Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 3
Um mapeamento das mulheres que fizeram
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O talento das Fernandas em
"CASA DE AREIA"


 


Depois da televisão, na novela “Brilhante” (1981), de Gilberto Braga, e do teatro, na peça “The Flash and Crash Days” (1992), de Gerald Thomas, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, finalmente, contracenam no cinema como protagonistas. As duas, mãe e filha e donas de talentos gigantes, estão em “Casa de Areia”, de Andrucha Waddington, em cartaz  a partir de amanhã em todo o Brasil. 

Não é a primeira vez que as duas Fernandas estão no mesmo filme. Antes, atuaram em “Fogo e Paixão” (1988), de Marcio Kogan e Isay Weinfeld; “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto; “Traição” (1998), filme em episódios de José Henrique Fonseca, Arthur Fontes e Cláudio Torres; “Gêmeas” (1999), de Andrucha Waddington e “Redentor” (2004), de Cláudio Torres. Porém, em todos os casos citados, elas participaram do mesmo filme, mas não contracenaram como protagonistas. 

Em “Casa de Areia”, as duas interpretam várias personagens em uma história com roteiro de Elena Soárez e rodado nos lençóis maranhenses, em que suas personagens têm que enfrentar os desafios físicos e psicológicos em meio a uma região inóspita. Além da união das duas, o clã familiar conta ainda com o próprio diretor, Andrucha, que é casado com Fernanda Torres. 

Fernanda Montenegro e Fernanda Torres têm talentos mais que reconhecidos, tanto pelo público quanto pela crítica. A primeira é considerada por muitos como a melhor atriz brasileira e como a Primeira Dama do nosso Teatro. A segunda, por sua vez, não se intimida com o gigantismo da mãe e construiu uma carreira notável também nos palcos, na televisão e no cinema. Por atuações nas telas, as duas, inclusive, foram laureadas com dois dos mais importantes prêmios internacionais do cinema: Palma de Ouro para Fernanda Torres por “Eu Sei Que Vou te Amar” (1986), de Arnaldo Jabor; Urso de Prata para Fernanda Montenegro por “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles – por esse trabalho, Montenegro foi indicada também ao Oscar de Melhor Atriz. 

Fernanda Montenegro tem uma carreira interessante nas telas. Apesar de ter protagonizado filmes importantes como “A Falecida” (1995), de Leon Hirszman, “Tudo Bem” (1978), de Arnaldo Jabor, e “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), de Leon Hirszman, foi só a partir de “Central do Brasil” que se apaixonou mesmo pelo cinema e vem fazendo um filme atrás do outro. Já Fernanda Torres sempre se identificou com o cinema, veículo em que desenvolveu trabalhos constantes e de primeira grandeza como “Inocência” (1983), de Walter Lima Jr., “A Marvada Carne” (1985), de André Klotzel, e “Terra Estrangeira” (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas. 

Agora chegou a vez de vê-las juntas em “Casa de Areia” e conferir porque elas são, com certeza, duas das nossas mais notáveis atrizes. O filme impressiona pela própria geografia em que a história acontece. Andrucha muda de tom radicalmente entre o filme anterior, o delicioso “Eu Tu Eles” e esse “Casa de Areia” – o primeiro é solar, esse é lunar. Apesar de alguns tropeços na direção e uns outros tantos no roteiro – por exemplo, o maniqueísmo na associação entre o episódio de sexo na infância e o comportamento na juventude de uma das personagens, o filme faz-se poderoso no tamanho e fecha em tom alto. 

Fernanda Montenegro está melhor em cena que Fernanda Torres, apesar da última estar bem como sempre. As personagens de Montenegro têm maior espaço em nuances, e um dos melhores momentos é vê-la interpretando uma das personagens de Torres. É mesmo delicioso ver Fernanda Montegro interpretando a continuidade da interpretação de Fernanda Torres. 

As presenças masculinas são mais que interessantes: Ruy Guerra, Seu Jorge, Stênio Garcia, Enrique Diaz, Emiliano Ribeiro, João Acaiabe. Grandes atores valorizando essa saga existencial. No entanto,  o filme é mesmo para as duas Fernandas, e para os seus talentos. 

CASA DE AREIA
Brasil, 2005, 1h45. Direção: Andrucha Waddington.
 

                                              

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