|
MARIA
IONESCU
.jpg)
Foto:
Vébis Junoor - acervo Carlos Reichenbach
Maria
Ionescu é nome de destaque em produção executiva
no cinema brasileiro. Formada em cinema pela ECA, na USP, fez os primeiros
trabalhos ainda na Faculdade, época em que conhece o cineasta Chico
Botelho, que foi um de seus professores, e com quem veio a se casar: "Logo
que eu saí da ECA, eu fui fazer um documentário com ele
chamado “A Longa Viagem”, em 1984/1985. Desse documentário a gente
acabou namorando, se casando e abrimos uma empresa juntos, a Orion Cinema
e Vídeo. Isso foi muito em função de se fazer o longa
dele, “Cidade Oculta”, que teve financiamento da Embrafilme, foi um dos
últimos filmes a receber esse financiamento".
Em
tempos de ECA, Maria Ionescu estava mais interessada na parte técnica:
"eu não pensava em ser produtora. Na verdade, eu entrei na
escola com uma coisa mais focada em fotografia, que era uma coisa que
eu gostava, mas acabei me interessando por som, achei que eu ia seguir
uma carreira mais técnica mesmo. A produção foi pelas
circunstâncias, por essa união com o Chico, que achava que
eu era uma boa produtora. Eu acho que ele já estava (risos) pensando
numa produtora para ele (risos)".
Maria
Ionescu já trabalhou com cineastas importantes, e, dentre eles,
com muitas mulheres, em curtas e longas: Suzana Amaral, Tata Amaral, Mirella
Martinelli, Laís Bodanzky, Anna Muylaert, Monique Gardenberg. Mas
é com Carlos Reichenbach que mantém parceria desde "Filme
Demência", na década de 1980: "O Carlão
é uma pessoa magnífica para trabalhar porque ele é
um produtor também, ele tem muito a cabeça de produtor,
às vezes ele já vem com a solução, ele nem
vem com o problema". Maria Ionescu exalta também Sara Silveira,
sócia de Carlos Reichebach na "Dezenove Filmes", e parceira
de muitos trabalhos: "eu tenho muito respeito e muita honra em trabalhar
na Dezenove, com o Carlão, nos filmes do Carlão. E com a
Sara também, tem aí uma produtora que tem um trabalho muito
importante dentro do atual cinema brasileiro".
Maria
Ionescu esteve na "11ª Mostra de Cinema de Tiradentes"
acompanhando o lançamento do filme "Falsa Loura", de
Carlos Reichenbach. Em conversa exclusiva com o Mulheres falou de sua
trajetória, sos trabalhos com o cineasta e marido Chico Botelho,
sos trabalhos na Dezenove. Falou também sobre o momento atual do
cinema brasileiro e a possibilidade de reativar sua produtora, a Orion.
Mulheres:
Como você chegou ao cinema?
Maria Ionescu: Olha, o primeiro momento foi pelo curso
de cinema da ECA, eu sou formada em cinema e foi ali que tudo começou
pra mim. Eu fiz alguns trabalhos na própria escola, e, fora a formação
acadêmica, eu já comecei a desenvolver alguns trabalhos em
curta, geralmente vinculado à escola, mas com outras inscrições,
como convênios, com a Emrafilme. Comecei a partir mais pra essa
coisa mais prática. Mesmo na escola, eu achei que ia fazer som,
estava mais focada nessa parte técnica.
Mulheres: Isso foi quando?
Maria Ionescu: Isso foi de 1979 até 83, mais ou
menos. E foi lá que conheci o Chico (Botelho) também, que
era meu professor. Acabei me casando com ele, e depois do curso a gente
fez alguns trabalhos juntos. Ainda na escola eu já comecei a desenvolver
trabalhos com ele, fui estagiária em um longa. Quando o curso chegava
ao final, eu fiz um documentário com ele. O Chico, apesar de ser
conhecido mais como fotógrafo e como diretor de ficção
como o “Cidade Oculta” (1986) e o “Janete” (1983), tinha um trabalho importante
como documentarista. Ele tem documentários muito interessantes.
Logo que eu saí da ECA, eu fui fazer um documentário com
ele chamado “A Longa Viagem”, em 1984/1985. Desse documentário
a gente acabou namorando, se casando e abrimos uma empresa juntos, a Orion
Cinema e Vídeo. Isso foi muito em função de se fazer
o longa dele, “Cidade Oculta”, que teve financiamento da Embrafilme, foi
um dos últimos filmes a receber esse financiamento. Terminando
o “Cidade Oculta”, chegando ali nos anos 1990, com o Plano Collor fechando
a Embrafilme, teve um momento que não se tinha mais financiamento
de cinema brasileiro, a não ser de curtas. Eu acho que foi o ápice
do curta-metragem, final de 1980 e início de 90.
Então, a única maneira de se fazer cinema era fazendo curtas
e documentários. No nosso caso, a gente acabou fazendo uma série
para o Itaú Cultural chamada “Panorama Histórico Brasileiro”.
Foi um trabalho bem interessante, uma série de documentários
feitos com diretores convidados. Eles dividiram a série por décadas
e cada uma delas era roteirizada e dirigida por um cineasta diferente,
pessoal de cinema. A gente trabalhou com o João Batista de Andrade,
com o Denoy de Oliveira, com o Eduardo Escorel, com a Mirella Martinelli,
com o Francisco César Filho, o Chiquinho, que dirigiu dois trabalhos.
Mulheres: O trabalho com o Décio Pignatari também
está nessa série, não é?
Maria Ionescu: O Décio Pignatari dirigiu um. Foi
um trabalho bem interessante. E foi numa época em que não
se financiava longas, em função do Plano Collor, do fim
da Embrafilme. Foi antes do renascimento do cinema brasileiro, antes da
Retomada.
Mulheres: Então nessa época do curso você
não pensava em ser produtora?
Maria Ionescu: Não, eu não pensava em ser
produtora. Na verdade, eu entrei na escola com uma coisa mais focada em
fotografia, que era uma coisa que eu gostava, mas acabei me interessando
por som, achei que eu ia seguir uma carreira mais técnica mesmo.
A produção foi pelas circunstâncias, por essa união
com o Chico, que achava que eu era uma boa produtora. Eu acho que ele
já estava (risos) pensando numa produtora para ele (risos). E eu
estava seguindo uma coisa mais técnica mesmo. Eu fiz assistência
de direção dele em alguns filmes e aí, naturalmente,
você tendo uma produtora, começa a produzir, você começa
a se envolver. No meu caso, mais na produção executiva,
eu nunca fui uma diretora de produção, apesar de ter feito
alguns trabalhos em curta-metragem, principalmente. Mas nunca foi o meu
forte, eu atuo mais na área da produção executiva
mesmo.
Mulheres: O site é visitado por pesquisadores,
mas também por pessoas que querem conhecer um pouco mais o cinema
brasileiro. Você poderia explicar o que é cuidar da produção
executiva de um filme?
Maria Ionescu: Hoje você vê nos filmes vários
produtores né? Produtor, co-produtor, produtor associado, produtor
executivo. No caso da produção executiva, ela cuida de uma
área, principalmente hoje, mais financeira, uma gestão financeira
de um projeto. È uma área de contratações,
direitos autorais. Na verdade, você planeja o filme, faz um planejamento,
um desenho de produção dentro de um orçamento e tenta
gerir aquilo daquela forma. A produção executiva hoje em
dia é muito ligada à parte financeira, de negociações,
de contratações, de direitos autorais.
No meu caso, com eu trabalho fixa, praticamente, numa produtora, eu tenho
um trabalho um pouco mais amplo. Eu começo logo no desenvolvimento
do roteiro, então eu já faço o acompanhamento, a
formatação desse projeto para as leis de incentivo, a captação
desse projeto, ajudo, não é que eu faça sozinha,
e aí a execução. E sempre vinculado a uma coisa do
orçamento, é uma gestão financeira também,
principalmente. Mas tem todas as relações.
Um exemplo é a questão de direitos autorais. Desde o início
é uma coisa que você tem que cuidar. Às vezes é
uma adaptação literária, outras é por causa
da música. Então tem isso também, tem toda uma, vamos
dizer, burocracia, né? E você tem que ter, junto com a gestão
financeira, essa papelada toda em ordem.
Mulheres: Esse seu relacionamento, de namoro e casamento
com o Chico Botelho, foi durante quanto tempo?
Maria Ionescu: Foi desde o final da ECA, que foi mais
ou menos 1983, 1984, até a morte dele, que foi em 1991.
Mulheres: O Chico Botelho foi um grande diretor. Eu queria
que você falasse um pouco sobre o trabalho com ele. Você disse
que foi assistente em alguns filmes.
Maria Ionescu: Sim, fui, no “Janete” eu fui estagiária
de produção, eu cuidava da alimentação. Aí
eu fiz “A Longa Viagem”, que é um documentário pouco visto
dele, mas muito interessante. É um pouco sobre o movimento hippie,
como é que foi, o que foi essa geração, eu fiz assistência
de direção. E fiz assistência de direção
no “Cidade Oculta”, que foi quando a gente criou a Orion. Eu estava grávida,
inclusive, do meu primeiro filho, e ele me convidou. Eu até falei
“puxa, mas eu não tenho tanta experiência para fazer um longa”.
E ele disse “o que eu quero é exatamente uma pessoa com quem eu
tenha uma intimidade, enfim, pra gente conversar, trocar uma idéia,
sem ter aquele assistente de direção que fica me cerceando”.
Dos outros trabalhos eu não participei porque eu já estava
fazendo a produção executiva, e aí você tem
um envolvimento com o filme que não permite você poder trabalhar
no set de filmagem.
Mulheres: O “Cidade Oculta” foi muito visto e o “Janete”
não. Não existe a possibilidade de lançar esses filmes
em DVD?
Maria Ionescu: Eu tenho vontade. O “Cidade Oculta” é
muito procurado. Eu tenho duas cópias do filme, que eu sempre tive,
e elas estão em estado deplorável, assim como o negativo,
ele já está se deteriorando, tem uma parte do som que já
foi perdida. Eu preciso ter algum recurso para que eu possa recuperar
e fazer talvez digital, que tem um custo que não é pequeno
e que eu não tenho condições de bancar, particularmente.
A produtora que a gente tinha juntos, ela não está ativa
hoje, então eu não tenho esse recurso.
Eu realmente tenho conversado, tenho pensado em propor para algum edital,
como o da Petrobrás, para recuperar o “Cidade Oculta”, que está
muito deteriorado. E também o “Janete”, que por incrível
que pareça, tem uma telecinagem muito precária. O “Janete”
é o começo do vídeo, né? Então tem
um telecine feito pela TV Cultura e não tem mais nada. Eu realmente
teria que ter um investimento ou uma distribuidora que tivesse interesse
e que pudesse bancar isso pra mim. Eu tenho essa preocupação
porque as cópias estão despedaçando e daqui a pouco
eu não vou poder mais emprestar.
Com o “Cidade Oculta” você não imagina, eu empresto o filme
direto. E aí eu digo “olha, você tem que tomar muito cuidado
porque só tem duas cópias”. Mas o pessoal faz questão.
Eu tenho procura principalmente da nova geração, que adora
esse filme, é uma coisa impressionante. Infelizmente, nosso cinema,
ele... Enfim, eles estão começando a recuperar os filmes
e eu acho que tem outros filmes que são prioritários né?
Filmes que estão mais perdidos.
Mulheres: A sua parceria com a Dezenove foi a partir
de qual filme?
Maria Ionescu: Foi a partir do “Filme Demência”
(1985). Eu conheci o Carlão (Carlos Reichenbach), conheci a Sara
(Silveira). Foi a primeira vez que nós três trabalhamos juntos.
No “Filme Demência” tinha várias pessoas da ECA, o Zé
Roberto, a Mirella, eu. O Carlão até comentou “olha, mais
uma cria do Chico aqui”, porque éramos alunos dele. Como o Carlão,
inclusive, já disse, ele tem mesmo essa coisa, quando ele gosta
da pessoa, quando você se entende no trabalho com ele, ele gosta
de permanecer com aquela pessoa em todos os filmes. E aí eu fiquei,
como ficou a Sara também. A Sara de uma outra forma, porque ele
propôs uma sociedade entre os dois, eu tinha minha produtora.
A Sara fez muitos filmes do Itaú Cultural, ela trabalhava na minha
produtora fazendo direção de produção dos
filmes do Itaú. Quando ela foi fazer o “Alma Corsária”,
ela me chamou como produtora executiva. Ela sempre falava “a gente precisa
fazer juntas, precisamos fazer aí um pool de produtoras”. E eu
acabei voltando de uma forma que inverteu, eu agora trabalho para ela
(risos). Eu desisti da minha produtora um pouco né? Falei, vou
descansar e vou trabalhar com eles. Então é uma parceria
de muitos anos, de muitos filmes. E também é como Carlão
já falou, a gente é de um entendimento! Quando a gente começa
um filme dele, ele não precisa dizer nada. O Carlão vem
e a gente não precisa de muitas palavras para entender o que é
preciso, o que é importante.
O Carlão é uma pessoa magnífica para trabalhar porque
ele é um produtor também, ele tem muito a cabeça
de produtor, às vezes ele já vem com a solução,
ele nem vem com o problema. Ele fala “ah isso aqui eu percebo que é
muito difícil, então eu já estou pensando em fazer
dessa forma, entendeu?”. Então eu tenho muito respeito e muita
honra em trabalhar na Dezenove, com o Carlão, nos filmes do Carlão.
E com a Sara também, tem aí uma produtora que tem um trabalho
muito importante dentro do atual cinema brasileiro.
Mulheres: Você tem uma parceria de trabalho também
com o Ricardo Dias, não é? Tem um curta...
Maria Ionescu: Não, com o Ricardo Dias eu fiz
um episódio de um longa que é o “Oswaldianas” (1992), em
que ele dirigiu um episódio junto com o Inácio Zats, “Uma
Noite com Oswald”.
Mulheres: Eu achei que você estava envolvida nos
filmes dele depois também.
Maria Ionescu: Não, é a Zita Carvalhosa.
Porque o Ricardo Dias foi sócio da Superfilmes, logo no início
da Superfilmes. Depois ele saiu, mas continuou como diretor da casa. Eu
tive um trabalho muito grande na época de curtas com a Mirella,
o Chiquinho...
Mulheres: Com o André Klotzel.
Maria Ionescu: Com o André Klotzel eu cheguei
a fazer alguns trabalhos, mas ele também era mais Tatu Filmes.
É porque na década de 1980, 90, em que a situação
estava muito complicada para o cinema brasileiro, a Superfilmes e a Orion
dividiu durante muitos anos a mesma estrutura. Então até
parecia que a gente fazia as coisas juntos, mas na verdade a gente só
divida o espaço. Tanto que depois, quando a gente deixou de dividir,
eu ainda fiz alguns trabalhos com a Zita, como diretora de produção,
mas a ligação do André era mais com o Chico mesmo.
Enfim, o André foi aluno do Chico, depois o Chico, na Tatu Filmes,
fez a produção do “A Marvada Carne” (1985). O André
Klotzel foi assistente do Chico em alguns filmes, e não sei se
o Chico chegou a fotografar um curta dele.
Mas o que aconteceu mesmo é que durante muitos anos, a Orion, que
era eu e o Chico, dividia a mesma estrutura na Vila Madalena com a Superfilmes,
que era a Zita, o André Klotzel, o Pedro Farkas, e mais um que
não me lembro agora. Daí, quem ia a uma outra produtora,
via todo mundo junto ali, mas era mais uma parceria geográfica,
e também de dividir, trocar idéias, projetos, porque tinha
afinidade.
Mulheres: Você agora está mais envolvida
nas produções da Dezenove ou tem outros projetos?
Maria Ionescu: Não, eu estou completamente envolvida
com as produções da Dezenove. Têm alguns filmes que
eu até assino junto com a Sara Produção, que são
projetos que às vezes vêm. A gente começa às
vezes muito no início do projeto. O cara tem um argumento e a gente
começa a desenvolver o roteiro e depois em um filme, então
isso leva anos. De certa forma, em alguns filmes, eu tenho até
co-produzido, né?
E tem a minha produtora, eu estou querendo voltar com ela e fazer alguns
filmes. Quando o Chico faleceu em 1991, quem herdou a Orion, fui eu e
os meus dois filhos, Não é nenhuma empresa magnífica,
mas herdou no sentido de que eles ficaram sócios. E hoje eles cresceram,
minha filha está com 20, meu filho está com 22 anos. Minha
filha está fazendo cinema e meu filho está fazendo música.
Mulheres: Quais são os nomes?
Maria Ionescu: Felipe e Helena. E eles, de certa forma,
têm me estimulado “por que a gente não volta a trabalhar
com a Orion, enfim, produzir algumas coisas?”. Minha filha, naturalmente,
porque ela está fazendo cinema. Então vamos fazer alguns
curtas. Eu estou pensando, realmente, em voltar a produzir de novo, mas
é um projeto a longo prazo. Eu estou mais envolvida com os projetos
da Dezenove, a gente tem projetos até 2009, com coisas em andamento.
Então seria uma coisa meio paralela, para que não inviabilizasse,
porque como produtor você tem uma outra responsabilidade.
Mulheres: É impressionante a presença das
mulheres na produção.
Maria Ionescu: Ah, sempre foi, principalmente no cinema
de São Paulo, e no Rio também. No cinema brasileiro tem
muitas mulheres produtoras, às vezes produtoras dos maridos diretores,
é uma tendência. A mulher é boa nessa coisa de administrar,
é boa pra gerir e pra mandar também. Eu acho que as mulheres,
quando elas mandam, elas valem por muitos homens (risos). A mulher é
mandona. Eu acho que hoje em dias os homens estão até sendo
ultrapassados pelas mulheres. E com as produtoras com certeza, eu acho
que tem um histórico de produtoras.
Na minha relação com o Chico, eu fui muito para a produção
porque a gente se casou, ele era o diretor, a gente tinha uma produtora
para produzir os filmes dele. Era uma estrutura conveniente, não
existiam grandes produtoras que pudessem abarcar o filme, então
era a esposa, era uma coisa natural. Ele era o lado criativo e eu era
administrativo, vamos dizer assim, as duas coisas combinavam. É
claro que você precisa ter uma certa, não vou dizer vocação,
mas gostar um pouco dessa coisa. Eu gosto de matemática, eu gosto
de números. Mas eu acho que é uma tendência também,
eu acho que começou aí. Todo mundo que é dono de
uma produtora de cinema, com uma estrutura meio enxuta, sempre pensou
numa mulher para fazer a produção. Então eu acho
que é uma tradição no cinema brasileiro, de muitos
anos. Agora é que está se dando o contrário, que
têm os homens produtores, mas a grande maioria é de mulheres.
Mulheres: Como você vê o atual momento do
cinema brasileiro?
Maria Ionescu: Eu acho que tem sido feito muitas coisas,
tem muita gente nova aí que está de certa forma, eu não
digo renovando, mas dando, trazendo novos ares. Houve um investimento
muito grande nos últimos anos, o que, conseqüentemente, fez
surgir muita gente nova. Com isso eu acho que a gente está com
um cinema bom em quantidade, rico em temas e propostas diversas, e com
muita qualidade. Tem muita gente boa, muita gente antiga fazendo, não
só a nova geração. Mesmo as outras gerações
têm feito trabalhos bons, Pra você ter qualidade você
tem que ter quantidade, tem que ter investimento, tem que dar oportunidade
para as pessoas. Você tem que dar oportunidade para diversos tipos
de filmes, mesmo filmes mais comerciais, ou mais autorais, os gêneros.
Tem tantas possibilidades de cinema.
O Brasil, graças a Deus, é muito diversificado, naturalmente.
Então você acaba tendo um cinema muito diversificado e com
muitos talentos. Eu acho que o cinema agora está começando
a se mostrar. Hoje você tem momentos em que se têm muitos
filmes brasileiros em cartaz, muitos filmes brasileiros que estão
em destaque em relação aos filmes estrangeiros. Outro dia
uma pessoa estava conversando comigo, e que não é uma pessoa
de cinema, e ela me disse “olha, o que eu acho engraçado é
que os bons filmes que estão em cartaz são filmes brasileiros”.
Eu acho isso tão bacana. Então hoje todo mundo que ir assistir
ao “Meu Nome Não É Johnny”” (2007 – Mauro Lima)
O que propiciou isso foi a produção, que as pessoas possam
fazer os filmes, de todas as tendências, ter um investimento. É
claro que falta essa questão da distribuição, o preço
do ingresso que é caro, é muita pouca gente que pode ter
acesso. Mas eu acho que o cinema brasileiro está numa época
maravilhosa porque realmente são anos que a gente está crescendo,
estão surgindo novos diretores, novos técnicos, novos montadores.
Houve oportunidade, houve financiamento, não está focado
mais só no eixo Rio-São Paulo, em determinado diretores.
Há uma preocupação em você fazer todos os tipos
de filmes e também reciclar, deixar que os novos diretores possam
se manifestar, possa ter condição para fazer um primeiro
filme. Eu acho isso. Eu estou muito otimista. É claro que temos
sofrido muito, o ano passado foi um ano sofrido, captação,
um pouco de esgotamento das leis de incentivo. E pela quantidade também,
porque tem muito mais gente captando e o dinheiro sempre é restrito.
A gente tem algumas poucas grandes empresas estatais que fazem um financiamento
mais significativo, que é a Petrobrás e o BNDS. Em São
Paulo, graças a Deus, a gente tem o programa de Fomento Paulista,
que tem uma boa aplicação, Mas tem muita gente, né?
Então é difícil.
Mulheres: Qual foi o último filme que você
assistiu?
Maria Ionescu: O último foi um filme que está
aqui nessa Mostra, que é o “Via Láctea”. Eu não sou
a pessoa, eu tenho uma dificuldade muito grande, porque quem trabalha
com cinema não tem tempo de assistir (risos). Mas eu peguei uma
época aí e assisti a uns quatro filmes, e o “Via Láctea”
foi um que eu gostei muito, da Lina Chamie.
Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistas para uma
homenagem a uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e
de qualquer área.
Maria Ionescu: Eu preciso pensar, porque têm tantas.
E depois eu escolho uma e a outra fica chateada (risos). Eu tenho que
pensar... Eu homenageio a Sara, que tem uma história incrível.
Eu homenageio a Tata Amaral, que é uma pessoa que tem uma trajetória
que eu acompanho desde o início, eu a conheci na época do
colegial. A Katinha, que é uma fotógrafa, Kátia Coelho,
que eu admiro muito. Isso pra pegar pessoas antigas, que têm uma
história comigo e que eu admiro muito. Essas três já
bastariam.
E tem atrizes maravilhosas, Norma Bengell, Odete Lara... nossa, difícil,
não dá para homenagear uma, Helena Ignez. Diretoras... Tata
Amaral, Suzana Amaral também, que é uma pessoa que eu admiro
muito, que foi fazer cinema depois de 50 anos e de criar nove filhos.
Fez um filme maravilhoso, que foi um dos primeiros trabalhos profissionais
meus, “A Hora da Estrela” (1985).
Lili Bandeira! Viu, não disse que ia me esquecer. Lili Bandeira
é a homenageada, ao lado de Sara Silveira, Tata Amaral e Kátia
Coelho. Tem várias pessoas que queria homenagear, mas são
essas as minhas escolhidas. E tem as atrizes, mas vou deixar mais no meu
universo de vida, de trajetória.
Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.
Maria Ionescu: Obrigada.
Entrevista
realizada em janeiro de 2008,
na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes".
sala
indice arquivo
home |