ODETE LARA
por ANDRÉ SETARO

Foto:
cena de "O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro"
(1969),
de Glauber Rocha
Entre todas as atrizes brasileiras, a que mais me fascina é Odete
Lara, talvez porque este fascínio venha da infância, quando
ainda em tenra idade comecei a ver seus filmes e me fixei, garoto, na
sua forte personalidade, na sua extraordinária presença,
e na sua singular beleza de mulher.
Quando comecei a ir ao cinema, em meados dos anos 50, a maioria dos filmes
brasileiros que via era constituída de chanchadas. A primeira impressão
forte de Odete Lara, apesar de meus 8 anos, veio de Absolutamente certo
(1957), deliciosa comédia de costumes dirigida por Anselmo Duarte,
que considero, sem medo de errar, um dos melhores filmes nacionais de
todos os tempos. Odete num número musical, nos estúdios
da televisão onde o personagem principal, Zé Lino, interpretado
por Anselmo Duarte vai pela primeira vez se apresentar para fazer um teste.
Não perdi, desde então, Odete Lara de vista. E a vi no papel
de Júlia em Uma certa Lucrécia, de Fernando de Barros (1957),
em Dona Xepa, de Darcy Evangelista, Moral em concordata (1959), de Fernando
de Barros, e, de repente, Esse Rio que eu amo (1960), de Carlos Hugo Christensen,
quando, pela primeira vez, recebo uma Odete Lara colorida dentro do cartão
postal da ex-Cidade Maravilhosa. Evidentemente que, naquela época,
não tinha em mente os diretores dos filmes citados, ainda que,
num caderno colegial, fosse de anotar os filmes vistos.
O menino que se queria já um adolescente vivia lendo em Cinelândia
sobre a sua grande atriz, e esperando o seu próximo filme. Que
vieram: Cacareco vem aí (1960), de Carlos Manga, Na garganta do
diabo (1960), de Walter Hugo Khoury, Dona Violante Miranda (1960,. de
Fernando de Barros, e o desconhecido Sábado a la noche, cine. Interessante
observar que Odete Lara fazia um filme atrás do outro, sem parar,
considerando que somente em 1960, quatro longas metragens.
Mas Odete ainda se revelar mais em Mulheres e milhões (1961), thriller
de Jorge Ileli, onde tem mais oportunidade de mostrar os seus encantos.
E, principalmente, em 1962, quando domina a cena de quase todas as seqüências
de As sete Evas, de Carlos Manga. A seguir: Bonitinha mas ordinária
(1963) de J. P. de Carvalho, que desconfio ser pseudônimo de Jece
Valadão, uma adaptação sensacionalista da famosa
peça de Nelson Rodrigues.
Mas quero aqui apenas registrar a minha predileção por Odete
Lara entre todas as atrizes brasileiras de todos os tempos. E não
fazer a sua filmografia. Mas é preciso registrar a Odete Lara essencial,
e ela se encontra, perfeita e acabada, em Noite vazia (1964), de Walter
Hugo Khoury, um dos grandes momentos do cinema brasileiro, Copacabana
me engana (1968), obra de estréia na direção de Antonio
Carlos Fontoura que viria a lhe dirigir depois em A rainha diaba (1973).
E a Odete Lara enfurecida, em O dragão da maldade contra o santo
guerreiro (1969), de Glauber Rocha, que, vestida de roxo, esfaqueia com
quase duas dezenas de golpes de faca Hugo Carvana em momento antológico
do cinema brasileiro.
Sim, Odete Lara é única, ainda que tantas as belas e boas
atrizes que o Brasil possui.
André Setaro é, antes de tudo, um pensador de cinema.
Crítico, pesquisador e professor de cinema da UFBA -
Universidade Federal da Bahia, André Setaro foi um dos colaboradores
da indispensável "Enciclopédia do Cinema Brasileiro",
organizada por Ferrnão Ramos e Luiz Fernando Miranda.
sala
indice arquivo
home
|