocês viram. Você viu? Mulheres:
Sim. Fernanda:
“Não Fernanda, não vou fazer”. Eu disse: Paulo vamos fazer Paulo, porque
é a única maneira que alguém daqui a alguns anos saiba quem foi a gente, e vão
ver como a gente trabalhava. Aí insisti e ele fez. E depois fizemos um outro
filme juntos..., “Tudo Bem”, e ele também não queria fazer: “porque é
muito chato, a gente espera muito”... Hoje estou certa que a gente deve fazer
cinema. Eu descobri, hoje eu tenho amor pelo cinema. Mulheres:
É isso que eu ia perguntar, vendo essa importância você hoje já descobriu
esse prazer? Fernanda:
Esse prazer no cinema, sabe. Abrir mão, aceitar, concordar, entender que não
é seu o processo, que o processo está nas mãos do diretor e do montador. Às
vezes o melhor do filme não vai. Cenas que você suou para fazer, que ficaram
boas, por n razões, quer dizer, por causa do tempo, ou porque a dinâmica mesmo
da narrativa. No “Central do Brasil”, quando ela rouba o menino, ela pega o
menino e joga o menino do lado de fora do corredor, e agente sai numa corrida
desabalada, nós corremos pelo Rio de Janeiro inteiro assim, dentro daquele prédio,
escadaria. Quando vi montado era assim: correu, já faz o sinal pro táxi, já
entra no táxi, suada... Então, ficou tudo ali. Depois entendi a verdade,
porque não fez falta. Mas você não pode imaginar o trabalho, o trabalho que
deu fazer aquela corrida pelos buracos do Rio de Janeiro com aquela criança. Não
sei quantas vezes, porque a gente faz wrkshop, depois faz plano americano, faz
close, e não foi. Acabou. É isso mesmo. Mulheres:
É curioso o que a Fernanda falou (que a direção, no filme “O Outro Lado da
Rua”, deu tempo para os atores se proporem, para os personagens se proporem
dentro da história, uma direção larga, sem taquicardia), porque ontem, quando
eu estava assistindo ao filme, eu me lembrei muito do Theo Angelopoulos (diretor
grego, de “Paisagem na Neblina”), na direção dele. Não sei se foi no tom
azul no filme, mas é que já se escreveu que no filme dele (no “Paisagem’),
o abraço tem o tempo de um abraço, e isso que a Fernanda tava dizendo não são
tempos mortos, são tempos de vivências das personagens. Isso tá muito
definido na direção. Fernanda:
É, porque hoje em dia tem uma dinâmica no cinema em que você, o espectador, não
pode se cansar, o espectador não pode desligar, o espectador, né... Tem uma
coisa assim muito estressante em cima das cenas. O filme tem também essa coisa
do diálogo, o diálogo é essencial, então nem falta nem é verborrágico,
quer dizer, a gente não se explica no diálogo. O que entra de diálogo é
essencial para dar uma luz na interiorização dos personagens, mas também eles
não se explicitam muito, porque nada é cronístico, a narrativa está muito
mais no comportamento do que propriamente na ditatização que se possa fazer
através de um diálogo. Eu só queria contar uma particularidade do roteiro e
da filmagem. O roteiro terminava na cena da qual eu mais gosto no filme, que é
a cena em que Raul e eu estamos sentados à mesa e ela pergunta pra ele se ela
queria, se a mulher dele queria a eutanásia, se ela queria, porque pra ela é
fundamental essa pergunta. Se ela fica com ele na dúvida, ela ta abrindo um
flanco muito duro pra vida dela, ela vai ser conivente. Também dentro das
nossas leis a eutanásia não é permitida, se ele dissesse que realmente ela
queria, que aconteceu. É só pra ilustrar o que eu estou falando. Ela faz essa
pergunta. (o
diretor Marcos Bernstein interrompe Fernanda nesse momento dizendo “não vamos
revelar demais o final do filme, por favor.)”. Fernanda:
Não, não, não vai revelar nada. Se ela dissesse, ela faz a pergunta e ele sai
por uma outra pergunta: “O que isso importa?”. Provavelmente, o espectador,
ele não tem esclarecimento, não chega a ele a historinha respondida na
respostinha. Ele volta com outra pergunta. E ela até diz: “Eu sabia que tinha
que ter alguma coisa para um homem como você se interessar por mim”. Quer
dizer, beirando o assassinato, ou sendo um assassino, ele seria bastante fora da
lei pra se interessar por ela, que também é uma ponderação sobre a
marginalidade a que ela se propõe. Então, tudo isso estava na para-linguagem
do filme, mas é preciso ficar ali atento, porque nada é dito com sujeito,
verbo e predicado. Esta cena fazia no roteiro, era a última cena do roteiro. E
uma bela hora o Marcos (Bernstein) me disse que não ia ser a cena final, que não
ia ser essa a cena. Eu fiquei em pânico, disse: “Você acabou com o filme! Não
é aquela cena?” “Não, não é não, não deu certo ali”. Quer dizer,
tudo que estava organizado no roteiro era aquela cena. E rolou, rolou, rolou, e
a cena foi pra uma hora do filme, que hoje, vendo o filme, não pode deixar de
estar ali. E pelo roteiro ela não poderia sair dali. Na feitura, no embate
mesmo das coisas, é, a cena veio para um lugar absolutamente certo. Então são
mudanças que a gente tem que estar muito por dentro da jogada, e o diretor
precisa saber muito bem o que ele quer do filme dele, pra uma coisa que tava tão
orgânica, de repente não era diante da imagem, lá não era. É ter o bom
senso de mexer e nisso o filme é também, para quem faz o filme, uma surpresa. Mulheres:
A questão polêmica, que é questão do sexo entre idosos. Em “Chuvas de Verão”
(Carlos Diegues), a Miriam Pires e o Jofre Soares têm uma cena linda. Nesse
filme ela é mais recatada, porque também tem a ver com o tom do filme. Foi uma
opção estética da direção ou os atores interferiram na realização da
cena? (depois
de Marcos Bernstein dizer que “foi uma opção nossa, não é um filme explícito,
não é um filme desnudado, é um filme que tem seus mistérios”; e Raul
Cortez dizer que “o sexo ali é conduzido com muita delicadeza, então a
proposta tem que ser aquela”, Fernanda diz:) Fernanda: Porque precede o diálogo, que ela diz “nós não somos mais crianças”, sabe, e ele diz “você acha que pra mim também é fácil, tirar a roupa?”. Ela diz “eu não me vejo aqui pelada, com você em cima de mim pelado”. Eu acho que é um diálogo muito cru, assim, mas sem ser grosseiro. Mas se expondo, quer dizer, não vai ser fácil. E a cena que se segue é uma cena de duas pessoas que se despem, e se possuem, não com os hormônios dos 20 anos, mas de gente também que se quer ainda estar em estado de beleza para o outro. Na maneira que possa se escamotear um pouco, é uma sensibilização erotizada mais do que uma trepada, tá entendendo? Eu acho que talvez o público fique olhando e é muito recebida a cena, porque a cena não vem pela trepada desbragada que a gente tá, atualmente, sendo massacrado em tudo que a gente vê não só no cinema, mas também na televisão. Quer dizer, você passa de zero pra uma luta livre desenfreada, tá entendendo? E a gente sabe que na vida há muita maneira de se amar, e toda maneira de amar vale a pena, compreende? Eu acho que a cena que precede, que ela fala que na verdade a barriga dela é um jogo da velha de tanta estria e diabo a quatro, e operações de cesariana, e o diabo. A gente não poderia ter feito a outra cena assim, como se fôssemos dois jovens aos 20 anos, sabe, de perna aberta, o outro por cima, bufando, e chupando, e mordendo, compreende? Porque eu acho que é isso que faz o público ficar quieto, porque se pode fazer cenas de amor com absoluta volúpia e absoluto erotismo, sem nheco, nheco, nheco. Que pode também, vai se chegar lá, mas essa parte ele (o diretor) não filmou. |
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