|
|
|
|
|
|
|
013 - DÓRIS MONTEIRO
Foto: capa de um dos discos relançados Nascida no Rio de Janeiro em 21 de outubro de 1934, Dóris Monteiro vive um momento de grande alegria com o lançamento em CD de 12 discos marcando seus 70 anos. Importante cantora brasileira, com sucessos inesquecíveis como ‘Mocinho Bonito”, de Billy Branco e “Mudando de Conversa”, de Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho, o relançamento de seus discos é mesmo um momento histórico para a MPB. Nos anos 50, Dóris Monteiro construiu
uma carreira expressiva no cinema. Quem a levou para as telas foi Alex Viany,
diretor, crítico e historiador do cinema brasileiro, que a convidou
para atuar em seu primeiro filme, “Agulha no Palheiro” (1952). Sua
interpretação lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz do Ano. Nascia aí uma atriz
que atuaria em mais sete filmes, nos quais foi dirigida por ícones do cinema
brasileiro como Carlos Manga, em “De vento em Popa”, e Lulu de Barros, em
“Tudo é Música”. Simpaticíssima, Dóris Monteiro
conversou com o Mulheres pelo telefone e nos conta sobre sua carreira no cinema,
ainda a ser descoberta por muitos. Fala sobre como foi parar nas rádios
Guanabara, Tupi e Nacional e de sua carreira de cantora, de sua descoberta
cinematográfica por Alex Viany, e da alegria de ver seus discos relançados.
Lamenta também estar há doze anos sem gravar um disco “eu estou viva, eu
estou cantando bem, eu estou inteira, e eu não sei porque não me chamam”. Mulheres: Você é uma cantora importante
da música brasileira e agora a gente está tendo a felicidade de ver seus
discos relançados em CD. Eu queria que você falasse um pouco do início da
carreira, você começou na Rádio Tupi, não é isso? Dóris Monteiro: É, eu comecei profissionalmente
na Rádio Tupi, fiquei lá sete anos e depois fui para a Rádio Nacional, onde
fiquei oito anos. Mulheres: E você chegou à Rádio Tupi
de que forma? Dóris Monteiro: Eu cheguei à Rádio Tupi porque
eu comecei no programa Papel Carbono como caloura e dali, onde eu ganhei o
primeiro lugar, eu participei de diversos programas de calouros. Primeiro,
levada por Orlando Correia, eu fui para a Rádio Guanabara (1951) e fiquei lá
um mês. Mas como eu tinha como vizinho o cantor Alcides Gerardi, que era muito
amigo, eu fiquei infernizando a vida dele porque eu queria ir para a Tupi, que
era uma emissora maior que a Guanabara. Ela tinha mais
prestígio, estava em segundo lugar em audiência, já que o primeiro era
da Rádio Nacional. Aí eu fiquei chateando o Alcides, todo dia batia na porta
dele e pedia por favor, que ele me levasse para a Rádio Tupi para fazer um
teste. E ele dizia não, que era para eu estudar, porque eu estava fazendo o ginásio,
no Pedro II. Ele dizia, “você é uma garota, como é que você com 15 anos
quer cantar, Deus me livre”. E ficou aquela batalha, era uma batalha coitado,
ele fez de tudo para que não entrasse para a carreira artística. Naquela época
havia muito preconceito com o Rádio e meu pai também não queria que eu
cantasse e então pedia para ele pelo amor de Deus para não me levar e eu pedia
para ele pelo amor de Deus para me levar. Aí um dia ele se desesperou e disse
que ia marcar. E assim foi. Minha primeira gravação
foi “Se Você se Importasse”, de Peterpan, e foi um sucesso.
Fui cantar no Copacabana Palace, mas como eu era de menor, um juiz
precisou de me dar um alvará para eu cantar acompanhada de minha mãe. Mas
depois ele me tirou, eu só fiquei
seis meses, porque eu estava fazendo muitas entrevistas e ele achou que o caso estava
sendo muito divulgado e que não era legal para a imagem dele, deixar uma menina
cantar à noite. O que foi uma grande sorte,
porque eu já estava fazendo sucesso com “Se você se importasse” e estava
recebendo muitas propostas de viagens. Quer dizer, me liberando de lá eu pude
viajar pelo Brasil todo, pelo nordeste, fazendo vários shows. E aí quando foi em 53,
saiu uma entrevista comigo na Revista Cruzeiro, duas ou três páginas,
uma reportagem muito boa. O Alex Viany me viu naquela entrevista e achou que eu
tinha o tipo físico para um papel no filme “Agulha no Palheiro”. Mulheres: Como foi o encontro com o Viany? Dóris Monteiro: Ele me
mandou ir nas Laranjeiras, na Flama (Filmes). Eu fui com a mamãe e quando eu
cheguei lá batemos um longo papo.Eu era muito magrinha e ia fazer um papel de
um menina de treze, quatorze anos e, realmente, eu tinha mesmo o tipo físico
que ele queria. Ele queria fazer um teste comigo, mas aí nós batemos longos
papos, ele me achou engraçada, muito espirituosa, brincamos muito. Ele disse
que eu podia voltar no dia seguinte de manhã para tirar medida das roupas para
participar do filme. E eu disse, “mas e o teste?” E ele, “não, nem
precisa, você é muito extrovertida, muito engraçada, você nem precisa fazer
teste”. Ele teve um olho clínico maravilhoso. E aí eu participei do filme e
ganhei o prêmio de Melhor Atriz do ano. Isso eu devo muito a ele porque ele me
deixou muito à vontade. Durante as filmagens eu tive um diálogo
com ele sobre como falar as frases no cinema. A novela agora
está mais liberada, as pessoas falam com mais naturalidade, mas
antigamente no cinema você tinha que falar as frases com muita dureza, muito
ao pé da letra. Por exemplo, “Estou com muita dor de cabeça”. Eu achava
uma certa dificuldade e ele me perguntava que dificuldade era aquela. E eu
expliquei que era porque na realidade, no dia-a-dia, a gente não
falava daquele jeito. E perguntei: "o senhor se incomodaria se eu falasse do meu jeito?” E ele,
“como você falaria?” Eu , “Nossa Senhora, eu estou com uma dor de cabeça
que eu nem sei o que eu vou fazer, minha cabeça está arrebentando”. Um
exemplo o que eu estou lhe contando, a frase eu nem me lembro mais como foi. Aí
ele disse, “ então fala assim, pega o texto e o transforma em como você
falaria no dia-a-dia”. E aí eu me tornei uma atriz super natural. Mulheres: E acabou virando musa dele. Dóris: É, depois eu trabalhei em “Rua Sem Sol”, em que
eu fiz um papel de cega. Mulheres: Já no ano seguinte, não é? Dóris: Sim. Mas aí eu não cantei. Em “Agulha no Palheiro”
eu cantei a música tema e “Perdão”,
já em “Rua sem Sol” eu só participei como atriz. Mulheres: E como era o método dele
dirigir? Você chegando ao cinema, primeiro trabalho... Dóris Monteiro: O método era o seguinte, ele
perguntava se tinha decorado o texto e eu respondia que sim, daí ele me
perguntava como era que eu diria, e
eu, “ puxa vida estou tão cansada, eu acho que vou me deitar mesmo porque não
agüento de tanta dor nas costas”, qualquer coisa assim. Aí ele dizia então
que era para eu falar desse jeito. Ele não me dirigia, eu falava como eu queria
e ele dizia, “saiu ótimo, é isso mesmo, saiu super natural”.
E aí eu botava caco, nem sei se fui a primeira atriz a botar caco em
frase. Mulheres: Então ele era um diretor que recebia esse tipo de contribuição, não era um tirano.? Dóris Monteiro: Ele era um diretor maravilhoso,
porque ele entendeu que eu realmente tinha toda a razão. Então foi por isso
que eu ganhei o prêmio de Melhor Atriz, porque eu falei no cinema como eu
falava na vida real. O trabalho com ele era maravilhoso, ele foi um pai para
mim, uma pessoa fantástica. Mulheres: Você também passou pelas
produções da Atlântida. Dóris Monteiro: Bom, primeiro eu trabalhei com o
Mazzaropi (“A Carrocinha”). E com ele eu trabalhei mais ou menos no mesmo
esquema, ele também deixava que eu colocasse os cacos que eu quisesse, deixava
que eu tossissi, por exemplo. Se tivesse que tossir eu tossia e dizia “ai meu
Deus, que tosse danada”. Se fosse tosse ou espirro, ia, continuava, ele
deixava que eu fizesse bem à vontade. Depois eu fiz também “E o
Espetáculo Continua” (José Cajado Filho). Acho que era o John Herbert que
era o meu príncipe encantado. Fiz “Carnaval em Caxias” (Paulo Vanderley)
com o Ariston, um ator que eu nunca mais vi. Eu fiz oito filmes, a ordem eu não
me lembro. Fiz também “Tudo É Música” (Luiz de Barros), “De Vento em
Popa” (Carlos Manga) e “Copacabana Palace” (Steno). Mulheres: Eu queria que você falasse
sobre o “De Vento em Popa”, o trabalho com o Carlos Manga, um dos mitos do
nosso cinema. Dóris Monteiro: Aliás, outro dia ele foi ao meu
show, eu tive a surpresa de tê-lo lá na primeira mesa do Bar do Tom, e eu
fiquei muito contente. Ele foi me ver. O Manga foi também um diretor excelente,
maravilhoso, deixava a gente muito à vontade. Esse “De Vento em Popa” foi
maior, foi uma superprodução porque a Atlântida já tinha dinheiro para
pagar. Porque o meu problema de largar o cinema foi porque eu realmente estava
perdendo muito dinheiro, eu era chamada para viagens e eu não podia ir cantar
nos lugares já que estava presa ao cinema. Cinema prende muito, a gente fica
por conta, levanta às cinco da manhã, às vezes tem que estar no estúdio às seis para começar às sete
e sem hora de acabar. Só quando a pessoa já não agüenta mais é que o
diretor deixa a cena para o outro dia porque já não dá mais. E aí
você sai às nove, dez horas da noite. Você chega em casa, come alguma coisa,
toma um banho, tira aquela maquiagem, dorme para levantar e ir de volta ao estúdio. Mulheres: A Atlântida, na época, não
era muito bem vista pela crítica e hoje está sendo reconsiderada. Como foi
esse período da Atlântida e como foi participar dele? Dóris Monteiro: Foi excelente, a Atlântida era ótima,
não sei porque não era bem recebida. Por causa das chanchadas? Mulheres: É, mas está sendo revisto isso, já que muitos
filmes da Atlântida hoje são clássicos do cinema brasileiro. Dóris Monteiro: Olha, eu vejo tantas novelas aí
que são chanchadas. Já cansei de ver, quer dizer, eu não gosto de novelas,
mas muitos amigos comentam que são chanchadas. Mulheres: Novela você nunca fez? Dóris Monteiro: Novela eu nunca fiz. Mulheres: Mas recebeu convites? Dóris Monteiro: Não. Aliás, eu recebi convite do
Manga, que me disse assim, “eu ainda vou botar você em uma novela”. Isso
faz muito tempo, mas eu acho que ele se esqueceu e também acho que ele nem fez
mais novelas. Mulheres: No “Tudo É Música” você
trabalhou com outro diretor lendário que é o Luiz de Barros. Como era, você
se lembra? Dóris Monteiro. É, o Lulu de Barros. Não me
lembro não, faz muitos anos. É engraçado, eu sou uma pessoa que não lembra
de detalhes. As pessoas lembram, eu vejo elas falando que fulano fumava muito, não
sei o que lá mais, já eu não me lembro de nada disso. Não sei se é porque
eles me achavam expontânea, deixavam eu trabalhar como eu quisesse. Eles me
dirigiam, de uma certa forma, claro, mas eu sempre fiz cinema muito à vontade. Mulheres: Como você se via como atriz?
Porque como cantora, parece-me que sempre foi sua prioridade. Mas como era a sua
avaliação como atriz, você gostava? Dóris Monteiro: Eu gostava muito de fazer cinema,
muito mesmo. E várias pessoas me disseram que era melhor atriz que cantora. Tem
pessoas que diziam que era uma pena eu ter largado o cinema porque eu era
excelente atriz. Eu gostava muito de fazer cinema, era muito divertido, porque
você estava sempre ali no set com os amigos, sempre saía uma piada, uma
brincadeira, você estava com um grupo grande, você está muito mais cercada do
que quando canta. Porque quando você canta é você e o trio, que também é
muito bom, mas não é aquela alegria do dia-a-dia. Porque você sabe, você faz
um show, depois vai embora para casa, os músicos também vão, e acabou. Ali não,
parecia uma família. E aí você estava sempre se divertindo. Mulheres: Você disse que abandonou o cinema porque te
demandava muito tempo e você estava perdendo, inclusive, dinheiro, sua carreira
de cantora estava ficando em segundo plano, porque não tinha tempo. Mas em
nenhum momento, quando você decidiu abandonar o cinema você se lamentou? Dóris Monteiro: Eu lamentei, eu fiquei triste. Em
não poder fazer mais, de não poder fazer as duas coisas. Fiquei triste sim. Mulheres: O interessante é que você
nunca mais voltou? Dóris Monteiro:
Não, depois nunca mais me chamaram. Mulheres: Se te chamassem você teria
voltado? Você voltaria agora se tiver convite? Dóris Monteiro:
Ah, se tivessem me chamado eu teria voltado sim. Mulheres: É, porque é impressionante.
Você tem uma carreira importante e premiada, trabalhou com diretores que são
ícones do cinema brasileiro, Alex Viany, Carlos Manga, Lulu de Barros, e, no
entanto, por opção sua, você se voltou para o canto e nunca mais voltou.
Ficou uma coisa meio mítica, tanto que muita gente não conhece sua carreira no
cinema. Dóris Monteiro: Não , muita gente não conhece.
Quer dizer, as pessoas que me conhecem desde que comecei sabem, mas agora tem
muita gente que também não me conhece como cantora, ou por outra, não sabem
quem eu sou. Tem muita gente que fala, Dóris Monteiro... E eu digo é, você não
me conhece, mas pergunta para sua mãe quem era Dóris Monteiro que ela vai te
dizer. Mulheres: Ainda assim muitas pessoas, de
formações diversas, te conhecem como cantora, mas não como atriz. Agora com o
vídeo e o DVD é fundamental que sua carreira no cinema seja revista. Dóris Monteiro: É, mas agora os filmes são
diferentes, né?. Agora o cinema partiu para o lado sério, porque antigamente
era realmente chanchada. Mas era uma chanchada gostosa, pura, era muito engraçado,
eram filmes que eu acho muito mais interessantes que os de hoje. Eu vou te dizer
e pode ser que eu esteja errada, mas o cinema nacional está indo bem. Mas eu
confesso para você que não vou ver filme nacional. Não vou porque se você
ver um filme americano ou francês e você ver um filme nacional, você vê que
deixa muito a desejar. Embora eles queiram botar no mesmo nível eu não acho
que esteja no mesmo nível não. Mulheres: Você se lembra de algum filme
brasileiro recente que você tenha visto e gostado? Dóris Monteiro: Ah, não me lembro, foi um
policial. Era bom, mas nada de excepcional. Por exemplo, falam muito em
“Central do Brasil”, mas eu não vi. As pessoas dizem, “mas Dóris você não
entra no cinema?” e eu digo que eu não sei, eu tenho uma rejeição, eu não
entro para ver filme nacional. Mulheres: E nem consome em casa? Dóris Monteiro: Também não consumo em casa.
Porque se for, por exemplo, de pobreza, eu não gosto de filme de pobreza. Filme
de favela eu também não gosto. Eu gosto de filme bonito. Eu sou feito o
Gilberto Braga, ele faz novela de gente rica não é? Eu sou pobre, quer dizer,
eu vim pobre, minha mãe lavou roupa para fora, entreguei muita roupa, meu pai
foi faxineiro, que dizer, a minha origem é bem pobre. Mas eu gosto de ver
coisas bonitas. Agora, policiais estrangeiros eu gosto. Mulheres: E atrizes, tem alguma
brasileira que você admire, que você goste? Da época ou atual? Dóris Monteiro: Da época eu gostava muito da
Glauce Rocha. Para mim ela foi a maior atriz do Brasil. Ela era magnífica, acho
ela imbatível. Mulheres: E a carreira de cantora, esses
relançamentos dos discos foi tão importante. Dóris Monteiro: Foi muito importante para mim,
porque eles costumam relançar discos e fazer homenagem depois que você está
morto. E aí você não pode sentir o prazer e a alegria que eu estou sentindo
agora, de ver meus discos relançados em CD. Isso é uma alegria para mim. Foi
um presente de 70 anos maravilhoso que a EMI e a Universal me deram. Porque eu
estou viva para ter essa alegria, para receber esse carinho, viva para ver meus
discos venderem, é muito bom, não é? Porque era uma coisa que eu sempre
queria, que as pessoas tivessem os meus discos em casa. O último CD que eu
gravei foi com o Tito Madi em 92. Então, há doze anos que eu sinto uma grande
tristeza por não ser chamada para gravar um disco novo. Eu vejo na televisão
tanta gente lançar, mas eu não vejo com inveja não, porque eu não sou uma
pessoa invejosa. Eu vejo tanta gente lançar disco, por A, por B, por C, por
gravadora tal e aquilo me dá uma tristeza por que eu digo Meu Deus, mas eu
estou viva, eu estou cantando bem, eu estou inteira, e eu não sei porque não
me chamam. Os meus 70 anos foram muito
comemorados. Fiz vários shows nos Sesc, eles me deram um grande presente de
aniversário. E todos lotados. Pompéia,
Santo André, Bauru. Fiz também em Brasília. Fiz no Bar do Tom, no Rio. Falta
agora ir a Belo Horizonte. Mulheres: Para encerrarmos nossa conversa
você gostaria de dizer mais alguma coisa? Dóris Monteiro: Sim, dizer dessa alegria de ter
meus CDs remasterizados, da alegria de saber que as pessoas vão poder ter esses
discos em suas discotecas e vão poder ouvi-los, já que muitos só os tinham em
vinil e da tristeza de não fazer um disco novo, um cd novo. Mulheres: Foi um enorme prazer falar
contigo. Muito obrigado. Dóris Monteiro: Obrigada eu, um grande beijo. Entrevista realizada em novembro de 2004 |
|