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O
gigantismo de Glauce Rocha em Foto:
com Jardel Filho em cena de "Terra em Transe" (1967) Glauber
Rocha já foi saudado pelos quatro cantos como nosso cineasta mais barroco.
“Terra em Transe”, que agora voltou aos cinemas em cópia restaurada, é um
exemplo acabado dessa alcunha. Realizado em 1967, o filme é a segunda parte da
Trilogia da Terra: o primeiro, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o terceiro,
“A Idade da Terra”. De
nomes belíssimos cada um, a beleza poética, mas bruta, parece emanar de cada
fotograma, fazendo de cada um deles momentos inesquecíveis para sempre na
retina: o assombramento em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”; o delírio em
“Terra em Transe”; e o radicalismo em “A Idade da Terra”. Todos, frutos
da genialidade de Glauber Rocha. Em
“Terra em Transe”, o cineasta coloca em cena um poeta, Paulo Martins, que
rememora em delírio sua existência, marcada pelo envolvimento com diferentes
forças políticas: um líder de direita, um líder populista e um magnata das
telecomunicações. Para
compor seu elenco, Glauber Rocha escalou um time masculino imbatível: Jardel
Filho, como o poeta, e ainda Paulo
Autran, José Lewgoy, Paulo Gracindo e Hugo Carvana. No
elenco feminino, “Terra em Transe” apresenta mais uma interpretação
magistral de Glauce Rocha, uma das maiores atrizes do cinema brasileiro de todos
os tempos e ícone desse site. No filme, Glauce Rocha é
Sara, assistente do político interpretado por José Lewgoy, em quem o
poeta aposta todas as suas fichas antes do desencanto. Além da comunhão política,
Sara se envolve também amorosamente com Paulo. Glauce
Rocha empresta sua trágica máscara para as inquietações da personagem, no
embate entre o amor e a política. Em contraponto, ela e Jardel interpretam uma
cena inesquecível de amor/descoberta, em que uma alegria invade a tragédia,
com seus risos exasperadamente soltos. Durante
sua trajetória cinematográfica, Glauce Rocha emprestou seu enorme talento para
filmes de diferentes escolas. Ela mesma dizia que não recusava papel no cinema,
e por isso atuou em filmes que vão de Mazzaropi a Glauber Rocha. Sua Sara em
“Terra em Transe” é uma dessas personagens femininas inesquecíveis do
nosso cinema. Mesmo que, aparentemente, sua personagem esteja subjugada aos dois
homens que a circundam, a atriz consegue imprimir em sua Sara uma carga tão
forte de verdade, que caminha em passos largos em gigantismo e talento ao lado
de todos os seus companheiros de elenco. Danusa
Leão, que na época era considerada – e é até hoje -
top da modernidade e da elegância, é uma presença marcante no filme
como Silvia. Em cada cena que aparece nos rouba o olhar, que insiste em querer
perseguir sua persona pertubadora. E tem as participações. Fábio Barreto, dias atrás no Canal Brasil, ressaltou a cena da orgia, em que as mulheres em tempo algum se apresentam desnudas, mas dão o tom orgiástico exato – ele lembra o prebisterianismo de Glauber como possível agente inibidor para tirar a roupa das mulheres. E, realmente, não precisa. Darlene Glória, Irma Alvarez, Elizabeth Gasper e Sônia Clara são presenças tão marcantes na cena, que o pretentido se estabelece com um erotismo arrebatador. Nas participações do filme tem ainda Telma Reston, ótima como sempre, que escancara no rosto uma orfandade ofendida. Passados
tantos anos, “Terra em Transe” continua impactante. Um dos maiores
clássicos da nossa cinematografia e retrato vivo e atualíssimo de um dos
maiores gênios do cinema brasileiro e mundial. TERRA
EM TRANSE
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