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Carmen
Santos
60 Anos de "Inconfidência Mineira”
Foto: capa do livro
Carmen
Santos é, para muitos – e o Mulheres também acha isso -
a mais importante mulher da história do cinema brasileiro. Atriz,
dona de estúdio, produtora, roteirista e diretora, Carmen Santos
marcou para sempre a história do cinema nacional. Seu maior projeto,
e obsessão, foi a realização do filme “Inconfidência
Mineira”, que planejou em 1937, mas só concluiu 11 anos depois,
em 1948. O filme fracassou e levou Carmen Santos à falência.
Agora, em 2008, são 60 anos de realização desse projeto
tão sonhado por Carmen Santos. O Mulheres comemora a data - e também
homenageia o Mês da Mulher - e publica uma resenha sobre um livro
fundamental para conhecer um pouco mais de perto quem foi essa admirável
mulher:”Carmen Santos – O Cinema dos Anos 20”, de Ana Pessoa.
Resenha Especial - Mês da Mulher
“Carmen Santos – O Cinema dos Anos 20”, de Ana Pessoa
O cinema brasileiro, quase sempre, foi um “negócio” de homens.
Durante toda a sua trajetória, as mulheres tiveram seu lugar de
destaque, desde que se contentassem ao papel de musas, de atrizes a exibirem-se
frente às lentes de cineastas e produtores das mais diversas procedências.
Nos anos 1920, porém, uma mulher não quis deixar se aprisionar
a esses limites, e de atriz passou a produtora, dona de estúdio
de cinema e cineasta. E é essa destemida mulher o objeto de estudo
da pesquisadora Ana Pessoa (2002) na biografia “Carmen Santos – O Cinema
dos Anos 20”.
Carmen Santos nasceu em Portugal em 8 de junho de 1904, mas veio para
o Brasil em 1912, com oito anos de idade, para viver no Rio de Janeiro.
Ela, a mãe, d. Ana Cândida, e a irmã, Juliana, vieram
de vez para viver com o pai, João dos Santos Gonçalves,
que desembarcara anos antes para preparar o terreno para a vinda da família.
Ana Pessoa relata os primeiros anos da família no Brasil e suas
dificuldades. O pai era marceneiro e não dava conta de bancar todo
o sustento familiar, daí Carmen, que era filha mais velha, pois
seus pais tiveram outra menina, Deolinda, abandona a escola pública
para trabalhar numa oficina de costura com a função de pregar
botões. Pessoa contextualiza o papel da mulher pobre naquela época:
As indústrias de confecções, “vestuário
e toucador”, assim como a indústria têxtil, são as
mais receptivas frentes de trabalho para as mulheres e meninas dos baixos
extratos sociais. As atividades de tecer, costurar e pregar botões
nas oficinas de costura transformam em unidade de produção
o universo doméstico feminino de fios, agulhas e carretéis.
(PESSOA, 2002, p.22)
De operária de fábrica, Carmen Santos passa para vendedora
de magazine, o Parc Royal, e é aí que começa sua
ascensão. Na época, Carmen tem 14 anos, 1,56m de altura
e grandes olhos expressivos. Sua aparência chama a atenção
dos fregueses e ela é eleita a mais bela funcionária da
loja. A chegada de um técnico de cinema americano ao Brasil, William
Jansen, sacode não só o panorama cinematográfico
no Brasil, com a instalação da “Omega Film”, como também
a vida da pequena Carmen.
A Omega anuncia o Concurso de Artistas Cinematográficos em 1919.
Apaixonada pelo cinema, Carmen faz teste na Omega e é selecionada
para interpretar Marta, a principal personagem de “Urutau”, filme dirigido
por Jansen. Começava aí a solidificação da
paixão irrefreável de Carmen Santos pelo cinema e Ana Pessoa
esquadrinha no livro toda essa obstinação da futura estrela.
É pelo cinema que Carmen Santos muda sua história de filha
de imigrantes pobres a de o maior nome feminino do cinema brasileiro dos
anos 1920 e 1930.
Carmen Santos faz mais dois filmes nos anos 20, “A Carne”, em 1924, e
“Mademoiselle Cinema”, em 1925, ambos dirigidos pelo cineasta Leo Merten.
Seus três primeiros filmes jamais serão lançados comercialmente,
mas Carmen Santos já é uma estrela de ponta. Ana Pessoa
proporciona ao leitor uma cuidadosa contextualização da
época, como, por exemplo, o poder da publicidade que envolve os
astros do cinema de então, com fotos e artigos em revistas como
“Palcos e Telas” e “Cinearte”, nos moldes do star-systen Hollywodiano.
Os filmes de Carmen Santos não são lançados e várias
tragédias se abatem sobre eles, como incêndios e constantes
interrompimentos de filmagens. Nada porém faz Carmen Santos desistir,
e ao conhecer o jovem, rico e apaixonado Antônio Lartigau Seabra,
de família tradicional no ramo atacadista de tecidos, encontra
não só seu repouso de guerreira, como também o braço
econômico a sustentar seus projetos cinematográficos. É
com Seabra que Carmen vai romper mais uma vez com o destino reservado
às mulheres de sua época e condição social:
A paixão aumenta o inconformismo da jovem atriz,
levando-a não somente a afirmar suas perspectivas profissionais
como a romper com um dos mais sagrados valores da sociedade de sua época:
a virgindade. Segundo os preceitos jurídicos em vigor, o relacionamento
sexual precoce era severamente punido – o desvirginamento de menores de
16 anos, independente do uso ou não de violência, era considerado
um estupro. (PESSOA, 2002, ps. 35-36).
É no final da década de 1920, que Carmen Santos, finalmente,
fica nacionalmente conhecida por seu trabalho na tela. O filme é
“Sangue Mineiro”, dirigido pelo cineasta mineiro, de Cataguases, Humberto
Mauro, em 1929. Começa aí uma parceria profissional das
mais importantes da história do cinema brasileiro. Ele, que construiria
uma das filmografias de maior impacto na cultura cinematográfica
brasileira e que seria chamado por muitos como o “pai do cinema nacional”.
Ela, uma mulher destemida e de forte personalidade, que poucos anos depois
galgaria mais um passo impensável para uma mulher: a construção
de um estúdio de cinema, a “Brasil Vox Film”, em 1934, que no ano
seguinte passaria a se chamar “Brasil Vita Filme”.
A Brasil Vita Filme produz vários documentários e também
dois longas de Humberto Mauro e estrelados por Carmen: “Favela dos Meus
Amores”, em 1935, e “Cidade Mulher”, em 1936. Ana Pessoa narra com detalhes
a relação profissional de Carmen Santos com Humberto Mauro
e também com o carioca Adhemar Gonzaga, cineasta, jornalista e
maior produtor de cinema da época.
Obcecada pelo cinema brasileiro, Carmen Santos dá mais um grande
passo nos anos 1930: a realização do sonho de produzir,
roteirizar, estrelar e dirigir um filme. Carmen escolhe a história
da Inconfidência Mineira, reservando para si o papel de Bárbara
Heliodora. A produção do filme “Inconfidência Mineira”,
porém, é problemática, sofrendo várias interrupções,
e só sendo concluído 11 anos depois de sua idealização
– de 1937 até 1948. O resultado é um fracasso de bilheteria,
levando Carmen à falência e à venda de seu estúdio
no início dos anos 50. A última produção de
Carmen é o filme “O Rei do Samba”, sobre o compositor Sinhô,
dirigido por Luiz de Barros, em 1952. Carmen Santos morre no dia 24 de
setembro de 1952, vítima de câncer, aos 48 anos de idade.
“Carmen Santos – O Cinema dos Anos 20”, de Ana Pessoa, refaz toda a trajetória
de Carmen Santos, destacando o caminhar dessa obstinada mulher na luta
pelo cinema brasileiro e revelando o porquê dela ter se tornado
o principal nome feminino do cinema, não só dos anos 20,
como também de toda nossa história de cinema nacional.
Conhecer a história de Carmen Santos é acompanhar a trajetória
da presença da mulher no cinema brasileiro. Para entender todo
esse processo, é fundamental conhecer quem foi Carmen Santos. E
o livro “Carmen Santos – O Cinema dos Anos 20”, de Ana Pessoa, não
é só fonte essencial, é leitura obrigatória.
PESSOA, Ana. Carmen Santos – o cinema dos anos 20. Rio de Janeiro,
Aeroplano, 2002.
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