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014 - Taís Araújo
é Elza Soares na cinebiografia
Foto:
com André Gonçalves em cena de Ao optar por uma linha tradicional,
como é a maior parte das cinebiografias, Milton Alencar Jr. levou a vida de Mané
Garrincha para as telas em `Garrincha, Estrela Solitária’ e conseguiu um
resultado insatisfatótio. Se a outros cineastas, como o brasileiro Júlio
Bressane e o inglês Derek Jarman, o que mais interessa são os signos propostos
e possíveis para essas personalidades, para outros – a maioria – o
essencial é apenas contar uma história, aprisionando e esvaziando, quase
sempre, o objeto filmado. “Garrincha, Estrela Solitária” é
uma adaptação cinematográfica do livro “Estrela Solitária: Um Brasileiro
Chamado Garrincha”, de Ruy Castro, que eu não li. Um dos mitos do futebol
brasileiro, Mané Garrincha, como ficou conhecido, é contemporâneo a Pelé e,
para muitos, tão genial quanto ele - apesar de não ter conseguido se manter na
mídia e no imaginário mundial como o primeiro conseguiu e ter terminado seus
dias na miséria. Mesmo não gostando de futebol, como é o meu caso, ainda
assim é impossível não reconhecer a importância do esporte na cultura
brasileira. E Garrincha é um desses signos que comportam em si todo o amor-fúria
que os torcedores e as gentes do futebol dedicam a seus ídolos e a esse
universo. O filme propõe retratar o craque através
dos pontos de vista dos personagens que conviveram com ele, que relembram a
trajetória de Garrincha durante a homenagem que a escola de samba Mangueira
ofereceu a ele em 1980, quando já estava debilitado e arruinado. São eles a
amante Iraci, o jogador e amigo Nilton Santos, o jornalista Sandro Moreyra e a
amada cantora Elza Soares. Resta ao espectador, na sala escura do cinema,
tentar acompanhar e apreender o exposto. Parte da crítica acusa o fraco
desempenho do ator André Gonçalves, inclusive acusando-o de não ser parecido
com Garrincha. Não acho isso um problema,
já vi atores e atrizes compondo maravilhosamente um personagem, mesmo
sem se parecer um níquel com eles. Mesmo sem ser um grande ator, fica a dúvida se o resultado capenga se deu, inclusive, pelo caminho
equivocado adotado pela direção. Milton Alencar Jr não faz uma boa direção
nesse Garrincha, e seus personagens, ao relembrar Garrincha, parece-nos muito
mais escondê-lo que revelá-lo. Para compor o universo feminino que
girou em torno do atleta, o diretor escalou três belas atrizes: Roberta
Rodrigues como a esposa Nair; Ana Couto como a amante Iraci; e Táis Araújo
como Elza Soares, a paixão fulminante. Marília Pêra e Creo Kellab fazem
pequenas participações. Aliás, há muito que Marília Pêra reclama que só
tem feito participações nos últimos filmes em que atuou, o que é mesmo uma
pena. Com exceção da protagonista em `O Viajante´, o belo e incompreendido
filme de Paulo César Saraceni, a atriz tem emprestado seu gigantesco talento
para pequenas aparições, mas sempre grandiosas – sua atuação em `Central
do Brasil´ é um exemplo. Em `Garrincha, Estrela Solitária´ ela tem apenas um
cena, mas diz a que veio e dá humanidade para a personagem nessa aparição. Ana Couto como Iraci dá um tom
oscilante à interpretação da personagem, que fica entre a busca de um possível
naturalismo e uma perseguida necessidade de interiorização magoada. Roberta
Rodrigues, que, felizmente, depois da bela revelação em `Cidade de Deus´ anda
bastante requisitada pelo cinema nacional, compõe a esposa Nair sem muito espaço
para criação. Entre as mulheres, como não poderia
deixar de ser, Elza Soares é a que ganha mais espaço no filme. A presença
dela é realmente muito importante na vida do craque, mas ainda assim não deixa
de causar estranhamento a impressão de que muitas vezes, mais que querer contar
a vida de Garrincha, o que o filme procura é acertar as contas e mostrar para
todos que a notável cantora não foi mesmo a causa da ruína dele, como ficou
registrado no imaginário. Taís Araújo compõe bem Elza Soares,
apesar de em alguns momentos parecer que a atriz precisaria amadurecer mais para
dar voz a uma personagem real e tão complexa. Não que qualquer ator precise de
milhares de quilômetros rodados para dar veracidade a um personagem, mas Elza
Soares é um ícone onde parece caber várias Elzas. E mesmo que Taís Araújo
esteja bem, levando-se em conta a irregular direção, fica parecendo que ela
conseguiu dar voz à apenas partes da retratada. Há
anos, quando do lançamento da cinebiografia da cantora Tina Tuner, Rubens Ewald
Filho criticou a opção do diretor Brian Gibson em colocar no final a própria
cantora em cena, o que para ele foi um desrespeito à bela composição da atriz
Angela Basset. O comentário de Rubens tem razão de ser. No entanto, agora, no
caso de `Garrincha, Estrela Solitária´, mesmo com toda a entrega de Taís Araújo,
não há como negar que a aparição de Elza Soares cantando ‘Bambino´, de
Ernesto Nazareth e José Miguel Wisnik, é a cena mais bonita do filme. Na ficha técnica de `Garrincha,
Estrela Solitária’, as presenças de Vera Freire na montagem e Isa Castro na
Produção Executiva – ao lado de David Matheus. `Garrincha, Estrela Solitária´
recebeu os prêmios de Melhor Filme
– Júri Popular, Melhor Trilha Sonora (Leo Gandelman) e Prêmio Gilberto
Freyre no CINE PE – Festival do Audiovisual; Lente de Cristal de Melhor Atriz
para Taís Araújo – Festival do Cinema Brasileiro de Miami;
Melhor Ator (André Gonçalves) e Melhor Trilha Sonora – Festival de
Belém. “GARRINCHA: ESTRELA SOLITÁRIA”
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