Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 3
Um mapeamento das mulheres que fizeram
e fazem a história do Cinema Nacional

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MARIZA LEÃO

Foto: "11a Mostra de Cinema de Tiradentes"
Crédito: Paulo Filho



Mariza Leão é uma das produtoras de cinema mais importantes do Brasil. Sua trajetória no cinema nacional vem desde os anos 1970, como diretora de curtas - co-dirigiu com Sérgio Rezende o ótimo "Leila Para Sempre Diniz", em 1975, além de vários outros títulos. Nos anos 1980 se torna produtora, a partir do relacionamento com Sérgio Rezende, com quem é casada há 30 anos: "Sendo bem sincera, que é o meu jeito de ser, o que me levou para o cinema brasileiro foi eu começar a namorar o Sérgio Rezende. Na verdade, eu fazia faculdade de jornalismo e eu sempre gostei de escrever, eu pensava em ser uma jornalista. Mas o Sérgio, quando nos conhecemos, ele já tinha a definição clara de que ele queria fazer cinema, dirigir etc. E isso me estimulou a ir para o cinema, quer dizer, foi um namoro que trouxe o cinema para mim".

Começava aí uma vitoriosa carreira como produtora de filmes como "Nunca Fomos Tão Felizes", de Murilo Salles, "Romance da Empregada", de Bruno Barreto, além de todos os filmes feitos com o marido, como "O Homem da Capa Preta", "Guerra de Canudos", "Quase Nada" e "Zuzu Angel. Mariza Leão se declara apaixonada pela profissão: "As pessoas dizem, “ah, mas você largou a direção, que é uma criação, e passou para o lado da produção”. Eu digo, “pô, mas a produção é muito criação, a produção é pura criação”, eu tenho um prazer como criadora no espectro da produção imenso, imenso. Eu me vejo em cada filme que eu fiz, eu me vejo, tem o meu olhar, tem o meu cheiro, tem a minha inteligência, a minha burrice, minha capacidade e minha incapacidade, a minha fragilidade e a minha fortaleza. È, não são filmes que eu diria que não me expressem, todos me expressam".

Mariza Leão, que também ja produziu e produz para outros diretores, tem uma opinião sobre esse tráfego: "Eu acho que a minha relação de trabalho com o Sérgio é uma coisa curiosa, a monogamia fica no casamento, trabalho a gente tá se dando o prazer e o direito de não ser monogâmico. E isso é muito bom porque é muito bom desejar e ser desejado profissionalmente. É muito bom saber que a relação nossa no trabalho não se dá porque um é uma muleta do outro, nós somos capazes de caminhar sozinhos. E querer ficar juntos é uma maravilha, porque o problema é quando duas pessoas só trabalham juntos porque nenhuma das duas tem uma carreira que lhes garanta caminhar sozinhos. Então trabalhar juntos é uma opção, não é uma deficiência, e isso pra mim é muito importante".

A
tualmente, Mariza Leão vive um momento de grande sucesso: é produtora e co-roteirista de "Meu Nome Não É Johnny", dirigido e co-roteirizado por Mauro Lima e atual sensação de bilheteria do cinema brasileiro. Mariza leão esteve na “11ª Mostra de Cinema de Tiradentes” para participar de uma mesa de debate e conversou com o Mulheres. Na entrevista, ela fala de sua trajetória, dos primeiros filmes como diretora de curtas e da passagem para a produção. Fala da relação com Sérgio Rezende, dos vários filmes que produziu, fala de sucessos e filmes de pouca repercussão crítica ou de público.



Mulheres
: Sua trajetória no cinema brasileiro vem desde os anos 1970, inclusive com algumas direções de curtas, como o filme sobre a Leila Diniz. O que te levou para o cinema brasileiro e a ser uma das produtoras mais importantes do país?



Mariza Leão: Sendo bem sincera, que é o meu jeito de ser, o que me levou para o cinema brasileiro foi eu começar a namorar o Sérgio Rezende. Na verdade, eu fazia faculdade de jornalismo e eu sempre gostei de escrever, eu pensava em ser uma jornalista. Mas o Sérgio, quando nos conhecemos, ele já tinha a definição clara de que ele queria fazer cinema, dirigir etc. E isso me estimulou a ir para o cinema, quer dizer, foi um namoro que trouxe o cinema para mim.

Realmente, você tem razão, eu comecei dirigindo curtas, o primeiro curta que o fiz, escrito e dirigido por mim, é o “Insolência” (1974). Depois eu fiz o “Leila Para Sempre Diniz” (1975), em co-direção com o Sérgio, foi o único filme que nós co-dirigimos, e depois eu fiz “Circos e Sonhos” (1978), que foi um filme infantil. Fiz um filme chamado “Palmas para Jesus” (1976), que é um documentário, o surgimento das igrejas pentecostais no Rio de Janeiro, que eu revi agora, 30 anos depois, e fiquei muito feliz de ter feito esse filme. E aí eu percebi que, eu dirigi um curta chamado “O Saxofonista” (1977), e eu achei que não era brilhante como diretora. Eu gostava de escrever, eu gostava de edição, de montagem, mas eu não tinha paciência de ficar focada como diretora numa cena e outra cena o dia inteiro etc.

Paralelamente a isso, eu sempre fui uma pessoa de muito fácil comunicação e o lado de botar de pé projetos, realizar sonhos, me atraiu e foi o que me levou para a produção. Não só o Sergio, mas um monte de amigos nossos, o José Joffily, e outros tantos, ficavam muito juntos e comentando que eles queriam fazer, queriam fazer, queriam fazer, e na verdade eu vi que não havia em nenhum deles o pulso de tornar aquilo uma realidade. Eu falei: “não, eu acho que eu vou fazer isso”, e aí comecei.

Mulheres: A primeira produção em longas foi em...

Mariza Leão: Em documentários de longa-metragem o “Até a Última Gota” (1980 – Sérgio Rezende); e em ficção “O Sonho Não Acabou” (Sérgio Rezende), de 82.

Mulheres: E o trabalho com o Sérgio? É difícil desassociar vocês dois, mesmo com os trabalhos com outros diretores. O próprio curta “Leila Para Sempre Diniz” que vocês fizeram juntos, foi um curta marcante. Como é manter essa sua assinatura como produtora tão importante no cinema brasileiro e essa sua parceria com o Sérgio?

Mariza Leão: Olha, eu... namorar é muito bom, e o Sérgio é um... nós somos pessoas diferentes. É exatamente uma complementação, então sempre gostei de produzir os filmes do Sérgio. Nós estamos casados há mais de 30 anos e temos três filhos. Já fizemos juntos muitos filmes, “O Sonho Não Acabou”, “O Homem da Capa Preta” (1986), “Doida Demais” (1989), “Lamarca” (1994), “Canudos” (“Guerra de Canudos” – 1997), “Quase Nada” (2000), “Onde Anda Você? (2004)”, eu co-produzi o “Zuzu Angel” (2006). Em suma, trabalhar com o Sérgio me dá uma alegria, porque o Sérgio é um diretor que eu admiro, ele é um roteirista que eu admiro, e isso alimenta muito o nosso casamento, a nossa relação. O trabalho tem seus conflitos, tem suas crises, mas no fundo não deixa de ser um alimento de estímulo.

Mulheres: Como você citou, você tem produções importantes com o Sérgio. Dentre eles, tem um que é o meu preferido, que é o “Quase Nada”. Como é trabalhar com essas escalas de produção, umas muito grandes, outras pequenas?

Mariza Leão: Olha, o “Quase Nada” eu considero uma obra-prima, eu também concordo com você. É um filme que o Sérgio escreveu em três dias, é um filme de baixíssimo orçamento, não custou eu acho que 700 mil reais. Agora é um filme que não teve público. Então eu também sendo muito sincera com você, a minha alegria no trabalho, ela não está focada apenas, digamos, na construção do filme. O pós, que é o lançamento, que é a sala de cinema cheia, faz falta pra mim. Então eu não te diria que eu prefira os projetos pequenos, intimistas. Eu prefiro, é minha natureza, eu até brinquei outro dia com o Domingos de Oliveira, eu falei uma frase pra ele que é assim: quando eu morrer pode botar na minha lápide “aqui jaz uma moça que gostava de competir, nem sempre ganhava, mas gostava de competir”.

Eu acho essa coisa da sala cheia, que tem no “Canudos”, no Capa Preta” e no “Doida”, tem no “Zuzu”, que é você chegar lá e ver a lotação esgotada, e não sei o quê, e agora tem o “Meu Nome Não É Johnny”, o último filme que eu fiz, é insubstituível para mim. Eu acho que eu me realizo nesse arco do processo, quando a sala tá cheia, quando o público tá voltando da porta, ali é onde eu digo “cheguei onde eu queria”.

Mulheres: E você está falando aí tanto dos dois lados, ou seja, aquele filme que está chegando ao público, e também a questão da bilheteria, você como produtora?

Mariza Leão: Eu acho que eu faço filmes, todos nós no Brasil fazemos filmes com recursos incentivados. Então, o que acontece, eu acho que a maior contrapartida que uma obra pode ter, ela se dá em níveis diferentes. Digamos, uma obra que é uma afirmação artística, que tem um valor importante, que tem uma repercussão na sociedade, como o “Quase Nada”, por exemplo, tem uma relevância, não é só a bilheteria que justifica uma obra. Em contrapartida, você tem filmes que vão fazer um encontro do público com o cinema brasileiro, isso também, essa importância.

Então eu acho que a tentativa é de evitar um chamado, a obra inodora, que não tem nenhuma relevância do ponto de vista, digamos, de um pensamento, de uma expressão, e também não tem uma relevância do ponto de vista de encontro com o público, né? E esse que eu acho que é o grande esforço, que eu acho que é grande tentativa, no caso de filmes que encontram público, que eu tive a felicidade de fazer alguns. E também não me satisfaz, digamos assim, somente que um número justifique um projeto. Eu acho que uma obra tem que ter também, afora um encontro com o público, um peso naquele momento, na sociedade brasileira.

Mulheres: Agora, recentemente, você passou por dois momentos distintos, que é o caso do “Inesquecível” (2007 – Paulo Sérgio de Almeida) e, agora, o “Meu Nome Não é Johnny” (2008 – Mauro Lima). Como é oscilar entre esses dois tipos de resultados? Como você situa isso?

Mariza Leão: Eu situo como uma experiência muito difícil, porque o Paulo Sérgio é um grande diretor, além de ser um grande amigo. Nós trabalhamos três anos nesse projeto e aconteceu que nada deu certo. E te digo: “é doloroso”. Mas acontece que ninguém tem uma bula, não há uma receita, cada filme, como cada quadro, como cada música, como cada livro, ele é um protótipo em si, ele não tem parâmetro anterior. Eu acho que uma das coisas que mais magoa é quando você trabalha e não consegue, digamos assim, que uma obra como o “Inesquecível” tivesse sido vista por mais pessoas. Onde estão os erros? Provavelmente os erros estão em todas as partes, no conjunto do processo, e eu me incluo como parte do erro.

Mulheres: E aí você vem dessa experiência para o “Meu Nome Não É Johnny”, que é esse sucesso.

Mariza Leão: É, foi no Brasil inteiro, um filme que em três semanas fez quase um milhão e cem mil ingressos. É um filme que as pessoas, tem pessoas que já viram duas, três vezes, é um filme que provocou uma discussão na sociedade de A a Z, um filme que é capaz de comunicar com o leitor da página amarela da Veja ao cara que vê o Big Brother. Então, ele tem um arco muito amplo, né?

Mulheres: Então ser produtora é oscilar entre...

Mariza Leão: Ser produtora é como ser diretor, como ser ator, é acertar e errar, é uma busca, é uma inquietude permanente. Você viu agora o livro do Fernando aqui (Mariza recebeu um projeto durante a entrevista). Eu já li esse livro, aí já penso, mas será que esse filme deveria ter sido cravado naquela época, será que deveria ser um filme... Um produtor, no meu entendimento, é um co-autor de uma obra, ele não é um contador, ele não é um homem ou uma mulher que controla gastos ou que arranja dinheiro apenas, eu acho que isso é uma parte do trabalho.

As pessoas dizem, “ah, mas você largou a direção, que é uma criação, e passou para o lado da produção”. Eu digo, “pô, mas a produção é muito criação, a produção é pura criação”, eu tenho um prazer como criadora no espectro da produção imenso, imenso. Eu me vejo em cada filme que eu fiz, eu me vejo, tem o meu olhar, tem o meu cheiro, tem a minha inteligência, a minha burrice, minha capacidade e minha incapacidade, a minha fragilidade e a minha fortaleza. È, não são filmes que eu diria que não me expressem, todos me expressam.

Mulheres: Como produtora você acompanha todas as etapas?

Mariza Leão: Todas. Eu gosto de formular um projeto. No “Johnny” eu cheguei a escrever o roteiro junto com o Mauro Lima. Então eu gosto de formular, de perceber uma idéia original, de quais caminhos ela pode ter, de que forma que a gente vai construir isso, quem pode trabalhar com isso, qual seria a melhor trajetória.

Mulheres: E a Mariza roteirista?

Mariza Leão: Ah, agora viciei, gostei, é igual mulher de vagabundo, né? Tô dentro total. Eu, na verdade, sempre quase escrevi, sempre tive com o roteiro uma relação obsessiva, muito crítica, muito obsessiva, e o “Johnny” me liberou, sabe aquela história? Então me viciei nisso, gosto, gostei, e tô a fim de repetir, entendeu?

Mulheres: Você citou os filmes do Sérgio, mas dá para você citar outras produções, filmes que você gostaria de destacar.

Mariza Leão: O “Nunca Fomos Tão Felizes”, filme que eu fiz com o Murilo Salles, em 84; o “Romance da Empregada”, que eu fiz com o Bruno Barreto, em 87; são filmes pra mim importantes. Esse filme com o Mauro, Mauro Lima. Eu acho que a minha relação de trabalho com o Sérgio é uma coisa curiosa, a monogamia fica no casamento, trabalho a gente tá se dando o prazer e o direito de não ser monogâmico. E isso é muito bom porque é muito bom desejar e ser desejado profissionalmente.

É muito bom saber que a relação nossa no trabalho não se dá porque um é uma muleta do outro, nós somos capazes de caminhar sozinhos e somos capazes de caminhar sozinhos. E querer ficar juntos é uma maravilha, porque o problema é quando duas pessoas só trabalham juntos porque nenhuma das duas tem uma carreira que lhes garanta caminhar sozinhos. Então trabalhar juntos é uma opção, não é uma deficiência, e isso pra mim é muito importante.

Mulheres: Eu gosto muito de um filme que você produziu que é o “Romance da Empregada”. Quando eu entrevistei a Betty Faria ela me disse que é o xodó dela.

Mariza Leão: Eu gosto, é um filme maravilhoso. É engraçado, eu tive essa sorte assim, o Bruno me convidou pra produzir o filme e eu acho que, era um projeto que eu sabia, digamos, estar ao lado do Bruno, de uma maneira bacana, foi muito, muito bom. Como acho que o filme do Murilo, o “Nunca Fomos Tão Felizes”, é um filme marcante. Em suma, são trabalhos diferenciados, mas todos assim que acho que eu tenho um olhar apaixonado sobre eles.

Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que você assistiu?

Mariza Leão: Eu assisti o “Mulheres, Sexo, Verdades & Mentiras” (2008), que estreou agora, da Julinha Lemmertz e do Euclides (Marinho). Eu assisti “Tropa de Elite” (2007 – José Padilha); eu assisti “Deserto Feliz” (2007 – Paulo Caldas); eu assisti “Nome Próprio”, do Murilo (Salles -2007) no Festival do Rio, e hoje eu vou assistir o “Dindi” (“Meu Nome É Dindi”), o filme do Bruno (Safadi).

Eu assisti um grande filme, em DVD, do Evaldo Mocarzel, chamado “Jardim Ângela”. Eu diria pra você que, pra mim, foi muito relevante esse filme.

Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para fazerem uma homenagem à uma mulher do cinema brasileiro, de qualquer área e de qualquer época.

Mariza Leão: Nunca pensei nisso, mas... é... (longo silêncio). Tão difícil fazer um recorte assim porque...

Glauce Rocha, fui buscar longe, por isso demorou. Porque foi uma atriz que fez poucos filmes, mas são filmes em que a atuação dela me marcou na minha juventude de uma maneira tão profunda. Sem querer desmerecer ninguém, mas a Glauce fez o “Navalha na Carne” (1969 – Braz Chediak), fez o “Terra em Transe” (1967 – Glauber Rocha). Eu não sei se teria feito que outros filmes. Mas aí tá uma atriz que eu, a memória assim, te digo: “como foi marcante pra mim”.

Mulheres: Obrigado pela entrevista.

Mariza Leão: Obrigada.

 


Entrevista realizada em janeiro de 2008,
na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes".

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