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"Não Por Acaso", controle no caos
Foto: Letiícia Sabatella em cena de "Não por Acaso"
(2007),de Philippe Barcinski
Ao
assistirmos os curtas “A Escada” (1996) e “Palíndromo” (2001) dá
para perceber claramente o domínio narrativo que o cineasta Philippe
Barcinski imprime em seu cinema. E essa constatação se faz
por inteira em “Não Por Acaso”, estréia do diretor em longas.
Em
“Não Por Acaso”, ele conta a história de dois homens controladores,
um engenheiro de trânsito e um fabricante e jogador de sinuca, que
têm a vida sacudida por um acidente fatal envolvendo mulheres de
suas vidas. Para dar vida a esses dois homens amargurados e fora de seus
eixos com o acontecimento, Barcinski apostou no talento crescente de Rodrigo
Santoro e em Leonardo Medeiros, um dos maiores atores do atual cinema
brasileiro.
Philippe
Barcinski vem recebendo algumas críticas ao seu filme. Alguns apontam
a frieza do filme, estado acentuado pelo controle excessivo do diretor.
Outros tantos desagradaram da trilha sonora, xaroposa e dispensável
para esses acusadores. Não vejo problema em nenhuma dessas apontadas
falhas. Gosto de filmes frios, calculados, assépticos – e gosto
do extremo oposto também -, e a trilha, mesmo que excessiva em
alguns momentos, não chegou a me incomodar e, vez ou outra, inclusive,
gostei muito de sua colocação.
“Não
Por Acaso” apresenta trabalho de atrizes de três gerações
cinematográficas: Cássia Kiss, Letícia Sabatella,
Graziella Moretto e Branca Messina, Silvia Lourenço e Rita Batata.
Cássia
Kiss é uma presença constante no cinema. E o melhor, quase
sempre em filmes marcantes como “Ele, O Boto” (1987 – Walter Lima Jr),
“A Grande Arte” 91991 – Walter Salles), “Bicho de Sete Cabeças”
(2001 – Laís Bodansky). Sua personagem em “Não Por Acaso”,
Iolanda, mãe de uma das vítimas, tem perfil condizente com
alguns trabalhos da atriz: contensão e dominação
emocionais.
Graziela
Moretto é uma atriz interessante, com brilho próprio tanto
em drama como comédia. “Domésticas” (2001 – Fernando Meirelles
e Nando Olival), “Cidade de Deus” (2002 – Fernando Meirelles e Kátia
Lund) e “Viva Voz” (2003 – Paulo Morelli) foram alguns de seus trabalhos
nas telas. Em “Não Por Acaso” ela faz uma participação
pequena, mas faz bem a personagem Mônica, ex-esposa de Ênio
(Leonardo Medeiros). Sua interpretação é pontuada
por uma espécie de tristeza, ou melancolia, vista também
em filme completamente diverso, “Domésticas”.
Branca
Messina como Teresa é luminosa presença – Melhor atriz Coadjuvante
no Cine PE. A atriz traz um frescor na primeira parte do filme, que será
recuperado pela Bia de Rita Batata depois. Se Teresa é aquela que
vai tentar descontrolar a vida de cartas marcadas de Pedro (Rodrigo Santoro),
Bia vai ser a herança da vida de Ênio, arejando uma vida
confinada às paredes do apartamento, do local de trabalho e de
suas defesas emocionais.
Por
fim, temos Letícia Sabatella. É impressionante como Letícia
está cada dia mais linda e melhor atriz. E mais que isso: está
cada vez mais cinematográfica. Impossível não deixar
de imaginar o quanto “renderia” nas mãos de Walter Hugo Khouri.
No entanto, em “Não Por Acaso” sua personagem é mais mal
construída, prejudicada por um roteiro que não delineia
muito bem a sua Lúcia. Se os demais personagens do filme, os dois
protagonistas e as diferentes mulheres que os circundam, tornam-se críveis
aos nossos olhos, o mesmo não se dá em relação
à Lúcia, fica difícil entender e acompanhar suas
motivações. Ainda assim, Letícia Sabatella consegue
imprimir uma aura cinematográfica em cada aparição.
Na
equipe técnica, as presenças de Fabiana Werneck, co-roterista
ao lado de Philippe Bracinski e Eugênio Puppo, Andréa Barata
Ribeiro e Bel Berlinck, co-produtoras ao lado de Fernando Meirelles; e
Vera Hamburger na Direção de Arte.
Além
do prêmio de Branca Messina, “Não Por Acaso” recebeu mais
três prêmios no Cine Pe – Melhor Ator (Leonardo Medeiros),
Melhor Fotografia (Pedro Farkas) e Melhor Edição (Márcio
Canella).
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