KATE LYRA
por MATHEUS TRUNK

Foto:
cena de "Convite ao Prazer" (1980),
de Walter Hugo Khouri
(2006)
Musas
dentro do cinema brasileiro existem várias. Cada uma com uma beleza
ousada ou mesmo um talento diversas vezes esquecido. Isso desde os primórdios.
Me lembro de Eliana Macedo, nas chanchadas nos anos 50, por exemplo. Além
de atuar, ela dançava, cantava, representava...
Mas o maior número de vestais no cinema brasileiro foi mesmo nos
anos 70 e 80, quando nossa produção dominava as telas do
país. Criamos por bem ou por mal, uma verdadeira indústria
de cinema. Diversas foram as mulheres que tinham diversos fã-clubes
espalhados por todo país. Na Boca do Lixo, em São Paulo,
então nem se fala.
Pra mim, escolher uma única atriz para essa coluna foi uma tarefa
cruel e árdua. Muitas mereciam estar aqui: Neide Ribeiro, Alcione
Mazzeo, Alvamar Taddei, Aldine Müller, Sandra Bréa...
Porém, minha escolha é mesmo Kate Lyra. Embora alguns dos
papéis na televisão dela sejam até famosos (principalmente
em programas humorísticos), Kate uma dessas atrizes que nasceu
para a telona.
Vinda do distante estado norte-americano do Arizona, a musa veio para
o Brasil, onde se casou com o bossa-novista Carlos Lyra. Participou de
algumas comédias, que já vão dando uma prévia
do que estar por vir. Isso fica claro em filmes como “Nos Tempos da Vaselina”,
em que ela é uma professora de dança, numa espécie
de “Embalos de Sábado a Noite” da Zona Sul carioca.
Sua atuação em um despretensioso, mas genial filme de J.
Figueira Gama merecia ter ganhado algum prêmio. Quem procurar pode
ter certeza: o título da película nada tem haver com seu
conteúdo.
Mas o grande talento de Kate está provado nos filmes que ela realizou
sob as ordens do mestre Walter Hugo Khouri. São os três filmes
fundamentais na filmografia da atriz: “Prisioneiro do Sexo”, “Convite
ao Prazer” e “Eros”.
Quem conhece cinema brasileiro sabe que ninguém na nossa história
cinematográfica sabia dirigir atrizes como Khouri. Nessa segunda
fase do trabalho do cineasta paulista, ele está mais livre para
fazer o que queria sem precisar de um rigor estético tão
forte. Ele não era mais um acadêmico. Estava mais livre pra
fazer o que bem entendia.
Seu fotógrafo agora era o autodidata Antônio Meliande; seu
produtor era Antônio Pólo Galante; ele poderia usar todas
as atrizes que desejava. Ele então transformava aquelas simples
e frágeis moças em deusas fenomenais. Nesse aspecto, Kate
Lyra foi mais uma das musas desse grande (e extraordinário) esteta.
No primeiro longa que fizeram juntos, a atriz está quase discreta
num papel de uma mulher divorciada seduzida por Marcelo (Roberto Maya).
Em “Convite”, ela é uma professora de inglês, fortemente
explorada pelo patrão. E finalmente em “Eros”, mais uma vez no
papel de professora, mas do menino Marcelo Ribeiro.
Mesmo em papéis difíceis e que poucas atrizes nacionalmente
conhecidas se arriscariam a fazer, Kate teve brilho e coragem para sempre
fazer papéis fortes, sem nunca cair na vulgaridade, tão
presente hoje em dia.
Pena que nas décadas seguintes, a musa ganhou pouquíssimas
chances, sendo uma sombra frente seu talento e beleza. Kate Lyra merecia
ser mais lembrada nos dias atuais em que cada vez mais atrizes sem brilho
dominam nossas telas.
Matheus
Trunk é jornalista. Pesquisador apaixonado pelo cinema brasileiro,
principalmente
o cinema. popular, edita a obrigatória Revista Zingu - www.revistazingu.blogspot.com,
publicação eletrônica de destaque na internet. Pela
Zingu, que conta com especiais
colaboradores como Marcelo Carrard e Eduardo Aguilar, pesquisadores e
amantes do
cinema brasileiro ficam conhecendo um pouco mais sobre o cinema nacional,
sobretudo o cinema paulista, com lugar de honra para nomes fundamentais
da nossa história cinematográfica, mas nem sempre contemplados
pela mída
e pela crítica. De 2004 a 2007, Matheus Trunk manteve o ótimo
blog
"Cinéfilos do Terceiro Mundo" , atualmente desativado.
O pesquisador
criou outro:, "Violão, Sardinha e Pão" - www.violaosardinhaepao.blogspot.com.
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