Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 3
Um mapeamento das mulheres que fizeram
e fazem a história do Cinema Nacional

ATRIZES
Sala Isabel Ribeiro

DIRETORAS
Sala Ana Carolina

POR TRÁS DAS CÂMERAS
Sala Betty Faria
ENTREVISTAS
Sala Dina Sfat
ELAS POR ELES
Sala Lilian Lemmertz
CRÍTICAS
Sala Adriana Prieto

Sala Zezé Macedo
Datas

Arquivo Geral
Referências
O Site
Comentários
Contato


     

006 – "Meninos da Zona Sul"
Um curta de Cláudia Ribeiro e Sílvia Godinho

 Foto: Divulgação

O formato curta-metragem abre inúmeras possibilidades para os realizadores: laboratório para o longa, pesquisa de linguagem, desenvolvimento mais conciso de uma idéia  e identificação com o formato são algumas delas. Assistindo “Meninos da Zona Sul”, constata-se que as diretoras Claudia Ribeiro e Silvia Godinho se identificam mais com as duas últimas possibilidades – afirmação que elas fazem em entrevista exclusiva ao Mulheres.

 O curta é inspirado em uma manchete policial do jornal Estado de Minas, diário de maior circulação em Minas Gerais e porta-voz do Estado no território nacional, cujo título, “Terror de um bairro tem apenas 11 anos” colocava em frente de mira e identificava um garoto  como um perigoso bandido de um bairro de classe média-alta de Belo Horizonte. Segundo informação das realizadoras, a manchete repercutiu a tal ponto que o garoto acabou por incorporar o modelo sugerido na matéria.

 “Meninos da Zona Sul” abre mão da experimentação na linguagem, uma faceta muito usada por realizadores desse formato, para ir direto à história. Ou à denúncia da história. E isso é feito tanto para o bem quanto para o mal.

 Como fazer um curta é infinitamente mais barato que um longa, cineastas do mundo inteiro usam essas produções, muitas vezes, para explorar e pesquisar linguagens. E isso é importantíssimo, é desses pequenos grandes filmes que se afiguram janelas e portas para o desenvolvimento do audiovisual. Mas também,  inúmeras vezes, alguns curta-metragistas adotam esse ponto de partida para resultar em exercícios de cacoetes pseudo-modernos e enfadonhos. Não é o caso de “Meninos da Zona Sul”. Ao priorizar a história,  as diretoras conseguiram realizar um filme de identificação imediata, sem ser catártico. Sem tons taquicardíacos tão em voga atualmente no cinema brasileiro. 

Mas, se as diretoras abrem mão da experimentação, o mesmo não se dá com uma preocupação poética que perpassa o filme. Na entrevista, as diretoras dizem que procurou o olhar infantil para contrapor a matéria, e isso se dá através de imagens e angulos por vezes líricos A poesia é vital mesmo e está infiltrada até nos maiores mundos-cão; a obra de Jean Genet está aí para não nos fazer esquecer disso. Poesia bruta e poesia lírica são lados de um mesmo lado dessa moeda chamada vida, em suas maiores e menores medidas. Mas a poesia como norte em vários momentos do filme parece resultar ao contrário do pretendido e ao invés de reforçar ou ressaltar a perplexidade-revolta que advém daquilo que separa gentes em lados do bem ou mal, do rico ou do miserável, acaba por esvaziar o olho. 

A cena da fumaça que surge na tela como metáfora do desaparecimento (execução?) do garoto Fumaça (Paulo Reis), inspirado no garoto da matéria, e que no filme ganha ares de herói para o irmão mais novo Conga (Caio Henrique Nascimento), protagonista do filme, é um exemplo. Mesmo, segundo as diretoras, ser uma metáfora sobre o paradeiro desconhecido do garoto - e o recurso de imagem faz sentido - para quem assiste sem essa informação fica parecendo uma solução poética para não mostrar o que acontece com ele nas mão dos policiais que o levam, fazendo um tipo de trocadilho com o seu nome, "virou fumaça".

 “Meninos da Zona Sul” acerta e erra ao usar alguns signos mais que decifrados como denominar o casal fútil e irresponsável de Patrícia ( Cleo Carmona, em bela aparição)  e Maurício (Ivan Reis), patricinha e mauricinho, ou colocar como um dos pontos de vistas um cego (Leri Faria) representando um certo ar de pureza de quem não julga pela aparência.  São acertos e erros porque ao mesmo tempo em que identifica imediatamente o pretendido, não deixa também espaço para olhos de perspectivas sobre suas funções além do dito. E essas escolhas foram feitas conscientemente pelas diretoras para atingir quaisquer tipo de público, inclusive para ajudá-las a contar a história, que é o fator prioritário.

“Meninos da Zona Sul” é um filme que se vê com atenção. E isso é um grande mérito para filmes em curta-metragem, pois se  o espectador se desinteressa ante ao visto, corre-se o risco do filme acabar antes que a conexão seja outra vez refeita e o olhar retomado.

Jornalistas identificadas com o que de melhor já se fez, ou se faz,  em televisão em Belo Horizonte – Cláudia Ribeiro com suas produções para o Canal Futura e Sílvia Godinho na direção durante longo período do “oásis” de inteligência que é  o programa Agenda da Rede Minas -, o que se espera, em torcida íntima, é longa vida para o cinema dessas duas cineastas.

 As mulheres marcam presença em peso no filme, tanto a frente como por trás das câmeras. 

 No elenco, as presenças de Juliana Floriano como Conceição, mãe de Conga e Fumaça; Elina Márcia de Souza – lavadeira; Cláudia Assunção – Mulher 1; Kátia Couto – Mulher 2; Ana Régis – Professora 1; Luíza Horta – Professora 2.

 Na ficha técnica: Luciana Lamounier – Direção de Produção; Ana Régis – Assistente de Direção;  Gisela Mangeon – Produção de Arte; Luíza Horta – Figurino e Contra-regragem; Regina Mahia - Maquiagem

  “Meninos da Zona Sul”, Brasil, 2004, 13m, livre. 
Direção e Roteiro: Cláudia Ribeiro e Sílvia Godinho

sala indice arquivo home