Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 3
Um mapeamento das mulheres que fizeram
e fazem a história do Cinema Nacional

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DJIN SGANZERLA

Foto: Djin Sganzerla no "11a Mostra de Cinema de Tiradentes (2008),
Crédito: Leonardo Lara

Djin Sganzerla tem sangue artístico nas veias, e melhor, sangue do bom: é filha do cineasta Rogério Sganzerla e da atriz e cineasta Helena Ignez, dois nomes de ponta do moderno cinema brasileiro. Mas não pensem que isso seja initimidação para a jovem atriz. Muito pelo contrário, Djin Sganzerla se perfila à atrizes como Fernanda Torres e Débora Bloch, todas elas com talento genuíno e assinatura própria. Não é à toa que Djin encantou a crítica na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes", com sua interpretação arrebatadora em "Meu Nome É Dindi", de Bruno Safadi. Mesmo que possa haver alguma restrição à estréia de Safadi em longa-mertagem - Prêmio Aurora de Melhor Filme da Mostra, um fato se impõe: Djin Sganzerla arrasa no filme, com uma interpretação pra lá de moderna.

Djin Sganzerla fala sobre a construção de sua assinatura como atriz: "Eu acho que está se definindo, está se definindo, eu já consigo perceber. Como eu falei, eu bebi na fonte de diversas grandes atrizes. Mas eu vejo o "Dindi" como um filme completamente pessoal, é uma assinatura minha, eu não vejo nenhuma outra atriz além de mim mesma. E vejo, ao mesmo tempo, a minha ambição de querer fazer personagens diferentes entre si, de desafios. E, ao mesmo tempo, eu não quero personagens óbvias, que não tenham uma complexidade humana, ou que sejam simplesmente um pouco estereotipadas, a bonitinha ou a simpática, isso não me interessa em nada. E vejo que eu estou desenvolvendo esse olhar distanciado sobre mim mesma, de observar aos poucos, a assinatura de uma atriz".

Em Tiradentes, aliás, o público teve a oportunidade de ver a atriz em três filmes. Além de "Meu Nome é Dindi", Djin Sganzerla atua em "Falsa Loura", o belo filme de Carlos Reichenbach - que lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Brasília, em 2007; e faz uma ponta em "Meu Mundo em Perigo", impactante filme de José Eduardo Belmonte. Djin, que também fez uma ponta no filme "Conceição - Autor Bom é Autor Morto" (Daniel Caetano, Samantha Ribeiro, André Sampaio, Guilherme Sarmiento e Cynthia Sims) comenta sobre essa pequena participação no filme de Belmonte: "achei um presente, eu adoro, não tenho nenhum problema em trabalhar em papéis pequenos, pelo contrário, pra mim é sempre um aprendizado, eu estou sempre ganhando com isso". Djin demonstra a paixão que tem pela arte de representar.

Djin Sganzerla esteve na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes". A atriz conversou com o Mulheres e falou sobre a carreira, os trabalhos com diretores como Bruno Safadi, Carlos Reichenbach, Ivan Cardoso e José Eduardo Belmonte; falou sobre os pais, sobre cinema, teatro e televisão; falou sobre a arte de representar e sobre o papel dela em sua vida.


Mulheres: Qual é a sua formação de atriz?

Djin Sganzerla: Eu comecei no teatro, comecei aos 19 anos. Trabalhei com Abujamra (Antônio Abujamra), no Rio de Janeiro, eu sou carioca, nasci lá. A primeira peça que fiz se chama “O Que é bom em Segredo é Melhor em Público”, uma compilação de textos do Nelson Rodrigues, um projeto em que a gente trabalhou durante um ano, estudando a vida do Nelson, em 1996. Fiz essa peça e depois trabalhei com a minha mãe em um projeto super bacana em cima do Rimbaud, sempre trabalhei com excelentes autores, que se chama “Cabaret Rimbaud - Uma Temporada no Inferno” (1997/1998). Foi uma peça dirigida pela minha mãe, nós nos apresentamos em várias cidades, Salvador, São Paulo, em um teatro em Barcelona, que foi bárbaro.

Depois trabalhei com o Antunes, fiquei seis meses estudando com o Antunes. Depois fiz “Cacilda”, com o José Celso Martinez Corrêa, fiz a segunda montagem de “Cacilda”, com a Leona Cavali fazendo Cacilda (2000).

Até aí eu tinha feito alguns curtas, e aí, em 99, fiz uma participação em “São Jerônimo”, do Júlio Bressane. Fiz também o “O Signo do Caos”, que foi o meu primeiro trabalho no cinema, dirigido pelo meu pai. Fiz vários curtas e, depois dessa época, fui para a Inglaterra, estudei durante dois anos interpretação pra cinema, estudei uma técnica bárbara chamada "Meisner Technique”. É uma técnica pouco conhecida no Brasil, mas que influenciou diversos diretores e atores no mundo, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Atores como Edward Norton, Gleen Close, enfim, grandes atores beberam nessa fonte.

Fiz milhões de cursos livres, eu não tive uma formação, fora a Inglaterra, não tive no Brasil uma formação em uma escola de teatro. Mas estudei, porque meus pais, enfim, eu nasci nessa área. E durante esses dois anos, estudei tudo, canto, dança, realmente, nesse aspecto, eu sempre fui muito incentivada a estudar. A única forma de crescer é através da observação, do aprimoramento e da técnica, porque você não deve depender somente da intuição. Tudo isso tudo faz parte de um constante aprimoramento, de uma busca, porque você precisa da ferramentas pra você exercer o que você quer.

E aí, antes de ir pra Inglaterra, eu produzi, eu fiz um espetáculo que meu pai dirigiu, chamado “Savannah Bay” (2000/2001). É um texto da Marguerite Duras. Eu sempre fui cercada por autores sofisticados, não muito fáceis também, sempre personagens difíceis, eu fazia um personagem, que pra minha idade, eu tinha 20 anos, foi um desafio. Eu atuava com a minha mãe, éramos só nós duas no palco, e ela com a experiência toda, enfim, uma grande atriz.

Aí fiquei dois anos na Inglaterra, voltei em... eu já nem me lembro mais o ano. Recentemente, fiz um filme do Ivan Cardoso, chamado “Um Lobisomem na Amazônia” (2007), passou no Festival de Turim, passou no Festival do Rio, ainda não estreou. O filme do Ivan é do gênero Terrir, é um filme leve... Eu pintei meu cabelo por causa desse filme. Fiz também uma participação no programa do Selton (Mello), o “Tarja Preta”, era uma novelinha que ele criou. E fiz diversos trabalhos em paralelo, fiz publicidade. E antes de ir pra Inglaterra, fiz o “Conceição” (2007 - “Conceição – Autor Bom É Autor Morto”), do Daniel Caetano (e mais Samantha Ribeiro, André Sampaio, Guilherme Sarmiento e Cynthia Sims).

Mulheres: Eu quero que depois a gente fale mais detalhadamente sobre os longas, mas antes disso uma pergunta inevitável: você deve ter vivido boa parte de sua vida num set de cinema. Isso foi determinante para a sua carreira, ou não?

Djin Sganzerla: Eu acho até engraçado, o ser humano, ele é muito complexo e curioso. Porque eu tive o caminho que eu acho que é comum. Eu não tive interesse de trabalhar nas artes, até porque eu sei das dificuldades, eu cresci dentro delas, eu sei a luta que é, eu sei a paixão que os meus pais têm, que tinha, no caso do meu pai, pelo que faziam. Então não era algo que eu simplesmente me espelhava assim e queria continuar. Mas vi que minha paixão em me expressar como atriz era algo maior e vi que isso ou estava no meu sangue ou algo que era da minha natureza, da minha sensibilidade ou da minha educação. Não sei dizer, mas estava em mim. Então, eu tive um período de rejeição, eu queria trabalhar em outra coisa completamente diferente. E depois descobri que eu não podia não fazer isso, que era maior que uma vontade, era latente mesmo, era um desejo, era uma forma de expressão. E a felicidade quando eu estou filmando, quando eu estou numa peça, é tremenda; Então, me encontrei.

Mulheres: É curioso porque, sem querer fazer uma mera comparação, a Helena fazia tanto aqueles papéis modernos, é uma atriz moderna do cinema brasileiro, como fazia também filmes mais contidos. E você também. Vendo o “Meu Nome é Dindi” (2007 – Bruno Safadi), há ali uma interpretação moderna, fragmentada, que é completamente diferente do seu papel em “Falsa Loura” (2007 – Carlos Reichenbach), por exemplo. Você já percebe uma assinatura sua como atriz?

Djin Sganzerla: Eu acho que está se definindo, está se definindo, eu já consigo perceber. Como eu falei, eu bebi na fonte de diversas grandes atrizes. mas eu vejo o "Dindi" como um filme completamente pessoal, é uma assinatura minha, eu não vejo nenhuma outra atriz além de mim mesma. E vejo, ao mesmo tempo, a minha ambição de querer fazer personagens diferentes entre si, de desafios. E, ao mesmo tempo, eu não quero personagens óbvias, que não tenham uma complexidade humana, ou que sejam simplesmente um pouco estereotipadas, a bonitinha ou a simpática, isso não me interessa em nada. E vejo que eu estou desenvolvendo esse olhar distanciado sobre mim mesma, de observar aos poucos, a assinatura de uma atriz.

Mulheres: Eu queria que você comentasse sobre o trabalho com o Carlão, em “Falsa Loura”, em que você faz uma personagem tão vulnerável.

Djin Sganzerla: O Carlão é um gentleman, acima de tudo. No set ele é um diretor que deixa muito claro o que ele gostaria que você trouxesse. Enfim, os diálogos, o roteiro... ele espera que você não mexa muito nisso, nesse sentido ele é muito criterioso. Mas ao mesmo tempo é um diretor generoso, que deixa a criação e a concepção da personagem na mão do ator. Então quando eu fui fazer a primeira prova do figurino, no que eu vesti o figurino e comecei a decidir, ele já viu uns trejeitos no corpo, o jeito que eu ia respirar, o jeito que eu ia me movimentar, um jeito que ia sentir aquela personagem. Já começou a aflorar naquele primeiro momento, numa prova de figurino, antes de qualquer coisa. Então, ele já percebeu esse caminho de eu compor o personagem, eu procurei não cair em nenhum momento em qualquer tipo de estereótipo, da “Betty, a Feia”, tipo olha a feia que ficou bonita. Procurei buscar a essência e a verdade dela, para que a trajetória dela pudesse desabrochar. Me aproximar, e não um olhar estrangeiro sobre a personagem. Ah, porque ela é pobre, porque ela é uma excluída social, então, ela se deslumbra. Não, ao contrário, um olhar sempre amoroso e íntimo com o personagem. Então foi essa a trajetória que eu fiz e o Carlão sempre aprovando tudo. Então eu trouxe a minha composição e ele gostou, eu fiquei feliz, e foi um casamento perfeito nesse aspecto.

Mulheres: E como foi a premiação no Festival de Brasília?

Djin Sganzerla: Foi, foi... eu diria até que foi um luxo, porque eu estava concorrendo com atrizes extraordinárias, enfim, Tônia Carreiro, Cássia Kiss, com bagagem, com experiência, atrizes também de cinema. O filme da Laís Bodanzky cheio de coadjuvantes, só ali tinham umas quinze, vinte, eu nem sei. E todas as outras atrizes do Festival, então é um reconhecimento, reconhecimento de um trabalho, de uma dedicação, de uma vida, né? Porque eu tenho 30 anos, mas pra chegar lá eu me dedico muito, então é um presente.

Mulheres; Como é fazer essas pequenas participações e não passar despercebida, como em “Conceição”, e em “Meu Mundo em Perigo” (2007 – José Eduardo Belmonte)?

Djin Sganzerla: Que bom, obrigada, eu agradeço muito o elogio. Eu não vi “O Meu Mundo em Perigo”, olha que coisa louca, eu não consegui ver em Brasília, depois não consegui ver aqui. Eu acho que é até porque eu penso os personagens como luz, em primeiro lugar, eu penso na matéria física e na parte etérea do personagem. Eu procuro que isso de alguma forma imprima na tela, eu nem sei te explicar como, mas há essa busca, a de que aquele personagem em nenhum momento passe despercebido, que ele deixe sua marca, sua trajetória. O porquê que ele apareceu ali, não foi à toa. Então, eu tenho esse pensamento, já que ele foi escolhido para estar ali, que ele exerça sua função.

No “Meu Mundo em Perigo”, por exemplo, eu não tinha lido o roteiro, me chamaram na véspera, pra uma cena que criaram para mim e para a minha mãe. Eu não sabia muito bem a história, eu cai um pouco ali meio de pára-quedas. Mas eu conhecia o Zé Belmonte, conhecia o trabalho dele, confiava no projeto, conhecia o roteirista E achei um presente, eu adoro, não tenho nenhum problema em trabalhar em papéis pequenos, pelo contrário, pra mim é sempre um aprendizado, eu estou sempre ganhando com isso. Eu peguei o personagem, decorei na hora, fiz um ensaio, e rodamos. Foi uma coisa muito rápida. E a mesma coisa no “Conceição”. Ali já foi diferente porque era um grupo, como eu, de estreantes. Eu acho que eles eram até mais estreantes do que eu, eu já tinha feito alguns filmes, e tal, e eles estavam se formando. Eu achei um trabalho de desafio, porque cinco diretores é uma coisa muito difícil, um já é difícil, imagina cinco. Então eles chegaram a um consenso comum, eu gostei do resultado, tem uma montagem muito legal, eu acho um filme inteligente, livre. Eu acho até um filme ousado num certo aspecto, ainda mais sabendo que são cinco diretores, eu acho mais do que louvável, e gosto do filme.

Eu acho que a gente leva para o trabalho também um pouco de tudo isso, nossa vida, o que eu já vivi, minha experiência, meu histórico, a minha disciplina como atriz. E também a experiência que você aprende com os filmes, com as outras pessoas, os outros seres humanos, a observação, tudo isso eu acho que entra no trabalho. Principalmente no trabalho da dimensão do “Dindi”, que é um personagem centralíssimo, como você disse é um personagem moderno, um personagem de uma responsabilidade enorme. Porque se criarmos uma antipatia pelo personagem, cria-se uma antipatia com o filme também, porque é ela quem conduz o espectador.

É uma responsabilidade, mas em nenhum momento eu tomei como isso, eu vejo cada trabalho, e esse principalmente, como um desafio de vida, esse é o meu desafio. Eu entrego a minha vida pra isso, eu dou todo o meu potencial e o que tiver de caótico, de criativo, de amoroso uso pra que aquilo ali aconteça.

Mulheres: Você falou uma coisa no debate que eu gostei muito, que foi ao falar da personagem Dindi. Você disse que, para interpretá-la, quando vinha a fala vinha também todo o corpo. Dá para você falar sobre isso?

Djin Sganzerla: Nesse sentido, eu acho que até é um pouco diferente das atrizes da minha geração. Eu sempre gostei de estudar as grandes divas, Marlene Dietrich, gosto da Marylin, tem atrizes brasileiras que vou citar, gosto muitíssimo da Giulieta Masina,. Acho interessante o mistério da Catherine Deneuve, principalmente no “Repulsa ao Sexo”, em que ela tá ali muito jovem, muito dirigida por um grande diretor, que é o Polanski. Tudo isso é um exercício da observação, de estudar o trabalho dessas grandes atrizes. E a Giulieta me passa isso, me passa algo que você falou, que é a vulnerabilidade. O que eu acho que mais me encanta no ser humano é a vulnerabilidade, porque isso não tem a ver com força, pelo contrário, a força tá lá, mas é você ver que o vento passa, que as coisas permeiam o ator. Ele simplesmente não é nada definitivo, ele mostra seu estado emocional constante, que isso está em evolução o tempo todo, eu posso estar alegre aqui e agora me irritar e mudar completamente a minha expressão e a minha emoção, digamos assim.

Eu procurei que cada palavra daquele filme não viesse simplesmente do texto, que às vezes acontece, se você diz um texto, mas aquilo está completamente desconectado, eu acho que o público vê, você vê quando é um texto que é dito, e quando aquele texto sai de você. E é difícil, às vezes o texto é ruim, na televisão acontece muito isso, é uma situação horrível. E aí o que você faz, dá uma tossida no meio? Até fico pensando nisso. Eu fiquei pensando que esse personagem tinha que ser orgânico da unha do pé até o último fio do cabelo. Então que tudo que fosse dito, que fosse sentido, que fosse vivido, passasse pelo meu corpo, passasse pela minha emoção, pelo meu coração, passasse pela minha expressão facial. Tem muitos planos fechados. E aí sim, passasse e modulasse a minha voz através desses sentimentos.

Mulheres: Como é manter essa assinatura de atriz com esses diretores tão diferentes? Você já falou sobre o Carlão, mas tem o Ivan Cardoso, com um cinema bem específico, que é o cinema de gênero, tem o Bruno Safadi, que está chegando...

Djin Sganzerla: O Bruno foi muito especial também, ele é um jovem diretor. Ele teve a habilidade, a maestria da seleção de toda a equipe, o elenco, isso é um fato louvável. Ele é muito jovem, culto, preparado, sem dúvida, o mérito é todo dele nesse aspecto. Eu acho que o desafio maior pra um diretor jovem é dirigir o ator. Eu acho que realmente é, e eu acho que nem tem a ver com idade, tem a ver também com o estilo de cinema que você quer fazer. A gente vê muito isso hoje, tá tendo uma certa moda, os diretores passam a sua direção, e eu nem entro nessa questão de questionar ou não, pra um preparador. Eu acho que isso trás um resultado muito bom, isso é um fato, mas o que ele pede é feito através de um outro processo. E é diferente do que foi no "Dindi".

O filme não teve nenhum preparador, fui eu fazendo mesmo através do que o Bruno gostaria que eu fizesse. Então eu acho que o desafio maior para um jovem diretor é o contato com o ator. Ele tem a delicadeza, ele sabe esperar, e, mais do que tudo, eu acho que foi muito prudente do Bruno, ele confiou, ele me deu essa chance de expressar o que eu gostaria de expressar nesse personagem. Então isso foi um presente. Nem sempre isso acontece e às vezes o diretor dificulta o trabalho do ator. Infelizmente, mas às vezes isso acontece, uma insegurança, ou qualquer coisa, ele não deixa que flua. O Bruno, nesse aspecto, foi de uma elegância, tanto no processo da preparação, como durante as filmagens. Ele respeitava o meu tempo, pra que as coisas brotassem.

O Bruno é muito maduro. É diferente do Carlão, que tem uma história no cinema. E no “Falsa Loura” fiz um personagem lindo, mas é um personagem menos complexo. Então é uma relação diferente, é um processo de composição que envolve toda a complexidade, digamos assim, a delicadeza e o olhar sensível. Mas ele não permeia esses caminhos escuros e tortuosos que a Dindi passa. É a construção de uma emoção na frente da tela, não existe nenhum tipo de enganação, é ali, desde a alegria, a tristeza, tudo isso é construído na tela, em longos planos-sequência. É realmente um desafio maravilhoso.

E o Ivan, ele, nesse aspecto, é parecido com o Carlão. Ele dá espaço para o ator, o que você trouxer de positivo e de interessante pro filme ele aceita, ele absorve tudo, em nenhum momento ele te poda. Quando eu propus o figurino, a forma como eu queria fazer, eu faço uma dark, eu uso tatuagens, as unhas azuis e tal. Eu falei “olha Ivan, eu quero uma coisa assim, uma roupa assado, um chapéu assim”, e ele achou ótimo, “oh, que bom”, e ele alimenta isso. Então pro ator é ótimo.

Eu fiz um filme com a minha mãe, que foi logo depois do “Falsa Loura”. Na verdade não, foi logo depois do “Dindi” e entre o “Falsa Loura”. O primeiro longa metragem da minha mãe, chama-se “Canção de Baal”, é um filme em cima do texto do Bretch. É uma adaptação teatral, mas pro cinema, é um filme, não é teatro e nem é uma peça filmada. Eu estou no elenco, a Beth Goulart, a Simone Spoladore. O ator principal que faz o Baal é um ator e compositor, chama-se Carlos Careqa, é um ótimo ator. É um filme que se passa numa fazenda do interior de São Paulo, é uma fazenda de um artista plástico, todo ano acontece um festival nessa fazenda, então a cenografia é fabulosa, é linda, é muito a natureza, mas de uma forma vista por um artista plástico. Envolve outras linguagens, a fotografia é primorosa, um jovem diretor de fotografia chamado André Guerreiro Lopes, você vai ouvir falar o nome dele porque é primorosa a fotografia. É montado pelo Ricardo Miranda, que montou o filme do Joel Pizzini e da Paloma (Rocha), ele fez também o filme do Glauber (Rocha), “A Idade da Terra”.

É um filme também nesse mesmo formato, de baixo orçamento, extremamente criativo, com uma montagem ambiciosa, fotografia linda. E ser dirigida pela minha mãe eu acho que é de tudo o mais interessante. Porque eu já trabalhei com ela no teatro, em duas ou três peças. É curioso, porque ela tem o olhar da diretora, ela desenvolveu isso pela experiência. E também porque a minha mãe, além de ser uma atriz é uma intelectual, é uma mulher do cinema, é uma mulher do teatro, ela tem um olhar cinematográfico, e, ao mesmo tempo, é uma grande atriz. Eu acho que isso tudo envolve, e é a minha mãe, então a forma de dirigir é muito particular, é no ouvido, são três toques e eu já sei como é que é, o que ela gosta, o que ela quer, então é delicioso, delicioso.

Mulheres: Não te intimidou?

Djin Sganzerla: Nem um pouco, nem um pouco. Às vezes até por ela ser minha mãe, ela, às vezes, é um pouco rigorosa comigo. Com uma outra atriz ela vai falar mais, mas comigo ela é mais rápida, mais objetiva, porque ela sabe que eu vou entender e porque eu sou filha, então é uma relação muito especial. Ela vai dirigir o segundo longa-metragem dela, uma continuação de “O Bandido da Luz Vermelha” (1968 – Rogério Sganzerla). É um roteiro do meu pai, chama-se “Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha”. Ela já ganhou o primeiro financiamento agora no final do ano, ela dirige junto com o Ícaro Martins, que é um diretor das antigas, o Selton Mello faz.

A história se passa... o Bandido não morre eletrocutado e é preso, e aí 30 anos depois, essa história passa, ele está na cadeia e descobre que tem um filho e que o filho é quase como o próprio bandido, como ele, como ele jovem. É feito pelo Selton Mello, a Maria Luisa Mendonça faz, é um elenco primoroso, o Arrigo Barnabé. O roteiro é absolutamente genial, no nível do “Bandido” mesmo, eu acho que, meu pai escreveu muito durante a vida, e eu acho que foi um dos roteiros mais lindos ou o mais, sem dúvida. A qualidade dos diálogos é uma coisa extraordinária. Esse é o meu projeto pra 2008, eu estou no filme. Eu faço a Jane, que é a personagem dela, mas enfim, transfigurada, porque a história passou, não é uma continuação, mas se chama Jane.

Estou fazendo diversos curtas. Produzi e estou atuando numa peça que minha mãe também faz, do Strindberg, chama-se “Um Sonho”. Uma peça belíssima, que também envolve muito o cinema. O Lívio Tragtenberg fez uma áudio-cenografia, tem 12 pontos de som instalados no palco, a composição musical é dele. O Carlos Ebert, que fez a fotografia do “Bandido”, fez a luz, então não é uma luz convencional de teatro, é uma luz que mistura cinema e teatro, envolve outros gêneros. A direção é do André Guerreiro Lopes, o mesmo da fotografia do filme da minha mãe. Minha mãe tá no elenco, é um elenco maravilhoso. Tivemos duas temporadas em São Paulo, no Sesc da Avenida Paulista, e no Teatro João Caetano, e vamos agora viajar pelo interior de São Paulo durante dois meses e meio, agora em fevereiro.

Mulheres: Você citou o trabalho no Tarja Preta. Como é sua relação com a televisão?

Djin Sganzerla: Então, a minha relação com a televisão é uma coisa que ainda não aconteceu. O Tarja Preta aconteceu via Selton, que é uma pessoa que eu admiro, que eu gosto, e que vou vir a trabalhar mais proximamente. Para esse primeiro programa dele dirigindo, ele pensou em fazer algo como uma novela, uma chamada de uma novela que nunca acontece. E eu sou esse personagem principal, que é “A Flor do Lodo”. Foi uma delícia, ele queria fazer uma continuação, que acabou não acontecendo. Então a TV é algo que está ainda em aberto, eu até acho que ficaria muito feliz em participar de uma forma menos convencional, se eu tivesse essa possibilidade, isso me atrai bastante.

Mulheres: Está havendo uma revelação de atores impressionantes, como a Hermila Guedes, o Eucir de Souza, a Rosanne Mulholand, você. É impressionante essa vocação de nossos atores para o cinema. Você tem visto isso?

Djin Sganzerla: Tenho visto sim. Primeiro que a gente tem tido mais chance de ver porque tem mais cinema. Eu acho que isso sem dúvida ajuda muito. Têm acontecido mais filmes interessantes, digamos assim também. E, ao mesmo tempo, acho que justamente por isso, tem crescido o nível dos atores e possibilitado ao público conhece-los. Até porque eu acho que é uma tendência muito grande de você pegar um ator que tá na novela tal e botar no filme. Então tudo bem, você já conhece o resultado dele, é muito previsível nesse sentido porque você já conhece a carreira da pessoa na televisão. Mas aí você não abre outras possibilidades de atores menos conhecidos e que não são da televisão. Então o que está acontecendo é isso. O Eucir veio do teatro, a Rosanne nasceu no cinema, é uma atriz muito talentosa, além de ser linda e muito fotogênica, é uma pessoa querida, tem um coração muito bonito.

A Hermila eu não conheço pessoalmente, mas é muito boa atriz e o resultado dela no filme é surpreendente, é uma atriz que magnetiza. Eu acho que isso é interessante e é um fator altamente positivo pro ator. Eu a vi em “O Deserto Feliz” (2007 – Paulo Caldas) e você logo vidra o olho nela, ela magnetiza. Então eu acho que isso é um dom, e, ao mesmo tempo, uma procura e uma técnica. Eu digo que magnetizar é uma técnica, mas tem a ver com uma série de outras coisas que você procura imprimir na tela, e isso também entra.

Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que você assistiu no cinema?

Djin Sganzerla: Eu viajei e fiquei um mês fora do Brasil, acabei de chegar no domingo. Tem diversos filmes que eu quero ver. Quero ver o “Johnny” (“Meu Nome Não É Johnny” – 2007 – Mauro Lima), acho que tem coisas interessantes, ainda não vi. Eu fui à Brasília, então vi vários.

No cinema... ah, eu vi “Santiago” (2007 – João Moreira Salles), que gosto bastante. Eu acho que é um documentário refinado, inteligente. Acho que tem ali uma certa, e que me atrai, sinceridade grande do diretor, de se colocar. Ele se expõe de uma forma até delicada, um certo autoritarismo dele em relação ao Santiago, que é um personagem riquíssimo, que homem, que vida, que ser humano complexo. Então, quando o cinema mostra essas pessoas, essa grande persona que é o Santiago... E o filme é feito de uma forma muito inteligente, bem montado, a trilha, é bem dirigido, é um filme que eu gostei muito.

Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para homenagearam uma mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área.

Djin Sganzerla: Eu vou dizer duas. Uma eu vou dizer que é uma grande musa pra mim, ela, infelizmente, não é brasileira, mas tem uma brasileira. Uma é Gena Rowlands, mulher do Cassavetes, minha fonte de inspiração constante. Grande atriz, um vulcão, pra mim é um alvo, uma meta.

E no Brasil, Maria Luiza Mendonça. O trabalho dela no teatro! Eu acompanhei o “Sete Afluentes do Rio Ota”, é extraordinário, ela tem essa qualidade que eu falo que é a vulnerabilidade, tudo fica à flor da pele, tudo passa, permeia pelo corpo, pela expressão, pela voz. Adoro o trabalho dela no filme do Babenco (Hector). O “Coração Iluminado” é algo pra mim assim... Eu me lembro que eu vi bem nova, sem informação, vi com o meu pai ao lado, ele gostava muito do filme. O que que é aquilo? O que que é aquilo? Ela se desdobra, ela se transforma, ela magnetiza, ela conquista, ela seduz o público, é uma grande atriz, e muito jovem.

Mulheres: Obrigado pela entrevista.

Djin Sganzerla: De nada.


Entrevista realizada em janeiro de 2008,
na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes".

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