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006 – "Meninos da Zona Sul"
Foto: Divulgação O formato curta-metragem abre inúmeras possibilidades para os realizadores: laboratório para o longa, pesquisa de linguagem, desenvolvimento mais conciso de uma idéia e identificação com o formato são algumas delas. Assistindo “Meninos da Zona Sul”, constata-se que as diretoras Claudia Ribeiro e Silvia Godinho se identificam mais com as duas últimas possibilidades – afirmação que elas fazem em entrevista exclusiva ao Mulheres. O curta é inspirado em uma manchete policial do jornal Estado de Minas, diário de maior circulação em Minas Gerais e porta-voz do Estado no território nacional, cujo título, “Terror de um bairro tem apenas 11 anos” colocava em frente de mira e identificava um garoto como um perigoso bandido de um bairro de classe média-alta de Belo Horizonte. Segundo informação das realizadoras, a manchete repercutiu a tal ponto que o garoto acabou por incorporar o modelo sugerido na matéria. “Meninos da Zona Sul” abre mão da experimentação na linguagem, uma faceta muito usada por realizadores desse formato, para ir direto à história. Ou à denúncia da história. E isso é feito tanto para o bem quanto para o mal. Como
fazer um curta é infinitamente mais barato que um longa, cineastas do
mundo inteiro usam essas produções, muitas vezes, para explorar e pesquisar
linguagens. E isso é importantíssimo, é desses pequenos grandes filmes
que se afiguram janelas e portas para o desenvolvimento do audiovisual.
Mas também, inúmeras vezes,
alguns curta-metragistas adotam esse ponto de partida para resultar em
exercícios de cacoetes pseudo-modernos e enfadonhos. Não é o caso de “Meninos
da Zona Sul”. Ao priorizar a história,
as diretoras conseguiram realizar um filme de identificação imediata,
sem ser catártico. Sem tons taquicardíacos tão em voga atualmente no cinema
brasileiro. Mas, se as diretoras abrem mão da experimentação, o mesmo não se dá com uma preocupação poética que perpassa o filme. Na entrevista, as diretoras dizem que procurou o olhar infantil para contrapor a matéria, e isso se dá através de imagens e angulos por vezes líricos A poesia é vital mesmo e está infiltrada até nos maiores mundos-cão; a obra de Jean Genet está aí para não nos fazer esquecer disso. Poesia bruta e poesia lírica são lados de um mesmo lado dessa moeda chamada vida, em suas maiores e menores medidas. Mas a poesia como norte em vários momentos do filme parece resultar ao contrário do pretendido e ao invés de reforçar ou ressaltar a perplexidade-revolta que advém daquilo que separa gentes em lados do bem ou mal, do rico ou do miserável, acaba por esvaziar o olho. A cena da fumaça que surge na tela como metáfora do desaparecimento (execução?) do garoto Fumaça (Paulo Reis), inspirado no garoto da matéria, e que no filme ganha ares de herói para o irmão mais novo Conga (Caio Henrique Nascimento), protagonista do filme, é um exemplo. Mesmo, segundo as diretoras, ser uma metáfora sobre o paradeiro desconhecido do garoto - e o recurso de imagem faz sentido - para quem assiste sem essa informação fica parecendo uma solução poética para não mostrar o que acontece com ele nas mão dos policiais que o levam, fazendo um tipo de trocadilho com o seu nome, "virou fumaça". “Meninos da Zona Sul” acerta e erra ao usar alguns signos mais que decifrados como denominar o casal fútil e irresponsável de Patrícia ( Cleo Carmona, em bela aparição) e Maurício (Ivan Reis), patricinha e mauricinho, ou colocar como um dos pontos de vistas um cego (Leri Faria) representando um certo ar de pureza de quem não julga pela aparência. São acertos e erros porque ao mesmo tempo em que identifica imediatamente o pretendido, não deixa também espaço para olhos de perspectivas sobre suas funções além do dito. E essas escolhas foram feitas conscientemente pelas diretoras para atingir quaisquer tipo de público, inclusive para ajudá-las a contar a história, que é o fator prioritário. “Meninos da Zona Sul” é um filme que se vê com atenção. E isso é um grande mérito para filmes em curta-metragem, pois se o espectador se desinteressa ante ao visto, corre-se o risco do filme acabar antes que a conexão seja outra vez refeita e o olhar retomado. Jornalistas identificadas com o que de melhor já se fez, ou se faz, em televisão em Belo Horizonte – Cláudia Ribeiro com suas produções para o Canal Futura e Sílvia Godinho na direção durante longo período do “oásis” de inteligência que é o programa Agenda da Rede Minas -, o que se espera, em torcida íntima, é longa vida para o cinema dessas duas cineastas. As mulheres marcam presença em peso no filme, tanto a frente como por trás das câmeras. No elenco, as presenças de Juliana Floriano como Conceição, mãe de Conga e Fumaça; Elina Márcia de Souza – lavadeira; Cláudia Assunção – Mulher 1; Kátia Couto – Mulher 2; Ana Régis – Professora 1; Luíza Horta – Professora 2. Na ficha técnica: Luciana Lamounier – Direção de Produção; Ana Régis – Assistente de Direção; Gisela Mangeon – Produção de Arte; Luíza Horta – Figurino e Contra-regragem; Regina Mahia - Maquiagem “Meninos da Zona Sul”, Brasil, 2004, 13m, livre. |
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