A mulher-objeto em "Baixio das Bestas"
Foto: Marcélia cartaxo, Dira Paes e Conceição Camarotti
em cena de
"Baixio das Bestas" (2007), de Cláudio Assis
Uma
das maiores acusações que Cláudio Assis vem recebendo
por seu filme “Baixio das Bestas” é a de misoginia. Inclusive,
ouvi de mais de uma mulher essa acusação. Outra é
a de que seu cinema, assim como o de Sérgio Bianchi, só
quer provocar, chocar, porém sem propor nada.
Não
concordo com nenhuma das duas acusações. A forma como ele
retrata as mulheres em “Baixio das Bestas” me parece apropriadíssima
naquele recorte que ele fez – mesmo porque a realidade está aí
gritando, como a recente agressão de estudantes a uma mulher no
Rio de Janeiro, com a assassina desculpa de que a confundiram com uma
prostituta. Quanto a querer chocar por chocar, não creio que um
cineasta tenha que apresentar respostas, a realidade brasileira é
mesmo chocante por si só.
“Baixio
das Bestas” confirma o talento de Cláudio Assis no universo em
que ele escolheu como foco e, sobretudo, na direção de cena
e dos atores. Não é sempre que vemos no cinema brasileiro
feito hoje uma câmera tão poderosa. A parceria de Assis com
o talento gigante de Walter Carvalho faz de “Baixio das Bestas” um grande
momento das nossas telas deste ano.
Matheus
Nachtergaele e Caio Blat apresentam o talento de sempre, mas no elenco
masculino o grande destaque é do ator Fernando Teixeira como seu
Heitor, o avô que exibe a nudez da neta adolescente em público.
Irandhir Santos também está muito bem como Maninho – sua
cena como bêbado é inesquecível.
Já
no elenco feminino, objeto de estudo do Mulheres, Cláudio Assis
reuniu três das mais importantes atrizes do cinema brasileiro do
momento: Marcélia Cartaxo, Dira Paes e Hermila Guedes.
Marcélia
Cartaxo é sinônimo de qualidade no cinema desde 1985, quando
roubou a cena como Macabéa na premiada adaptação
do livro de Clarice Lispector dirigida por Suzana Amaral - Melhor Atriz
no Festival de Berlim, entre outros. Em “Baixio das Bestas” ela é
Ceiça, uma das prostitutas do prostíbulo de dona Margarida.
Sua personagem funciona como um elo de ligação entre a revolta
de Dora, a rebeldia de Bela e exploração agressiva de dona
Margarida.
Outra
prostituta é Bela, personagem kamikaze interpretada por Dira Paes,
a mais atuante atriz do Cinema da Retomada. Dira Paes volta a trabalhar
com Cláudio Assis depois do inesquecível “Amarelo Manga”,
em 2002. Mais uma vez o cineasta reservou um papel de destaque para a
atriz, que se entrega sem reservas à Bela. Dira Paes imprime à
sua personagem uma alegria desesperada e inconseqüente de viver,
como se soubesse á beira do fim a qualquer momento
A
terceira prostituta é Dora, interpretada por Hermila Guedes. Revelação
de “O Céu de Suely” (2006), de Karim Ainouz, Hermila vem crescendo
a cada trabalho, com uma característica impressionante que é
a de cada hora estar de um jeito. Sua outra composição marcante
foi como Elis Regina no especial da Globo sobre a cantora, “por Toda a
Minha Vida”. Em “Baixio das Bestas” ela faz de Dora uma mulher amargurada
e revoltada com a sina de ser gado de corte para as brutalidades lascivas
dos clientes.
Além
das três, outras duas atrizes tem trabalhos marcantes em “Baixio
das Bestas”: Mariah Teixeira e Conceição Camarotti.
Mariah
Teixeira, em sua estréia no cinema como a adolescente Auxiliadora,
segura a personagem, que tem papel central na trama, imprimindo um tom
de inocência e desamparo no tom certo. Já Conceição
Camarotti, como dona Margarida – proprietária do prostíbulo,
é uma força da natureza. Sua presença impressiona
e retrata com precisão a ética e a estética impressas
por Cláudio Assis em um cinema que pulsa e sangra.
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