003 - "FILME
DE AMOR"
O Cinema de Júlio Bressane e seu especialíssimo elenco de atrizes;
em
“Filme de Amor”, a hora e a vez de Bel Garcia e Josie Antello

Bel Garcia, Fernando Eiras e Josie Antello
Júlio Bressane é um dos nossos
cineastas mais sofisticados. Se no primeiro filme, “Cara a Cara”, ainda
flertava com o Cinema Novo, já nos seguintes, os clássicos “O Anjo Nasceu”
(1969) e “Matou a Família e foi ao Cinema” (1969), radicalizou na estética,
compondo com Rogério Sganzerla a dupla-marco do Cinema Marginal, momento de
pura experimentação do cinema brasileiro no final dos anos 60 e primeiros da década
de 70. E nascia aí uma das trajetórias mais singulares das telas brasileiras.
Júlio Bressane já realizou a marca
impressionante de 26 filmes, e todos eles sem qualquer concessão. Seus filmes são
difíceis, porque são expressões de uma erudição impecável e carregado de
signos. E são belos. Como são belos os filmes de Jean-Luc Godard.
Além da sempre surpreendente trilha
sonora que embala seus filmes, com mergulhos viscerais no nosso cancioneiro
tradicional, outro aspecto valioso é o elenco que ele escala para seus filmes.
E para ficarmos só nas atrizes, já emprestaram seus talentos, signos e
significados para a obra Bressaniana nomes como Helena Ignez e Maria Gladys – duas musas de seu cinema, além de Márcia Rodrigues, Renata
Sorrah, Maria Lúcia Dhal, Vanda Lacerda, Marta Anderson, Norma Bengell, Lílian
Lemmertz, Isabella, Suzana de Moraes, Rosa Dias, Bia Nunes, Cristina Pereira,
Regina Casé, Sônia Dias, Thelma Reston, Drica Morais, Giulia Gan, Fernanda
Torres, Louise Cardoso, Sílvia Buarque, Leandra Leal, entre outras.
Esse desfile de mulheres é um
contraponto e, ao mesmo tempo, um diálogo um tanto oblíquo, com o elenco de
beldades do saudoso Walter Hugo Khouri, carinhosamente conhecido como o
“Cineasta das Mulheres”. Apesar de serem representantes de cinemas bem
diversos um do outro, tanto Bressane como Khouri construíram no Cinema Nacional
uma obra completamente autoral, singular, e seguiram adiante com suas propostas,
totalmente coerentes e à margem da margem da nossa identidade fílmica.
Em “Filme de Amor”, seu novo título,
Júlio Bressane coloca em cena o mito da três graças – o Amor, A Beleza e o
Prazer, onde duas mulheres e um homem dão um intervalo em suas vidas de
cotidiano medíocre para um hiato de alegria, paixão, libertação e transcedência.
No mito original são três mulheres, Tália, Abgail e Eufrosina, mas Bressane
optou por escalar um homem levando em conta
esses “novos tempos híbridos e heterogêneos”; e no filme eles
encarnam os personagens Hilda, Matilda e Gaspar sob a lente Bressaniana e la
maravilhosa fotografia de Walter Carvalho.
As outras duas graças são as atrizes
cariocas Bel Garcia e Josie Antello, vindas do teatro e que estréiam no cinema
em “Filme de Amor” – Bel estréia em longa-metragem, pois já participou
de um curta. Bel Garcia é formada em teatro pela UniRio e integra a Companhia
dos Atores desde 1989. Josie Antello é também formada em teatro pela mesma
escola, tem passagens pelo teatro na Austria e na Itália, e é também
preparadora corporal e formada em dança indiana.
Bressane conta que chegou a Josie
Antello através de indicação de sua filha, “Eu não a conhecia, mas quando
ela entrou pela porta da minha casa, vi imediatamente que ela caía como uma
luva no papel de Matilda”. Já sobre a escolha de Bel Garcia, ele diz que a
escolheu depois de vê-la em cena; antes, hesitava entre duas outras atrizes.
Júlio Bressane se convenceu por Bel
Garcia por achar que por “sua delicadeza e sensibilidade, ela poderia fazer
muito pela Hilda”. E acertou em cheio. As duas atrizes estão ótimas em cena,
mas Bel Garcia se sobrepõe ao trabalho de Josie Antello. Como é a personagem
mais contida, o que poderia ser uma camisa-de-força ou uma simplificação
minimalista, dá lugar a subtextos e matizes lançados/revelados pelo olhar ou
mesmo pelo gestual sofisticadíssimo – não a tôa, uma das cenas mais bonitas
é a sua procura pelo gato pelos corredores do casarão abandonado. Bel Garcia
está linda em cena, estabelecendo um diálogo interessante com Josie Antello,
que se vale do humor e da voz marcante para fechar com o personagem de Fernando
Eiras – ótimo como sempre - um
dos triângulos mais interessantes, inteligentes e bonito de se ver/apreender
nas novas produções do cinema brasileiro.
Em “Filme de Amor” as mulheres têm
presença marcante também na ficha técnica: Rosa Dias no roteiro com Bressane;
Lúcia Fares na produção com Tarcísio Vidigal; Daniela Arantes na produção
executiva; Virgínia Flores na montagem; Moa Bastsow na direção de arte; e
Helen Milliet no figurino.
“Filme de Amor”
Brasil, 2003, 1h30, 18 anos.
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