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- Um duelo entre Guta Stresser e Myriam Muniz em Foto: Guta Stresser e Myriam Muniz Obs.: Infelizmente, Myriam Muniz faleceu no último sábado, dia 18 de dezembro de 2004, aos 73 anos, de um acidente vascular cerebral Livremente
inspirado em “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, “Nina” marca as
estréias do cineasta Heitor Dhalia – diretor do curta ‘Conceição” -
em filmes de longa-metragem e da atriz Guta Stresser como protagonista.
No filme ela é a personagem título, aparentemente uma garota como tantas
outras que cruzamos pelas noites das grandes capitais, no caso do filme, a
agitada cena eletrônica de São Paulo. Nina veste-se de preto, cor também
presente em sua maquiagem e que, metaforicamente, é utilizada na fotografia
escura, e belíssima, do filme. Não parece haver muitas frestas para que Nina
possa conduzir sua vida e, no momento, se vê em situação de penúria e
subjugada aos horrores de sua locatária, Dona Eulália. Proprietária da casa
em que Nina aluga um quarto, Dona Eulália mostra-se mesquinha,
insensível e, mais que isso, possuída de um sadismo mórbido pelas
desventuras da inquilina. Como Raskolnikóv, o personagem do clássico
“Crime e Castigo”, Nina acredita que a vida é dividida entre pessoas ordinárias
e extraordinárias, e nessa polarização estão Dona Eulália no primeiro
grupo e ela própria no segundo. Tirar sua locatária de cena pode significar a
eliminação de uma ordinária que impossibilita o existir de uma extraordinária. Em
entrevista ao Mulheres, Guta Stresser disse que esteve envolvida no projeto
do filme desde o início, quando Heitor Dhalia a viu no teatro atuando na
acachapante peça “Mais Perto”, e a convidou. Esse contato, aliás, foi
anterior ao seu sucesso televisivo em “A Grande Família” – segundo ela, e
muito apropriadamente, diga-se de passagem, como um oásis na programação de
TV. Guta Stresser esteve mesmo soberba em
“Mais Perto” e é uma atriz que merece ser mais conhecida pelo público no
teatro. Sua atuação em “A Grande Família” é interessante, mas é no
palco que ela já demonstrou do que é capaz. Em “Nina” sua composição é
atraente, já que ela mesmo disse que em nenhum momento quis fazer uma
personagem catártica, como “Olga”, por exemplo. Nina, apesar dos dramas
vivenciados e suas alucinações culposas, é uma personagem próxima do
natural, mas sem essas, felizmente, composições naturalistas que infestam a
telinha. Guta compõe a personagem título com
entrega, mas quem rouba mesmo a cena mais uma vez é a gigante Myriam Muniz.
“Não é problema meu!”, com essa frase em voz grave e rascante, Myriam
emplaca sua dona Eulália em uma galeria de personagens inesquecíveis que a
atriz já interpretou no cinema, como em “Mar de Rosas”, “Das Tripas Coração”
e “Amélia”, todos de Ana
Carolina. Aliás, é essa fundamental cineasta quem melhor vem explorando o
talento dessa atriz que, inexplicavelmente, é tão pouco requisitada pelo
cinema nacional. No elenco de “Nina” estão ainda
Sabrina Greve, atriz que protagonizou “Uma Vida em Segredo”, de Suzana
Amaral. Greve é Sofia, que com uma expressão apaixonada, mas não arrebatada,
sinaliza a possibilidade de amor para Nina, caso ela quisesse enveredar por
essa possível saída. Já Luiza Mariane é Alice, companheira de Nina nas
noitadas,assim como também o é Juliana Galdino, como Ana. As três atrizes têm
boas participações no filme, cada uma delas dando veracidade à fauna pela
qual Nina transita e relaciona. Heitor Dhalia arrebanhou um grupo de
atores autorais para pequenas participações: Wagner Moura, Abrahão Farc,
Guilherme Weber, Milhem Cortaz, Selton Mello, Lazáro Ramos e Matheus
Nactergaele. E junto a eles está também Renata Sorrah como uma prostituta bêbada
que nos rouba o olhar por completo em sua pequena, mas inesquecível aparição. O roteiro do filme é assinado por
Dhalia e por Marçal Aquino. Destacam-se a fotografia de José Roberto Eliezer e
os geniais desenhos de Lourenço Mutarelli que invadem a cena durante as alucinações
e ações violentas de Nina. Na ficha técnica, há uma boa presença
de mulheres: Guta Carvalho na Direção de Arte, com Akira Goto; Juliana
Prysthon e Verônica Julian no Figurino; Gabi Moraes na Maquiagem; Sônia
Hamburger na Coordenação Executiva, com Egle Tubelis; e Christiane Riera na
Supervisão de Dramaturgia. “Nina” já recebeu vários prêmios,
entre eles o da Crítica no Festival de Moscou e o de Melhor Direção no
Festival de Nova York “NINA”, Brasil, 2004. Direção: Heitor Dhalia.
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