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004 - “O Outro Lado da Rua”
Foto:
cena de "O Outro Lado da Rua" (2003), de Marcos Bernstein Além
do talento inquestionável, Fernanda Montenegro possui um carisma tão
gigantesco que em qualquer trabalho que faça, seja no teatro, na tv ou no
cinema, a gente já vai ver querendo gostar. E não é diferente no filme “O
Outro Lado da Rua”, primeiro longa de Marcos Bernstein, premiado co-roteirista
de “Central do Brasil”, de Walter Salles. Em
“O Outro Lado da Rua”, Fernanda Montenegro é Regina, uma mulher aposentada
que para fugir da solidão, torna-se, voluntariamente, informante da polícia.
Certa noite, Regina vê, pelo binóculo, algo parecido com um assassinato no prédio
em frente ao seu. Quando a polícia declara que a morte da mulher de um juiz
aposentado teve morte natural, Regina resolve investigar por conta própria e
acaba se envolvendo com o suposto assassino, Camargo (Raul Cortez), fato que
acarretará mudanças impensáveis para sua vida. “O
Outro Lado da Rua” é um belo filme outonal. Só que ao invés dos tons
dourados que normalmente pontuam títulos desse gênero, o que se vê é a
predominância de um tom azul que faz lembrar o cinema do grego Theo
Angelopoulos, de “Paisagem na Neblina”. Em entrevista ao Mulheres, Fernanda Montenegro ressaltou que o trabalho da direção deu tempo
para os atores se proporem, para os personagens se proporem dentro da história,
que foi uma direção larga, sem taquicardia. E isso está claro no filme, o que
contribui para a conquista sem pressa do público. E
é preciso que seja dito: Fernanda Montenegro está mesmo, mais uma vez, impecável.
Na primeira cena, em que aparece de calça comprida passando batom e seguindo
para uma boate, de cara a gente já começa a acreditar na personagem.
Não a tôa, vem recebendo novos prêmios, como no Tribeca Film Festival,
criado pelo ator Robert De Niro após os atentados de 11 de setembro. Raul
Cortez faz o juiz Camargo. No roteiro, suas chances de brilho são menores que
as de Fernanda, mas ainda assim ele demonstra porque é considerado um dos
nossos grandes atores. E é bom vê-lo novamente no cinema, já que a memória
busca, imediatamente, momentos luminosos do passado, como em “O Caso dos Irmãos
Naves” (1967), de Luis Sérgio Person, ou de poucos anos atrás como em
“Cinema de Lágrimas” (1995), de Nelson Pereira dos Santos e “Lavoura
Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho. Uma
das cenas mais esperadas do filme é a cena de sexo entre Fernanda e Raul, já
que não é muito comum esse tipo de cena com pessoas dessa idade. E também por
ser protagonizada por Fernanda Montenegro e Raul Cortez, e ainda
por persistir na memória, pelo menos para os cinéfilos,
a belíssima cena de sexo outonal entre Miriam Pires e Jofre Soares em
“Chuvas de Verão” (1978), um dos melhores filmes de Carlos Diegues. Marcos
Bernsteim preferiu uma cena mais recatada, em resolução tomada junto com os
atores. O resultado faz uma parte do público rir, como foi quando eles
estiveram em Belo Horizonte para o lançamento do filme. Outros, como eu, mesmo
sem deixar de relembrar a bela cena de Miriam e Jofre, acha beleza na cena de
outros dois gigantes das artes cênicas brasileiras, e gosta não só dela, mas
de tudo o que o filme propõe. Como
o que pode se modificar, tanto dentro como fora, quando se vê a vida pelos
olhos da solidão e da instauração do vazio. Como as escolhas podem vir, de
ordem diferente do pretendido, quando se configuram como tapa-buracos de um
fundo sem fundo. Como é sempre belo também ver a grande Laura Cardoso dando
dignidade em qualquer aparição. Como é bom ver um primeiro filme de um
cineasta que aposta na contramão da ordem atual, que é a da correria sem tempo
sequer para um abraço com um tempo de abraço, como nos filmes de Theo
Angelopoulos. E sem taquicardia. Além
das presenças de Fernanda Montenegro e Laura Cardoso, “O Outro Lado da Rua”
conta com Kátia Machado na Produção (junto com Bernstein); Mariza Figueiredo
na Produção Executiva, Melanie Dimantas no Roteiro (junto com Bernstein), Bia
Junqueira na Direção de Arte; Cristina Kangussu no Figurino. “O Outro Lado da Rua”, Brasil, 2003, 1h47. Direção: Marcos Bernstein.
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