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ALICE
GONZAGA

Foto:
João Gaudenzi (publicação
"Quem é Quem no Cinema)
Alice
Gonzaga é um nome importante na restauração e recuperação
de clássicos do cinema brasileiro. Nascida em meio cinematográfico,
Alice é filha de Adhemar Gonzaga, cineasta, jornalista e fundador
da Cinédia, primeiro estúdio de grande porte no Brasil,
e da atriz Didi Viana. Desde a década de 1970 que Alice Gonzaga
está à frente dos negócios da Cinédia, restaurando
e recuperando filmes da produtora: "nunca passou pela minha cabeça
que um dia eu entraria para o cinema, que eu fizesse esse trabalho todo
de restauração. Isso até os 40 anos de idade, eu
não sei o que passava na minha cabeça. Até o dia
em que o meu pai passou mal, eu fui para a clínica em Sorocaba,
e ele disse “Não! Eu não estou doente, eu estou com falta
de circulação monetária, com dinheiro eu saio bonzinho
daqui. Internado também não fico, porque senão não
saio mais”. Então eu disse “bom, o senhor vai ficar comigo lá
em casa e vamos ver o que vai acontecer”. E ele ficou. E naquela descida
de dois andares já mudei a minha vida inteira".
Alice
Gonzaga tem pequenas participações e pontas como atriz,
mas o que ela gostava mesmo quando criança era a parte prática:
" Uma coisa que eu gostava muito de fazer era pintar cenário
com as brochas. Achava o máximo, pintar cenário era ótimo".
Mas com os olhos de hoje, reconhece interesses condizentes com atividade
atual e o papel fundamental do cinema na sua vida: "Hoje, olhando
à distância, eu vejo o meu interesse, eu gostava de abrir
as gavetas, de separar os artigos, as fotos. Tanto que a primeira palavra
que eu aprendi a ler foi “cinema”. Alice Gonzaga e sua equipe já
restauraram filmes importantes: "restaurados é muito diferente
de recuperados. Restauração é um trabalho grande.
Tem “O Ébrio”, o “Mulher” (1931 – Octavio Gabus Mendes), “Alô
Alô Carnaval” (1936 – Adhemar Gonzaga) e agora vai ser o “Bonequinha
de Seda”. Os outros são recuperados, que é uma mudança
só de material".
Outros
trabalhos importantes para o resgate da memória do cinema brasileiro
são os livros que Alice Gonzaga publicou: "50 anos de Ciinédia",
"Gonzaga por ele mesmo" e "Palácios e Poeiras -
100 anos de cinemas no Rio de Janeiro".
Alice
Gonzaga esteve na "CINEOP - 3ª Mostra de Cinema de Ouro Preto"
para participar do "3º Encontro Nacional de Arquivos de Imagens
em Movimento", com representantes das principais instituições
de preservação e restauração do cinema brasileiro.
Em conversa exclusiva com o Mulheres, Alice Gonzaga relembrou a infância
passada em plena efervescência da Cinédia, falou dos pais,
da convivência com figuras míticas como Carmen Santos e Carmen
Miranda, do trabalho da Cinédia e outros assuntos.
Mulheres:
Você atua no cinema em várias frentes: pesquisadora, produtora,
atriz, diretora. O cinema foi mesmo um caminho inevitável na sua
vida?
Alice Gonzaga: De repente foi, porque nunca passou pela
minha cabeça que um dia eu entraria para o cinema, que eu fizesse
esse trabalho todo de restauração. Isso até os 40
anos de idade, eu não sei o que passava na minha cabeça.
Até o dia em que o meu pai passou mal, eu fui para a clínica
em Sorocaba, e ele disse “não! Eu não estou doente, eu estou
com falta de circulação monetária, com dinheiro eu
saio bonzinho daqui. Internado também não fico, porque senão
não saio mais”. Então eu disse “bom, o senhor vai ficar
comigo lá em casa e vamos ver o que vai acontecer”. E ele ficou.
E naquela descida de dois andares já mudei a minha vida inteira.
Eu digo, “vou entrar na Cinédia, vou ajudar”, porque eu fiquei
pensando: o que vai acontecer se o meu pai morre hoje? Todo o arquivo,
todo o acervo, as coisas vão tudo por água abaixo. “Então
eu vou entrar, vou ajudar, se der certo deu, se não deu paciência”.
Aí, contra a minha família, contra todos, eu entrei, comecei
a ajudar, ver os endereços, ver como é que era e fiquei.
Mulheres: Voltando no tempo. Como foi a infância
e a adolescência vivendo nesse meio cinematográfico até
a resolução em ter essa participação efetiva?
Alice Gonzaga: Era uma coisa muito difícil porque
a minha família tinha pavor que eu fosse atriz. Minha mãe
era uma atriz (Didi Viana), embora o meu pai tenha cortado a carreira
dela no momento em que se juntou a ele, porque eles não se casaram,
minha mãe se juntou a um desquitado, o que nos anos 30 foi um auê.
Os pais dela tiveram que se mudar de cidade foram de Iapauçu para
Araçatuba porque foi um escândalo muito grande. Isso afetou
muito a família de meu pai, que era uma família muito atrasada,
muito fechada. Eles tinham medo que eu fosse atriz, ainda mais que eu
comecei a aparecer em pequeninas pontas, como em “Bonequinha de Seda”
(1936 – Oduvaldo Viana Filho). Eu fui teste para toda a aparelhagem que
chegava de Hollywood para a Cinédia, eu fui a primeira moça
a ser testada com Max Factor, eu era a garota dos testes. A família
ficou com medo. Com sete anos meu pai se separou da minha mãe,
eu fui interna no Colégio Sion de Petrópolis para me afastar
de tudo isso. Mas nas férias eu ia para a Cinédia, eu gostava
de ver os artistas, os movimentos, e sempre gostei de trabalhar no arquivo.
Hoje, olhando à distância, eu vejo o meu interesse, eu gostava
de abrir as gavetas, de separar os artigos, as fotos. Tanto que a primeira
palavra que eu aprendi a ler foi “cinema”. Porque com seis anos meu pai
botava o jornal no chão e eu cortava tudo que tinha escrito cinema
na coluna que ele me mostrava. Quer dizer, não conseguiram abafar,
eu não fui atriz, mas fiquei por trás das câmeras,
como o meu pai também, como a minha também ficou. Porque
no momento em que ela ficou com o meu pai, ela passou a ser figurante,
cozinheira, lia roteiros, ajudava também por trás. Mas só
que eu não sou cozinheira (risos).
Mulheres: E ela era uma atriz tão linda.
Alice Gonzaga: Recebia duas mil cartas por mês.
Ela era uma atriz popular, embora com poucos filmes, O “Lábios
Sem Beijos”, que foi completo, e “O Preço de Um Prazer” (1931 –
Adhemar Gonzaga), que não foi terminado. Mas a campanha da Cinearte
era uma campanha muito bem feita, sempre em favor da estrelas, e ela tinha
uma popularidade muito grande.
Mulheres: Foi para ela uma dificuldade muito grande se
afastar da carreira de atriz?
Alice Gonzaga: Não, eu acredito que não,
porque ela estava muito apaixonada pelo meu pai, pela causa do cinema
e tudo, não foi difícil para ela. Ela sentiu, mas também
não foi um drama muito grande.
Mulheres: E, de certa forma, ela continuou no meio cinematográfico,
dando um suporte.
Alice Gonzaga: Era o destino dela, porque quando meu
pai foi fazer um filme, que afinal não saiu, o “Morena”, ele botou
as fotos todas em cima da mesa e disse “eu vou escolher a atriz do meu
filme, é essa”, e era ela. Quer dizer, era o destino dela. Ela
tinha escrito cartas para todos os que faziam cinema na época,
para o Medina, e calhou que foi com o meu pai. Então era o destino
dela.
Mulheres: Hoje as pessoas não têm idéia
desses estúdios de cinema, porque não temos mais. Eu gostaria
que você falasse um pouco sobre isso, já que você participou
até fazendo testes com os equipamentos.
Alice Gonzaga: Mas eu era garota, não ligava muito
a isso não. Uma coisa que eu gostava muito de fazer era pintar
cenário com as brochas. Achava o máximo, pintar cenário
era ótimo. Agora, nestas andanças pelos estúdios
eu me lembro muito bem do Leo Merten, me lembro do Fenelon (Moacyr Fenelon),
de quase todos os diretores. Me lembro bem não só de atrizes
brasileiras como também artistas estrangeiros. A primeira vez em
que eu tomei uma coca-cola eu estava com o ator John Bowles e meu pai
num bar ao lado do Hotel Lux em Copacabana, eu nunca esqueço o
dia em que provei coca-cola. E tinha outros atores que meu pai saía
com eles à noite e me levava junto. Porque honra seja feita, nas
férias meu pai me dava a maior atenção com tudo.
Eu ia à peças de teatro, mesmo fora da minha idade. Podiam
ser peças proibidas até 14 anos, mas eu, com dez, ia. Eu
vi Alda Garrido, eu vi Rodolfo Mayer, eu vi Eva Todor. Eu fui à
boate, assisti Josephine Baker, todos esses atores que vinham eu assisti,
meu pai me levava. Ele tinha que ir e eu ia junto, e embora eu não
tivesse idade eu entrava porque era meu pai, ele era uma pessoa popular.
Eu tive uma vida assim diferente, os meus programas de férias de
escola eram muito diferentes das minhas colegas de colégio. Elas
faziam uns programas que eu dizia “ai meu Deus, eu não faço
esses programas”. Eu tinha vergonha de dizer, porque eu ia ao Jockei Clube,
essas peças de teatro, e elas não iam à nada disso.
Então eu me sentia, “pô, eu não faço esses
programas delas, por que eu não faço?” Eu me lembro de uma
filmagem que eu fui assistir num domingo, o filme “Mãe” (1948 –
Teófilo Barros Filho). Quer dizer, elas não faziam isso.
Eu tive uma vivência boa.
Mulheres: E quando foi que você teve a dimensão
da importância da Cinédia?
Alice Gonzaga: Foi no dia em que meu pai passou mal e
eu desci o elevador. Eu me lembro perfeitamente, estava com a minha filha,
Maria Eugênia. Ele dizia “eu não fico internado, eu não
fico internado, se eu ficar internado nunca mais eu saio daqui”. Ele estava
sem dinheiro de nada, porque ele nunca teve dinheiro na mão, nunca
teve nada. Meu pai se vestia com terno dos irmãos, nunca me lembro
dele comprar uma camisa nova, um terno novo, nunca comprou nada, todo
o dinheiro dele era do cinema.
Mulheres: Você conviveu com figuras míticas
do nosso cinema, por exemplo, a Carmen Santos.
Alice Gonzaga: Me lembro muito da Carmen Santos, me lembro
bastante. Carmen Miranda... Carmen Miranda freqüentava a minha casa,
minha mãe era amiga dela. O receio sempre da Carmen Miranda era
a Linda Batista, nas cartas que minha me escreveu depois, ela lembrando
essa coisas de colégio, a Carmen sempre perguntando as coisas.
Tem é história.
Mulheres: A Carmen Santos é mesmo a grande mulher
do cinema brasileiro, não é?
Alice Gonzaga: Pra mim a mulher mais importante do cinema brasileiro:
Carmen Santos! Ninguém a ultrapassa, porque ela não foi
só uma diretora, ela foi produtora, lutou pelos direitos dos cineastas,
ela enfrentou o Getúlio, dedo na cara do Getúlio. Ela foi
uma pessoa super importante, lutou pelos direitos do cinema, pelas leis,
eu acho ela importantíssima. Outra moça, Gilda de Abreu,
também é uma mulher importante pelos filmes que ela dirigiu,
pelo senso que ela tinha de direção.
Mulheres: E foram grandes sucessos (como “O Ébrio
– 1946).
Alice Gonzaga: Realmente, a Gilda hoje escrevendo novelas
ia dar de dez a zero numa Janete Clair, num autor de novelas, porque quando
você pensa que o filme vai acabar ela inventa outra. Em matéria
de fantasia não existe outra igual a Gilda.
Mulheres: O impressionante é que só temos
seis diretoras de longas até a década de 1960, sendo duas
italianas, a Maria Basaglia e a Carla Civelli. E aí temos a Carmen
Santos, a Gilda de Abreu, a Cléo de Verberena, que foi a primeira...
Alice Gonzaga: A Cléo de Verberena... Dizia-se
ao Gonzaga que não tinha sido ela que tinha dirigido, era o marido
que dirigira e apenas colocou o nome dela. Mas ela teve seu valor também,
aceitou dirigir, colocar seu nome em uma época que era difícil
uma mulher aparecer. Até quando eu entrei na Cinédia, que
foi em 1970, quando meu pai ficou doente, eu disse “bom meu pai, para
eu acertar o senhor tem que me colocar pelo menos como diretora, porque
eu vou no advogado, vou precisar assinar papel, e eu não posso
voltar aqui toda hora para o senhor assinar”. Meu marido teve que dar
uma licença em cartório para eu poder comercializar, quer
dizer, você vê como isso tudo era muito atrasado.
Mulheres: E as participações como atriz?
Alice Gonzaga: Não, eu não sei, não
passou pela minha cabeça ser atriz. Eram ocasiões. Meu pai
sempre gostou de botar a gente, como também as minhas filhas entraram
nos filmes. “No “Salário Mínimo” tem a Maria Eugênia,
a Bebel. Em um outro curta, o “Alimentação”, que ele dirigiu,
está a Maria Alice passeando em volta de um lago com rapaz. Quer
dizer, ele sempre gostou de colocar pessoas da família.
Mulheres: Você se lembra dos filmes em que fez
pontas e participações?
Alice Gonzaga: Em “Bonequinha de Seda” (1936 – Oduvaldo
Vianna), eu sou uma menina, eu estou com um ano. A minha mãe corre
para alcançar o elevador, o elevador vai embora, e eu choro, e
foi um choro verdadeiro porque eu não alcancei o elevador. Eu estou
no filme, a gente está restaurando o filme agora e vai ficar bem
legal.
Mulheres: Mais algum?
Alice Gonzaga: “Caídos do Céu” (1946 –
Luiz de Barros), eu me lembro de estar em um bonde. Às vezes ficava
atrás de cenário só para olhar a filmagem. No “Salário
Mínimo” (1970 – Adhemar Gonzaga) eu acabei fazendo uma produção
executiva com ele, ajudando. Enfim, a gente faz o que der e vier, né?
Mulheres: E a diretora?
Alice Gonzaga: Diretora? Olha, eu dirigi curtas, o “Memória
do Carnaval”. Eu só dirigi filmes dos outros, praticamente, porque
eu considero restauração de um filme como se fosse uma direção
também. Porque a gente tem que ler o roteiro todo para ver como
o filme foi feito, acompanhar todo aquele trabalho do filme, então
não deixa de ser uma direção também. Agora,
dirigir um longa não passa muito pela minha cabeça porque
a gente tem que ter a cabeça fria para fazer isso e eu não
tenho cabeça fria, tem mil coisas para fazer.
Hoje eu entendo perfeitamente porque meu pai não dirigiu outros
filmes. Porque ou ele tomava conta da Cinédia ou ele dirigia. A
Cinédia era uma empresa poderosa, tinha cinqüenta funcionários.
Ele tinha que arranjar dinheiro para fazer os filmes, porque não
tinha as vantagens que têm hoje, patrocínios, ou ele dirigia.
Ele começou a dirigir “Caídos do Céu”, mas aí
ele olhava e dizia “como diretor eu quero fazer isso, mas não,
como produtor eu não posso, não tem dinheiro, não
vai dar certo”. Então ele brigava muito a luta do diretor com o
produtor: “Não vai dar para eu dirigir, não dá, a
produção não fica pronta, eu vou lá para a
produção”; “Não, não tem dinheiro”. Quer dizer,
era muito complicado.
Mulheres: Ficava dividido.
Alice Gonzaga: dividido.
Mulheres: E a sua experiência de dirigir? Foi boa?
Alice Gonzaga: Eu acho ótimo, embora meu pai sempre
dizia: “não adianta perder tempo dirigindo curta-metragem, curta-metragem
não faz indústria, está perdendo tempo, tem que dirigir
é um longa”. E aí diziam “Mas seu Gonzaga, no curta a gente
está aprendendo”. E ele: “Não está aprendendo nada!
Tem é que dirigir logo um longa, tem é que varrer estúdio,
como fez o Manga (Carlos Manga), entrar e olhar como é que estão
fazendo. Não é dirigindo curta não”.
Mulheres: E os livros?
Alice Gonzaga: Eu queria fazer um currículo da
Cinédia, mas o currículo da Cinédia é um livro.
Aí eu comecei a juntar as coisas mais interessantes de cada filme,
o que tinha sido usado de inédito de cada filme para fazer o livro.
Do meu pai eram os escritos que eu achei dele, todos. Eu fiz uma cópia
do que ele tinha escrito e mais ou menos dividi por assuntos. Mas eu acho
que ele merece um livro ainda.
Mulheres: E tem também o livro sobre as salas
do Rio de Janeiro.
Alice Gonzaga: o “Palácio e Poeiras”, que é
o livro dos cinemas e que também era um desejo do meu pai. No escritório
onde ele se sentava tinha uma gaveta atrás e quando, no final de
vida del,e nós começamos a arrumar as coisas. Eu dizia “meu
pai vamos dar uma arrumada porque eu preciso saber o que é que
tem, o que nós vamos fazer aqui, o tempo é pouco, o senhor
está com pouco tempo”. E ele “ah, eu sempre quis fazer um livro
sobre o gerente do cinema, sobre as salas de exibição”.
Eu digo: “e essas fotografias?”. E ele “ah, essas fotografias são
de vida, eu e o Alvaro Rocha no final de semana, a gente ia fotografar
as fachadas de cinema. Um dia eu vou fazer um livro”. Esse um dia, eu
pensava cá com os meus botões, não vai chegar nunca.
E acabou a gente fazendo, um pouco diferente do que ele queria. Ele queria
colocar os gerentes, os personagens, como tinha sido a exibição
na época, mas isso não aconteceu. Mas o livro ficou ótimo,
é um livro esgotado e documentou bem o cinema. Hoje, se quisermos
consultar alguns documentos ali, esses documentos já não
existem mais.
Mulheres: E a restauração?
Alice Gonzaga: A restauração é uma
longa história. É muito trabalho porque é muita coisa
que não acaba nunca. Os filmes hoje têm uma durabilidade
pequena, eles duram dez, quinze anos. Então você está
sempre restaurando, tem sempre que fazer cópias novas, eu acho
que isso não acaba. Quando a gente está acabando, entra
um acervo novo, entrou o do Moacyr Fenelon, então a gente agora
está se dirigindo a ele. Mas eu tenho uma “Ong”, um instituto da
preservação da memória do cinema brasileiro, porque
justamente a Cinédia, como empresa jurídica, não
pode receber doações, não pode fazer nada diretamente.
O Instituto pode, só que eu também nunca recebi doações.
O que a gente faz é com o esforço da gente mesmo.
Mulheres: Quantos filmes já foram restaurados?
Alice Gonzaga: Ah, uma porção, muitos.
Agora restaurados é muito diferente de recuperados. Restauração
é um trabalho grande. Tem “O Ébrio”, o “Mulher” (1931 –
Octavio Gabus Mendes), “Alô Alô Carnaval” (1936 – Adhemar
Gonzaga) e agora vai ser o “Bonequinha de Seda”. Os outros são
recuperados, que é uma mudança só de material, você
faz cópias novas, um contratipo novo, mas não mexe muito
no filme. Aliás, estou mexendo agora também no “Berlim na
Batucada” (1944 – Luiz de Barros), pelo menos a gente está completando
o filme. Montar o filme como ele era, pegar várias cópias
e fazer uma remontagem do filme.
Mulheres: Sua idéia é recuperar esses filmes
todos?
Alice Gonzaga: Quando eu comecei em 70, não foi
com a idéia de restaurar, de preservar os filmes não. Minha
idéia era que eu queria assistir aos filmes, eu era louca para
assistir, “então vamos fazer uma cópia para a gente poder
assistir esse filme?” E daí foi salvando os filmes, eu gostei e
disse “vamos salvar” Pediam trechos dos filmes e eu tinha trecho para
poder vender, porque vender trechos de filmes da Cinédia, autorizar
de repente o uso, hoje é uma fonte de renda. E tem três verbos
que hoje no meu vocabulário não conjugo mais: ceder, doar,
emprestar. Não existem esses verbos. Eu acho que isso é
um trabalho que se faz e o cinema brasileiro tem que se profissionalizar
nesse sentido, fazer os projetos e colocar nos projetos as verbas que
merecem os filmes e as fotos que eles querem usar. Não é
pedir de graça, que é o que acontece diariamente: “Autoriza
o uso da foto? Ah, não custa nada não”. Custa sim! Porque
você tem o trabalho de manter o arquivo da pessoa, de comprar estante,
comprar papel, pasta. O meu trabalho de ficar lá sábado
e domingo de noite, porque eu não vou a um cinema, a um teatro,
eu não vou a nada, fora de festival eu não vou a lugar nenhum,
eu estou o tempo todo dentro de arquivo. É assim “você achou
tão rápido o que eu queria”. Achou rápido porque
eu estava arrumando e organizei a pasta, então você achou
rápido porque é um trabalho que vem de 70 anos, não
é de agora, de apanhar um papel e te dar.
Mulheres: Você gosta da produção
atual do cinema brasileiro?
Alice Gonzaga: Eu quase não assisto filmes. Eu
gosto muito é de filmes ricos, bonitos, luxuosos (risos). Não
é muito o que eu gosto.
Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que
você assistiu?
Alice Gonzaga: Difícil eheim! Não sei te
dizer (risos). Não lembro, não sei te dizer não.
Não sei.
Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para
homenagearem uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época
e de qualquer área.
Alice Gonzaga: Sempre a Carmen Santos, sempre a Carmen
Santos. Eu acho ela o máximo. Era uma pessoa também difícil,
do outro lado era também uma pessoa cheia de problemas, mas era
o máximo. Eu acho a Carmen Santos o máximo.
Mulheres: Obrigado pela entrevista.
Entrevista
realizada em junho de 2008,
na "CINEOP - 3ª Mostra
de Cinema de Ouro Preto".
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