Mulheres do Cinema Brasileiro - Ano 3
Um mapeamento das mulheres que fizeram
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Os vencedores e algumas considerações sobre
“11ª Mostra de Cinema de Tiradentes”

Djin Sganzerla em cena de "Meu Nome é Dindi",
de Bruno Safadi
Foto: Divulgação


Os júris da “11ª Mostra de Cinema de Tiradentes” apostaram em filmes com nítidas propostas estéticas para premiação do Aurora – mostra que apresenta filmes de diretores estreantes em longas. O Júri Jovem premiou “Sábado à Noite”, de Ivo Lopes Araújo, e “Ainda Orangotangos”, de Gustavo Spolidoro. Já o Júri da Crítica concedeu o Aurora aos filmes “Meu Nome é Dindi”, de Bruno Safadi, e “O Grão”, de Petrus Cariry.

Dos sete concorrentes, apenas três ficaram de fora de premiação do Júri da Crítica e do Júri Jovem: “O Crítico”, de Kleber Mendonça Filho; “Amigos de Risco”, de Daniel Bandeira; e “Corpo”, de Rosanna Foglia e Rubens Rewald.

“Sábado à Noite”, Aurora de Melhor Filme pelo Júri Jovem, foi o filme mais desconcertante da Mostra. Muitos odiaram o documentário por causa dos seus planos longos e a ausência de elementos clássicos do gênero, como personagens, entrevistas e tema definido. Um dos maiores atrativos para esse editor do Mulheres foi o uso inteligente do som nesse filme de difícil fruição, mas que me causou interesse imediato. Ivo Lopes Araújo, que também é diretor de fotografia – inclusive de “O Grão” - fez um filme difícil tanto para o cinema, quanto para a televisão – o longa originou-se do projeto DOCTV, mas apresenta vigor do novo cinema cearense, até então pouco conhecido.

“Ainda Orangotangos”, prêmio Aurora de Destaque Livre do Júri Jovem, de Gustavo Spolidoro, é uma adaptação livre do livro homônimo de Paulo Scott. O jovem cineasta criou em cima dos contos do livro e apresenta personagens que compõem uma verdadeira fauna urbana, com forte acento gaúcho – terra do escritor e do diretor. O grande charme do filme está em algumas histórias – sobretudo a da mulher atormentada em um apartamento vazio e a passada em uma kitsh festa de aniversário de 15 anos - e na particularidade técnica: o filme foi feito todo em um único plano-sequência. Alguns críticos torceram o nariz para “Ainda Orangotangos”, acusando-o de virtuosismo artificial. O público, no entanto, adorou – foi o filme mais aplaudido nas sessões do Cine-Tenda – sala de cinema construída pela organização (outras exibições aconteceram no Cine-Praça – ao ar livre).

“Meu Mundo é Dindi”, de Bruno Safadi, prêmio Aurora de Melhor Filme pelo Júri da Crítica, que revelou um diretor jovem e com vigor, escora-se principalmente no talento exuberante da atriz Djin Sganzerla. Filha do cineasta Rogério Sganzerla e da atriz e cineasta Helena Ignez – dois exemplos da melhor vanguarda no cinema brasileiro – Djin dá continuidade, mas com assinatura própria, ao talento do clã. Sua composição para a personagem principal é moderna e diferente do muito que se vê em interpretações recentes no cinema nacional. “Meu Mundo é Dindi” tem imagens lindas, planos-sequência bem construídos e climas distintos durante a trama – os instantes de paranóia da personagem é um dos momentos mais memoráveis do filme. O grande problema de “Meu Mundo é Dindi” é a presença do ator Gustavo Falcão, que não consegue acompanhar as mudanças de gênero propostas e acaba por apresentar uma performance que, além ser canastra na caricatura pretendida – pelo menos parece ser a proposição da direção - ainda me retirou do filme por várias vezes em que disputava com Djin o espaço cênico. Sua atuação desastrosa só perde para Bruno Garcia, inacreditável em “Cleópatra”, de Júlio Bressane – vale ressaltar que gosto de Falcão em “A Máquina”.

“Grão”, de Petrus Cariry, prêmio Aurora de Destaque Livre pelo Júri da Crítica, foi outro filme que, para mim, apresentou o mesmo problema de “Meu Mundo é Dindi”. O filme é muito bonito, tem trama interessante, planos rigorosos com enquadramentos belamente construídos e personagens áridos soberbamente interpretados por atores desconhecidos. O problema em “O Grão” é a contação de histórias, recurso que dificilmente dá certo no cinema – lembro-me, agora, só de “Ele, O Boto”, de Walter Lima Jr, como exemplo positivo. Todas as vezes que a contação de história surgia em “O Grão” – e isso acontece de forma intercalada durante todo o filme - eu me retirava por completo do assistido, como se deu com o efeito Gustavo Falcão em “Meu Mundo é Dindi”.

Dos outros filmes não premiados da Mostra Aurora, vale destacar “Amigos de Risco”, de Daniel Bandeira. Otimamente dirigido e interpretado, o filme provoca a sensação de desconforto no espectador, pelo menos foi assim com esse editor, diante à estética suja e à trama sufocante dos três amigos durante longa noite nas ruas do Recife. “Corpo”, de Rosanna Foglia e Rubens Rewald, é um filme que, em sua conclusão, o joga para o alto – e isso é um elogio; e “Crítico”, de Kleber Mendonça Filho, que apresenta bons momentos em algumas declarações dos entrevistados.

O Prêmio do Júri Popular, que abarca todos os filmes exibidos, foi para “O Senhor do Castelo”, de Marcus Vilar, sobre o universo do escritor Ariano Suassuna. Como o filme foi exibido no Cine-Praça, O Mulheres não assistiu a projeção, já que a cobertura se concentrou nos filmes exibidos no Cine-Tenda – era impossível cobrir os dois espaços devido aos horários conflitantes (o Cine-Tenda foi o escolhido por apresentar o maior número de filmes da Mostra).

A “11ª Mostra de Cinema de Tiradentes”, que teve como tema a “Juventude em Trânsito”, apresentou ótima programação – uma das melhores de todas as edições. Além dos filmes citados, os outros longas assistidos foram:

Os preferidos:

- “Meu Mundo em Perigo”, de José Eduardo Belmonte;
- “Deserto Feliz”, de Paulo Caldas;
- “Falsa Loura”, de Carlos Reichenbach;
- “Nome Próprio”, de Murilo Salles;
- “Onde Andará Dulce Veiga?”, de Guilherme de Almeida Prado;
- “Otávio e as Letras”, de Marcelo Masagão;
- “Estômago”, de Marcos Jorge.

Os outros:

- “Cléopatra”, de Júlio Bressane;
- “Alucinados”, de Roberto Santucci;
- “Pequenas Histórias”, de Helvécio Ratton.

Além dos filmes e da ótima atração “Encontro com a Crítica, o Diretor e o Público” – que proporcionou interessantes debates, o grande destaque da “11ª Mostra de Cinema de Tiradentes” foi assistir na tela uma renovação de elenco com jovens atores de alto quilate e vigor criativo: Eucir de Souza, Hermila Guedes. Cláudio Gabriel, Nash Laila, Leandra Leal, Arieta Corrêa, Rodrigo Riszla, Maira Chasseroux, Rejane Arruda, Juliano Cazarré – além dos homenageados, Rosanne Mullholand e João Miguel.

O Mulheres do Cinema Brasileiro fez um total de 25 (vinte e cinco) registros, entre entrevistas e depoimentos, com os convidados da “11ª Mostra de Cinema de Tiradentes”, que poderão ser conferidos em atualizações no site.

O site Mulheres do Cinema Brasileiro viajou a Tiradentes a convite da organização da “11ª Mostra de Cinema de Tiradentes”.


Cobertura "11ª Mostra de Cinema de Tiradentes" - 1ª Parte

Cobertura "11ª Mostra de Cinema de Tiradentes" - 2ª Parte

Cobertura "11ª Mostra de Cinema de Tiradentes" - 3ª Parte

Cobertura "11ª Mostra de Cinema de Tiradentes" - 4ª Parte

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