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017 - CRISTINA AMARAL
Nascida
em São Paulo, Cristina Amaral é uma montadora importante e premiada a serviço
do cinema brasileiro. Fã de carteirinha e parceira de primeira hora de Carlos
Reichenbach e Andrea Tonacci, para o primeiro monta os filmes desde o belo
“Alma Corsária” – alguns curtas e vídeos, e os longas “Dois Córregos”,
“Garotas do ABC” e “Bens Confiscados” são os outros. Com Andrea Tonacci
montou a Extrema Produção Artística, onde exerce sua arte desde 1997. Cristina
Amaral se encantou pela montagem ainda no curso de cinema na ECA, no início da
década de 80. A montadora recebeu o Mulheres na Extrema Produção, uma bela e
espaçosa casa, para uma longa, inteligente e agradabilíssima conversa. Na
primeira parte da entrevista, Cristina Amaral relembra os tempos de escola, sua
passagem pelo universo da publicidade e a polêmica relação cinema x
publicidade. Fala sobre seu
encontro fundamental com o mestre da montagem, Umberto Martins “Nós temos
pessoas que trabalham tecnicamente bem, que constroem, que dão o ritmo, mas
eles são uns gênios criadores,
inventores” (o outro citado é Sylvio Renoldi). Cristina
Amaral homenageia também o cineasta Chico Botelho, que a indicou para o
primeiro trabalho, o cineasta Denoy de Oliveira “Eu não tinha a dimensão do
tamanho da nossa amizade, do tamanho do coração dele”, e a diretora Raquel
Gerber “È uma pessoa que está sempre presente em minha vida, uma amiga, uma
irmã”. Cristina Amaral fala também dos primeiros prêmios, do monopólio e
da invasão política do cinema americano, da Ancinav, entre outros assuntos. Mulheres:
Quando foi que você decidiu e disse: quero trabalhar com cinema? Cristina
Amaral: Na verdade, quando eu fui prestar vestibular eu tinha a maior dúvida
sobre o que eu realmente queria fazer. Eu gostava de fotografia, eu fotografava,
daí eu pensei em alguma coisa meio nesse rumo. Só que mais tarde eu fui
perceber que o cinema já estava em minha vida já fazia um tempão. Há
pouco tempo atrás alguém me perguntou como o cinema entrou em minha vida e eu
comecei a me lembrar que minha mãe, quando eu era criança, colecionava umas
revistas de cinema, que eram tudo
sobre cinema americano. Eu nem tinha visto os filmes, mas eu conhecia os
artistas, sabia os nomes, se eu visse a cara eu sabia quem era. A coisa que eu
mais lembro de ler na infância era essa revista. Depois, quando a gente comprou
a primeira tv em casa, eu me lembro que só assistia filme também. Eu me lembro
que eu via filme legendado na televisão, filme italiano, francês, espanhol. É
engraçado, eu falo para as pessoas da minha geração, mas elas não se lembram
muito disso. Tinham os seriados americanos que passavam dublados e tinhas os
longas que passavam com legenda. Eu me lembro que era isso que eu assistia na
televisão, e era como se isso já estivesse me encaminhando. Para
resolver o que eu queria fazer para prestar vestibular eu fiz teste vocacional,
em função da dúvida que eu tinha. Como eu gostava de fotografia e a área que
deu no meu teste era comunicação, eu prestei vestibular na ECA. Antes, no começo
do curso, tinha o curso básico, em que você tinha aulas de jornalismo, artes
plásticas, música, cinema, teatro, tinha tudo isso. E eu sempre pendia meio
para esse lado da imagem. Daí quando eu tive que fazer opção dentro do curso
eu optei pelo cinema. Fazendo o curso, primeiro foi a fotografia, eu comecei
fazendo especialização em fotografia. Até que eu descobri a montagem. Até
antes de fazer cinema a gente não sabe como o cinema é feito. Na hora que eu
descobri que era na montagem que o filme se estruturava realmente, se constituía
o formato, a cara que ele ia ficar depois, foi a opção que eu não larguei
mais. Mulheres:
Então sua escolha pela montagem foi no curso? Cristina
Amaral: Foi no curso, eu não tinha a menor noção de como se montava filme
antes. Cinema para mim era aquela imagem que eu via, eram os atores, a história
,era aquela imagem. Daí, quando eu conheci o trabalho de montagem, eu descobri
qual era mesmo a minha veia dentro do cinema. Mulheres:
Quando você passou da escola para a prática, para o filme mesmo, você começou
pela montagem? Cristina
Amaral: Foi pela montagem. Na escola eu ainda fiquei um tempo meio dividida
entre a fotografia e a montagem, porque fotografia é uma coisa que eu gosto
muito também. Porém, são coisas que você precisa realmente se dedicar, não
dá para você se dedicar ao mesmo tempo à fotografia e à montagem, não tem
condição. Então a montagem pesou mais para mim porque trabalhava essa parte
mais intestina do filme, e que me interessava muito. Mulheres:
Como foi o seu primeiro trabalho? Cristina
Amaral: Primeiro na escola eu fiz um monte de coisas, porque a gente fazia
meio de tudo. Quando eu fazia a parte de fotografia, eu era eletricista, era
maquinista, carregava cabo trifásico, era tudo. Fiz muita coisa na escola, onde
tinha um esquema muito interessante também. Eu participava de filmes de turmas
mais velhas e de turmas mais jovens que as minhas. Quando eu saí da escola eu
tinha um currículo muito grande. Mulheres:
Quando você saiu? Cristina
Amaral: Eu saí em 1980, oitenta e pouco. Chico Botelho foi meu professor de
fotografia, foi uma maravilha. Aliás, ele é uma pessoa que faz muita falta
para o cinema brasileiro. O senso de ética que ele tinha, o percurso por várias
áreas, por vários grupos do cinema. Por exemplo, tinham grupos que não
falavam entre si, então o Chico fazia a ponte entre eles. Ele tinha o espírito
de conciliação, não o de botar panos quentes, mas o de buscar o melhor
resultado para o cinema brasileiro. Ele foi a pessoa que me indicou para o meu
primeiro trabalho profissional, um filme que ele tinha fotografado. O
que acontecia muito naquela época, agora menos, era que o orçamento dos filmes
acabava nas filmagens (risos) Aí
chegava a hora da montagem, eles tinham um montador, que era meio sócio, meio
assistente, porque eles não tinham grana para pagar profissional. Neste filme,
eles trabalhavam à noite porque era o horário que eles tinham a moviola. Aí
ninguém queria, eles não conseguiam profissional para fazer. Como já fazia
tempo que eu fazia coisas com montagem na escola, o Chico me indicou para esse
trabalho. E aí eu topei, fiquei
feliz da vida, passava dias sem dormir, porque tinha coisa na escola para fazer
de dia, e trabalhava a noite inteira. Na época era o máximo, mas pensando hoje
era um horror, porque era em um lugar completamente insalubre, uma sala dentro
de um laboratório, era horrível. Mas foi o meu primeiro trabalho profissional,
o filme chama-se ‘Parada 88´, do José de Anchieta. Foi durante um longo o
tempo, mas para um primeiro trabalho é isso mesmo, porque tinha o lance de
ganhar experiência. E o fato de estar fazendo com condições profissionais,
com responsabilidade, já é uma outra história. Mulheres:
Para esse trabalho você foi indicada pelo Chico. Agora como foi para dar
continuidade, o passo seguinte? O que modificou dentro do exercício da sua
arte? Cristina
Amaral: Ao mesmo tempo eu fiquei fazendo curtinhas com os amigos, que era um
por ano que a gente fazia (risos). Mas aí esse montador, Jair Correa, me chamou
para um outro trabalho, para fazer assistência.O filme era o “João Juca
Jr”, dirigido pelo Denoy de Oliveira, e produzido pela Maracy Mello, que já
foi num esquema muito melhor. Mais tarde, o José de Anchieta, que foi o diretor
do primeiro filme (“Parada 88”), dirigiu um episódio para o Globo Repórter
e me chamou para montar. Eu fui feliz, mas foi uma pauleira, um trabalho que
depois a Globo detonou, não era do jeito que eles queriam, eles distorceram
completamente o trabalho. A gente montou numa
produtora chamada Beca, aqui em São Paulo,de
um pessoal super bacana, o Paulo Antero e a Marlene Barbosa eram os
donos. Um
dia, o Paulo passou na moviola em um fim de tarde, e eu estava lá trabalhando
cheia de cortes esparramados pela sala, porque a gente teve que montar uma coisa
que era trabalho para um mês ,em uma semana, e eu não tinha assistente, tinha
que fazer tudo. Então era uma loucura. Na hora que eu estava saindo ele me
disse para deixar o telefone com a secretária, que se pintasse algum trabalho
eles me chamariam. Deixei, não
confiando muito, achando que era gentileza dele. Achei
bacana, mas eles tinham um
montador fixo na casa, era uma produtora de publicidade. Daí passou um mês e
pouco e ele me chamou. O montador teve um problema de saúde e ele me chamou
para montar uns comerciais. Foi
aí que eu tremi nas bases. Na verdade, eu nem tinha saído direito da escola,
eu estava terminando as coisas por lá ainda, e ele me chamou para montar
publicidade. O outro, o Globo Repórter, era uma coisa, uma ficção entremeada
por entrevistas, para passar na televisão, foi uma montagem que não tinha
muita diferença com o que vinha trabalhando na escola. Mas publicidade já
exigia que eu conhecesse coisas de trucagem, de efeitos, pois é disso que a
publicidade vive. Eu apanhei um pouco, ali eu percebi a minha inexperiência.
Sempre que me chamavam para um trabalho eu ia meio com um frio na espinha, mas
eu ia, era sempre algo que estava dentro do que eu estava acostumada a fazer.
Ali pintou algo que eu desconhecia, então eu percebi que eu não podia ir assim
achando que já estava pronta, que eu já era uma montadora pronta, porque eu não
era. Mesmo
com o medo que eu ia.sempre, eu sabia que o básico eu dava conta de fazer. Mas
quando eu me deparei com essa situação eu contei com a generosidade enorme
deles, mas eu senti que eu tinha muito que aprender ainda. E tinha coisas que eu
fazia, que era de um jeito meio empírico mesmo. Eu pensava, “não é possível,
isso aqui é uma linha reta e eu estou fazendo ziguezague, tem que ter um jeito
melhor”. E o jeito era aprender com quem já sabia, com quem estava fazendo.
Então eu dei uma brecada nesse trajeto de montadora e fui buscar, fazer assistência,
porque eu achei que era o jeito de fazer. A gente tem que ter essa humildade,
sem o peso da palavra, mas o reconhecimento de que a gente tem que aprender.
Hoje eu sei que a gente tem que aprender sempre, mas quando você sai da escola,
você sai com aquele gás todo. A gente tem que aprender que tem pessoas que já
estão há dez, vinte anos, trabalhando, e eu vi que eu tinha que aprender com
essas pessoas. Aí
sentei na minha maquininha de escrever, pois naquela época eu não tinha
computador ainda, escrevi o meu currículo e mandei para um monte de lugares.
Peguei lista de tudo quanto produtora que tinha e mandei. Era todo um processo,
tirar xerox, botar no correio e depois ligar para os caras. Foi um processo árduo,
recebi muito não, inclusive por causa do currículo, pois tinha gente que dizia
que com aquele currículo não podia me chamar para fazer estágio, que eu já
tinha feito muita coisa. Eu nem estava pedindo para ser contratada, eu estava
querendo fazer estágio. Até que um dia um finalizador - porque as produtoras
de publicidade não tinham assistente de montagem, acho que até hoje não tem
muito -chamado Claudinho, topou que eu fizesse, a produtora chamava-se Phatom. Aí
eu fui lá fazer o estágio. Era uma produtora que trabalhava com orçamentos
grandes, eles faziam comerciais importantes, mas faziam um filme ou dois por mês,
era pouca coisa. Então
eu ia para lá, levava um livro para não entrar naquele ti-ti-ti de publicidade
que era um horror. Foi lá que eu percebi que as pessoas mais suscetíveis à
publicidade são os publicitários. Eles estavam sempre com a roupa da moda, o
relógio da moda, o perfume da moda. Hoje eu não sei se é assim, mas naquela
época o pessoal fixo das produtoras trabalhava muito, ganhava muito mal, mas
achava o máximo porque estavam fazendo publicidade. E o
tempo inteiro tinha alguém vendendo alguma coisa dentro da produtora,
todo mundo comprava, viviam cheios de dívidas. Eu não entendia aquilo e não
gostava nem de chegar perto.Aí então eu levava um livro e ficava lá num canto
da sala de montagem. Eu
não via nem o montador da casa, pois não chegava filme. Até que um dia chegou
um cara, um grandão forte, e chamou
todo mundo para ver o copião. Eu fiquei quieta no canto, eu não era funcionária,
mas ele me viu e me chamou para ver também. Perguntou-me o que fazia ali e eu
disse que queria fazer estágio de finalização, acompanhar a parte de
trucagem, aprender essa parte de laboratório. Depois de meia hora fiquei só eu
na sala, porque as pessoas não tinham a menor paciência para ver copião
bruto. Eu fiquei acompanhando e ele disse para eu voltar de tarde para
continuarmos. Esse montador, eu tive a maior sorte, eu acho que
hoje é o maior montador do
Brasil, porque se a gente tinha dois grandes, um era Sylvio Renoldi e ele era o
outro. Nós temos pessoas que trabalham tecnicamente bem, que constroem, que dão
o ritmo, mas eles são uns gênios
criadores, inventores. Até me
emociona falar dessas pessoas porque o que eles faziam era transformar. Eles
recebiam um material e devolviam um filme maior e melhor. Em publicidade a gente
sabe que é isso, os caras gastam um longa-metragem para dar trinta segundos
ruins, fracos, raramente são bons. E muito mais raramente são geniais. Eu
via aquele monte de material e dizia “Meu Deus do Céu!”. E esse montador,
que se chama Umberto Martins, que alías é mineiro, me deixava impressionada.
Eu não queria acompanhar montagem de publicidade porque eu não achava graça
nenhuma, aquela coisa toda formatada, que já vem com “story-board”, com um
ritmo que tem que ser assim e tal. Eu não tinha interesse naquilo. Só que eu
via esse cara fazendo cinema com aquele material. Então isso foi a minha
escola, realmente, de cinema, de montagem. De cinema ,eu não diria porque eu
tive aula com Paulo Emílio Salles Gomes, com Maria Rita Galvão, eu não tive a
chance de ter aula, mas tive conversas nos corredores da escola, tive livros
emprestados pelo Ismail Xavier - ele me emprestou livros de montagem que trouxe
dos Estados Unidos, e não existiam no Brasil, com a maior confiança e
generosidade. Eu tive pessoas boas enquanto pensamento de cinema. Mas a grande
lição de montagem de cinema, essa construção que é a montagem ,eu tive
com o Umberto. E acabei nunca indo pros laboratórios acompanhar as
trucagens, que era o projeto inicial do meu estágio. Mulheres:
E que é um diálogo que ainda provoca polêmicas, não é? Entre o cinema e
a publicidade. Principalmente para os críticos. Cristina
Amaral: De dentro eu mantenho essa crítica. Porque eu acho assim, a
publicidade tem um compromisso, uma relação muito grande que é comercial, é
o nome dela, é para vender. Mulheres:
Mas ela pode também... Cristina
Amaral:
Poderia ser
criativa. Mulheres:
Sim, mas no seu caso, houve uma interferência no seu olhar para essa arte e
que veio desse campo. Cristina
Amaral: Veio desse cara, mas ele é uma exceção. A formação dele é do
MAM, a formação dele é de cinema. A primeira pessoa que eu vi lendo um livro
enorme do Glauber Rocha - “Roteiros do Terceyro Mundo” - foi o Uumberto. Ele
chegou para mim e disse: “você já leu isso aqui? Você tem que ler comadre,
como é que você não leu isso ainda?”.
Entendeu a relação dele? Além disso, ele é um artista nato, um
talento excepcional. E ele conseguiu, por essa paixão pelo cinema, não se
perder durante a vida toda dele, porque 99% do tempo ele trabalhou em
publicidade. Mulheres:
Agora, você não acha que nessa polêmica
entre a relação do cinema e a publicidade, e é mesmo uma seara que tem que se
olhar com mais cuidado porque são mesmo linguagens diferentes, há uma visão
meio reducionista, mais de campo de guerra que de troca de diálogo? Cristina
Amaral: Eu fiquei quase um ano trabalhando com o Umberto, eu não tinha a
menor vontade de trabalhar com publicidade, mas eu fiquei por causa dele. O que
eu vi é que esse reducionismo não parte do olhar de fora, ele é interno, é
uma coisa de fórmula, de cópia. Você se lembra da época que eles traziam a
premiação do Clio? Os filmes que eram premiados no Clio eles exibiam aqui no
Brasil. Era impressionante, era uma vergonha ver tanta cópia entre si. E o que
se copia do cinema então nem se fala. Na verdade, não tem um processo de criação,
quando existe, é muito raro. Você
tem um orçamento que, em alguns casos, dá até para rodar um longa-metragem.
Gasta-se película, há mais dinheiro de produção que para rodar um
longa-metragem. E na hora que chega na sala de montagem, você tem que suar para
fazer sair trinta segundos dali. É um negócio que não sou eu que estou
reduzindo. E
tem uma coisa assim, a publicidade tem que ser sua, você tem que se promover ,
você tem que se produzir senão você não existe, você tem que estar ali em
tal lugar senão você não existe. Você tem que ir para Trancoso no reveillion
e chegar de jatinho senão você não existe. Sabe esse tipo de coisa?
Infelizmente, um pouco desse comportamento, dessa atitude está hoje
dentro do cinema também. É uma coisa que veio junto. E era insuportável
porque são pessoas com as quais não dá para você fazer uma troca. O Ugo
Giorgetti é um dos poucos caras que fazia - não sei se ainda faz - publicidade
que consegue sair fora disso, mas porque também é um cara que tem uma formação
cultural séria, e é muito inteligente. Eu o vi uma vez arrastar um montador de
uma produtora de publicidade para assistir um filme do Etore Scolla, “O
Baile”, que não tinha um diálogo sequer -
e o cara disse: “imagina, que eu vou assistir um filme que não tem uma
fala !”. Daí o Ugo disse “você vai ver ,senão você não monta mais meus
filmes aqui”. Ele fez o cara ver. Mulheres:
Então, eu fiz essa pergunta mais como provocação porque eu conheço sua
trajetória. E eu acho importante ressaltar isso porque você acabou vivendo um
momento de exceção dentro desse universo, o que acabou, de certa forma,
pontuando o seu trabalho futuro. Por isso acho importante você falar sobre essa
relação entre cinema e publicidade. Cristina
Amaral: Na verdade, para mim era impressionante, porque eu via o material
que a gente recebia e eu pensava, “não vai sair filme daqui nem tossindo, nem
tossindo”. Aí o Umberto chegava, ele assistia, ele esmurrava a moviola,
xingava, depois ia para casa e caía com febre, ficava doente. No dia seguinte,
seis horas da manhã a gente tava na moviola, a minha casa era no caminho, ele
passava, me dava carona. Quer dizer, as seis e meia a gente estava na padaria
tomando um café, e às sete horas nós estávamos na moviola, e dali ele não
saía. Às cinco da tarde ele tinha um filme, e eu ficava impressionada, eu
ficava arrepiada de emoção em que ver o que ele fazia ali, porque ele
inventava o filme ali. E, uma coisa que eu adorava,
ele se recusava sequer a olhar os “story-boards” que as agências
mandavam. Ele os jogava no lixo, na frente de quem os entregasse, e tinha uma
frase maravilhosa : “O material é o rei”.
E era em cima do material que ele trabalhava. Mulheres:
Depois disso, quanto tempo você voltou a assinar uma montagem? Cristina
Amaral: Aconteceu o seguinte, eu fiquei esse tempo com ele e meio que ficava
fazendo free-lance. Nos lugares que ele trabalhava sempre tinha alguém fixo.
Durante muito tempo, e isso é importante falar, ele me pagou do bolso dele, ele
tirava do salário dele e me pagava, para não ter nenhuma interferência dentro
das produtoras. Porque ainda tinha isso, quando eu cheguei é aquela coisa,
chegou alguém novo, e eu comecei a perceber uns olhares meio estranhos. Aí eu
disse para o Umberto que eu ia conversar com o pessoal e avisar para todos que
eu não ia trabalhar lá, que eu estava apenas fazendo estágio, que nem se o
dono da produtora quisesse me contratar eu ia ficar. Eu estava precisando
trabalhar, mas eu não ira fazer isso, só estava lá por causa do estágio. Aí
eu chamei um por um e expliquei que eu estava ali para aprender, que agradecia a
generosidade deles por terem me dado aquele espaço, mas que eu não queria
trabalhar lá. Daí,
quando apareciam trabalhos fora dali ele me pagava do bolso dele, porque não
existia essa figura de assistente de montagem nas produtoras, o que tinha era
finalizador fixo. Ele me pagava para a gente continuar trabalhando junto. Até
que houve um momento em que o Enzo Barone, da CinemaCentro, chamou o Umberto
para contrata-lo , e ele pediu para me contratar também. Daí eu comecei a
conversar com o Enzo para ver sobre quanto eu ia ganhar, essas coisas. Nesse
meio tempo eu montei um curta do Denoy de Oliveira, ‘ Nós de Valor, Nós de
Fato´, e fiquei com essa história de se o Enzo ia me contratar ou não. Daí a
Raquel Gerber me chamou para fazer assistência de montagem no ‘Ori´, que era
um filme que ela estava fazendo. Então eu cheguei para o Umberto e falei que
haviam me chamado para fazer um documentário, um longa. Ele me olhou meio
assim, mas entendeu. O Umberto é como um irmão para mim, ele foi muito
generoso. Ele podia ter ficado muito puto comigo com isso, mas ele entendeu que
aquela não era a minha praia. Ele vivia brincando comigo dizendo que queria ver
o dia em que eu entraria para o “jet set” da publicidade, aquela coisa de
ficar andando na moda. Ele entendeu e disse “Tá bom comadre, vá lá, é isso
que você quer fazer”. E
eu também já não estava agüentando aquele ritmo porque eu não tinha uma
vida própria. Publicidade era isso, sete horas a gente estava na produtora,
oito da noite a gente estava jantando em algum restaurante e entre dez a onze
horas eu era devolvida em casa para dormir e voltar no dia seguinte. Isso era sábado,
era domingo, era o tempo inteiro. Ficou meio complicado, eu não conseguia ir ao
cinema, eu não conseguia ver as pessoas com quem eu morava, eu não fazia mais
nada a não ser trabalhar. Eu
fui fazer o “Ori” da Raquel, que foi um trabalho enorme, um processo de
vida. Eu tenho na minha história esses trabalhos muito grandes, essas coisas
muito intensas, mas que resultam em laços de afeto muito intensos também. A
Raquel Gerber é uma pessoa que está sempre presente em minha vida, uma amiga,
uma irmã, pra sempre. Mulheres:
A partir daí teve alguns hiatos ou deu-se uma continuidade? Cristina
Amaral: Deu continuidade, o hiato foi antes de encontrar o Umberto. Eu digo
que eu tenho uns anjos da guarda afetuosos e poderosos, porque em momentos específicos,
cruciais, eles apareceram, pessoas apareceram oferecendo mãos que foram
essenciais. Mulheres:
Para você qual foi o seu primeiro grande momento como montadora? Cristina
Amaral: A partir daí vieram acontecendo coisas boas. Enquanto eu estava
fazendo o “Ori”, o Umberto disse que tava bem, eu ia fazer aquele filme, mas
me pediu prá ajudá-lo e montar um
curta para ele, porque ele não ia ter tempo para montar. Era um filme do Gal
(Pereira),que estava filmado, e ele não tinha
dinheiro para fazer a revelação e o copião do material. Daí, o
Umberto, quando soube do que se tratava o filme - era sobre a loucura que virou
o Incor e o Brasil na época da morte do Tancredo Neves - bancou toda a finalização
do filme, pagou laboratório, ampliação, cópia, e nós fizemos o trabalho de
graça. Este filme é o “Operação Brasil”, que foi o meu primeiro prêmio.
Quer dizer, foi o segundo, porque aconteceram dois no mesmo ano, e o “Operação
Brasil” foi em um festival mais tarde. Mulheres:
Quais foram os prêmios? Cristina
Amaral: O “Operação Brasil” foi premiado no RioCine. Mas aí, para
fazer esse curta eu me virei. Eu ficava das oito até as seis da tarde fazendo o
“Ori” e daí eu ia para a montagem do curta. Eu ficava de novo naquele
esquema das oito da manhã até as onze, ou meia-noite, fazendo os
filmes. O prêmio que eu ganhei com o “Operação Brasil” , eu te
digo que eu credito a
responsabilidade do prêmio ao Umberto, porque ele deu o norte inicial do filme.
Quando eu cheguei para montar ele já tinha montado a primeira seqüência e que
foi definitiva para determinar o que seria o filme, poderia ser uma outra coisa,
mas ali ele já tinha dado o caminho do filme. No final , eu fiquei esbodegada,
e querendo descansar um pouquinho,depois desse filme. Porém,
uns 15 dias depois teve uma festa lá em casa e o Umberto chegou e
me disse se eu não queria montar um outro filme. E eu, “Não!”. Mas
ele ficou me dizendo que o filme era bacana, o cara era bacana, e começou a me
contar sobre ele, e me convenceu. O filme foi o “Ma Che Bambina”, do Cecílio
Neto. Daí eu montei esse curta também no mesmo esquema, ficava o dia inteiro e
à noite por conta dos dois trabalhos - o outro continuava sendo o "Ori”. Esses
dois curtas eu tive que montar escondido da Raquel Gerber. As pessoas ligavam lá
na produtora dela atrás de mim, ela atendia e dizia que eu não ia poder porque
nós estávamos em um trabalho muito grande, e descartava ali (risos). Eu ouvia
aquilo e não acreditava que ela estava fazendo isso, era muito engraçado,
porque era ao mesmo tempo uma coisa carinhosa. Mas, como para o Umberto eu não
podia dizer não de jeito nenhum, eu então fiz, mas escondido dela. Só que
mentira tem perna curta, não adianta né? O que acontece?, No Festival de
Gramado do ano seguinte, eu estava fazendo o “Ori” ainda, eu não fui para o
Festival. Terminei o filme correndo para o Cecílio ir e ele foi. Eu nem estava
acompanhando o Festival, e aí as pessoas começaram a me ligar porque tinha saído
no jornal que eu tinha ganhado o prêmio de montagem de curta. E eu fiquei com
aquela cara, e a Raquel dizendo “mas quando você montou esse curta?”
(risos). Aí passa mais um mês e pouco e o Gal leva o “Operação Brasil”
para o RioCine e ganha o prêmio de montagem também (risos). Foi a descoberta
total, o maior vexame, realmente não dá para mentir. E
foi um susto também para mim, os filmes foram e se deram bem, foi bacana. Daí
começou uma coisa boa na área de curta-metragem. Eu fiz muitos, mas eu
continuei fazendo assistência em longas. Apesar de que no “Ori” eu fiz de
tudo, eu ficava até com vergonha quando o filme era exibido com o tanto de
vezes que o meu nome aparecia nos créditos. Porque era aquela coisa que
acontece quando você abraça um projeto, abraça a pessoa, aparecia qualquer
coisa para fazer e a gente ia lá e fazia. Nesse
meio tempo aconteceu uma coisa muito bonita também que é uma coisa dos meus
anjos, dos meus amigos. O Denoy de Oliveira foi convidado para ir para o
Festival de Mannheim (Alemanha), com o “Nós de Valor, Nós de Fato”. Com
esse filme a gente ficou muito amigo. Eu já tinha feito assistência de
montagem no “João Juca Jr”, que foi a segunda assistência de montagem que
eu fiz e eu gostava muito dele e da Maracy. Eu e o Denoy ficamos amigos, a gente
brincava, a gente ria muito, mas eu não tinha a dimensão do tamanho da amizade
da gente, qual seria o papel dele na minha vida, o tamanho do coração dele. Um
dia ele me liga e me conta que tinha recebido esse convite. Como tinha um seminário
junto a esse festival, eles tinham deixado em aberto para que uma pessoa pudesse
ir com ele para participar desse seminário. E que essa pessoa tinha que ser
estudante de cinema ou assistente de direção. Eu não era nenhuma coisa nem
outra, já tinha saído da escola e era assistente de montagem. Aí o Denoy
escreveu uma carta enorme, linda, justificando porque ele queria que eu fosse
junto, e eles aceitaram. Daí eu fui com ele e dois anos depois eu voltei a esse
festival. Foi uma coisa importante para mim, porque eu não tenho dinheiro para
ficar viajando para a Europa e essas viagens abriram muito a minha cabeça, eu
nem sei dizer em que medida, mas é essa coisa de você atravessar um oceano e
ver que o mundo é maior. Mulheres:
Você não acha que o Denoy ainda não tem sua dimensão reconhecida pelo cinema
brasileiro? Cristina
Amaral: Eu acho que não tem não. É outra pessoa que também faz muita
falta, que tinha esse olhar generoso em relação ao cinema, compreensivo. E que
enquanto trabalho tinha uma atitude humana dentro do cinema que se vacilar a
gente perde agora, porque as pessoas estão tão automáticas, tão estratégicas
para fazer cinema, que é um perigo quando você fica tendendo muito para esse
lado. O Denoy era só coração, ele fazia, era o povo que ele amava, eram as
pessoas que ele queria, era a ideologia que ele acreditava. Isso era, inclusive,
um lado que a gente discordava muito, mas a gente conseguia ser muito amigos, em
trocar idéias, mesmo tendo posturas políticas conflitantes. Quando eu encontro
com a Maracy meu olho enche porque eu me lembro desse afeto, dessa família nova
que eu ganhei junto deles, em ir de tarde tomar café com leite que ela fazia
carinhosamente para a gente, uma coisa muito bonita mesmo. E
o cinema dele foi um cinema de uma época em que se viveu muitas dificuldades,
falta de apoio total que o cinema brasileiro sofreu naquela época. E ele fez
cinema nesse momento. Então é assim, se a gente não olhar esse cinema com
essa dimensão... E teve seus momentos de ousadia, teve. Ele teve um trabalho
que precisa ser mais bem olhado e mais respeitado, como muitos. Mulheres:
Quem falou dele carinhosamente assim como você também foi a Regina Dourado
em entrevista para o Mulheres. Eu fiz essa mesma pergunta que fiz para você e
ela disse que ele precisava ser redimensionado. Cristina
Amaral: É, a Regina trabalhou muito com ele. Ele tinha um compromisso com o
cinema que ele fazia, ele tinha uma curiosidade, uma aceitação para as coisas
que era muito bonito. E cinema, eu acho, é essa experimentação. Às vezes a
gente acerta, às vezes a gente erra, cada filme é um, e é sempre uma coisa
nova. Só dá certo, entre aspas, a fórmula, que é isso que estão usando
agora, que é a fórmula do “blockbuster”. Você tem muito dinheiro para
produzir, que é parecido com essa coisa da publicidade, daí alguma coisinha
salva. É assim, se você quer
inventar um diretor você pega alguém que tem acesso à patrocínios. Aí o
cara levanta a grana, compra os direitos de um texto, contrata um roteirista,
contrata um diretor de ator, pega um bom fotógrafo, uma equipe profissional e
vai para o set dizer ação. Assim é fácil,
é só para dizer ação e corta, né? Aí
depois você tem o equivalente ao orçamento de três longas-metragens em termos
de dinheiro para lançar o filme, é a mesma fórmula do comercial. Você pega o
sabonete x, enche a prateleira, passa o dia inteiro na televisão publicidade
dizendo que o sabonete x é o melhor e está vendido. Só que não é
necessariamente o melhor.
Aliás, se a gente for olhar o cinema brasileiro, com raríssimas exceções, as
nossas maiores bilheterias são dos nossos piores filmes. São raríssimos,
talvez dê para contar nos dedos de uma mão. Daí, para mim, não é elogio um
cara vir dizer que o filme dele teve tal bilheteria. Com essa parafernália por
trás não é difícil, difícil é dar errado, porque isso é fórmula. Só que
dois anos depois, esse filme não vai ter mais nada a dizer, porque já foi
consumido, porque o seu limite já estava proposto. Mulheres:
Muitas vezes se fala que é um grande momento e o que se vê é que é um
grande momento, mas de mercado. Cristina
Amaral: De mercado, de cinema não é, pelo contrário. A gente está em um
momento delicado em termos de cinema. Mulheres:
É uma coisa complicada essa relação cinema e mercado, porque tem muita
gente que olha o mercado primeiro. Cristina
Amaral. Sim. Eu acho que tem as duas coisas, só que você tem que dar as
devidas dimensões para os seus devidos lugares. É só você pensar no parâmetro
do cinema de Hollywood que você vê que eles não são estúpidos não. Tanto
é que eles investem em escritores, eles investem em autores. Porque eles sabem
que sem os autores aquilo tudo desaba. A cada cinco anos bate uma crise lá, o
cinema americano em crise, porque esgotou o filão. Então eles sabem que
precisam dos autores e aí vão importar de onde for. Agora eles andam
importando também mão-de-obra, porque cinema americano para eles não é só
mais o cinema que é feito nos Estados Unidos. É cinema americano que é feito
como cinema americano, e daí pode ser feito aqui no Brasil,
na Austrália, na Inglaterra, na China, onde for. È a estratégia
cultural que está estabelecida.
Nessa
segunda parte da entrevista, Cristina Amaral fala sobre seu encontro com o
cineasta Carlos Reichenbach e faz uma bela homenagem a ele “Foi um divisor de
águas na minha vida”, fala com emoção da montagem do primeiro filme da
parceria, “Alma Corsária”, da epopéia que foi concluí-lo e da exibição
histórica no Festival de Brasília. Cristina
Amaral conta também sobre o encontro com Andrea Tonacci “Trabalhar com o Carlão
e com o Andrea foi a realização de dois sonhos” e sobre a produtora em que são
sócios, a Extrema Produção Artística. Fala sobre a paixão pelo cinema dos
dois e também o de Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Walter Lima Jr. e
Glauber Rocha. Carinhosa,
homenageia colegas de ofício como Vera Freire, Idê Lacreta, Vânia Debs, Marta
Luz, Virgínia Flores e Jordana Berg e faz homenagem especial à Lupe,
precursora de todas elas. Acarinha a produtora Sara Silveira, as pesquisadoras
Maria do Rosário Caetano e Ivana Bentes, e também Margarida de Oliveira, Patrícia
Durães, Renata de Almeida e Flávia Miranda. E fala, claro, sobre a produção
atual. Mulheres:
Quando a gente estava falando sobre o Denoy, você ia dizer sobre um momento
importante seu e eu te interrompi. Cristina
Amaral: Então, a partir dali começou a chegar uma série de trabalhos
legais com os curtas e eu continuei a fazer assistência em longa. Inclusive, eu
achava que ainda não estava preparada para montar um longa-metragem. As pessoas
me cobravam isso dizendo que eu já tinha prêmios em curta e ainda sem montar
um longa. Só que um longa não é igual dez curtas emendados um atrás do
outro. E eu acho que tudo aconteceu no momento certo também. Primeiro teve um
filme,o "Sua Excelência, o Candidato", do Ricardo Pinto e Silva - e
eu já havia feito isso no “Ori” - ,onde eu era a segunda unidade de
montagem, apesar de ainda não ter pegado em um filme inteiro. O primeiro filme
inteiro, o primeiro longa que eu fui chamada para montar, que, aliás, o Denoy
fez uma cena de ciúmes porque ele queria que fosse dele, foi o “Causa
Secreta” do Sérgio Bianchi, mas que eu não terminei. Daí
entra mais um anjo da guarda de plantão. Eu estava em casa, descansando, não
fazendo nada, e então um dia me liga o Carlos Reichenbach. Desde a época da
ECA, quando eu conheci o cinema do Carlão, via Paulo Emílio Salles Gomes , eu
descobri o que eu queria fazer em cinema. Que era o cinema do Carlão, o cinema
do Andrea Tonacci, o cinema do Júlio Bressane, o cinema do Rogério Sganzerla e
o cinema do Walter Lima Jr, um cinema comprometido com a vida, com uma verdade
pessoal . Esses caras me piraram. O Paulo Emílio nos apresentou esse cinema em
suas aulas, porque muitos desses filmes nem entraram em cartaz direito. É claro
que o Glauber eu já conhecia, que é essa coisa que a gente não consegue nem
dimensionar no cinema, mas quando eu vi o cinema desses caras eu disse,
“gente, não é contar historinha, é outra coisa. É o risco de viver com
intensidade, com integridade.” E eu me apaixonei pelo cinema desses caras. Mas
aí era sonho, era o meu Olimpo, eu babava e ficava feliz quando tinha mais um
filme deles para assistir, era essa relação. Eu jamais iria imaginar que eu
fosse trabalhar com o Carlos Reichenbach, era um sonho. Eu nem verbalizava, eu
jamais falei para alguém que eu adoraria trabalhar com o Carlão Reinchenbach
antes de trabalhar com ele. Mas era uma coisa interna,
minha. Com o tempo, mais
tarde, na época do auge do curta-metragem, a gente estava sempre no MIS. O Carlão
estava sempre por lá dando uma força para todo mundo. Eu acabei conhecendo ele
pessoalmente e fiquei gostando mais dele ainda.
Porque além dos filmes dele serem demais o cara era o máximo também.
Uma pessoa generosa, maravilhosa, você conversa qualquer assunto com ele, ele
é uma pessoa culta por paixão.
Ele ama os livros , os filmes de que fala,
é demais. Mulheres:
Ele é muito generoso. Cristina
Amaral: Muito, tudo que passa por ele, ele quer dividir. A gente se conhecia
assim. E uma vez o Cecílio o chamou na moviola, a gente estava acabando de
montar o “Wholes”, e ele chamou o Carlão para dar uma olhadinha, dar uns
palpites finais. Ele só falou uma coisa e que foi essencial para o fecho do
filme. Com o maior jeito, ele disse que estava muito bom, mas que a gente podia
botar uma coisinha ali, e isso ajudou muito na resolução do filme. Mulheres:
Você foi premiada com esse filme, não é? Cristina
Amaral: Fui, em Gramado. Teve
um dia depois quando eu parei de fazer o “Causa Secreta”, o Carlão me bipou
. Eu vi um recado do Carlão Reichenbach e eu disse “Nossa!”. Eu liguei para
ele e ele me perguntou se eu estava fazendo alguma coisa e eu respondi que não,
que eu estava em casa. Na verdade, devia ter algum curtinha que eu estava
mexendo. Aí ele me perguntou se eu não queria perder uma tarde com ele na
moviola, e eu, “Claro”. Eu sabia que ele tinha ganhado um prêmio, acho que
da Prefeitura, para fazer o “Alma Corsária” e estava feliz de saber que eu
ia ver mais um filme do Carlão. Várias pessoas tinham me dito para procurar o
Carlão para montar o filme dele e eu falava que isso não se faz, a gente não
se oferece para montar um filme. Ele
me falou, ao telefone, que precisava selecionar um material em 16mm que ele iria
ampliar para usar no filme e queria saber se eu podia ir com ele para separar
esse material. Fomos à Beca e eu te juro que achava que eu só ia ajudá-lo a
separar esse material e já estava muito feliz da vida por causa disso. Daí
separamos, trabalhamos a tarde inteira, foi super gostoso. Quando já estávamos
acabando ele me disse que tinha mais alguma coisa que queria falar comigo e me
perguntou se eu queria montar o filme dele (risos). Só rindo, né? A sorte é
que eu estava sentada, eu falei “Jura Carlão?”. Ele disse “Ta aqui o
projeto”. Porque eu achei que eu só tinha ido lá mesmo para separar o
material, porque eu sabia que o Eder Mazini montava os filmes dele, eles são
superamigos, foram sócios, e daí pensava que e o Éder que fosse montar. Mas
parece que ele estava trabalhando na Secretaria da Cultura na época, tinha
algum impedimento, e aí o Carlão me chamou para montar o filme. Aí
eu voltei feliz para casa, mas de noite me deu um medo! Imagina se eu não
consigo? Era o décimo filme dele, acho, como que eu vou trabalhar com um
diretor que já tem dez longas-metragens? Já fotografou quarenta, como é que
eu vou fazer? Fiquei em pânico. Daí foi passando, veio o Carlão com aquela
generosidade dele, me deu o roteiro, que era lindo, nossa... eu acho que esse
foi um marco divisor no meu trabalho de montagem. Com tudo que foi bom antes,
com tudo que tem sido bom depois, mas esse foi o marco divisor. Porque aí a
gente fez esse filme, mas eu não sei como ele e a Sara (Sara Silveira,
produtora) conseguiram fazer. Não tinha nada de grana, era muito pouca grana, a
gente teve que interromper o filme durante um tempo, porque não tinha dinheiro
para continuar. Eu não sei como a gente viveu durante aquele ano, eu te juro
que eu não lembro, eu não sei. Mulheres:
Isso foi quando? Cristina
Amaral: Isso foi 92 para 93. Durante o ano de 93 a gente montou o filme. Eu
não sei, eu morava com a minha irmã, que segurou as contas da casa. Alguém
ajudava a Sara, outro ao Carlão. Eu não me lembro de ter alguma sensação de
lamento quanto à falta de grana, porque eu vivi aquele filme o ano inteiro. Era
um universo que me permeou o ano inteiro e era só aquilo. Eu só me lembro do
prazer de fazer esse trabalho, eu não me lembro das dificuldades. É engraçado,
racionalmente, quando eu paro, eu me lembro, tanto que eu de digo que eu não
sei como é que a gente viveu, foi muito difícil. Mas foi um prazer tão
grande, uma coisa tão linda fazer esse filme. E o filme veio impregnado do
carinho de toda a equipe, que também filmou com dificuldade. O trabalho da
continuísta, o da assistente de direção, do que fez o som guia, dos atores.
Cada fotograma exalava essa coisa afetuosa, esse desejo de fazer uma coisa
bonita, isso foi impressionante. E
a gente foi fazendo. Foi também um processo de aprendizado, que foi outra coisa
que o Carlão me ensinou. Além do carinho, do cuidado, ele foi me deixando à
vontade para eu não ficar com medo e conseguir fazer o filme. Ele me ajudou em
tudo, e a gente cumpriu todos os prazos, porque não podia passar um dia. Aí
chegou um momento que o Donald Ranvaud soube
que o Carlão estava fazendo um filme e mandou uma carta. Aliás, foi um fax o
que ele passou para o irmão dele que mora aqui no Brasil, pedindo para que o
Carlão entrasse em contato porque ele queria participar de alguma forma do
filme. Eu me lembro que eu traduzi esse fax. Daí ele veio para o Brasil e pagou
toda a finalização do som, o estúdio de som. Aí nós dublamos o filme, só
que daí não tinha dinheiro para
pagar a parte da montagem final , para poder depois voltar para o estúdio e
mixar. Eu
me lembro de um dia em que a Sara, com aquele jeitão dela, seriíssima, brava,
chegou dizendo que a gente ia ter que parar. Eu estava sentada na moviola com o
Carlão ao meu lado. Eu olhei para a cara dela e disse “Mas de jeito
nenhum!” E aí ela começou a brigar comigo “Tu vai pagar? Vai pagar as
contas? Eu não tenho como pagar”. Eu falei “Dessa cadeira ninguém me tira
agora, porque a gente tem isso até aqui pronto, até aqui tá pago,e a etapa
que vem depois está paga também, eu não vou parar agora”. E ela perguntava
para o Carlão como a gente ia fazer. Aí eu perguntei para o Carlão se ele
topava e falei para ela pendurar a gente. Eu disse a ela
"você tem crédito comigo e com a sala de montagem, algum dia você
paga a gente, nós vamos fazer" . Foi
muito bom eu ter sido teimosa àquela hora, eu não costumo ser problema para
produção nenhuma, mas ali eu saquei que era eu quem tinha condição de
resolver aquela situação.A gente só precisava fazer o corte final do filme
para poder voltar ao estúdio para a mixagem, que já estava paga pelo Donald
Ranvaud. Ela estava fazendo o papel dela corretíssima, como sempre. Como não
tinha dinheiro ela disse que ia parar, e não havia perspectiva de quando iria
ter. Eu disse que dava o aval para a sala de montagem porque eu trabalhava com
eles direto, fui eu que tinha levado o filme para lá. Comigo estava tudo certo
e eu disse que íamos fazer. Como o Carlão topou,
eu disse “Sara, tchau, deixa a gente trabalhar”. (risos). E aí
terminamos a montagem do filme. A gente terminou, mixou, tudo sem perspectiva de
dinheiro. Durante a mixagem a gente tomou uma puxada de tapete em um concurso
que teve aqui em São Paulo, que eu não me conformo até hoje por ele não ter
sido selecionado para finalização. Mas
tudo bem, terminamos de mixar o filme e ele ficou lá esperando ter dinheiro
para terminar de vez. Foi quando teve o Festival de Brasília e, via Secretaria
do Audiovisual, criou-se um apoio para os filme serem finalizados para
participarem do Festival. Se eu tivesse parado lá atrás a gente não teria
conseguido ir para Brasília. Deu porque a gente ficou uma semana
no laboratório, o Carlão marcando luz, eu já tinha encaminhado pra
montagem negativo antes, estava tudo preparado. Fiquei acompanhando a finalização
de montagem negativo, encaixar truca, essas coisas, e o Festival correndo lá. A
gente ia passar o filme terça-feira no festival e saímos com ele no domingo
daqui. Sábado saiu a cópia e no domingo saímos cada um com duas latas no colo
(risos), porque eu não quis despachar e o Carlão também não quis. A Sara
dizia,“Vocês são loucos! Imagina viajar com as latas na mão! Vamos
perguntar para a moça no balcão de embarque, É super seguro despachar!”
Fomos falar com a moça no aeroporto e ela não nos deu
garantia nenhuma e eu disse “vamos levar as latas, vamos seguir o que o
Glauber dizia , as latas vão com a gente, no colo”. Chegamos lá com as latas
nas mãos e na terça-feira o filme foi exibido. Teve
a primeira exibição, que foi para o público e a imprensa junto, porque não
fizemos nenhuma antes. E foi uma das coisas mais fortes que eu já vivi na minha
vida também. Eu sabia que estava tendo problema na projeção, um dos
projetores estava com problema de som, então eu subi e fiquei na cabine, não
fiquei na platéia. Eu fiquei o filme inteiro na cabine. Eu vi que o cinema
estava lotado e que ninguém tinha saído da sala. A gente estava morrendo de
medo porque tinha ficado uma expectativa, as pessoas esperando a semana inteira
o filme do Carlão em Brasília. A gente sabia o filme que tinha feito, mas é
sempre uma incógnita, ainda mais quando se cria muita expectativa, você tem
mais chance de decepcionar. Lá
de cima eu olhava, mas não via a recepção da platéia. No entanto, eu vi que
não tinha saído uma mosca da sala de cinema. Na hora em que desci, parecia que
tinha acontecido sei lá o quê dentro daquela sala. As pessoas não saíam,
tinha gente chorando pra tudo em quanto é canto, o que veio de gente me abraçar,
foi uma coisa. O Carlão levou duas horas para conseguir sair do saguão do
cinema. A gente querendo ir comer, com fome, e ele não conseguia sair porque
cada hora vinha alguém falar com ele. Foi uma coisa impressionante. No
dia seguinte, como a imprensa só tinha assistido na noite anterior, não saiu
matéria nenhuma. No outro dia, eu estava dividindo quarto com a Sara no hotel,
o Carlão liga para lá, acorda a gente aos prantos e chama para irmos ao seu
quarto para ver os jornais. Ele estava com a cama forrada de jornais com matérias
enormes e eu te digo que foi a partir daquele momento que a imprensa brasileira
passou a respeitar o cinema brasileiro. Teve uma mudança e isso eu falo não é
por paixão pelo filme, não é não, porque eu tenho um arquivo em casa de
recortes de jornais sobre cinema brasileiro. E eu me lembro como o cinema
brasileiro era tratado antes. Daí
teve aquela confusão com o Collor (Fernando Collor de Mello, ex-Presidente),
final de Embrafilme, aquela panacéia toda, aquele hiato em que ficaram sós os
curtas-metragens. E a postura era: cinema brasileiro não vi, não gostei, não
vou ver. Só que ali houve uma atitude de respeito. Até quem não gostou do
filme falou com respeito, porque não é só ficar paparicando, isso não ajuda
também. Teve uma mudança de atitude ali. Depois foi a premiação, foi tudo
lindo, foi muito bonito aquele Festival e a história desse filme todo. A partir
dali o meu trabalho deu um salto, deu uma alteração mesmo a partir dali. E,
outra coisa que eu ia esquecendo de dizer, que o trabalho com o Carlão provocou
uma outra linha divisória na minha vida, que é o seguinte: as pessoas gostam
de justificar falta de educação, falta de respeito pela genialidade. Dizem
assim, “o cara é insuportável, maltrata todo mundo, é grosso, neurótico,
mas é genial”. E eu digo, o Carlão é a prova do contrário, porque ele tem
um trabalho totalmente autoral, é um criador assombrosamente talentoso, e é
absolutamente agradável, amoroso, gentil, amigo de sua equipe. É o primeiro a
manter a calma, é o primeiro a buscar solução para os problemas. Eu costumo
dizer que o Carlão “estraga” a gente, porque se antes eu já não aguentava
muito, depois de trabalhar com ele eu não suporto nem um pouco gente
chiliquenta ou neurótica. Existem pessoas instrumentalizadas para lidar com
isso. Eu fiz curso de cinema, e não psiquiatria, não sei como lidar com isso,
não trato ninguém mal , e gosto mais da minha saúde. Mulheres:
E você virou parceira oficial do Carlão. Cristina
Amaral: Virei e serei enquanto ele quiser, com o maior prazer. Nós fizemos
“Dois Córregos”, alguns curtas, o “Olhar e Sensação”, o “Equilíbrio
e Graça”, fizemos alguns videozinhos também, um para o Guarnicê de
brincadeira, que é superbonitinho. Daí fizemos o “Garotas do Abc”, o
“Bens Confiscados”, vamos fazer o “Lucineide Falsa Loira” e o que mais
ele quiser. O Carlão tem uma expressão muito bonita para as pessoas muito
amigas, e eu vou emprestar esssa expressão, que é "irmão de
universo". É isso, ele é um irmão meu de universo, e hoje , a Ligia, a
Eleonora, o Luís e o Leonel fazem parte desta minha família cósmica. Eu fico
com saudade quando passo 15 dias sem falar ou saber deles. Mulheres:
Agora, uma coisa que você já até permeou e que eu também concordo. O
cinema tem vários componentes e todos eles importantes, cenário, figurino,
atores, etc. Mas a montagem é meio o coração do filme, porque é o momento em
que o diretor e o montador vão dar o olhar final daquele objeto filmado. A
partir disso, já aconteceu de você ser convidada a fazer uma montagem de algum
projeto que em princípio você não se interessaria, mas acabou fazendo? Ou que
você tenha recusado? Aconteceu isso alguma vez? Cristina
Amaral: Já teve coisa que eu recusei. Agora, na verdade, eu não tenho
problema, por exemplo, se o cara diz que seu filme está super problemático. Eu
monto primeiros filmes direto e gosto de fazer isso. Eu continuo montando curtas
de vez em quando, porque não tem dado muito tempo. Nunca dá para sentar e
dizer “vou montar”. Eu sempre peço para deixar eu olhar para ver o que é
aquilo, o que está me dizendo, escutar o que o diretor está pensando. É um
processo de conhecimento o tempo inteiro. Às vezes há um filme que parece que
não vai dar nada, que em termos de resultado fica problemático, mas que o
processo de trabalho é muito rico. Então me interessa esse processo de
aprendizado. O resultado é bacana, mas para mim o processo é que é mais
importante. Foram
poucas as vezes em que eu recusei, em alguns casos eu tive que recusar por falta
de tempo. Só se fosse alguma coisa que eu considerasse muito sórdida em termos
de comportamento humano, fosse execrável, tem que ser muito filha da puta para
eu não querer fazer. Porque se eu perceber uma carga de humanidade, de intenção
decente, não tem porque não ir junto. Mulheres:
Dos filmes que estão sendo mostrados hoje, dos últimos, o que você gostou? Cristina
Amaral: Na verdade, dos últimos eu vi muito pouco. Esse ano foi de trabalho
muito intenso, começando às nove da manhã e indo até às nove, dez da noite.
Então eu só consigo ir é lá na Sessão do Comodoro (risos) – (sessões
mensais organizadas por Carlos Reinchenbach com filme alternativos e clássicos).
Mas eu vi pouca coisa, às vezes na tela da televisão, quando passa. E vi muito
pouca coisa interessante. É complicado porque eu tenho visto as pessoas
soltando fogos de artifício por pouca coisa. Eu acho que a gente sempre deve
ter uma atitude mais austera, porque eu costumo dizer que só a ignorância faz
a gente se sentir genial. Porque se a gente for olhar o que já foi feito pra trás,
o monte de coisa que já foi feita, que está sendo feita, e imaginar a
quantidade de coisa que não temos condição de assistir a gente se põe no
nosso tamanho. O Ugo Giorgetti, que é muito engraçado, costuma dizer “Sempre
que eu acordo muito cheio de mim eu pego algum filme muito bom para assistir”.
Tecnicamente,
eles estão sendo bem realizados, mas é uma coisa de recurso financeiro. A
produção dos filmes antes não tinha condição, a gente não tinha os laboratórios
com condição, faltavam recursos técnicos para conseguir algumas coisas, em
termos de resultados para o cinema brasileiro que hoje tem.
Tem até menos pelo cinema brasileiro e mais por conta de um projeto de
invasão que a gente sabe. Vou
desviar um cisquinho só. Quando eles começaram a descer as multisalas
aqui no Brasil, era uma época em que se reclamava muito, que a
bilheteria dos filmes estava baixa, que os filmes não conseguiam se manter
muito tempo nas salas. Não era um momento grandioso, como não é até agora se
você pensar em termos de público geral para o cinema. E me estranhou, eu me
lembro que um dia comentei que achava engraçado que não fazia muito sentido em
um momento que você está com baixa clientela, você aumentar as lojas. Não
tem muita lógica, mas se você pensar nessa lógica normal, comercial.
Agora, se você pensa em termos de uma estratégia de invasão, de tomar
uma posse maior, faz todo sentido, que é preparar o terreno. Foi
isso, e como foi preparar o terreno em várias coisas, como é dentro dos
laboratórios. Tem laboratório que
a gente pensa que é brasileiro, mas se for ver ele é todo monitorado pela
Kodak, via Nova York, via Chile, via Argentina, entendeu? E a gente está aqui
achando que estamos com a bola na mão, com as rédeas na mão. Sem contar com a
interferência nos cursos de cinema, e isso é mais sério ainda. Que é para
formatar profissionais para uma coisa que eles precisam. Então
é assim, a gente sabe que o cinema americano, eles vêm aqui, não é só
distribuidor que tem a sala, a gente sabe que não é só isso. O Denoy uma vez
me mostrou uma carta que o Concine recebeu do Jack Valenti, quando era
presidente da Motion Pictures. Era uma coisa de uma ameaça, de uma chantagem,
estava chantageando mesmo, porque era uma época em que o Brasil ia começar a
fazer a legislação para o vídeohome. E eles já ligaram as antenas e caíram
no Concine, tem uma carta ameaçando “vocês também querem vender sapatos
aqui”. Talvez eu tenha em casa cópia dessa carta. Eles
têm sempre alguém morando aqui, seja no Rio de Janeiro, seja em Brasília. É
uma coisa que vai via governo, via congresso, é via legislação que eles agem.
Quando se fala de projeto, inclusive essa tentativa de barrar esse projeto que
está super malhado por todos os lados agora, a Ancinav é o que tenta brecar
isso. O projeto anterior era você criar condições legais para que eles
venham, porque ilegalmente eles já estão aqui. Já estão filmando. Tem
produtoras de vídeo que são testa-de-ferro de produção americana aqui
direto. Não
precisa ser muito investigador para ver essas coisas, toda hora você ouve falar
de produção não sei de onde. Agora pergunte se foram lá pedir autorização,
não foi. Agora, só que é melhor vir respaldado, principalmente quando você
tem uma legislação de captação de recurso de isenção de impostos, aí fica
beleza. Porque antes não interessava, senão eles tinham que trazer dinheiro de
fora para isso. Agora pegam o que está aqui e usam, inclusive, brasileiros
testa-de-ferro para isso, e fazem de conta que estão fazendo cinema brasileiro.
Tem
toda uma coisa montada atrás disso. E aí o que acontece, vai-se formatando
tudo, roteiro tem que ser assim, vai-se trabalhando todas as áreas possíveis.
Em termos de laboratório a gente já trabalha com essa tecnologia que é
imposta, dentro de um esquema que é todo imposto por eles. Se a gente não
mantiver um olhar da gente pelo
menos, não precisa fazer. Fazer cópia não é melhor que o original, então não
precisa fazer cópia. Porque parece que o projeto para o Brasil é virar
cineasta de aluguel, é entrar para concorrer ao Oscar. Não pode ser isso. Mulheres:
O Oscar virou um objetivo para muita gente. Cristina
Amaral: E desde quando? Desde quando eu me conheço por gente no cinema, era
o contrário, exatamente o contrário.O Oscar sempre foi a “festa” da indústria
deles. Se a gente pegar os filmes
maravilhosos que ficaram de fora, para quê? As porcarias que ficam, a gente
sabe que não é isso, a gente sabe que é grana, a gente sabe que se você tem
dinheiro para fazer lobby lá, você entra. E entra para fazer papel de jeca, e
é isso que é mais engraçado, porque o “star system” deles é
profissional, eles não dão moleza para ninguém. Mulheres:
A Ancinav foi muito combatida. Cristina
Amaral: Claro, claro. Não sei nem se acontece. Primeiro a gente tem que
voltar para a questão, o que é cinema, o que é imagem. Uma vez eu fiz um
workshop, que era com um cara do National Filmboard do Canadá. Foi na época em
que estava começando essa coisa dos efeitos especiais, imagem digital. E o começo
foi para trabalhar com os efeitos especiais, conseguir um melhor resultado, que
até barateava. Eu
me lembro que ele veio, mostrou, e um tonto qualquer, um deslumbradinho, disse
“Escuta, se você vai rodar em película, tem que passar para vídeo,
digitalizar, para depois fazer os efeitos, porque você já não faz em vídeo?”.
Aí, esse cara do Canadá respondeu com a maior solenidade e disse que o
Instituto de Cinema do Canadá tem, entre outras funções, além de ensino,
divulgação e pesquisa, a função de preservação da imagem do Canadá, e
isso só se faz em película. Nesse
caso eu estou falando mais de uma questão técnica, mas se você tem consciência,
e ninguém tem mais consciência que os americanos, para eles é o segundo exército,
se não for o primeiro. A Europa sabe disso, a China sabe disso, esses países
todos sabem disso, Aqui é que fica essa conversa. A primeira era que tinha que
chegar a captação de recurso, porque o governo não pode ficar tendo que
apoiar a cultura , que tem ser uma livre iniciativa, essa papagaiada toda. Não
é a mesma coisa que eles têm lá, eles se defendem mais que ninguém, só pra
gente que é vergonha defender sua casa, seu terreno. E pior, construir sua própria
casa. Estão nos impedindo disso,
pois se você forma uma geração que acha que bacana é fazer um filme
igualzinho o filme da moda do ano passado você destrói a cabeça de vinte anos
de um país. Ou quando se tentar jogar no esquecimento a obra de autores como Luís
Sérgio Person, Roberto Santos, Joaquim Pedro de Andrade , e mais outros tantos.
Basta uma projeção de "Terra em Transe" ou de "Macunaíma",
ou de" São Paulo SA" para botas as coisas no seu devido lugar e
tamanho. Sabe essas coisas, de gente que não quer olhar para o cinema que foi
feito? Eu
não posso te afirmar, mas eu tenho um sentimento que há uma atitude que é
quase levar para o esquecimento um certo cinema que já foi feito aqui. É como
se fosse assim, agora, a partir daqui, nós é que fazemos, nós é que somos
bacanas. Eu
não quero dizer para ninguém que tipo de cinema tem que ser feito, acho que
todos têm que ser feitos. Mas tem que ser dado a dimensão exata para as
coisas. Então se você quer fazer entretenimento faça, não tenho nada contra.
Mas não venha achar, não vá comprar abertura de festival e ser exibido como o
filme do ano daquele festival. Porque aí vira outra coisa. Eu
acho, inclusive, que está na hora de se resgatar, de um falar um pouco dos
Trapalhões e da Xuxa. Porque durante muito tempo eles fizeram isso, eles foram
lá, levantaram a grana que eles precisavam, ganharam um monte de dinheiro e
tiveram as melhores bilheterias. Se são bons ou não os filmes, eu nem vou
entrar no mérito disso, mas foi uma atitude menos cínica e arrogante, do que
o que a gente está tendo agora. Que é a do cara que a gente sabe que não
foi ele que fez, mas ele chega lá e compra a capa do jornal. Eu acho que está
faltando um pouco mais de seriedade, até para o país. Tem alguns filmes,
inclusive, que são completamente arrivistas, absolutamente reacionários e
fazendo de conta que não são. Nós estamos com a Lei de Gerson nas telas, isso
é muito sério. A
gente tem que pensar, a gente tem que falar da responsabilidade do que estamos
fazendo. Às vezes tem filmes que mexem tanto com a gente, que é uma puta
responsabilidade. Por exemplo, quando você está montando um documentário, uma
entrevista de uma pessoa, você sabe que você pode alterar completamente o que
ela disse, você pode fazer ela dizer o contrário do que ela disse, se você não
tiver responsabilidade e ética no seu trabalho, e isso é uma coisa que a gente
sempre tem que ter. O
filme que me mexeu dos últimos foi o “Filme de Amor”, do Júlio Bressane.
Ali você tem uma coisa que te move, que te instiga, tem uma beleza,
uma poesia que enobrecem o cinema. São poucos os filmes que têm isso.
Eu nem posso te falar muito, porque eu não vi muitos filmes que estão em
cartaz. Eu quero ver o filme do Eduardo Coutinho, porque eu acho que é uma
pessoa que sempre tem o que mostrar, o que dizer, que nos ajuda a questionar, a
tentar entender o Brasil. O do João Moreira Salles, que é um cara que eu
respeito. Quero ver sempre os filmes do Domingos de Oliveira, que faz um cinema
que transita maravilhosamente entre o entretenimento e a reflexão - o
entretenimento não precisa ser emburrecedor, não precisa reduzir a nossa
dimensão de humanidade. Eu vi pouco, mas o que eu vi foi desanimador, apesar
dessa euforia toda nos jornais. Mulheres:
Fale sobre a Extrema. Cristina
Amaral: A Extrema é outro carinho. É engraçado,
porque com o Carlão e com o Andrea eu me sinto cumprindo dois sonhos. Porque
foram dois dos cineastas que eu conheci durante o curso de cinema, eles não são
tão mais velhos do que eu, mas são de uma geração que começou muito jovem,
fez tudo muito jovem. E eu me lembro que foram referências que ficaram sempre
na minha cabeça, eu segui o trabalho deles. Foram raras vezes em que o “Bang
Bang” foi exibido que eu não fui assistir. O Andrea até briga comigo “Você
vai ver de novo?”, e eu vou. E parece que eu estou vendo sempre pela primeira
vez. Eu
fui seguindo sempre, mas eu não tinha o menor contato com eles. Quando eu
estava montando o “Alma Corsária”, o Carlão convidou o Andrea para ver, a
gente estava quase terminando. Estava na etapa final de corte e ele o chamou na
moviola, porque tem uma seqüência que homenageia o “Bang Bang”, que é a
Carolina Ferraz dançando no topo do prédio. Foi linda a projeção, o Andrea
chorou de emoção, ele não esperava jamais, foi uma surpresa para ele. Aí, a
gente conversou um pouquinho. Quando a gente entrou na mixagem ele também foi lá
dar uma olhadinha. Tempos
depois, eu estava quase terminando de mixar o filme e encontro o Joel Iamagi, um
amigo em comum que, inclusive, fez um vídeo sobre o Andrea, e ele me perguntou
se o Tonacci tinha me ligado. Eu disse que não e ele me contou que o Andrea
tinha pedido meu telefone e que ele imaginava que seria para eu montar algum
filme dele. Eu disse “Jura?”. Mas aí ele não ligou e eu fiquei quieta no
meu canto. Depois ele me ligou, com aquele jeitinho também, me perguntando se
eu toparia montar o filme dele. E eu, “Claro!”. Ele
e o Carlão são dois lordes, de uma gentileza, são pessoas que têm realmente
uma qualidade de ser que é muito bonita. Ele quis saber se eu já tinha
terminado o filme do Carlão, para não interferir. Aí eu comecei a montar um
filme dele, que, aliás, ainda não foi finalizado, que é projeto chamado
“Paixões”. O filme está pré-montado. Nós ficamos amigos, a gente sempre
se encontrava, na casa da Sara ou na do Carlão, ou no Mis. Ele
foi fazer uns trabalhos para a Bienal de São Paulo, uns vídeos de arte para
aquela exposição sobre o Século XX e me chamou para ajuda-lo a fazer. Nós
ficamos fazendo uns trabalhos juntos, e aí começou essa história de mudar o
sistema de montagem para computador. Eu fui montar um filme no Avid e odiei.
Gente, não vai dar, aquilo é para escrever. Chegava em casa com a vista
doendo. Os equipamentos de cinema foram construídos levando em consideração o
funcionamento do corpo da gente, tanto a projeção de cinema, a câmera, a
moviola, eles têm um batimento que descansa o olho da gente. E tem o tipo de
projeção, na moviola você tem uma coisa que é projetada numa tela e você
olha a tela, não é uma coisa que é projetada na sua cara. Meu Deus, que bode
que deu, eu me perguntava como é que seria, e um monte de gente dizendo que a
moviola ia acabar. Um
dia o Carlão me apresentou um folhetim de um equipamento chamado Lightworks,
que o Donald Ranvaud tinha mandado para ele e que funciona como uma moviola. Eu
comecei a procurar, aqui ninguém tinha , ninguém conhecia, e o Andrea se
interessou e começou a procurar junto. Ele estava a fim de voltar a produzir,
tinha esses trabalhos na bienal, e muita coisa poderia ter sido feita
internamente se a gente tivesse esse esquema de finalização. Com
isso nós abrimos a sala, a Extrema. Isso foi em 1997, depois eu fui para Los
Angeles, na fábrica do Lightworks, fazer
o treinamento do equipamento. Mulheres:
Aqui vocês já fizeram vários projetos, não é? Cristina
Amaral: Sim, fizemos muitas coisas, a partir
dali fizemos tudo juntos, e tudo o que fiz foi aqui. O Umberto tinha uma moviola
que ele já tinha deixado comigo, então nela eu montei vários curtas. Eu
trouxe essa moviola também e abrimos a produtora. Ficamos um ano nessa sala,
depois um tempo no apartamento do
Andrea, e depois mudamos para cá. O
Andrea dirigiu recentemente “Serras da Desordem”, filme que nós estamos
montando agora. Como todos os trabalhos que fizemos juntos, este tem sido muito
árduo, trabalhoso, intenso, complexo para chegar ao que temos de mais simples e
mais comum, que é a humanidade, que nos irmana e nos torna iguais. Chegar ao
simples, à essência da gente é sempre o mais difícil. Aí é que a gente vê
como o olho da gente vive poluído, a cabeça vive poluída, cheia de
superficialidades. Como sempre, para mim, tem sido
um aprendizado muito grande, de cinema e de vida. Mulheres:
Seu próximo projeto é o novo longa do Carlão, ou tem alguma outra coisa? Cristina
Amaral: Além do filme novo do Carlão, tem
alguns projetos muito bonitos e interessantes, mas eu prefiro não falar das
coisas antes delas estarem acontecendo. Inclusive porque, pela realidade de
produção no Brasil, a gente nunca consegue ter
uma previsão exata de prazos, etc Mulheres:
Uma coisa que eu sempre pergunto para as minhas entrevistadas: qual mulher
você gostaria de citar, de homenagear, que você admira no cinema brasileiro,
de qualquer área e época? Cristina
Amaral: Tem várias. A Sara Silveira é uma, na
produção. A Maria Ionescu também, porque ela e a Sara juntas configuram uma
balança de equilíbrio perfeito, de competencia, de garra, de seriedade, de
energia, de calma, de honestidade. Nossa, tem muitas. Nós temos grandes
atrizes. Tem que pensar para não cometer nenhuma injustiça. As pesquisadoras
Maria do Rosário Caetano e Ivana Bentes pela inteligência, pela coragem,
seriedade, conhecimento e dedicação. Com o olhar amplo, profundo e generoso
que estendem sobre o cinema e a cultura brasileira, elas contribuem de forma
instigante para que seja resgatado ao papel da crítica o trabalho de
complementação e acréscimo de sentido e de valor às obras de que falam. Na
divulgação, promoção, e exibição, eu citaria a Simone Yunes (Cinesesc), Margarida de Oliveira e a Flávia (ProCultura),
a Patrícia Durães (Espaço Unibanco), a Renata de Almeida (Mostra
Internacional de Cinema) que, aliam alegria, doçura, muita competência, muita
seriedade- geram e gerem projetos,
espaços, intercâmbios. Mulheres:
E na montagem? Cristina
Amaral: Nós temos várias montadoras. Eu até
quero usar esse momento para homenagear a Lupe, que foi a primeira montadora do
cinema brasileiro. Outro dia ela veio aqui, porque o Mauro Alice montou o filme
da Elza Cataldo aqui, o “Vi-nho de Rosas”, e a Lupe veio visitar. Nós
mostramos o computador para ela, mostramos a casa. É uma pessoa que eu quero
homenagear. Agora, nós temos várias montadoras, tem a Vera Freire, Idê
Lacreta, Vânia Debs , Marta Luz. Tem a Virgínia Flores que eu adoro, que
montou o “Filme de Amor”, e outros do
Júlio Bressane, que é uma montadora maravilhosa. Mais recente também tem a
montadora dos filmes do Eduardo Coutinho, a Jordana Berg, que é também
maravilhosa. Dessa nova geração eu tenho a maior admiração por essas duas. Mulheres:
Alguma coisa que você queira acrescentar? Cristina
Amaral: As coisas básicas mesmo que são
importantes para a gente falar é isso, é ética, é sinceridade, é as
pessoas, mais do que procurar estratégias que vão dar certo, procurar estudar,
aprofundar a sua expressão. A gente tem que abrir, sair mais da gente e olhar
as coisas que estão sendo feitas. Tem pessoas muito sérias fazendo cinema no
mundo. Outro
dia eu estava falando para o Andrea, ou para o Carlão, que está um instante tão
estranho aqui que ás vezes parece que as parcerias da gente estão longe. Um
dia , durante a última Mostra Internacional , eu vi uma palestra do Amos Gitai
e disse “é isso”, eu senti uma ressonância muito grande entre o cinema que
ele professava naquele momento, e uma coisa muito sentida aqui. Sabe quando você
reafirma uma coisa que parece que escapou e que a gente sabe que faz parte do
dia-a-dia de muita gente aqui no Brasil? Parece que tem um manto estranho sendo
colocado por cima para até esconder essa coisa que é realmente a expressão, a
seriedade, que é o porque que a gente faz cinema. Em
um país como Brasil, onde o cinema custa tão caro, se você imaginar um filme
de baixo orçamento que você faz por um milhão e meio suando, é muito
dinheiro. Não é que eu acho que é muito dinheiro para um filme, mas é que a
gente tem que fazer valer isso e ser mais que isso. Porque não é só para o
cara que produziu botar o dinheiro no bolso ou o cara que entre aspas dirigiu e
sair no jornal para resolver o problema de ego que ele deveria resolver na
terapia. É mais responsabilidade que isso. É filme para que daqui há cem anos
as pessoas assistirem e terem alguma comunhão ainda com o que está lá na
tela. Eu
fico meio com medo, preocupada, me entristece um pouco pelo pessoal mais novo
que já começa com essa imposição em cima deles, não estão tendo a chance
de sonhar, de errar. A gente erra o tempo inteiro, até hoje eu não sento para
montar um filme com certeza. E os grandes diretores, os de verdade que eu me
sentei ao lado deles, também. Eu vejo a captação, a expressão de uma angústia,
de um sentimento interior de um país, que é mais do que de uma pessoa, é
sempre muito maior que o cara. E é o contrário, tem a dúvida, a busca, sem
isso não há muito porque fazer cinema, não há muito porque fazer arte. È
muito delicado fazer desse jeito e no trabalho de montagem você tem muita
proximidade com as pessoas, é muito íntimo. A cabeça da pessoa fica muito
presente. Há
um momento que parece que acende uma luz e o filme se revela para a gente.
Durante muito tempo você fica quase tateando no escuro, é cheio de labirintos,
mas tem uma hora que acende uma luz e você vai junto, não dá muito erro, ele
se revela para a gente. Então, nesse momento, são duas cabeças atrás de um
mesmo olhar ou dois olhares atrás de uma mesma cabeça. A gente tem que
conseguir chegar nessa comunhão, nesse nível de cumplicidade para realizar o
trabalho. Eu
vou repetir aqui uma frase que eu costumo dizer, e que na primeira vez que eu
disse eu levei um susto, saiu assim. Fazendo o trabalho de montagem, quando se
está no meio, já mergulhada no filme, uma vez me deu um certo constrangimento,
me deu uma sensação de estar invadindo uma alma sem pedir licença. Aí depois
eu parei e me indaguei o que era aquilo que eu tinha falado, que coisa séria.
Mas na verdade, é um pouco isso mesmo. O que é um filme, quando é essa coisa
intensa, séria? É a expressão de uma visão de mundo, que no fundo é alma da
pessoa. De repente eu estou compartilhando, de uma certa forma eu estou me
revelando também. É um desvendamento de ambas as partes, o processo de
trabalho é sempre revelador da gente. Isso
tudo é muito sério, se o que você está colocando ali não é honesto, não
é sincero, é uma estratégia apenas para fazer o cara ir lá pagar, você
deteriora a relação que você estabeleceu com o seu trabalho já no começo.
É buscar de novo essa coisa intensa. É preciso muito cuidado,
porque o som é energia que vai embora, a imagem impregna na cabeça, na
vida das pessoas. Esse cuidado, essa atitude mais humana mesmo e menos estratégica
é essencial manter. Na hora em que entra a estratégia ,a criação vai embora. Mulheres:
Muito obrigado pela entrevista. Cristina Amaral: Eu é que agradeço. Entrevista realizada em janeiro de 2005 |
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