HELENA
IGNEZ por CARLOS ALBERTO MATTOS

Foto:
"Helena Zero" (2006), curta de Joel Pizzini
A
baiana ultrajante
Minha admiração pela atriz – e agora diretora – Helena Ignez
vem de longe. Vem dos anos 1960, época em que ela afrontou a ordem
e os bons costumes da esquerda e da direita, sagrando-se musa maior do
cinema marginal brasileiro.
Filha
da pequeno-burguesia baiana, preparada para ser esposa de diplomata, Helena
sempre foi uma mulher dicotômica. Na juventude, antes de se casar
com Glauber Rocha, assinou uma coluna social com o pseudônimo de
Krysta e antecipou a moda hemp vestindo mocós de sarja. Joaquim
Pedro de Andrade, que tocou o âmago da sua doçura na Mariana
de O Padre e a Moça, disse que ela caminhava entre a santidade
e a sensualidade. Há pouco tempo, quando Monique Gardenberg escolheu-a
para viver a monja budista e a Madame Petit Pont da peça Os Sete
Afluentes do Rio Ota, ouviu de José Celso Martinez Correa a seguinte
aprovação: “Você acertou. A Helena é mesmo
monja e perua”.
Talvez
por não ter abraçado um estilo de interpretação
naturalista, nunca a vemos no mesmo panteão das grandes atrizes,
junto com Fernanda, Cacilda e Marília. Assim como Leila, Norma
e Sônia, Helena é da estirpe das mulheres-evento. Através
dela, o cinema talvez não cresça, mas se adensa e penetra
mais fundo.
Ver
Helena Ignez nos filmes marginais é tomar contato com a plena liberdade
do desejo. As saias curtíssimas, os pequenos seios freqüentemente
à mostra, os olhos grandes de boneca, a boca devoradora e suavemente
dentuça, tudo emoldurado pela juba loura, exalam o erotismo e a
irreverência de uma pin-up envenenada. Ela agencia e subverte as
poses de glamour girl como se injetasse ácido sob o glacê
do bolo. E a câmera a segue, imantada. Capta seus berros, rodopios,
danças loucas. Helena é uma intempérie na tela.
Em
1970, Helena associou-se ao marido Rogério Sganzerla e a Julio
Bressane para fundar a produtora Belair, que no curto espaço de
sete meses produziu, quase simultaneamente, seis radicais e baratíssimos
longas-metragens. Helena atuou em todos. A experiência, no auge
da ditadura, foi interrompida pelo alerta de um general. Estavam na mira
da repressão. Em menos de 24 horas, os três embarcaram para
Paris. Rogério e Helena exilaram-se entre Londres, Nova York e
o Saara.
De
volta, anos mais tarde, Helena afastou-se do cinema, do teatro e da televisão.
Entrou para o movimento Hare Krishna, abraçou o taoísmo
e dedicou-se à criação de Sinai e Djin, suas filhas
com Rogério. Mas, ao contrário de Odete Lara, que trocou
definitivamente a carreira pela vida espiritual, Helena fez um lento retorno
em novos trabalhos de Sganzerla (Nem Tudo é Verdade, O Signo do
Caos e a peça Savannah Bay, de Marguerite Duras), Bressane (São
Jerônimo) e Guilherme de Almeida Prado (Perfume de Gardênia).
Distante da imagem de menina bandida, hoje ela escolhe papéis mais
reflexivos e comporta-se como profissional exemplar.
A
trajetória e a personalidade de Helena Ignez reservam para ela
um lugar único entre as grandes mulheres do cinema brasileiro.
Carlos
Alberto Mattos é jornalista, escritor, pesquisador e crítico
de cinema de referência no país.
Editor do blog - DocBlog, no portal do jornal O Globo - www.oglobo/blogs/docblog
parada obrigatória para quem quer acompanhar e conhecer um pouco
mais sobre a produção
de documentários. Carlos Alberto Mattos escreveu belíssimo
e essencial livro sobre o
cineasta Walter Lima Jr: "Walter Lima Junior: Viver Cinema".
É também autor de
"Eduardo Coutinho - O homem que caiu na real", e de títulos
para a Coleção Aplauso:
"Carla Camurati: Luz Natural"; "Jorge Bodanzky: O Homem
com a Câmera";
"Maurice Capovilla: A Imagem Crítica".
sala
indice arquivo
home
|