|
ANDREA
ORMOND

Foto:
acervo pessoal
Estranho
Encontro. Este é o endereço
onde acontece, atualmente, o mais interessante olhar sobre a cinematografia
brasileira. Editado pela carioca Andréa Ormond, este blog é
obrigatório para cinéfilos e pesquisadores do cinema brasileiro.
Aliás, identificar Andréa Ormond apenas como crítica
é um reducionismo, pois em seu blog, ela não apenas analisa
nossa filmografia, ela resgata filmes, além dos ocasionais artigos
e entrevistas com personalidades fundamentais do cinema nacional, mas
que não estão sob as luzes da mídia. Tudo isso faz
de Andréa Ormond uma pesquisadora, e como todo autêntico
pesquisador, seja os veteranos Antônio Leão e Maria do Rosário
Caetano ou jovens como Matheus Trunk, é apaixonante e generosa.
Andréa Ormond é graduada em letras e finaliza o curso de
Direito. É também escritora, publicou, com repercussão,
o livro “Longa Carta Para Mila”. Como o próprio nome do blog indica,
tem paixão pelo cinema de Walter Hugo Khouri – sentimento compartilhado
por esse editor. E dá a medida certa para o cinema dele: “São
filmes que elevaram o cinema brasileiro a um patamar de expressão
poucas vezes alcançado, na medida em que ele também investigava
um mundo supra-cinematográfico, um caldo cultural que incluía
artes plásticas, filosofia, psicanálise, literatura. Nada
nos filmes do Khouri é por acaso, por isso me espanto ao ver que
ele não é comentado com a freqüência necessária”.
Tem paixão também pelo cinema paulista, não à
toa participou da obrigatória Revista
Zingu, editada por Matheus Trunk e especializada nesse cinema. Sua
clareza sobre a complexidade do cinema brasileiro conquista de imediato:
“Fui percebendo que muito do que se fala sobre o cinema nacional é
contado de forma cindida, sem se ter a percepção do todo.
Nós não somos apenas mercadores do sexo de um lado e intelectuais
herméticos de outro. Somos muito mais, diversos e ilimitados”.
Desde janeiro que o Mulheres tinha entrado em contato com Andréa
Ormond para esta entrevista. Mas daí veio a mudança de design
e o longo tempo de “conserto” do site, pois muitos links quase desapareceram
– ainda hoje vou reencontrando um e outro. Finalmente, conseguimos realizar
este bate-papo. Andréa estava em férias, mas, generosamente,
fomos conversando em uns tantos emails. Aqui, ela fala de sua paixão
pelo cinema nacional, fala de cineastas e filmes, comenta sobre seu artigo
inteligentíssimo sobre cinema popular e pornochanchada, e nos brinda
com reflexões para um tipo de cinema muitas vezes renegado pela
crítica, dando sequência a um tipo de recorte que sempre
foi feito por luminares como Rubem Biáfora e Jairo Ferreira.
Mulheres: Me fale sobre a sua formação
- é advogada e escritora, não é isso?
Andréa Ormond: Sou formada em Letras pela PUC-Rio,
e concluo este ano minha graduação em Direito, pela mesma
universidade. Desde pequena sempre tive uma queda natural por ler e escrever,
mas sem aquela coisa chata, pedante, do intelectual que se isola do mundo,
no alto do Himalaia, sem qualquer contato com a realidade. É por
isso que, quando paro para pensar sobre a minha formação,
acho que ela foi e está sendo uma mistura de livros, filmes, viagens,
amizades e aventuras, que explicam o fato de eu batalhar num ambiente
formal como o do Direito e ao mesmo tempo também gostar de um ambiente
mais lúdico, como é o das artes em geral.
Mulheres: Você nasceu onde e quando?
Andréa Ormond: No Rio de Janeiro, em 1977.
Mulheres: De onde e de que momento vem a sua relação
com o cinema brasileiro?
Andréa Ormond: Olha, como toda brasileira, cresci
ouvindo horrores do cinema nacional. “Muito sexo, muito comercialismo,
muita vontade de ganhar dinheiro a qualquer custo, explorando a tendência
natural dos latinos de se interessarem pelos assuntos de cama e mesa.”
E é claro que na cabeça de uma criança ou de uma
adolescente (ou mesmo de um adulto, vamos ser sinceros) tudo o que é
proibido é mais atraente, instiga a curiosidade de sabermos como
é, o que é, do que se trata (risos). Além disso,
a TV aberta sempre passava filmes nacionais, em horários pouco
convidativos, mas que todo mundo achava o máximo ver e comentar
no dia seguinte, na escola. Mas o que me marcou profundamente, e é
a base da minha descoberta pelo que amo no cinema nacional, foram as seções
de nacionais das locadoras de vhs. Ali se abriu um mundo novo para mim.
Tinha de tudo: os standards da intelligentsia brasileira, filmes pops
dos anos 80, Atlântida, Vera Cruz e sobretudo Walter Hugo Khouri.
Fui percebendo que muito do que se fala sobre o cinema nacional é
contado de forma cindida, sem se ter a percepção do todo.
Nós não somos apenas mercadores do sexo de um lado e intelectuais
herméticos de outro. Somos muito mais, diversos e ilimitados. Com
o advento do Canal Brasil, como contei em um dos meus textos no Estranho
Encontro, esta compreensão ficou ainda maior, pois só aí
tive acesso a filmes que nem mesmo em mostras ou salas de cinema especializadas
podia ver.
Mulheres: Você acha que o público mudou
em relação à forma de apreciação e
de entendimento do cinema brasileiro?
Andréa Ormond: Acho que a visão que o público
tem do cinema brasileiro mudou, talvez tenha se tornado um pouco mais
tolerante. Mas ainda há certo divórcio filme x público,
e acredito que seja necessário todo um movimento cultural forte
para mudar isso. Não é coisa fácil, que vá
se fazer do dia para noite. Por outro lado, hoje em dia o cinema brasileiro
antigo pode ser revisto e revalorizado, para quem sabe influenciar uma
nova geração de cineastas. Ainda falta alguém olhar
para trás e se perguntar, “o que era bom?”, e daí construir
algo legitimamente brasileiro e realmente novo.
Mulheres: Você se lembra qual foi o primeiro filme
brasileiro que assistiu?
Andréa Ormond: Essa é difícil de
lembrar… Deixa ver… Bom, não sei se foi o primeiro filme brasileiro
que eu vi, mas é provável que tenha sido dos Trapalhões,
que aliás, introduziram grande parte das pessoas da minha geração
no público do cinema nacional.
Mulheres: Levando-se em conta todas as diferenças
dos tempos entre um e outro, como você vê, se é possível
fazer um retrospecto neste sentido, três cinemas de grande público:
Mazzaropi, Trapalhões e Xuxa?
Andréa Ormond: São três momentos
do cinema popular que mostram o quanto existe público para o cinema
brasileiro. Na minha opinião, o Mazzaropi era um gênio da
linguagem do povo. Já os Trapalhões eram ótimos comediantes,
que marcaram muito um período específico dos anos 70 e 80
no país. A Xuxa foi um fenômeno de massas, aproveitado também
no cinema, e não creio que haja algo além disso para ser
dito sobre sua performance cinematográfica.
Mulheres: Como se deu sua paixão por Walter Hugo
Khouri? O que você gosta mais e o que você gosta menos no
cinema dele? Ou gosta de tudo?
Andréa Ormond: A paixão pelo cinema do
Khouri veio nessa exploração das velhas locadoras de filmes
brasileiros. O que mais gosto nele é a firmeza dos seus propósitos.
Khouri sabia exatamente o que queria, tinha um ideal de cinema e o praticava
sem ceder às pressões. E todos contam que eram muitas, vinham
de todos os lados. Isso não é pouco para um artista de um
país pobre, em que as chances de se expressar são bastantes
reduzidas. Infelizmente, nos últimos filmes Khouri parecia um pouco
cansado, e não produziu coisas tão boas quanto as dos anos
60, 70 e 80.
Mulheres: Dá para você citar alguns títulos
desses dois momentos do Khouri?
Andréa Ormond: Dos grandes filmes do Khouri, dá
para destacar além dos sempre citados “Noite Vazia”, “Eros”, “Corpo
Ardente”, “As Amorosas”, etc., quase todas as suas produções
dos anos 70. “O Último Êxtase” é uma obra-prima irretocável,
e mais “Palácio dos Anjos”, “As Deusas”, “O Anjo da Noite”. São
filmes que elevaram o cinema brasileiro a um patamar de expressão
poucas vezes alcançado, na medida em que ele também investigava
um mundo supra-cinematográfico, um caldo cultural que incluía
artes plásticas, filosofia, psicanálise, literatura. Nada
nos filmes do Khouri é por acaso, por isso me espanto ao ver que
ele não é comentado com a freqüência necessária.
Nos anos 90, “Forever”, “As Feras” e “Paixão Perdida” são
apenas razoáveis, não têm o mesmo brilho de antes.
Mulheres: O Khouri filmou muitas das mais belas e importantes
atrizes brasileiras. Quais atrizes você lamenta não ter sido
filmadas por Khouri e, caso ele estivesse vivo, quais imaginaria que ele
estaria filmando?
Andréa Ormond: Das atrizes do seu tempo, fico
imaginando o que poderiam ter sido filmes com Leila Diniz e Maria Della
Costa, por exemplo. Apesar de bem diferentes, são divas que renderiam
bastante nas mãos de Khouri. Das atrizes atuais, Maria Luiza Mendonça
é o primeiro nome que me vem à cabeça agora.
Mulheres: Quero te propor alguns nomes de atrizes filmadas
por Khouri para você comentar. É um verdadeiro abecedário,
mas não resisto em te pedir isso (pode ser em uma, duas ou três
linhas, e pode escolher, não precisa ser todas, isso é abuso
meu).
(dos nomes sugeridos, Andréa escolheu os abaixos):
Lilian Lemmertz
Minha atriz preferida no cinema brasileiro. Belíssima, de uma fotogenia
assombrosa. Em um close a Lilian conseguia demonstrar a essência
da personagem e a do filme em si, tal a forma com que o rosto, a expressão
e a inteligência da interpretação ficam grudadas na
memória do espectador. E pensar que o Khouri a descobriu em uma
viagem de elevador (risos), e a convidou para “Noite Vazia”, papel que
ela própria recusou por não se achar pronta, aparecendo
apenas no “O Corpo Ardente”.
Adriana Prieto
A Adriana Prieto personifica aquela lenda clássica de os heróis
morrerem jovens. Acho que essa é a característica que nós
pensamos logo de cara quando lembramos dela. Mas existem dois dados interessantes
e que poucos lembram. A amizade dela com o irmão, Carlos, maquiador
e ator bissexto, que aparece inclusive no “Rainha Diaba”. O Carlos Prieto
estudava os traços, a postura e a persona da Adriana. Outro aspecto
interessante é que a Adriana, apesar de ter nascido na Argentina,
foi criada no subúrbio do Rio, longe do glamour cinematográfico
da Zona Sul.
Sandra Bréa
Sempre associo a Sandra Bréa ao final dos anos 70. A Sandra vedete,
explosiva, e que como todos sabem acabou comprometendo grande parte das
suas possibilidades pela postura louquérrima fora das câmeras.
Além disso, é curioso ver que dois dos seus trabalhos mais
expressivos no cinema, o “República dos Assassinos”, do Miguel
Faria Jr., e “A Herança dos Devassos”, do Alfredo Sternheim, têm
um tom introspectivo, atormentado, que abrem a possibilidade para a gente
entender a performance da atriz sob outros ângulos.
Mulheres: A Lola Brah está no filme que dá
nome ao seu blog e é uma atriz que gosto muito. Mas acho que ela
não tem o reconhecimento merecido em relação à
importância que teve no cinema brasileiro. Você concorda ou
não? Dá para você comentar sobre ela?
Andréa Ormond: A Lola Brah teve uma trajetória
muito interessante, não só profissional, mas pessoal também.
Refugiada da Rússia, ela atuou, por exemplo, no “Ravina” do Biáfora,
no “Estranho Encontro” e no “Fronteiras do Inferno”, estes dois do Khouri.
E como acontece muito aqui no Brasil, na geléia geral brasileira,
como diria o Gilberto Gil, ela foi parar aonde? No “Bandido da Luz Vermelha”!
(risos) Veja só, como é sempre bom mantermos aquele alerta
sobre o qual a gente falava agora há pouco: as pessoas não
podem entender um fenômeno artístico e cultural, como o cinema,
de uma forma cindida, estigmatizada. Uma atriz da Vera Cruz trabalhando
com o Sganzerla e depois com o Pedro Carlos Rovái, no “Ainda Agarro
Esta Vizinha”, naquela loucura toda, ao lado da Adriana Prieto, do Hugo
Bidet, do Fregolente. A Lola Brah personifica um desses “causos” do cinema
brasileiro que merecem e precisam ser revistos e revalorizados.
Mulheres: Como nasceu o blog Estranho Encontro?
Andrea Ormond: Eu tinha o costume de escrever críticas,
pensando em um dia publicá-las em livro. Ainda faço isso
em relação a filmes latino-americanos de que gosto muito,
talvez um dia publique algo nesse sentido. Mas em relação
aos filmes brasileiros, ali por 2005, descobri o mundo dos blogs de cinema,
que era menor do que hoje, mas já estava bem atuante. Foi então
que concluí que era a forma mais fácil de difundir idéias
sobre cinema ou sobre qualquer assunto, com ampla liberdade e a custo
zero, e venho utilizando-o desde então.
Mulheres: O subtítulo do blog diz “cinema brasileiro
pela ótica feminina”. O que
quer dizer “ótica feminina”? Você acredita que há
um “olhar feminino” no
cinema brasileiro?
Andréa Ormond: O subtítulo nasceu na hora
em que estava construindo o blog. A crítica de cinema no Brasil,
feita por mulheres, é muito restrita. Sobre cinema brasileiro então,
é raríssima. Eu quis chamar atenção justamente
para isso, sobre ser um trabalho crítico feito por uma mulher,
falando sem preconceitos sobre todos os aspectos do cinema brasileiro.
Agora, sobre existir um olhar feminino no cinema brasileiro, que é
uma questão completamente diferente, acho que nunca houve um movimento,
crítico ou fílmico, que canalizasse o debate para isso.
Até mesmo porque homens ou mulheres não podem se isolar
em ilhas, e se pudessem, creio eu, o mundo ficaria muito chato (risos).
Mulheres: Sim, são questões diferentes,
mas emendei uma na outra porque a segunda é uma questão
que me interessa muito. Já vi algumas mulheres falando sobre esse
possível olhar feminino no cinema, algo que não compreendo
ainda muito bem. Nas suas críticas sobre tantos filmes no Estranho
Encontro você chegou a perceber alguma diferença quando o
filme foi dirigido por uma mulher?
Andréa Ormond: Não consigo perceber isso.
Acho que as autoras e os autores possuem universos próprios, trabalham
com tendências e obsessões que lhes são particulares.
Claro que também existem filmes sem qualquer característica
autoral, realizados como produtos para serem colocados no mercado. Então,
as características que chamam a minha atenção para
determinado filme não tem a ver com o fato de ele ser feito por
mulheres ou homens, acabo não vendo isso como uma determinante.
Mulheres: Você escreveu um artigo interessante
distinguindo cinema popular e
pornochanchada. Você pode falar um pouco sobre isso aqui no Mulheres?
Andréa Ormond: Como eu disse no artigo, me parece
contraproducente que filmes policiais, dramas e comédias de costumes
sem qualquer conteúdo erótico sejam ainda chamados de “pornochanchadas”,
apenas porque eram feitos naquele mesmo esquema de produção
da Boca do Lixo e do cinema independente carioca. O cinema policial brasileiro
é riquíssimo, um gênero único, e merece ser
chamado por seu nome próprio. Dizer que Khouri fez pornochanchadas
também é absurdo, uma injustiça tremenda. Isso não
desmerece as verdadeiras pornochanchadas, pelo contrário, as difere
e valoriza enquanto gênero singular. Esta diferenciação
sempre me pareceu importante, para que o cinema brasileiro possa ser revisto
sem um julgamento apressado e parcial. Ele é muito maior e tem
muito mais diversidade do que uma divisão tola e maniqueísta
entre engajados e pornógrafos.
Mulheres: Dá para você citar alguns filmes
policiais e pornochanchadas que gosta?
Andréa Ormond: Nos policiais, “Eu Matei Lúcio
Flávio”, com o Jece Valadão; “O Outro Lado do Crime”, com
o apresentador Gil Gomes; “Rainha Diaba”; “República dos Assassinos”,
“Amor Bandido”; todos são autênticos cult-movies. Dá
pra citar mais uns dez, que adoro ver e rever. Já no quesito pornochanchada,
David Cardoso e Carlo Mossy são as citações óbvias.
“Giselle”, particularmente, é a minha pornochanchada preferida
e a de nove entre dez pessoas que gostam do assunto.
Mulheres: Qual a importância da pornochanchada
para o cinema brasileiro na sua opinião?
Andréa Ormond: A importância maior da autêntica
pornochanchada, aquela em que os filmes giram em torno da discussão
da sexualidade, foi a de viabilizar um cinema brasileiro praticamente
auto-sustentável do fim da década de 60, até meados
da década de 80. Foi a de refletir, de uma forma bem brasileira
e esculhambativa, os questionamentos e quebras de paradigmas que o mundo
ocidental estava atravessando nos anos 60 e 70. A pornochanchada me parece
ter, além da influência óbvia do cinema italiano,
certas raízes no movimento tropicalista.
Mulheres: Quais são para você os maiores
talentos da pornochanchada? E quais os melhores filmes?
Andréa Ormond: Como disse, Carlo Mossy e David
Cardoso. Se alguém quer conhecer sobre pornochanchada, deve ver
os filmes desses dois atores-produtores-diretores, além, claro,
das comédias cariocas urbanas, como as dos irmãos Faria.
Mulheres: Gostaria que você falasse sobre o livro
Longa Carta Para Mila”.
Andréa Ormond: Foi um livro que escrevi sem grandes
cobranças ou compromissos, apenas para contar uma história
de amor entre duas meninas em idade universitária, uma carioca
e uma paulistana. É o tipo de narrativa urbana que conheço
bem, o mundo em que eu sempre vivi descrito em cento e poucas páginas.
É bem diferente do meu trabalho como crítica, mas me deu
muita satisfação fazê-lo e poder alcançar um
público diferente do que se interessa por cinema brasileiro.
Mulheres: A repercussão do livro foi muito boa,
não é? Pensa em escrever outro ou já está
escrevendo outro? - além, claro, do possível livro de críticas
que torço para ser concretizado.
Andréa Ormond: Já estou escrevendo outro,
mas vai demorar um pouco. Sobre o livro de críticas, penso em escrever
um sobre cinema latino-americano, que é uma das minhas grandes
paixões. Em relação ao cinema brasileiro, me sinto
feliz escrevendo no Estranho Encontro (risos).
Mulheres: Quais são os seus autores preferidos?
Andréa Ormond: Dostoieviski e os russos em geral.
Na literatura brasileira, gosto muito de João Gilberto Noll, Nelson
Rodrigues, Marcia Denser, Hilda Hilst. Mas são vários, sem
ordem de preferência.
Mulheres: Quais são os outros cineastas brasileiros
que te interessam? Tem alguns filmes preferidos?
Andréa Ormond: Para fazer um trabalho crítico
como o Estranho Encontro, acho que todo o cinema brasileiro acaba me interessando,
sem distinção. Mas sou particularmente entusiasta da produção
paulista, principalmente do final dos anos 60 e da década de 70.
O cinema brasileiro feito em São Paulo é um mundo à
parte, bastante rico e praticamente desconhecido da maioria das pessoas.
Mulheres: Por isso também sua participação
nessa notável revista eletrônica que é a Zingu?
Andréa Ormond: O Matheus Trunk, que edita a revista,
costuma brincar dizendo que eu fui a “mãe da Zingu” (risos). Também
contribuo na Freakium, outra revista notável sobre cultura pop.
As duas são iniciativas que aproveitam a facilidade de difusão
da Internet para agregarem pessoas interessantes escrevendo sobre aquilo
de que gostam. No caso da Zingu, acho que ela é mais uma prova
de que existe um grande interesse pelo cinema brasileiro “não-oficial”,
dentro do qual o cinema feito em São Paulo foi um exemplo. No fundo,
as pessoas começam a perceber que o cinema brasileiro é
cultura pop de qualidade.
Mulheres: O que você não gosta no cinema
brasileiro?
Andréa Ormond: Acho o cinema brasileiro antes
da chamada Retomada tão bom quanto podia ser o cinema de um país
subdesenvolvido e fechado sobre si mesmo. Era muito diverso e permitia
uma ampla variedade de expressões. De 95 para cá, os filmes
parecem sofrer de uma repetição temática que entedia
um pouco, embora tenham aparecido alguns diretores que fazem um cinema
na contramão desta tendência uniformizante, como o Beto Brant
e o Cláudio Assis. O que não gosto no cinema brasileiro,
pelo menos no atual, é seu excessivo bom mocismo e o excessivo
didatismo no modo de filmar. Parece às vezes uma coisa para não
correr o mínimo risco de erro. Antigamente, os cineastas brasileiros
compensavam a precariedade técnica com ousadia e criatividade.
Hoje isso desapareceu e se a parte técnica melhorou, a maioria
dos filmes vem se tornando menos interessantes, com algumas notáveis
exceções.
Mulheres: Dá para você citar alguns desses
filmes atuais em que observa esse certo “comodismo”?
Andréa Ormond: Dentre os que assisti neste semestre,
acho que aquele “Proibido Proibir”, do Jorge Duran, foi o que mais me
entediou. Não há nada nele que seja inovador, interessante
ou diferente: a maneira de filmar, a montagem, o roteiro. É tudo
absolutamente previsível. Por outro lado, uma semana antes tinha
assistido ao “Cheiro do Ralo”, que é genial.
Mulheres: Pensadores do cinema brasileiro, como o crítico
Inácio Araújo e o cineasta Carlos Reichenbach, destacam
a internet como um espaço onde vem se fazendo uma crítica
cinematográfica vigorosa. Como você, que é fã
de Rubem Biáfora e Paulo Emílio, e que também tem
um espaço cultuado como o Estranho Encontro analisa isso?
Andréa Ormond: Como disse, escolhi o formato blog
exatamente porque me pareceu o mais dinâmico para a crítica
cinematográfica e para as idéias em geral. Existem blogs
fabulosos de cinema, existem revistas de cinema feitas no formato de blog,
isso sem falar no mundo fora dos blogs, dos sites de referência
na web, como o Mulheres. Ou seja, grande quantidade de informação
sobre cinema circula gratuitamente para o leitor brasileiro. Isso é
uma conquista de todos nós e só tende a crescer. Tenho certeza
de que o Biáfora se estivesse vivo e atuante, teria seu próprio
blog (risos).
Mulheres: Você poderia falar um pouco sobre o Biáfora
e o Paulo Emílio? Paulo Emílio é muito amado, já
o Biáfora tem muitos opositores.
Andréa Ormond: Sobre o Paulo Emilio, acho que
era um homem da renascença, inclusive teria sido um dos maiores
escritores brasileiros se a vida tivesse lhe dado mais tempo. Já
o Biáfora tinha muitos opositores porque atacava justamente o cinema
oficial, e respeitava o cinema independente. Ou seja, era um homem na
contramão do seu tempo, convicto de suas opiniões. Para
atacá-lo, muita gente diz que escrevia mal. Mas percebam que no
seu estilo, conciso e prolixo ao mesmo tempo, o Biáfora dizia mais
verdades por metro quadrado do que qualquer outro. Concordo com quase
tudo o que ele escreveu. Mas minha maior influência no estilo de
escrever críticas vem na verdade do Antônio Moniz Vianna,
que foi para mim a leitura fundamental, o grande professor. Apesar de
ser médico, alimentou gerações e gerações
de leitores e seguidores, com sua formação ampla, erudita.
Foi sem dúvida o maior crítico brasileiro e um dos maiores
do mundo, o que não quer dizer que eu concorde com sua visão
cinematográfica, que acho extremamente rígida. Neste ponto,
sou muito mais cúmplice de Biáfora (risos), um espectador
tolerante. Além dos três, gostaria de citar também
Salvyano Cavalcanti de Paiva, José Lino Grünewald e Ely Azeredo
como nomes importantes na minha formação. Li todos na coleção
de periódicos da Biblioteca Nacional, no Rio.
Mulheres: Que considerações você
pode fazer sobre a crescente participação das mulheres por
trás das câmeras do cinema brasileiro?
Andréa Ormond: O mundo está mudando, as
mulheres já são maioria nas universidades e se um dia forem
parte significativa nas equipes de filmagem, já será um
grande avanço. Mulheres e homens devem trabalhar em igualdade de
condições, ter a mesma chance de expressão artística
e intelectual. O cinema brasileiro e o país como um todo só
tem a ganhar com isso.
Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que
assistiu?
Andréa Ormond: “Carreiras” do Domingos de Oliveira.
Adorei e recomendo.
Mulheres: Você já disse que o Khouri é
o maior cineasta brasileiro. Quem são os outros dois, para ficarmos
em uma trinca de ouro? Ou não há páreos para ele?
Andréa Ormond: Eu tenho um certo problema com
listas, porque sempre esqueço de um nome que depois lembro que
eu nunca poderia ter esquecido (risos). Por isso gostaria de citar mais
de dois: o Lima Barreto, pela força arquetípica e pela linguagem
de “O Cangaceiro” e “Santuário”; o Humberto Mauro, pelo aspecto
seminal da obra; Nelson Pereira dos Santos e Carlos Reichenbach, pela
coerência que mantêm através das décadas.
Mulheres: Sempre convido minhas entrevistadas para homenagear
uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e área.
Quem você quer homenagear?
Andréa Ormond: Gostaria de homenagear a Lilian
Lemmertz, minha atriz preferida, como eu disse agora há pouco.
Tenho profundo respeito por sua interpretação, cheia de
significados apesar de calmíssima na superfície, algo bastante
difícil de ser alcançado no cinema, sem soar artificial
aos olhos do público. Fico feliz de perceber que apesar de ter
ido embora tão jovem, ela conquistou um lugar todo próprio
em nossa cinematografia.
Mulheres:
Muito obrigado pela entrevista.
Entrevista
realizada em julho de 2007
sala
indice arquivo
home
|